135 anos de Gramsci: ‘Vivemos o sucesso absoluto da hegemonia dominante em que os explorados votam nos exploradores’

Preso pelo fascismo de Mussolini, Gramsci desenvolveu no cárcere uma das obras mais influentes do século 20
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Para Gianni Fresu, pensamento gramsciano segue decisivo diante da crise das esquerdas e da ascensão da nova direita.

No marco dos 135 anos do nascimento de Antonio Gramsci, o Brasil de Fato publica uma entrevista com o filósofo italiano Gianni Fresu, autor de dois livros recentes sobre o pensador marxista publicados pela editora Boitempo: Antonio gramsci, o homem filosófo (2020) e Questões gramscianas: da interpretação à transformação do mundo (2025).

Ex-presidente da International Gramsci Society Brasil (IGS Brasil), Fresu aponta que a atualidade de Gramsci está em sua capacidade de articular teoria e prática em contextos de crise.

“Vivemos o sucesso absoluto da hegemonia dominante”, afirma. “Hoje os explorados votam nos exploradores.” Para o autor, esse cenário de adesão das massas aos projetos da nova direita internacional é resultado de um “subversivismo reacionário de mercado”, expressão que utiliza para descrever a fusão entre fundamentalismo neoliberal, autoritarismo e manipulação digital.

Doutor pela Università degli Studi “Carlo Bo”, de Urbino, sob orientação de Domenico Losurdo, Fresu é professor de filosofia política da Universidade de Cagliari, na Itália, e tem uma longa trajetória de pesquisa dedicada a Gramsci, iniciada ainda na juventude, quando estudava no mesmo prédio onde o autor sardo havia cursado o ensino secundário.

Com forte vínculo com o Brasil, Fresu viveu no país por quase uma década, atuando como professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) entre 2014 e 2023. Foi também presidente da International Gramsci Society Brasil (IGS Brasil) e segue colaborando com instituições brasileiras como pesquisador visitante. Para ele, o Brasil abriga hoje o “movimento gramsciano mais original do mundo”, por sua capacidade de vincular teoria e prática na leitura das contradições da formação social brasileira.

“Gramsci aqui não é arqueologia política, é arsenal analítico para transformar o país”, analisa. A seu ver, o pensamento gramsciano se enraizou nas universidades públicas brasileiras e encontrou aplicação concreta na leitura das contradições históricas da formação social do país.

Radicado no Brasil por quase uma década, Gianni Fresu é referência internacional nos estudos sobre Gramsci
Radicado no Brasil por quase uma década, Gianni Fresu é referência internacional nos estudos sobre Gramsci | Crédito: Arquivo pessoal

Um legado para o Sul Global

Nascido em 1891 na Sardenha, região periférica e colonizada da Itália, Gramsci construiu um pensamento marxista centrado na disputa por hegemonia cultural e política. Para Fresu, esse ponto de partida é o que conecta o autor às lutas contemporâneas do Sul Global. “Gramsci é referência porque compreendeu a subalternidade a partir de um contexto colonial, e isso sem jamais dissociar cultura e estrutura material.”

Na entrevista, Fresu também propõe uma leitura gramsciana das formas de organização popular no Brasil atual. Ele aponta o papel central das igrejas evangélicas na disputa por hegemonia, diz que “Gramsci hoje buscaria entender por que essas igrejas assumem o papel de direção das massas”, e sugere que o pensador teria defendido a inserção ativa da esquerda nesses espaços, como forma de disputar o consenso no cotidiano.

Leia a entrevista completa com Gianni Fresu, concedida ao Brasil de Fato:

Brasil de FatoVocê é conterrâneo de Gramsci e teve contato com a obra de Gramsci ainda no ensino fundamental. Como isso aconteceu? E, quando diz que o movimento gramsciano brasileiro é um dos mais originais do mundo, a que tipo de originalidade você se refere?

