“A arte brota espontaneamente em qualquer lugar”

Por Gabriel Bernardo e Manoela Telles

O artista Eduardo Marinho com uma de suas obras ao fundo, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Marcamos nossa entrevista no Largo dos Guimarães, bairro de Santa Teresa (RJ), no local onde Eduardo Marinho expõe os seus quadros. De família de classe média, ele conta que entre a infância e a adolescência não entendia os valores morais que eram impostos pela sociedade na época; meados do governo militar de 1964. Trabalhou no Banco do Brasil durante a adolescência, tentou ser militar e até mesmo cursar faculdade de Direito, mas a vocação pelas artes plásticas falou mais alto quando quis experimentar a sensação de não ter nada, como as pessoas mais pobres.
Viajou pelo Brasil durante anos, a pé, de carona. No começo dormiu ao relento, em construções, casas abandonadas, sob marquises, em postos na beira das estradas, nas periferias, enquanto aprendia noções de vários tipos de artesanato, que terminou de desenvolver quando começou a ter filhos e precisou bancar a vida. Hoje, aos 50 anos, Eduardo tem inúmeros trabalhos de críticos da ação da sociedade e do desenvolvimento do ser humano, em sua estrutura e a imposição de uma vida medíocre, além de escrever em seu blog Observar e Absorver : http://observareabsorver.blogspot.com
Como você começou?
Quando saí do exército, comecei a observar as diferenças sociais. Questionava o porquê de tanta pobreza, miséria e ignorância, de um lado, e tanta fartura, opulência e facilidades, de outro. Daí até resolver a fazer a experiência de não ter nada, foram dois anos. A família não assimilou bem e eu fui “banido”, enquanto mantivesse a atitude de “desprezar tudo que eles me deram” – foi como interpretaram. Noções de artesanato eu fui adquirindo ao longo do tempo – enquanto isso, tinha que me virar pra comer de graça, pois não tinha dinheiro, e fazia pequenos trabalhos ou simplesmente pedia pela comida. Quando comecei a ter filhos, já fazia várias técnicas e me especializei no metal, com o que trabalhei de muitas formas até a adolescência deles. Só aí comecei a desenhar no papel e pintar telas, já morando no Rio, em Santa Teresa.
Quando você saiu do Rio de Janeiro?
Eu não saí do Rio. O último lugar que eu morei com os meus pais foi em Vitória, no Espírito Santo. Quando eu entrei para o Exército, eu tinha a ideia de seguir carreira militar. Entrei para a Escola Preparatória de Cadetes, em Campinas, mas no segundo ano pedi desligamento. Depois disso, eu morei com eles por dois anos e eles cortaram relações comigo. Eu produzi nos meus pais uma sequência de mãos para o céu, de alívio, e mãos na cabeça, de desespero (risos).
"Para mim a arte é um veiculo, enquanto para muitos é uma forma de auto afirmação", afirma Eduardo. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Porque você tomou essa decisão de cair na estrada?
Eu tomei essa decisão porque queria encontrar um sentido na vida, coisa que ela parecia não ter no caminho que eu estava no exército. Tive que apontar um fuzil em uma manifestação de pessoas desarmadas. Com bala real a com vontade de atirar. Eu tinha acabado pegar um acampamento com campo de concentração, tortura.
Em qual idade você percebeu que tinha algo inadequado?
Desde sempre. Quando eu questionava algo e via a reação contrária, eu me calava. Lembro-me que uma vez a minha mãe foi pagar uma promessa, que era subir uma favela para ela distribuir pão e pela primeira vez eu vi situação de vida das pessoas que moravam lá. Quando perguntei para minha mãe sobre aquela situação, as respostas que ouvia eram que era assim mesmo, que Deus era quem mandava. Ai eu pensava, que filha da puta esse Deus.
Eu estudei em colégio de Freira dos 6 aos 8 anos de idade. Um dos castigos que me marcou muito foi quando eu estudei no colégio dos Capuchinhos, na Tijuca: foi quando eu perguntei o que Deus fazia com o pinto dele e ninguém respondeu, e só me puseram de castigo. Eu quando criança perguntava as coisas por curiosidade, não era maldade.
Apesar de tudo isso eu sempre fui considerado um menino dócil. Lembro-me que com 15 anos eu fui trabalhar no Banco do Brasil, peguei todo o meu salário e comprei um skate e uma bicicleta, logo depois pedi demissão. Com isso meus pais começaram a ficar preocupados comigo, e eu entrei na deles e pensava: tenho que fazer alguma coisa na vida! O que eu vou seguir? E eu não tinha menor atração por nada, isso me angustiava.  Foi ai que eu pensei em ser militar, como uma salvação, porque eu conhecia o meio militar, vivia nele, e ser militar me parecia muito fácil.
Quando você começou a se expressar através dos seus quadros?
Depois que eu comecei a entender o que acontecia. Por que rico se sente superior e pobre, inferior? Queria conviver com os dois em pé de igualdade, só que, enquanto morei com meus pais, ricos me tratavam igual e os pobres não. Durante anos, por mais que eu tivesse fodido, carregando mochila, andando de carona, ainda se mantinha uma diferença. Acho que era o vocabulário ou então o fato de todos os meus dentes estarem na boca.
Invasão de Favelas, de Eduardo Marinho. Pintura acrilica feita em pano.

