É fascinante como certos esforços para alcançar um objetivo tido como digno e virtuoso implicam, por vezes, no atropelamento de princípios que, em tese, estariam ainda mais acima desse próprio ideal buscado. A contradição não reside apenas nisso, mas no fato de que os próprios preceitos que motivaram tal movimento entram diretamente em choque com os meios ou forma pela qual se procura atingir a plenitude do Bem ou da Virtude.
Há diversos exemplos na história que dão conta dessa questão. Guerras financiadas pela Igreja Católica – conhecidas como cruzadas – buscavam expandir a doutrina no Oriente Médio, especificamente em Jerusalém que, entre os séculos 11 e 13, era controlada por muçulmanos. Milhares de homens foram mortos nessas lutas. E muito provavelmente mulheres e crianças também; ou, no mínimo, sofreram com as agruras típicas de quaisquer embates do tipo.
Para além do fato (especulativo, é preciso admitir) de que, mais do que uma preocupação de origem metafísica ou divina, tais batalhas tenham sido motivadas principalmente pela sede de poder e riquezas, as cruzadas, indiscutivelmente, geraram violência e conflitos entre os seres humanos. E não seria isso algo que Deus reprovaria?
Outro exemplo são os fundamentalismos de toda sorte que, ao estabelecer regras de conduta e estrito posicionamento ideológico visando a um “bem maior”, ou vida ideal e correta para o indivíduo, produzem militantes carregados de ódio, intolerantes para com os costumes e cultura dos demais e, muitas vezes, prontos a sair explodindo os outros e a si mesmos em nome de Deus, Alá e por aí vai…
No entanto, radicalismos não existem apenas no plano religioso. Tomemos um caso bem próximo à realidade do brasileiro, mais especificamente do carioca favelado, que sofre com as incursões da polícia nos morros do Rio de Janeiro. Como ficou bem claro em “Tropa de Elite”, mesmo um policial que busca apenas acabar com o tráfico de drogas – e a violência, por conseguinte – faz uso de uma violência extrema para executar seu trabalho. O exemplo do comportamento fascista provém de obra fictícia, mas é, de certa forma, aplicado à realidade da cidade, pois, de fato, combate-se a violência com mais violência, gerando-se ainda mais violência. E, infelizmente, é difícil não suspeitar se tal estratégia – que, como se sabe, nunca representou mais do que enxugar gelo –, não visa apenas satisfazer o sadismo dos telespectadores, mantendo por trás da telinha a rentável atividade que enche os bolsos de muitos bacanas da Zona Sul e de Brasília.
E o que dizer do nazismo alemão que gerou um dos mais chocantes genocídios da história ou das matanças étnicas que até hoje se dão na África e – com a licença dos que prezam pela hegemonia do holocausto nazista na memória mundial – já levaram à morte muito mais gente que no acontecimento da segunda-guerra? Conflitos que, sem dúvida, eram e são justificados pela busca do bem e da justiça, algo semelhante ao argumento dos imperialistas europeus no continente, que, por sinal, está na raiz mesma de tais batalhas. Aliás, mesmo a travessia de um oceano não altera tanto a lógica: o lema do nosso Comando Vermelho é, vejam só, “paz, justiça e liberdade”!
Certamente esse lema não está longe do que os EUA propõem para o mundo. Não obstante, sua luta contra o “eixo do mal” já foi responsável pela morte de milhares de pessoas e pela freqüente transgressão dos direitos humanos. E os norte-americanos não apenas tem a pretensão de se colocar como os mocinhos da história (os outros são terroristas; são inerentemente maus…), como ainda justificam sua violência, desde os tempos do imperialismo sobre a América Latina, nos séculos 18 e 19, como uma ação que responde a um chamado de Deus, por serem o país escolhido por Ele para “ajeitar o mundo”.
Contradições como essas são possibilitadas e sustentadas principalmente pelo medo e insegurança, sejam estes reais ou simulados e incutidos às mentes da população. Hoje, por exemplo, percebe-se como, em meio ao intenso e agressivo processo de globalização, muitas pessoas sentem-se inseguras e oprimidas – seja moral ou economicamente – ao não conseguir um lugar digno na nova ordem mundial. Assim, acabam recorrendo à parceria e proteção que grupos ou comunidades oferecem. Um aconchego que, todavia, tem um preço. Se muitas dessas pessoas eram vítimas de racismo ou algum tipo de preconceito, elas agora pertencem a um grupo que, invariavelmente, fechará suas portas aos que não se encaixam em seu perfil, seja por razões étnicas, econômicas ou ideológicas.
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É interessante observar como esses conflitos – produzidos pela intenção mesma de serem evitados – podem ser, até certo ponto, relacionados à lógica de funcionamento de nossas próprias mentes, detentora de mecanismos psíquicos tão complexos quanto contraditórios. A constante busca de homens e mulheres por solucionar seus problemas (sejam eles reais ou imaginários; significativos ou não) e realizar, tanto quanto superar, desejos e vontades que lhes assolam, acaba gerando sintomas que, não raro, representam ameaça muito maior à sua integridade física e psicológica do que os conflitos aos quais se buscava fazer frente.
A esse respeito, o psicanalista Raymundo Reis, diz o seguinte:
“Freud aponta que defesas primitivas construídas pelos sujeitos têm, inicialmente, uma razão de ser, enquanto defesas contra um gozo pulsional excessivo; porém com o tempo, passam a ser elas mesmas fonte desse gozo do qual buscavam se proteger. Mutatis mutandis, na esfera social, armas são criadas para defender interesses nobres de ameaças pérfidas e, com o tempo, tornam-se elas mesmas as ameaças pérfidas a serem evitadas, pois seu uso torna-se abusivo, agora possuindo um valor em si e não mais relacionado à realização de ideais, senão da boca para fora – e tome de inventar inimigos em quem atirar. Poderíamos dizer que Freud, desde o início, apontou para o paradoxo de que os próprios sintomas são ao mesmo tempo o que faz sofrer e o que traz satisfação, na medida em que servem a dois senhores: o ego e o “isso”, cujos interesses são contraditórios”.
O corpo, a vida, a política, a economia e a sociedade ideais não podem, portanto, perder o status de referência, modelo ou paradigma. Caso contrário, a armadilha do remédio milagroso gerará, sem dúvidas, mais danos que benesses. E o pior: sempre haverá aqueles que se aproveitarão da ingenuidade e sede humanos pela solução instantânea ou pela eliminação (ou criação) de problemas que estariam por trás de sua própria angústia, esse sentimento de vazio; um nada, que justamente pela Falta gera a impressão de que estamos com algum problema.
