A força reparadora da memória histórica: revisitando o legado de sábias invisibilizadas, durante séculos

Ainda que hoje menos do que ontem, segue intrigante a desproporção entre o número de autores e o número de autoras. Por que resta tão abissal a distância entre, o número de sábios, de cientistas, de escritores, de um lado, e, de outro lado, o de homólogos do pólo feminino das relações sociais de gênero, na Idade Média e para além desta? O que têm revelado pesquisas histórico-literárias recentes e menos recentes, das quais vêm irrompendo impactantes achados, dando conta de densa produção cultural de sábias medievais, cujos nomes foram, durante longo tempo, usurpados, omitidos, relegados, invisibilizados, em benefício de pretensa autoria masculina? A que isto se deveu (ou se deve)? Que condições sócio-históricas teriam permitido a invisibilização dessas mulheres? Perguntas que tais orientam a presente incursão reflexiva.

A avidez e a obsessão desenfreadas pelo poder foram e seguem sendo – em especial, dentro de certos contextos histórico-societais – fatores determinantes ou fortemente condicionantes de monstruasas tragédias, perpetradas por algozes coletivos ou individuais, tendo estes como principal marca comum a de serem (quase sempre) do pólo masculino das relações sociais de gênero. Com efeito, movidos pela avidez e pela obsessão pelo poder, pela riqueza, pela fama, pelo prestígio…, homens têm protagonizado tragédias horrendas contra povos inteiros, povos tradicionais, das florestas, das águas, dos desertos. Diz muito, a este propósito, por exemplo, o processo de colonização implementado, durante séculos, na América, na África e outros continentes. Contra esses povos, com efeito, não se hesitou a recorrer à invasão, à opressão, à exploração, à marginalização, aos massacres em massa, à dominação, à expropriação, à exploração, à marginalização de aborígenes, de negros, de homoafetivos, de camponeses, de operários, de migrantes, de refugiados, a maioria dos quais composta por mulheres… Estas constituem o alvo das presentes notas, ou mais precisamente, um segmento delas, isto é: algumas que, no período medieval, se destacaram pela sua extraordinária capacidade de produção intelectual, aqui tratadas como escritoras, cientistas ou sábias. Mulheres cujos obras foram indevidamente atribuídas a homens, enquanto outras tiveram seus nomes longamente omitidos, postos à margem, tendo sido perseguidas, assassinadas, condenadas à fogueira da Inquisição, tortuadas, silenciadas, de diferentes modos.

Por quê tanta perversão, e por tão longo tempo? Por quê responsabilizar as vítimas por crimes alheios? Os algozes, ontem como hoje, tentam “se dar bem”, em suas macabras empreitadas. O “álibi” de ontem foram as “bruxarias”, a suposta natureza pecaminosa da mulher. Hoje, sucessivos e frequentes feminicídios e estupros são debitados à responsabilidade das próprias vítimas, por seu comportamento “provocativo”…

Por mais astuto que se pretenda no exercício da “arte” de se esconder, o gato acaba deixando a pontinha do rabo de fora do próprio esconderijo.. Com os humanos não é diferente: “Nada oculto que não venha a ser revelado”, diz uma passagem evangélica (cf. Mc 4,22; Lc 8,17). Não obstante, quantas não são as vezes em que prevalece a sedução da mentira, da omissão ou das vulpinas meias verdades, ao longo da história da humanidade? Neste momento, aliás, a sociedade brasileira se vê mergulhada num mar de grandes e graves escândalos de pilhagem das riquezas públicas, todos alimentados pela sedução de “belas” mentiras, omissões ou meias verdades, na ilusória “certeza” de que nada seria descoberto… Desafortunadamente, fatos similares se repetem em tantas esferas de nossa vida, ao longo da história. Aqui, destacamos o caso do qual resultaram – e continuam sendo – vítimas os segmentos mais vulneráveis de nossa sociedade, entre os quais se incluem as mulheres, sob vários aspectos – econômico, político, cultural. Detemo-nos, nessas linhas, mais especificamente ao caso da deliberada invisibilização do legado de tantas mulheres sábias, ao longo da história. Por meio de estratégias tenebrosas – todas atinentes à questão do poder androcêntrico. A onda de misoginia fez e segue fazendo, sob várias formas, uma sucessão escandalosa de vítimas, vale dizer, de mulheres de ontem e de hoje, sob os mais revoltantes disfarces, e, por vezes, até às escâncaras…

