
Dificilmente, no mês de novembro, se assistia a um telejornal ou se lia algum periódico sem que o nome da Favela da Rocinha não estivesse em destaque como manchete do dia. Desde o anúncio oficial de que a Rocinha seria a próxima favela a ser ocupada, a comunidade passou a ser alvo de inúmeras especulações midiáticas.
A notícia de ocupação surpreendeu a todos na comunidade, já que ninguém esperava que ela fosse ocupada nessa reta final do ano. As expectativas midiáticas de que a Rocinha viria a ser o próximo cenário urbano de guerra influenciou as expectativas dos moradores em relação a esse acontecimento histórico na vida da comunidade, que passou a conviver com o medo e com a esperança de dias melhores.
Às vésperas da ocupação, a comunidade em peso saiu às compras num verdadeiro ritual pré-guerra. Quem resolveu sair na “última hora” teve dificuldades de encontrar mantimentos. Na tarde de sábado (12/11) – dia anterior a prometida guerra – as dispensas dos mercados e sacolões estavam praticamente vazias.
Agora era só aguardar a espetacularizada ocupação militar, sob o incômodo silêncio que se apoderou da comunidade com o anoitecer.
A ocupação foi realizada sem que acontecesse um único disparo, para alívio dos moradores. No entanto, o maior feito dessa mega operação para Aurélio Mesquita – diretor da CIA de Teatro Roça CaçaCultura – foi a postura da polícia na abordagem aos moradores. “Interessante nessa ocupação foi que a polícia funcionou como republicana. Pediu licença para entrar na minha residência, olhou nos meus olhos e não me tratou como bandido”, contou Aurélio. Os relatos de abusos autoritários e de saques cometidos por policias, em comunidades que haviam vivido o processo de pacificação, foi motivo de grande preocupação para os moradores.
Destituído o poder paralelo e fixado a presença do Estado, representado por policiais circulando pela comunidade, os moradores tentam retomar a rotina. Claro que é preciso um tempo de adaptação dessa nova relação entre polícia e morador. Contudo, a presença do Estado na comunidade faz surgir o sentimento de esperança de uma nova realidade. Não que se espere que essa mudança seja fruto somente da presença ostensiva da polícia, mas sim de um governo atuante em outros setores sociais e políticos da comunidade.
Para Aurélio, o primeiro efeito positivo dessa ocupação recai sobre as crianças que fazem dos becos e travessas uma área de lazer. “O grande barato dessa ocupação é referente às crianças que, possivelmente, não vão ter mais que conviver com a presença de bandidos fortemente armados e nem com a venda deliberada de drogas. Situação que era assimilada como algo normal em seus cotidianos”, disse ele. O diretor de teatro acredita numa profunda mudança na vida das crianças e dos adolescentes se o governo fizer os investimentos necessários na Rocinha: “A possibilidade de melhorias pode existir, principalmente, para jovens e adolescentes se o governo fizer uma política voltada para formar cidadãos – investindo em educação, esporte e cultura”. Aurélio ainda ressalta a responsabilidade dos educadores e agentes culturais comunitários nessa nova fase da comunidade. “A oportunidade de melhoria também está vinculada a atuação dos educadores e agentes culturais da comunidade, que têm a oportunidade de atuarem com mais liberdade junto às crianças sem o risco de entrar em conflito com facção criminosa”, conclui.
Ocupação ou pacificação?

O Franciscano Benedito Gonçalves – carinhosamente chamado de Frei Dito pelos fiéis da Paróquia Nossa Senhora da Boa viagem, na Rocinha – levantou questionamentos importantes sobre alguns pontos contraditórios na proposta de ocupação, denominada pelas autoridades governamentais como pacificação de favelas.
Para o frei, a intervenção do Estado na vida da comunidade é de extrema necessidade, mas adverte que é preciso questionar essa proposta de paz intermediada pela força armada: “Essa proposta de pacificação tem dois lados. Primeiro garantir a oficialidade; é uma verdadeira aberração comunidades viverem sem a presença do Estado, numa realidade paralela a sociedade. O outro lado é acreditar que a substituição de um grupo armado por outro, só que agora uniformizado, vai garantir a paz”. Ele ainda complementa afirmando que “a verdadeira pacificação só será possível quando se construir uma cultura de paz”.
Frei Dito também chama atenção para a realidade de outras comunidades já pacificadas que ainda não apresentaram nenhum resultado concreto de mudança, além da presença militar. “A lógica da pacificação é de futuro incerto, pois ainda não demonstrou para que veio em outras comunidades já pacificadas”, finalizou.
O fato é que a promessa de pacificação da Rocinha gerou otimismo na comunidade. Aurélio afirma que “a coisa boa da proposta de pacificação é a esperança que se renova”. E adverte sobre as possíveis perspectivas: “Não podemos nos iludir; não sabemos se esse acontecimento é um novo caminho que nos levara ao céu ou ao inferno”.
(*) Cleber Araújo é morador da Rocinha e edita o blog Barraco@dentro.

Algumas vezes fui visitar meu compadre na Mangueira e vi, com a mudança de “comando” a bandidagem passou a utilizar as crianças como seguranças armados, fuzis maior que eles e um grande perigo para os moradores pois não se sabe o que passa pela cabeça de um menor, até que sabemos, quando adquire um poder destes na mão com alguem dando cobertura e influenciando com ostentação.
Tambem vendo noticiários honestos, menos manipulado, não vi nada que significasse mudanças, ainda estamos aguardando, esperamos que haja.