Gianni Fresu: Eu comecei no ensino fundamental porque tive a sorte de estudar no mesmo prédio onde o próprio Gramsci estudou, na cidade de Cagliari, na famosa Piazza Dettori. Quando minha professora fez a proposta de fazermos uma pequena tese sobre autores da literatura sarda, eu perguntei se seria possível apresentar o meu estudo sobre Gramsci a partir da “questão meridional”; eu tinha 17 anos, ela aceitou e aquele foi o meu primeiro escrito sobre ele.

Sobre o Brasil: atualmente é o país onde mais temos estudos sobre Gramsci no mundo, e a IGS Brasil é a maior organização gramsciana mundial. Pesquisamos e mapeamos mais ou menos 70 grupos de pesquisa e de estudos dedicados a Gramsci nas principais universidades públicas brasileiras, o que é um resultado enorme. Além do número de teses e dissertações, acho que o estudo de Gramsci no Brasil é interessante por uma razão específica: na Itália existem estudos filológicos bem avançados e de nível elevadíssimo, mas isso fica limitado ao mundo acadêmico.

No Brasil, Gramsci não é estudado apenas como memória literária do passado ou instrumento de arqueologia política; ele é utilizado para interpretar as enormes contradições da formação social brasileira na idade colonial, na modernização passiva, na transição da ditadura para a democracia. Ele encontra no Brasil uma tradução no plano social e político, sendo utilizado como arsenal analítico e programático para pensar a transformação do país.

Acho que um autor como Gramsci só pode ser entendido a partir de um relacionamento dialético estreitíssimo entre filologia e tradução filosófica. Ou seja, da teoria à práxis, não apenas para interpretar, mas para transformar o mundo.

Pensando na obra de Gramsci como inspiração revolucionária para enfrentar o capitalismo na América Latina, gostaria de propor um exercício a partir do momento decisivo que vivemos no continente. Enfrentamos ataques militares, autoritarismo imperialista e eleições marcadas por disputas estratégicas, como no Brasil e na Colômbia. À luz de Gramsci, que conceitos nos ajudam a compreender esse cenário e a pensar o que fazer?

Acho que estamos numa fase em que boa parte das guerras, golpes e formas de desestabilização na América Latina e no mundo têm origem num fato que questiona a representação clássica após a queda do Muro de Berlim: a ideia de que a unificação mundial pelas leis do mercado e do liberalismo teria acabado com a história. Na verdade, a história não acabou, e o que foi anunciado como “século americano” virou uma fase de profunda transformação que determinou uma nova ordem mundial multipolar com a emergência do polo dos Brics.

Em particular, a ideia de que países em desenvolvimento poderiam pensar em formas autônomas de desenvolvimento fora do controle do FMI [Fundo Monetário Internacional] e do Banco Mundial é um perigo mortal para os Estados Unidos, que possuem a maior dívida pública do mundo e precisam produzir a moeda para as transações internacionais. Se a Ásia, África e América Latina começam a comercializar com outra moeda, os Estados Unidos enfrentam um default econômico sem precedentes. Não casualmente, a guerra na Ucrânia surge quando os Brics estavam implementando um banco mundial alternativo.

O caso da Ucrânia e a expansão da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] visavam interromper as relações da Europa com a Rússia e a China, que passavam pelo Nord Stream 2 e pela Rota da Seda. A guerra foi desencadeada para criar uma “montanha de cadáveres” entre a Rússia e a Europa para acabar com a colaboração entre Oriente e Ocidente. O mesmo acontece com a América Latina: acabar com a ideia de uma soberania integrada fora do controle tradicional dos Estados Unidos. A agressão imperialista na Venezuela, as ameaças contra Cuba e as intervenções no Brasil visam controlar os grandes recursos naturais e a posição geoestratégica do continente.