As linhas que seguem concentra-se apenas em um caso específico: o de algumas mulheres com extraordinário potencial criativo em seu legado, cujos nomes passam a ser indevidamente apropriados por figuras masculinas.

Escolhemos as trilhas da memória histórica como meio de reparação (parcial) dessas injustiças. Muito se tem dito, muito se tem escrito sobre a importância do passado como fonte de inspiração para as lutas libertárias dos “de baixo”. Até que, ouvindo esses relatos, aqui e ali, nos animamos. Passado, porém, aquele momento de euforia proporcionado pelo “ouvir dizer”, tais relatos tendem, não raro, ao longo arquivamento, como algo apenas “interessante”, sem maiores consequências. Transformam-se em meras páginas saudosas, e por aí ficam. Tal forma de (re)visitação do passado acaba virando saudosismo, isto é, provocam momentos agradáveis, mas nada mais além disto. Não é, com efeito, desta forma de (re)visitação que cuidamos de registrar essas notas.

Nas notas que seguem, cuidamos de 1) situar aspectos mais expressivos do período correspondente; 2) ressaltar traços biobibliográficos dessas escritoras; e 3) assinalar o heróico esforço de pesquisadoras e pesquisadores que, recorrendo à força reparadora da memória histórica, vêm-se dando ao trabalho de passar a limpo essas horrendas histórias, ainda que parcialmente…

1) Situando traços histórico-culturais do período revisitado

As Mulheres aqui focadas viveram entre o século XI e o século XV.. Como se percebe, um período de cerca de quatroecentos anos não dá para caracterizar, de modo razoável, em algumas linhas. Tratamos apenas de pincelar aspectos muitos gerais deste período, e em função apenas das figuras revisitadas. Recorrendo a medievalistas deste período, tal é o impacto positivo do balanço, que contrasta enormemente com o que se costuma atribuir pejorativamente à Idade Média, numa apreciação reducionista e injusta, feita a partir de certas correntes modernas. Impacta-nos por exemplo, o clima de liberdade propiciado pelo desenvolvimento das cidades, das comunas, onde vão se estabelecer e prosperar os artesãos, com toda a sua criatividade. Aí se forja uma ambiência onde se respira liberdade, isto é, uma relativa autonomia em relação à nobreza, à medida que as artes e os ofícios passam a permitir que os artesãos vivam dos artigos e produtos do seu trabalho, e vão conquistando espaços de liberdade. À medida que as atividades comerciais e industriais vão progredindo em cidades européias estratégicas, a exemplo de Veneza, Florença e outras na Inglaterra, na França, na Alemanha, nos Países Baixos, etc., ganha corpo o comércio com outras regiões do mundo, no Oriente Médio ou na chamada Ásia Menor, com Bizâncio, com países árabes, Índia…, onde os famosos mercadores e as célebres companhias comerciais desevolvem intensas atividades, permitindo aos próprios artesãos ampliarem o raio de comercialização de seus produtos.

Favorecido pelo movimento econômico, surge e prospera um fecundo cenário cultural, inclusive a partir de crescente ciruculação de pessoas de diferentes regiões do mundo então conhecido. Cenário, por conseguinte, amplamente propício também para o desenvolvimento das letras e das artes, numa época em que as letras eram apanágio de poucos, entre os quais os monges. Estes despontam, então, como as grandes referências das letras.

