Memória, história e esquecimento

foto-do-livroNessa leitura interessante, terapêutica e transformadora, o autor aborda temas como alteridade, reconhecimento mútuo, perdão, horizontalidade e reciprocidade, que são como pontes que preservam as distâncias e as dissimetrias, mas unem as pessoas, reforçam a identidade, as relações e a forma de olhar das pessoas. A troca e a amizade possíveis só entre iguais conforme a cultura grega, também encontra lugar nas relações verticalizadas pela culpa e pela dívida, quando a dádiva do perdão entra em ação e horizontaliza a relação.

Conforme Ricoeur (2007), a confissão liga o agente à sua falta e à responsabilidade pelas consequências, ultrapassando a barreira entre culpa e inocência. Isso o confina no espaço de solidão, fracasso, sofrimento, combate e morte, que o impede de agir livremente em novas iniciativas. Os processos de justificação, desculpação e sanção ou expiação podem resultar em certa absolvição e alívio, mas ainda podem deixar no esquecimento falsas lembranças, omissões ou uma negligência seletiva de impressões, acontecimentos e desculpações, pois, recalcados, os pesos da culpa desencadeiam confusões, desajeitamentos, atos falhos, estratégias de evitação como o “querer-não-saber”, repetições compulsivas e melancolia.

Por outro lado, o perdão transcende a associação institucionalizada da falta-acusação-punição, desvincula a falta do sujeito, enxergando-o como capaz de outra coisa além daquela; assim, mesmo sofrendo e responsabilizando-se pelas consequências de seu erro, ele não fica aprisionado nos pesos da dívida e da culpa que paralisam sua capacidade de agir, mas é libertado para que o epílogo de sua história seja transformado, seu passado ressignificado e seu presente contenha novas perspectivas para o futuro.

A falta verticaliza as relações interpessoais e a culpa causa dissociações internas e sentimentos de vingança presentes nos homicidas; o perdão, na mesma grandeza do amor, desce das maiores alturas às maiores profundezas da precariedade humana e horizontaliza as relações sem os usos e abusos da memória impedida, manipulada ou obrigada decorrentes da anistia, da amnésia ou da imposição político-social, mas, pelo contrário, proporciona a expressão espontânea da memória natural onde a dor e a injustiça não são caladas, mas processadas pelo luto: são escritas para serem apagadas com lucidez, mas também, podem ser reconhecidas e ditas sem cólera naquilo que marcaram, tocaram, afetaram e deixaram marcas existenciais afetivas íntimas no espírito, num horizonte mais amplo, porém inacabado, onde fundem-se a memória, a história e o esquecimento transformados… restaurados.

Bibliografia

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: UNICAMP, 2007, p. 71-74, 423-512

Deixe uma resposta