Tudo isso responde a interpretações erradas, como a de Toni Negri e Michael Hardt no livro Império (2000), onde afirmavam que as nações e o imperialismo dos Estados Unidos tinham acabado devido à natureza transnacional do capital global. A história sucessiva, pelo contrário, restaurou no centro da realidade a teoria de Lênin sobre o imperialismo. Hoje vivemos a máxima dialética imperialista, onde os Estados Unidos tentam resistir ao seu declínio econômico e cultural, o que é muito perigoso para a paz mundial e para a prosperidade da América Latina.

Ao longo da entrevista, você já mencionou alguns paralelos possíveis entre o contexto em que Gramsci escreveu e o atual. Diante disso, é possível dizer que vivemos hoje um cenário similar ao do surgimento do fascismo? Você consideraria governos como o de Donald Trump como fascistas?

Então, eu acho que um elemento comum claro entre o contexto em que Gramsci começa a pensar e hoje é que, tal como após a Primeira Guerra Mundial, hoje vivemos uma fase de crise de hegemonia das ideologias tradicionais e das classes dirigentes tradicionais na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina. Ao mesmo tempo, temos um processo de radicalização e de um subversivismo reacionário da direita. Então, há muitos elementos em comum, mas existem, ao mesmo tempo, profundas discordâncias.

A primeira discordância principal é que, no contexto pós-Primeira Guerra, a Revolução Russa determinou a centralidade da questão socialista no mundo; hoje não estamos nesse contexto. Além disso, acho que hoje se pode falar de uma fascistização do senso comum e das categorias políticas da nova direita, que eu chamo de subversivismo reacionário internacional de mercado.

Todavia, utilizar o fascismo como chave universal para qualquer movimento autoritário ou reacionário não nos ajuda a entender nem o que era o fascismo, nem o que são esses novos movimentos, porque entre o fascismo e o hoje ocorreram muitas transformações políticas e econômicas.

Por exemplo, não podemos pensar essa direita internacional sem incluir toda uma tradição do liberismo [doutrina econômica do livre-comércio] e do liberalismo econômico da tradição austríaca (Mises, Hayek) e do grupo dos Chicago Boys, que na América Latina teve traduções fortes no Chile e no Brasil. Hoje, a nova direita internacional assume uma postura radical, não se apresentando apenas como uma força conservadora como foi o fascismo.

As categorias de Gramsci sobre o subversivismo reacionário das classes dirigentes e as tentativas de manter equilíbrios passivos por meio de revoluções passivas nos ajudam a entender os elementos de continuidade e de descontinuidade entre o passado e a atualidade.

Me chamou a atenção quando você fala em sua obra do esvaziamento dos conteúdos sociais da democracia na conjuntura atual. Em entrevistas recentes com outros cientistas políticos da América Latina, surgiu uma ideia que dialoga com a sua análise: vivemos um tempo de esquerdas mais moderadas e direitas mais raivosas. Você acha que isso tem relação com a ausência de intelectuais capazes de formular propostas em diálogo com a práxis? Falta uma intelectualidade comprometida com um projeto de transformação?

Gramsci explicou muito bem a natureza dos grupos subalternos: grupos que sofrem a direção das classes dominantes mesmo quando surgem, porque não possuem formas de centralização política e não sabem sair da rebelião endêmica para construir formas políticas de transformação. Hoje, as categorias do subalterno – que Gramsci aplicou originalmente aos grupos rurais, mas que se estendem a todos os que sofrem o domínio das classes dominantes – são centrais. São grupos que sofrem constantemente uma direção de forma fragmentada e amorfa.

O ponto fundamental é pensar em um pensamento crítico e coerente, como afirmava Gramsci. Crítico porque entende as influências da visão de mundo da classe dominante (mesmo na cultura popular e nas linhas políticas dos partidos de emancipação) e coerente com os interesses dos grupos subalternos.

O tema central é superar o relacionamento passivo bonapartista que existe hoje entre direção política e massas. Mesmo hoje, nos partidos radicais ou reformistas de esquerda, temos a mesma articulação entre dirigentes e dirigidos da sociedade burguesa.