Eis formada uma ambiência inspiradora para o êxito de grandes talentos, que, num “crescendum”, foram sendo revelados. Sucede que, num contexto de quase monopólio androcêntrico, eram mínimas as oportunidades favoráveis ao desabrochar dos talentos femininos. Pior do que isso: as poucas mulheres que conseguiram romper esse muro androcêntrico, ainda tiveram que enfrentar um obstáculo suplementar: as reiteradas práticas de expropriação de sua autoria. Suas obras eram, com frequência, usurpada, vulpinamente atribuidas, a nomes masculinos… Daí para a sua quase completa invibilização, foi um passo e sobretudo duradouro…

2. Breve notícia biobibliográfica das autoras revisitadas

Como já dito, resulta impressionante o número de mulheres com notável contribuição à humanidade, em distintos campos de saberes – literatura, medicina, música, pintura, teologia, espiritualidade, etc., que, durante séculos, tiveram usurpadas suas respectivas autorias, em indevida atribuição a nomes masculinos. Não arriscamos sequer mencionar-lhes os nomes, até porque provavelmente outros tantos nomes serão revelados, graças ao incansável trabalho de investigação tocados por vários grupos de pesquisa. Aqui nos permitimos citar apenas algumas dessas mulheres, dentre as que viveram entre os séculos XI e XV, em diferentes países e cidades: Trótula de Ruggiero (Salerno, Itália, séc. XI), Hildegard von Bingen (Bremersheim, Alemanha, séc. XII), Hadewich de Antuérpia (Antuérpia, Bélgica, séc. XII), Hadewich II, Beatriz de Nazareth, Michtildes de Magdebouorg, Marie Oignies, Juliana de Norwich, Christine de Pizan, etc. etc. Nas linhas que seguem, concentramos o foco em apenas três delas: Trótula de Ruggiero, Hildegard de Bingen e Hadewijch d’Anvers

Aspectos da vida e do legado de Trótula de Ruggiero

Trótula de Ruggiero nasceu em Salerno, na Itália, no século XI, possivelmente em 1097, de família de recursos, tendo em sua ascendência membros de origem geográfica diversa: inclusive de avó bizantina. Diversidade étnica era, aliás, característica da Salerno daquela época: um influente pólo urbano, com intensa movimentação de outros povos – árabes, da região judaica, do Oriente Médio, do norte da Europa… Característica que propiciava um múltiplo intercâmbio, não apenas econômico, também de idéias, de conhecimentos, de tradições culturais. Neste período relativo ao percurso existencial de Trótula, a marca maior de tal intercâmbio se deu no campo científico, em especial no âmbito da medicina.

Favorecida pela posição social de sua família, mas sobretudo graças à excelência do seu talento, Trótula cedo é iniciada a um múltiplo aprendizado, que incluía o aprendizado do Latim, da música e, principalmente, de plantas e minerais, com funções curativas. Foi-lhe muito importante poder contar com os espaços do mosteriro voltados para o cultivo e armazenamento de plantas medicinais. Aí se deram seus primeiros experimentos. Cumpre, porém, destacar um aspecto axial de seu labor investigativo: a quem Trótula elegeu como alvo central de suas sábias experiências? As mulheres, ou seja, o mundo mais vulnerável aos efeitos mais graves das doenças de seu tempo. Seu propósito extrapolava a dimensão estritamente sanitária: propunha-se, também, a contribuir com a arte do embelezamento feminino, tendo fornecido, a este respeito, admiráveis preparados, como o atesta sua obra-prima, algum tempo depois, traduzida para vários idiomas.

Não era fácil, vale insistir, às mulheres do seu tempo (e de outros…) conquistarem lugar enquanto produtoras de saberes, menos ainda em saberes envolvendo mística, espiritualidade, teologia, letras ou, como foi o caso específico de Trótula, medicina. Aqui, ela teve uma dificuldade adicional. Teve que enfrentar o preconceito de se vedar a prática da medicina, especialmente a mulheres celibatárias. Não teria chance, se tivesse permanecido solteira. Teve a oportunidade de ser cortejada por uma figura nobre, também afeita ao campo da medicina, com quem vem a casar-se, propiciando-lhe uma valiosa parceria, no campo da medicina, ainda que pairem dúvidas sobre se o mesmo se tenha dado no âmbito afetivo… Há registros dando conta de intensa correspondência sua com uma figura masculina do Norte da Europa, dedicada à pesquisa no campo médico. Aqui remeto a quem interessar possa, à conferência feita sobre Trótula, por ocasião da apresentação do alentado livro (404 páginas!), publicado em 2013, de autoria de Dorotea Memoli Apicella, sob o título “Io, Trotula. Storia di una leggendaria scienzata medievale: https://www.youtube.com/watch?v=xicZAqOzcqE

