100 anos de Milton Santos

Reprodução (da página do MST)

Por Cidoval Morais de Sousa*

Celebramos, em maio deste ano, o centenário de um dos mais importantes intérpretes da nossa realidade: Milton Santos. Nascido no sertão baiano, sua trajetória espelha a luta do Brasil por voz própria. Geógrafo, foi preso pelo regime militar e partiu para um exílio de 13 anos que o tornou cidadão do mundo. Longe de se acomodar em universidades estrangeiras, usou o distanciamento para construir uma teoria poderosa, a partir do olhar dos vencidos. Seu retorno e seu Prêmio Vautrin Lud (o “Nobel” da Geografia) foram um ato de resistência intelectual. Sua vida foi dedicada a decifrar as engrenagens da desigualdade, tornando a geografia uma ferramenta de transformação social.

É consenso entre os estudam e trabalham inspirados e iluminados pela obra de Santos que a sua contribuição fundamental foi revolucionar o que entendemos por espaço. Para o Geógrafo, o espaço geográfico não é um palco, mas um ator social, formado pela fusão indissociável de “sistemas de objetos” e “sistemas de ações”. As estradas, os prédios, as técnicas só ganham vida e sentido através do trabalho, da cultura e da política que neles se realizam. Esse conceito desnaturaliza a paisagem: a cidade segregada, o latifúndio improdutivo ou a infraestrutura precária não são acidentes, são produtos históricos de escolhas políticas e de uma divisão territorial do trabalho que privilegia poucos. O espaço, assim, torna-se chave para diagnosticar a doença social.

Foi com esse olhar que ele dissecou o Brasil urbano, criando o modelo dos “dois circuitos da economia”. De um lado, o circuito superior, moderno e conectado ao capital global. De outro, o circuito inferior, da economia informal, da sobrevivência e da criatividade popular. Santos mostrou como são interdependentes e desiguais: o superior se alimenta da exploração do inferior, gerando a cidade “perversa” e fragmentada que conhecemos. Essa análise joga luz sobre a favela não como um fenômeno marginal, mas como parte central e estrutural do nosso modelo de desenvolvimento excludente, um território de resistência e luta.

Seu conceito de “território usado” é a expressão mais humanista dessa teoria. É o território vivido no cotidiano, onde as pessoas trabalham, criam laços e resistem. É a geografia de baixo para cima, que se opõe ao “território-recurso”, visto apenas como commodity pelo capital. Na favela, na roça, no beco, se materializam as grandes forças globais. É no território usado que sentimos na pele o que Santos chamou de “globalização perversa”: um sistema que produz inutilidade em massa, concentra riqueza de forma brutal e usa a técnica não para emancipar, mas para controlar e excluir.

Contudo, Milton Santos não era um pessimista. Na mesma globalização que criticava como “fábula” para uns e “perversidade” para muitos, ele enxergava uma “possibilidade”. O mesmo “meio técnico-científico-informacional” que concentra poder pode, se reapropriado pela sociedade organizada, servir para construir uma “outra globalização”, mais solidária. A esperança, para ele, nascia justamente do território usado, dos movimentos populares, da capacidade de os povos subordinados usarem as técnicas a seu favor.

Num Brasil ainda marcado por assimetrias gritantes, seu pensamento nos oferece as ferramentas para entender que a desigualdade não é natural, mas geográfica – ou seja, política. Celebrar Milton Santos é ler/reler suas obras urgentes e assumir seu projeto: desvendar criticamente o mundo para, a partir do chão que pisamos, o território que usamos, transformá-lo. (Voltaremos ao tema)

* Professor e pesquisador vinculado à Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). 

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