As soluções parecem depender da irrupção carismática de líderes que resolveriam as contradições – seja o Lula ou qualquer outro. Eu acho que os grupos subalternos não podem se emancipar enquanto não acabarem com essa ideia de direção e realizarem a ideia gramsciana da organização política como movimento molecular e horizontal, onde a direção é um intelectual coletivo. Repensar a hierarquia da arte política é o grande tema, porque hoje sofremos a direção das classes dominantes tanto na visão de mundo quanto na forma de organização.

Vemos um sucesso hegemônico absoluto das classes dominantes porque hoje os explorados votam nos exploradores: o Trump ganha votos na classe trabalhadora americana, o Bolsonaro no Brasil e, no meu próprio país, onde existia o maior Partido Comunista do Ocidente (que chegou a ter 34% dos votos e milhões de filiados), hoje a direita ganha votos em regiões onde o PC era forte, em áreas de desindustrialização. As massas assumiram a ideia de salvação individual, acreditando que a emancipação do proletário passaria por ele “tornar-se burguês”.

Esse “sucesso hegemônico” das classes dominantes está relacionado ao controle das redes sociais por poucos bilionários e à fusão entre poder econômico e geopolítica imperialista?

Sim. E aqui novamente entendemos por que Gramsci é tão estudado no mundo de hoje. Como vocês sabem, ele é o autor de língua italiana mais traduzido, junto com Dante e Maquiavel. Por quê? Porque Gramsci entendeu, antes de muitos outros, que, numa sociedade com elevado nível de desenvolvimento das forças produtivas, as relações de força não são determinadas apenas pelo monopólio da força exercido pelo Exército, magistratura ou polícia.

Ele estudou que, numa sociedade avançada, o Estado é apenas a trincheira mais avançada, atrás da qual existe uma robusta linha de trincheiras e fortalezas – as casamatas –, que são os aparelhos privados da hegemonia. Hoje, após a revolução digital, o controle e a formação da opinião pública são ainda mais importantes do que no tempo de Gramsci.

Ele nos ajuda a entender a função da ideologia como instrumento de governo, valorizando o que já encontrávamos em A ideologia alemã, de Marx e Engels. Esses aparelhos privados da hegemonia são os que hoje favorecem as viradas autoritárias, não necessariamente por golpes militares, mas formando na cabeça dos cidadãos a “exigência” de viradas antipopulares, seja para uma guerra ou para cortes previdenciários. Estudar essa complexa rede de fortalezas que preside ao controle digital da opinião pública é uma tarefa profundamente revolucionária.

Fiquei muito interessado numa formulação sua sobre o Gramsci se empenhar num processo de compreensão empática do novo. Pensando que hoje acumulamos o resultado de uma derrota histórica, com desarticulação das forças populares e avanço de uma direita muito organizada, queria te convidar para um exercício de imaginação: como Gramsci estaria situado nesse momento? De que forma ele buscaria essa compreensão empática para reencontrar pontos de contato com a classe trabalhadora? Hoje, na América Latina, parte da classe aplaude intervenções imperialistas ou comemora reformas que representam retrocessos. Onde estariam, na sua visão, os pontos conexão possíveis?

A primeira questão é que os Cadernos do cárcere nascem de uma avaliação autocrítica de Gramsci diante de uma crise de hegemonia das ideologias tradicionais e de uma crise orgânica do capitalismo mundial após a Primeira Guerra Mundial. Em um contexto de sucessos revolucionários, como a Revolução Russa de 1917, não triunfou o socialismo na Itália, Alemanha ou Hungria, mas, sim, a ofensiva reacionária dos fascismos; passou-se do Biênio Vermelho para o “Biênio Negro” na Itália. Gramsci faz uma análise sobre as causas dessas derrotas sem nenhuma indulgência, uma autocrítica que acho que falta muito no nosso campo ideológico hoje.