No que toca mais diretamente à obra principal de Trótula, acerca dos processos de cura das doenças das mulheres, antes, durante e depois do parto, o que se deve destacar de suas pesquisas? Vejamos alguns aspectos, a este respeito. Primeiro, como se percebe, desde o título da obra, seu propósito se revela de uma notável vastidão, de modo a cobrir casos e situações de doenças que afetavam as mulheres, em seu tempo, num amplo leque de situações, abrangendo de cólicas a manifestações diversas do período menstrual, passando por situações embaraçosas ligadas ao trabalho de parto e ao período subsequente, até casos ligados a cabelos estragados, aparecimento de sarnas, cáries, sardas no rosto, aftas, mau hálito, incluindo muitas receitas para embelezamento dos cabelos, tratamento de queda de cabelo, casos de fortalecimento dos mesmos, ou de branqueá-los, ou torná-los pretos, mais longos, mais curtos, etc., etc. A seguir, para efeito ilustrativo, transcrevemos um desses numerosos registros medicamentosos:

“Além disso, a purificação costuma ser feita nas mulheres, entre os treze e quatorze anos, ou um pouco antes ou pouco depois, conforme nelas seja mais intenso o calor ou frio. Dura até aos cinquenta anos, se ela for magra; às vezes, até aos sessenta ou sessenta e cinco anos, se é úmida; nas moderadamente gordas, até aos quarenta e cinco anos. Portanto, se essa purificação ocorrer no tempo e na ordem devidos, a natureza se alivia, de modo apropriado, dos fluidos superabundantes. Se realmente a menstruação ocorrer com um fluxo mais ou menos intenso do que o devido, disto decorrem diversas enfermidades, visto que isto implica inibição da vontade de comer e de beber; às vezes, ocorre vômito, outras vezes, têm vontade de comer terra, carvão, excrementos e coisas do gênero. Algumas vezes, pela mesma razão, se sente dores em torno do colo, das costas e da cabeça, outras vezes ocorrem febre alta, dor no peito, hidropisia ou disenteria, ou então dores no peito, mas também outras doenças mais graves. (…) Por vezes, com efeito, ocorre diarreia por causa da frieza excessiva do útero ou porque suas veias são muito sutis como ocorre nas mulheres frágeis, porque aí o fluxo viscoso e excessivo não permite passagem pela qual possam menstruar; ou porque o fluxo é denso e viscoso, razão pela qual o aglutinamento da saída do fluxo fica bloqueada ou porque as mulheres comem gulosamente; ou porque, em razão de algum trabalho, suam muito. Como comprova Galenus, a mulher que não se exercite muito, nela a menstruação ocorre com frequência de modo abundante, justamente para ficar bem. (…)” (Extraído do livro “Sobre a cura das doenças das mulheres, antes, durante e depois do parto”. Trad. a partir do Latim: AJFC)

Em relação aos diferentes tratamentos estéticos femininos, vale ressaltar o avanço da medicina árabe, em especial das mulheres sarracenas, disponibilizando uma gama notável de produtos e de preparados ligados ao embelezamento do corpo feminino.

