Leio “Ponciá Vicêncio,” de Conceição Evaristo. Logo de início, fui cativado pela linguagem acolhedora e profunda, a forma como a autora se refere a fatos por vezes dolorosos sem, no entanto, machucar demasiadamente o leitor. Outra coisa que me chamou a atenção, até agora, é como a autora descreve tanto sentimentos como lugares. Nas descrições pormenorizadas dos sentires de Ponciá Vicêncio, pude reviver aspectos do meu próprio estar no mundo, bem como vieram à minha memória um escrito de Jorge Luis Borges (“Sentirse en muerte”) e um outro de Julio Cortázar (“Del sentimiento de no estar del todo”). Me chama fortemente a atenção que a autora apresenta a personagem como alguém que vive em um mundo feito especialmente, ou quase exclusivamente, de memórias e imaginação, desejo, prazer, sonho. Revivi momentos e lugares da minha infância na Argentina. As casas dos meus avôs. As periferias por onde andei aqui na Paraíba. O Ceará. Crateús. Cuité. Viagem no tempo.
Lembrei também de “Cuadernos de infancia,” de Norah Lange, do poema “Para uma versão do I King-O livro das mutações,” de Jorge Luis Borges, e de “Infância,” de Graciliano Ramos.
Infância. O tempo anterior. Quando a morte não era o horizonte. Quando pude enfrentar o medo da guerra lendo, escutando, lendo, pintando, ou melhor, brincando com cores. A arte foi desde o começo, o meu lugar, e continua sendo.
E nestas lembranças todas, lembrei de mim mesmo. Dias atrás foi lembrado o golpe de estado de 1976 na Argentina, que deu lugar à ditadura mais feroz que me tocou enfrentar, mas enfrentei.
Sou capaz. Posso. Os anos passaram, mas essa criança continua aqui. Estou inteiro. Não me quebrei. Não me perdi.
A sociedade continua em boa medida sendo um lugar de negação do humano. Opressão. Medo. Mentira. Enganação. Alienação. Mas a arte continua sendo um espaço de respiro. Recriação. Refazimento. A pausa para prosseguir.
Lembro ter partilhado neste grupo, algo que continua a me admirar. Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, expressam e vivem a indistinção entre literatura e vida. Ler e viver. Ler é viver. Escrever é ver. Saber. Ser. Fazer. Vida é escrita.
Continuo sendo argentino. Continuo trabalhando para melhorar o meu estar aqui. O meu relacionamento com as pessoas em volta.
Sou terapeuta comunitário, e isto faz de mim alguém que vive em segurança interior. Por que? Porque celebramos a diferença. Celebramos a vida. Fortalecemos o que une, ao invés do que separa e opõe.
O livro de Conceição Evaristo me trouxe para a estação de trem. Tempo unificado.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
