Notas em torno da relação resultado-processo: implicações ético-políticas das experiências do/no dia-a-dia

Ainda que por caminhos tortuosos – carregamos, com efeito, um tremendo déficit histórico-cultural, também neste quesito –, a sociedade brasileira dá sinais de cansaço contra a avassaladora onda de corrupção e copiosos e graves deslizes ético-políticos, em especial no campo da ética pública, sabendo-se, porém, que tal déficit se estende para muito além desta esfera, estando enraizada, de modo capilarizado, em distintas esferas do cotidiano. Um dos fatores aí presentes se acha organicamente vinculado à relação mal resolvida entre resultado e processo, que tomamos como alvo principal destes apontamentos.

Na complexa e extensa malha de fios do dia-a-dia, é que ficam impressas, indelevelmente, as marcas mais vivas (positivas ou negativas) do nosso processo de humanização. É, com efeito, no chão das relações do cotidiano, que provamos a boa ou a má qualidade de nossas ações, posturas e projetos, nas mais diversas esferas de nossa vida pessoal e coletiva. Uma dessas marcas diz respeito ao modo como lidamos com a relação entre processo e resultado, nas relações subjetivas, nas relações interpessoais, nas relações familiares, nas relações comunitárias, nas relações societais. Neste último caso, aliás, as grandes votações em curso no Congresso (PEC 55, Reforma da Previdência, “Reforma do Ensino Médio”… são eloquentes…

O objetivo dessas linhas é o de trazer à tona exemplos ilustrativos dessas práticas cotidianas, com o propósito de ajudar a fortalecer nosso processo de humanização, desde as relações do cotidiano. Nesse sentido, aqui cuidamos de problematizar a relação processo-resultado. De que relação estamos mesmo a tratar? Busquemos examinar isto, mais de perto, a seguir.

As relações capitalistas – como as, ou bem mais do que outras sociedades de classes – se mostram marcadas, desde suas entranhas, pela obsessão de lucro e vantagens auferidos, a ferro e fogo, por pequenas minorias privilegiadas, não importando, ou pouco importando, os meios de consegui-los. “Vencer ou vencer!” – eis o núcleo de sua ética de resultados. A propósito da avidez de lucro, a recente tragédia aérea, ocorrida em Medellín, comporta, em alguma medida, uma motivação similar: a fixação doentia na obtenção de vantagens (obsessão de resultado) não deixa de ter sido um componente tenebroso.

Embora tal estratégia de ação tenha mais diretamente a ver com o modo capitalista de existir, convém não esquecermos que, também do lado de cá, tal ética constitui mais do que um risco iminente: uma prática mais frequente do que se imagina… E, não raro, isto se dá com uma agravante: quando isto se dá, do lado de cá, é frequente o apelo ao discurso autojustificativo, de modo que nós mesmos e “os nossos” nos tornamos quase imunes a tais práticas… Não é bem assim! Seres humanos inconclusos, capitalistas e não-capitalistas, estamos sujeitos aos mesmos vícios e mazelas. O que nos diferencia, de um lado e de outro, é o esforço perseverante na autovigilância e são as circunstâncias concretas, ou mais precisamente, a qualidade de nossa formação de como fomos exercitados a lidar com todo tipo de circunstâncias. A seguir, trataremos de exemplificar isto, de forma didática, trazendo à tona alguns exemplos ilustrativos, desde o chão do cotidiano. Para tanto, selecionamos, por critérios didáticos, várias situações permeadas por diferentes esferas da realidade humana.

No universo das invenções ou descobertas científicas

Desde tenra idade, aprendemos a admirar as maravilhas que são as invenções e descobertas científico-tecnológicas. Nessas ocasiões, quase sempre vem a lume apenas o anúncio dessas invenções e descobertas, exaltando-se, a justo título, seus respectivos autores. Temos, então, a impressão de que tudo aconteceu, de repente, por um feliz acaso, ou por um momento de apenas rara genialidade. Em outras palavras, tudo fica parecendo apenas em seu epicentro, isto é, em seu resultado. Poucos são aqueles e aquelas que se dão ao trabalho de examinarem, mais detidamente, as circunstâncias e os detalhes de cada uma dessas invenções. Só aí, damo-nos conta de que o resultado de cada uma delas esconde mais do que revela. Esconde o quê? Esconde o fato de que, em cada uma delas, para se chegar àquele resultado, seus respectivos inventores tiveram que enfrentar uma sucessão de erros, de falhas ou de malogradas experiências, sem as quais simplesmente não teriam obtido o resultado conhecido. Muito devem aos desacertos, aos tropeços, aos fracassos frequentemente silenciados. O silenciamento do PROCESSO constitui um grave equivoco, à medida que ele é, em parte considerável, o grande responsável pelo êxito das experiências realizadas, ou seja, pela consecução do resultado.

Ainda neste tópico, convém remeter, de passagem, a outro equivoco frequente, resultante da ambição de gloria indevida. Referimo-nos a uma ampla lista de invenções e descobertas científicas protagonizadas, às vezes há milênios, por inventores precedentes, integrantes de outros povos, de cujo autoria se apropriaram várias protagonistas da modernidade ocidental. Fato que é amplamente documentado por Eduardo Galeano, em seu livro intitulado “Memória do Fogo” (da Editora “L&MP”, 2005), além de outros autores. Eis mais um exemplo ilustrativo, a alertar quanto aos riscos ético-políticos de não se entender o resultado como culminância do processo. É, com efeito, na recuperação dos fios do processo, ou de sua tecelagem, que vamos descobrir os fios da criatividade que permitiram chegar ao resultado de descobertas e invenções, bem como de outras situações características da existência.