Você disse que na época em que você optou por fazer um curso superior, por pressão dos seus pais, você tinha dado a sua atenção para Belas Artes ou Direito.  Ao ver esse seu relato, você nunca pensou em ser um advogado das causas sociais, já que seu trabalho é tão bem visto pelos ativistas dos movimentos sociais?
Não. Tenho um problema corporal que eu adoeço se tiver fazendo o que não gosto.  No meu caso, (questionar a sociedade, seus valores e padrões de comportamento) a vocação cultural tornou-se a razão para existência. Eu quando estava na faculdade de Direito, não via razões para continuar existindo. Nesta época tinha vários sonhos que iriam morrer. E acordava decepcionado – isso me dizia que precisava tomar alguma atitude, até pra dar valor à vida. Fiquei um ano e pouco na faculdade. Lá encontrei um monte de marxistas, filhinhos de mamãe, que morriam de medo de polícia. São pessoas que querem libertar as massas, mas não têm coragem de entrar em uma favela.
Eu fiz a experiência de experimentar o que é não ter nada. No meu meio social da minha família as pessoas que têm algo vivem aterrorizadas, e quando fui conviver com pessoas que não tinham nada, as pessoas eram alegres, claro que com suas dificuldades, mas todos estavam bem. Muitos dizem que no dia que o morro descer para o asfalto será o caos, eu acho que é o contrário: no dia que o morro não descer, ai sim será o caos. É só você olhar para a cidade e me dizer o que foi feito sem a mão do pobre.Você precisa ver os olhos das pessoas quando eu vou a favela e digo que a sociedade depende dos mais pobres. Estes são os mais desprezados da sociedade, embora sejam os mais imprescindíveis.
“Ninguém nasce Bandido" - "Nesse quadro você vê primeiro o ser humano, depois a situação a qual ele se encontra. Tudo isso é função. Questionar valores morais”, relata Eduardo.