Aspectos do legado de Hildegard de Bingen

Hildegard von Bingen nasceu em Bermersheim vor der Höhe, Alemanha, no século XII, em 1198, Era filha de uma família numerosa, da qual ela era a décima nascida. Isto teve forte consequência em sua vida. Era costume, àquela época, que as famílias católicas, contampladas com grande prole, se prontificassem a oferecer um dos filhos ou filhas aos cuidados e ao serviço da Igreja. Sendo a décima nascida, na família, isto ensejou a “doação” de Hildegarda de Bingen à Igreja, mais precisamente, a um mosteiro. Tal costume tinha a ver com uma espécie de “dízimo” devido pelas famílias numerosas à Igreja. Hildegarda, ainda criança, ficou sendo cuidada por uma educadora especial.

Cercada daquela ambiência e daqueles cuidados educativos, e sobretudo em virtude de seus múltiplos talentos e de seu empenho, Hildegarda de Bingen vai tornando-se, passo a passo, uma figura veneranda e multiplamente abençoada: mística, teóloga, musicista, compositora, linguista (inclusive tendo sido autora de um idioma artificial (ao modo do Esperanto), naturalista, terapeuta, poetisa, profetisa, consellheira política…

Também, ainda criança – e estendendo-se por longo período de sua vida -, teve sucesivas visões, isto é, passou a ter uma experiência direta de Deus, algo profundamente inusitado. Mais do isto, trazia-lhe sérios problemas de convivência, naquele ambiente. Por longo tempo, preferiu guardar em segredo tais visões frequentes, que, depois, passou a partillhar com o seu confessor. Este, do espanto inicial, foi passando a entender melhor, com o trasncorrer do tempo, tratar-se de algo mais sério, a ponto de chegar a aconselhá-la a registrar por escrito suas frequentes visões místicas. Os desdobramentos de parte desses fenômenos podem ser melhor acompanhada, por meio do filme sobre suas visões e outros aspectos de sua vida, filme que se pode ver, por meio do “link”:
https://www.youtube.com/watch?v=nHGNOd5uQgU

Uma vez aceita a recomendação do confessor, tendo este pedido e recebido autorização do seu superior, Hildegarda von Bingen passa a escrever os relatos de suas sucessivas visões, de forma poética e utilizando-se de ilustrações imagéticas – outro talento seu. É neste campo que ela parece ganahr maior notoriedade. Suas visões constituem uma bússola também para si mesma, além de precioso tesouro para o aconselhamento de tanta gente, das mais distintas condições sócio-econômicas. Políticas e culturais. Mas, em que consistiam mesmo essas visões. A seguir, cuidamos de fornecer uma breve ilustração de alguns relatos por ela escritos. Contentemo-nos com o seguinte:

Diferentemente das Beguinas mais notáveis – das quais ele é considerada precursora – Hildegarda von Bingen, a desperito de muitas barreiras e incompreensões, vivendo num mundo androcêntrico, não sofreu as perseguições de que seriam vítimas as Beguinas. Provavelmente, sua condição de Monja Beneditina, bem como seus múltiplos talentos possam explicar parcialmente tal diferença.

Num tempo em que seguia rigida e hermética a tradição andocêntrica, resulta esclarecedora a observação crítica feita por Claudia Opitz, de que “Por isso o caminho que as mulheres animadas por um sentimento religioso escolheram nos finais da Idade Média foi o do < > – Hildegarda de Bingen definia-se como < >, uma imagem que as místicas que lhe sucederam adoparam; por isso essas mulheres podiam julgar-se < > e econtraram quase por todo lado um da < >, dividida em facções rivais lutando pelo poder e dilacerada pelo Grande Cisma até à reconciliação provisória do concílio de Costança (1414-18).” (OPTIZ, Claudia. “O quotidiano da mulher no final da Idade Media (1250-1500)”, in DUBY, George e PERROT, Michelle. História das Mulheres. A Idade Média. Porto, Edições rontamento; São Paulo, EBRADIL, 1992, p.426)

Considerando a vasta obra de Hildegarda Von Bingen, tratamos a seguir, de ilustrar seus escritos poéticos, com o seguinte poema:

“Ó CORUSCANTE LUZ

Ó coruscante luz das estrelas,/ó esplêndida especial beleza de núpcias reais,/ó fúlgida gemma,/ em excelsa pessoa és ornamento/sem qualquer maculada ruga./És também sócia dos Anjos/e conidadã dos santos./ Foge, foge ao antro do inimigo antigo,/e apressada vem ao palácio do Rei.” (Extraido de CARVALHO, J.F. e MENDONÇA, J.T. Flor Brilhante. Editora Assírio & Alvim (Cf. http://www.assirio.pt). P.25)

Traços biobibliográficos de Hadewijch d´Anvers

Bem rarefeitos são os dados biográficos de Hadewijch d´Anvers, “Et pour cause”… Seus escritos poéticos se revelam extremamente incômodos ao mundo androcêntrico do seu tempo e para além do mesmo. Não é por acaso que seus escritos místicos só foram aparecer publicados cerca de seis séculos depois… É uma das principais Beguinas, nascida no século XIII (por volta de 1240). De modo e em grau diferenciados de outras colegas suas, como Margarete Porete (que teve queimados seus escritos, em praça de Paris, sendo ela mesma, depois, vítima da mesma fogueira inquisitorial), também Hadewijch d´Anvers teve que enfrentar muitas adversidades. O fato de ser uma Beguna era a principal. O movimento das Beguinas, tendo surgido no final do século XII, logo se espalhou pelo Norte da Europa, pela região do Reno, pela Baviera, pelo Norte da França e principalmente pela região dos Frandres (Bélgica), também Norte da Itália e até na Espanha. A certa altura, ganhou tal densidade, que se estimava em duzentos mil o número de Beguinas, àquela época. Elas viviam em casas agrupadas, compartilhando momentos conjuntos de oração e de outras atividades. Viviam do próprio trabalho (tecidos, bordados, artesanatos), dedicando, ainda, aos cuidados das pessoas mais vulneráveis do seu tempo: os anciãos, os órfãos, os doentes, os marginalizados. Dentre elas, havia verdadeiras sábias, a exemplo de Hadewijch d´Anvers. À semelhança das demais Beguinas, também preferiu consagra-se ao amor e ao serviço dos outros, sem pronunciar votos, nem viver sob a tutela eclesiástica de varões, sem que isto implicasse atitude de desrespeito aos sacramentos ou à vida cristã.

“O que o Amor tem de mais doce são suas violências;
Seu abismo insondável é sua forma mais bela;
Perder-se nele, é alcançar a meta;
Ter fome dele é nutrir-se e deliciar-se;
A inquietude de amor é um estado seguro;
Sua mais grave ferida é um supremo bálsamo;
Seu definhar é nossa força;
Eclipsando-se é que ele se faz descobrir;
Se dói é saúde pura;
Se ele se esconde, ele nos revela seus segredos;
É recusando-se, que ele se libera;
Não tem rima nem razão e é a poesia;
Ao cativar-nos, ele nos liberta;
Seus mais duros golpes são suas mais doces consolações; Se ele tudo quer de nós, quanto benefício!
É quando ele se afasta, que ele mais se aproxima de nós; Seu mais profundo silêncio é seu canto mais alto;
Sua pior cólera é sua recompensa mais gratificante;
Sua ameaça nos tranquiliza
E sua tristeza consola todos as tristezas:
Nada ter é sua riqueza inesgotável.”

(cf. http://www.biblisem.net/meditat/hadecequ.htm)

À semelhança das grandes referências de sábias medievais, a produção literária de Hadewijch d’Anvers é paradigmática. A ela se devem, inclusive, os primeiros registros escritos da língua flamenga. Aqui, porém, destacamos apenas um de seus tantos poemas místicos;
“O que o Amor tem de mais doce são suas violências:/Seu abismo insondável é sua forma mais bela:/ nele perder-s