A segunda questão é que Gramsci sempre explicou que, para mudar as relações de força, é preciso abandonar a tendência de subestimar o inimigo. Quando surgiu o fascismo, muitos no campo do antifascismo o apresentaram como um movimento de “malucos” ou desajustados que não tomariam o poder. Gramsci recusou essa postura; ele entendeu cedo que a capacidade de simplificar a linguagem política e de determinar formas de participação integral era algo que precisava ser estudado com atenção. O subversivismo reacionário de Mussolini e da ideologia fascista não era apenas um movimento folclórico.

Gramsci nos ajuda a entender que o fascismo não era apenas o exercício monopolista da força. Ele conseguiu politizar a dimensão privada por meio de uma complexa articulação de organizações de massa e utilizou os mais modernos meios de comunicação para construir cotidianamente o consenso. O fascismo é uma forma moderna de movimento autoritário que utiliza a demagogia para formar a opinião pública em função dos interesses do regime, algo que vemos hoje nas novas perspectivas soberanistas ou nacionalistas.

Quando o fascismo conquistou o consenso na Itália, inclusive dos trabalhadores na década de 1930, a virada do movimento antifascista partiu de uma reflexão que Gramsci desenvolvia no cárcere. Ele entendeu que era preciso superar qualquer postura meramente moralista do antifascismo e recuperar elos de massa. Os comunistas decidiram adentrar nas organizações de massa e no próprio sindicato fascista para desenvolver, por meio de lutas econômicas, pontos de contato com as massas populares que ajudassem na emergência de um conflito. Esse trabalho cuidadoso na década de 1930 foi fundamental para preparar as bases que depois emergiram na luta de libertação nacional.

Portanto, não podemos liquidar todos que assumiram a virada à direita como se não pudessem ser recuperados. Figuras como Trump, Bolsonaro, Orbán e Meloni não são apenas “malucos”; são representantes de movimentos políticos que surgem de forma racional e real, expressando interesses materiais que temos que entender sem fazer caricaturas. É preciso trabalhar para construir elos de classe numa fase de derrota histórica.

O terceiro elemento é fazer um trabalho de construção de uma consciência crítica que nos ajude a desbravar a natureza complexa dos aparelhos a partir dos quais a direita conquista os dominados por meio da simplificação da mensagem política. É um trabalho complexo que não se faz individualmente; sem movimentos de massa e organização da elaboração política, é impossível mudar as relações de força.

No Brasil, por exemplo, o bolsonarismo não se explica sem a capacidade de centralização ideológica e organizativa das igrejas evangélicas, que conseguem disputar o terreno cotidiano de forma mais orgânica do que os partidos e sindicatos tradicionais. Sem essa conexão empática e orgânica dos movimentos pela emancipação com os subalternos de hoje, é impossível qualquer transformação.

Quer dizer então, professor, que hoje Gramsci estaria tentando um diálogo permanente e ingressando nas estruturas das igrejas evangélicas no Brasil?

Eu acho que ele procuraria entender por que as igrejas evangélicas assumem esse papel. No Caderno 22, Gramsci afirma que o fordismo é uma modalidade nova de racionalização para eliminar filtros parasitários, mas que o taylorismo traz consigo o americanismo. Esse americanismo tem dois níveis: o da ideologia do Rotary, que apresenta o capitalismo de forma ética para as classes dominantes, e o que age entre as massas por meio do puritanismo.

Gramsci escreve que o puritanismo e a moralização dos costumes no contexto do proibicionismo não tinham um interesse meramente religioso. O problema é que um trabalhador com uma “vida sexual desordenada” ou que vai para o boteco não é um bom trabalhador para a cadeia de montagem. A ideia da predestinação serve para criar uma ideologia adequada a um sistema onde o trabalhador é pensado como um “gorila amestrado”.