Em sua arte existem metáforas que abordam sobre o papel da mídia na sociedade e a reflexão da sociedade. Para você, qual a importância da mídia?
Reflexão da sociedade para mim é muito importante. Eu acho que a mídia é um ponto nevrálgico importantíssimo que está sob o poder empresarial. Logo, funciona em nome do lucro e da propriedade, enganando, condicionando e narcotizando a maioria da população. É preciso olhar com muita atenção isso porque a mídia trabalha de forma criminosa, patenteada como criminosa.  A política, por exemplo, está subalternizada totalmente ao mercado financeiro. É a guerra das empresas contra os pobres. Vou combater político por quê? Vou brigar com a marionete? O poder que rege a sociedade não é o político, embora esse teatrinho midiático faça parecer que sim – o poder que manda, mesmo, é o econômico. Por que é propagado que o mundo é uma competição? Quem disse isso?  A mídia  convence isso. É a produção de sofrimento no atacado,  sempre em benefício da tal minoriazinha.
A mídia é o adestrador que focaliza no político. Você olha para universitários, e o que eles falam: “governador Cabral, a culpa é sua… A educação é descaso dos políticos”. Os políticos não têm descaso com educação não, eles fazem o que é programado com os financiadores de campanha, de forma planejada. Sabotar a educação é uma estratégia deliberada, porque interessa ao poder que a população seja ignorante, é obvio.
A estrutura política do nosso país é midiática, falsa, na qual o político é apresentado como produto. Eu simplesmente  me recuso a votar. O Estado não tem o direito de me tirar de casa  neste dia deprimente. O político faz a política convencional. Alguns têm até propostas boas, mas eles sabem cuidar do seu “nicho” eleitoral, fazer a figura de representante daquelas propostas que lhe garantem votos. E, mesmo sabendo quais são impossíveis e o que as impede de serem realizadas, mantém a pose de luta e não denuncia os poderes vigentes que impedem a realização das suas propostas.
E a sua arte como conscientizadora?
É o único meio de que vale a pena estar vivendo. Eu faço muita coisa. Se você chegar para mim e me pedir uma coisa que eu nunca fiz, eu vou a aprender a fazer. Já fiz escultura, adesivo, agora estou acabando de fazer uma história em quadrinho lá no Espírito Santo. A arte brota espontaneamente em qualquer lugar. Um fato curioso é que as pessoas recomendam o meu blog Observar e Absorver http://observareabsorver.blogspot.com ao Programa do Jô. E a produção do programa me manda um e-mail padrão. Sempre recebo assim: recebemos a sua mensagem agradecemos sua atenção, estamos aguardando a posição. Ai eu respondi: Não pedi nada para vocês.  Acredito que seja um menino ingênuo ainda, que falou assim: Não acredito que você não quer mostrar a sua arte para o Jô Soares.  Ai eu respondo: não mandei nenhuma mensagem para vocês. Não é que eu não queira mostrar. Vocês já viram esse blog? Mostra o blog para a sua produção que você vai ver que ela não vai querer. Se me chamarem eu não vou, só iria se fosse ao vivo.
Pior que a opressão é a submissão, de Eduardo marinho.

O que você costumar ler?
Leio o que eu posso sempre na função de me instruir, objetiva ou subjetivamente. Como não tenho tempo, sou leitor de banheiro e de ônibus. Eu resolvi fazer uma galeria de personagens.
Qual a sua próxima arte?
Agora vou fazer um retrato do Milton Santos, será a próxima vitima (risos). Uma coisa que me chamou atenção nele é que ele disse que na sua época era muito difícil de a pessoa se informar, devido à falta de acesso. Eu penso que a mídia cria necessidades artificiais, que é criar desejo de consumo e, na classe mais baixa, é uma covardia sem nome. São desejos muitos deles inviáveis, que paira um sentimento de inferioridade social.
E as suas fontes de informação?
Eu não assisto televisão,  mídia privada me faz mal. Uso a internet, recebo os boletins da mídia alternativa, Cubabebate, Telesur, Carta Maior, Brasil de Fato, Congresso em Foco, recebo vários destes boletins. Nessa última eleição vi algo que nunca tinha visto. O racha das elites. Os que odeiam pobre e os que gostam do pobre. Os que odeiam e desprezam os pobres e os que são benevolentes com os pobres. 
Tem algum outro artista que você se identifica?
Um trabalho que eu gosto muito é o do Latuff (chargista). Mas não o conheço, além de tê-lo visto em alguns eventos, e nem tenho contato com ele.
Ainda existe arte engajada?
Sempre existiu, mas é preciso garimpar. Para mim a arte nada mais é do que um diálogo com o abstrato do ser.

4 comentários sobre ““A arte brota espontaneamente em qualquer lugar””

  1. Pingback: “A arte brota espontaneamente em qualquer lugar” | A Identidade Bentes

  2. Há muitos anos encontrei com o Eduardo num evento na UERJ. Na ocasião, ele estava expondo e vendendo camisas. Nestas, haviam desenhos e frases do Eduardo. Muito bom lhe reencontrar por aqui e saber que você tem um blog!
    um abraço,

  3. Muito bacana essa entrevista!! Também estive com o Eduardo Marinho na UERJ há pouco tempo e comprei um caderno com poesias e contos; entrei no seu blog e me amarrei, juntamente com minha namorada.
    Grande abraço a todos!!

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