No campo dos estudos ou da Educação formal

Também nessas lides, da Educação Infantil à Pós-Graduação, não são menos frequentes os casos de dissonância entre resultado de processo. Um deles incide largamente nos períodos de avaliação escolar. Raríssimos são aqueles e aquelas que se dão ao trabalho de acompanhamento assíduo dos estudos dos seus filhos. E quando acompanham, são em geral as mães. Em outras palavras, pouco ou nada lhes importa o processo de aprendizagem vivenciado pelos seus filhos e filhas. A exemplo da grande maioria, tornam-se reféns da astúcia “de Marketing” cujo interesse único é o de fixar-se no resultado não no processo. É assim que, em vez de acompanharem toda evolução escolar de seus filhos, os pais se contentam apenas conferir o boletim de notas dos filhos. Se estes apresentam notas acima da média, a avaliação se dá como satisfatória, não importando os modos como os alunos tenham conseguido tal resultado – Se por esforço próprio, se for cola se por facilidades dos professores, e etc., etc., Não precisamos de muito esforço para entrever as graves consequências de tal procedimento, seja quanto à qualidade dessa aprendizagem, seja quanto ao futuro profissional desses estudantes, bem como das numerosas vítimas de nossa sociedade, seja quanto ao seu processo de humanização, nas diferentes esferas de convivência. Aqui, pensamos no sentido superdimensionado atribuído aos “cursinhos” (cuja finalidade, salvo exceções, se fixa, não no processo, mas no resultado…

Como se percebe, estamos, ilustrando apenas a ponta do “iceberg”, inclusive no âmbito do sistema formal de educação. Sobre este, aliás, estamos justamente a enfrentar uma proposta governamental de reforma, de modo bastante atabalhoado, na medida em que se pretende colocar goela abaixo da sociedade alterações de envergadura, no Ensino Médio, sem a devida consulta e sem discussão mais ampla, nem mesmo naqueles setores mais diretamente envolvidos na pretensa reforma. Aí também se mostra a incidência da mesma lógica procedimental, superestimando-se resultados e desprezando-se o processo.

Incidência frequente da mesma discrepância se dá no Ensino Superior e na Pós-Graduação. Aqui, a fogueira da vaidade se expressa de modos incontáveis. Um deles ocorre, já no processo de admissão. Nem sempre os processos seletivos se dão de modo ético. Não raro, resultados são proclamados, discrepando dos respectivos resultados, ainda que estes obedeçam ao figurino jurídico, de modo aparecem indiscutíveis. Analisados, com tudo, seus respectivos processos, não são raras lacunas de caráter ético. Oura situação ilustrativa se da nos pouco transparentes critérios de seleção de trabalhos científicos, de formação de bancas examinadoras, de participação em congressos científicos, etc., etc. Em muitos desses casos, os resultados costumam destoar dos respectivos processos.

Casos semelhantes constituem a regra geral, nos diversos ambientes da Educação formal, abrangendo diferentes momentos de seus espaços – Desde a concepção, passando pelo planejamento, pela execução, pela metodologia até à avaliação. Salvo honrosas exceções, a lógica predominante tem sido a da ampla prevalência do monopólio, do resultado sobre o processo. E, como de hábito, tendo como motivação principal a obtenção de vantagens pessoais ou de pequenos grupos, à custa de prejuízos para amplas parcelas da comunidade escolar.

No âmbito político partidário

Hesitamos em incluir exemplos ou situações deste âmbito, tal a evidência contundente de sucessivos escândalos recentes e menos recentes. Em todo caso, seguem alguns exemplos. A discrepância entre resultado e processo vem estampada nos processos eleitorais. Aqui, a despeito da verborragia da observância de normas legais, o foco resta quase exclusivamente voltado para o resultado, quase nunca para o processo. O que importa é vencer as eleições, ainda que recorrendo-se aos mais vis mecanismos de trapaça e engodo. Aqui, vale tudo: Conchavos de toda ordem com amigos e inimigos; compra dissimulada de votos; ausência de critérios na definição de alianças, mascaramento de programas, ainda que prometendo o inalcançável, produção de factóides visando desmoralizar os adversários… Definitivamente, resultado e processo se apresentam claramente em ruptura. Vale ganhar, vale o resultado.

No âmbito das Igrejas Cristãs…

O espaço do Sagrado não apenas vem imune a esses deslizes ético-políticos, como protagoniza, por vezes, cenas emblemáticas de contratestemunho. Quantas falcatruas cometidas “em nome de Deus”! A despeito da força mística do que contém, para o mundo cristão, a Oração do Pai Nosso, na qual se pede “Seja feita a Vossa vontade”, incontáveis vezes, o que se faz, objetivamente, é insistir-se para que se faça a vontade de quem ora… Aí se faz presente, mais uma vez, a dissociação entre resultado e processo.

Enfim…

Exemplos e situações similares poderíamos multiplicar, à saciedade, e nas mais distintos campos da realidade. Que os acima mencionados nos bastem, para suscitarem em nós a necessidade e urgência de reavaliarmos as consequências pernósticas dessa relação mal resolvida, partindo do esforço em examinarmos que condições nos têm levado a tal experiência. Um exercício autoavaliativo ou de autocrítica nos recomenda tal enfrenamento, a partir do nosso processo formativo contínuo, na perspectiva do nosso próprio processo de humanização. Em vão seria a mera constatação, se não acompanhada do nosso compromisso pessoal e coletivo de trazermos tais dissonâncias entre resultado e processo, para o chão do nosso dia-a-dia. Que tal assumirmos este compromisso?

João Pessoa, 13 de dezembro de 2016

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