Essa análise nos ajudaria a entender o papel das igrejas evangélicas no Brasil e nos EUA sem simplificações. Qualquer movimento orgânico na luta de classes tem causas reais. O Partido Comunista Italiano na década de 1930 entrou no sindicato fascista sem se apresentar abertamente como comunista, mas para desenvolver contradições a partir da luta econômica. Esse trabalho foi a espinha dorsal da luta armada contra o nazifascismo em 1943.

Caminhando para o final, queria te perguntar sobre o papel da academia hoje. Você acredita que ainda há pessoas comprometidas com uma filosofia em conexão com a práxis? Ou o atual grau de desarticulação das forças populares tem relação com o fato de a academia ter se resignado a formar especialistas, em vez de intelectuais orgânicos comprometidos com a transformação?

O reflexo daquela derrota histórica do século passado atinge o nível mais elevado da formação das classes dirigentes. Na Itália, o Partido Comunista exercia uma hegemonia cultural incrível que exprimia intelectuais, professores, cineastas e literatos. Após a derrota e a “eutanásia” do PCI, muitos que entraram na academia por meio do partido viraram os piores anticomunistas do país.

Hoje, nas universidades públicas da Europa, existe um filtro de seleção ideológica que dificulta a entrada de quem tem uma postura de crítica da economia política ou da história; apenas aqueles que aderem aos valores do liberalismo costumam assumir papéis estáveis. Eles tentam centralizar os elementos intelectuais dos aparelhos privados da hegemonia. Mesmo assim, as universidades públicas continuam sendo centros fundamentais para elaborar o pensamento crítico, como vimos nos movimentos de solidariedade ao povo palestino que surgiram recentemente nas universidades italianas.

Pela sua fala, fica a impressão de que Gramsci hoje na Itália estaria buscando organizar um novo partido de massas como resposta à ascensão da ultradireita. Você concorda?

Gianni Fresu: Acho que sim, com certeza. Para Gramsci, o trabalho intelectual individual, sem filologia e pesquisa rigorosa, torna a organização política impossível; mas a elaboração crítica sem tradução política e direção coletiva não produz transformações. A filosofia deve se traduzir na práxis.

O Brasil é um exemplo positivo de tradutibilidade filosófica porque tenta manter esses dois elementos juntos, enquanto na Itália os estudos gramscianos são avançados cientificamente, mas sem tradução política. Gramsci fala do partido como um “homem coletivo” devido à união dos intelectuais orgânicos que a classe deve produzir. E ser intelectual orgânico não significa apenas um operário que vira parlamentar; significa uma reforma intelectual e moral onde o trabalhador é dirigente de si mesmo, sem delegar passivamente a função política.

E para quem quer se aproximar da obra de Gramsci agora, por onde começar?

É um tema que desenvolvi no meu livro Questões gramscianas. Gramsci é o autor de língua italiana mais traduzido porque explicou a sociedade ocidental de hoje; ele é o teórico da hegemonia. Embora não tenha falado extensivamente do Sul do mundo, ele é referência para os estudos pós-coloniais porque se formou num contexto colonizado e periférico (a Sardenha).

Gramsci entende a realidade a partir da ideia de bloco histórico, uma relação orgânica entre estrutura e superestrutura. O colonialismo e a subalternidade têm elementos culturais, mas sem a dimensão material não existem. Pensar a subalternidade hoje abstraindo a divisão mundial do trabalho e a contradição entre capital e trabalho não produz nenhuma leitura coerente.

É preciso saber onde Gramsci formou suas teorias, porque nos estudos culturais e pós-coloniais existe a tendência de descontextualizar suas categorias e apresentá-las de forma pós-moderna e quase antimarxista, como se fossem apenas dimensões culturais puras. No livro Questões gramscianas, tentei explicar os elos entre esses sistemas para entender por que ele é tão importante para o Sul Global.

Professor, muito obrigado pela entrevista.

Eu é que agradeço pelo convite aos companheiros e companheiras do Brasil. Tenho muita saudade e espero voltar em junho. Um grande abraço a todos.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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