3. O efeito reparador da memória histórica: a contribuição dos grupos de pesquisa

Impactam-nos profundamente o caráter e a extensão dos males provocados – ontem e hoje! – do modelo androcêntrico de organização societal. Aqui, as relações sociais de gênero se tecem (quase) sempre de modo subordinado à ótica e aos interesses dos homens, em franco prejuízo das mulheres, nos diferentes espaços de sociabilidade, permeando todas as esferas da vida social, econômica, política, cultural, religiosa… Não se trata de negar propriamente o lugar das mulheres, mas, antes, de saber qual lugar lhes é reservado. Não cabe dizer que, nessas sociedades, não haja lugar para as mulheres. As evidências se impõem. Basta que nos interroguemos sobre tarefas do tipo: quem cuida das crianças? Quem garante os cuidados da casa? Quem se ocupa da alimentação, da roupa, da limpeza, das compras, etc., etc., etc.? É claro que aí elas têm lugar assegurado… Estão-lhes, sim, assegurados os espaços privados, para trabalharem à exaustão. Mas, não os espaços públicos, relativos às artes, aos saberes, às decisões…

No caso específico da Idade Média – mais precisamente, jo período focado -, isto fica às escâncaras! São vedados às mulheres os espaços públicos! Relativas às ciências, aos saberes, às letras, às artes, etc. Constituem apanágio exclusivo dos homens. Toda a estrutura de organização societal, nos diferentes níveis de organização, são controlados pelos homens. E hão de se dar mal as mulheres que ousarem “pagar para ver”. E algumas felizmente o ousaram, ainda que sabendo as consequências que teriam que amargar: a usurpação, a invisibilização, a perseguição, a condenação, as torturas, a fogueira, o assassinato… A Liberdade, definitivamente, não é um presente de Papai Noel, que cai do céu gratuitamente! Ainda assim, vale a pena seguir firme por suas trilhas. É o que percebemos da parte dessas mulheres.

Nesse sentido, é que nos socorremos da força reparadora da memória histórica, grande aliada de todas as vítimas, também das mulheres, à medida que ela vai permitindo a descoberta de fontes, de instrumentos a revelarem as mais vulpinas estratégias empregadas pelos adoradores do poder, do dinheiro, do prestígio, da acumulação de privilégios, arrancados – à força ou pela via ideológica, mas não menos violenta – às respectivas vítimas.

Por meio das incursões investigativas, protagonizadas por pessoas e grupos de pesquisa, comprometidos com a verdade histórica, a partir do olhar das vítimas, vão sendo desveladas estratégias e táticas de manutenção ou ampliação de privilégios à custa de diferentes tipos de vítimas. Graças a tais investigações, é que se tem acesso a toda uma multiplicidade de artifícios que funcionam como espessos véus a esconderem os verdadeiros fatores de opressão, de exploração e de marginalização. A título ilustrativo, aqui vale destacar a longa e profícua pesquisa protagonizada, por décadas, por figuras como Karl Marx, permitindo ao “de baixo” tomarem consciência das astúcias das forças dominantes, empenhadas em manter e ampliar seus privilégios. De modo semelhante, pessoas e grupos de pesquisa, espalhados por vários países, em especial grupos feministas, tratam de desvendar, nos mais distintos campos de pesquisa, os mais diversos artifícios voltados para mascarar a realidade, aos olhos das vítimas desta mesma realidade. Com isto, não estamos a insinuar que o mero exercício da memória histórica, com todo o seu potencial reparador, seja capaz, apenas por si mesma, de assegurar o processo de libertação – e aqui, não nos restringimos apenas à libertação das mulheres, mas de todas as vítimas deste modelo, inclusive dos segmentos dominantes, que se acham, também eles, impedidos de responder ao chamamento para a Liberdade, que o processo de humanização requer. Mas, a memória histórica constitui um passo primeiro, sem o qual outros mais importantes não se darão.

Reparando para o nosso horizonte repleto de sinais sombrios, não devemos, por outro lado, perder de vista sinais promissores de um processo revolucionário em curso, ainda que em doses moleculares. Um desses sinais vem assinalado por mulheres e homens que, em seu cotidiano, vão mostrando que é, sim, possível, necessário e urgente um outro mundo, em que todos caibamos com dignidade – seres humanos e toda a comunidade dos viventes.

Deixe uma resposta