Retórica esquizofrênica

“Vejo uma preocupação dos jornalistas, da imprensa em geral. Não vejo desconfiança da sociedade. Não acho que as pessoas estão duvidando que o Brasil não possa fazer uma Copa à altura das expectativas do mundo”.

A esquizofrênica declaração acima, publicada pela Folha Online, no domingo (20/5), foi dada pelo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, em resposta a questionamentos de jornalistas quanto a atrasos nas obras da Copa do Mundo de 2014, que será sediada pelo Brasil.

Por que é esquizofrênica tal declaração? Porque, se jornalistas – cujo trabalho é trazer informações de interesse público e, portanto, procurar justamente esclarecer as questões que estão na ordem do dia de seus leitores, ouvintes ou telespectadores – estão insistentemente tocando no assunto “atraso de obras da Copa”, é porque entendem que isso é efetivamente algo com que os brasileiros se preocupam.

A frase de Rebelo é também esquizofrênica porque a própria FIFA (que não é flor que se cheire, mas, inegavelmente, possui experiência na organização de copas do mundo) já chamou a atenção do governo para a questão do atraso nas obras de infraestrutura do evento. O tema, inclusive, chegou a gerar situações de mal estar entre representantes da entidade e do Poder Executivo brasileiro, como ocorreu no caso envolvendo o secretário Geral da FIFA, Jérôme Valcke – aquele do “chute na bunda” do Brasil.

Por fim, o pronunciamento do ministro carrega ainda um misto de esquizofrenia e cinismo, pois ele sabe (ou deveria saber) que é difícil encontrar um só cidadão brasileiro – com a exceção, talvez, de uma ou outra criatura absolutamente alienada – que não tenha conhecimento do modus operandi referente à execução de grandes obras públicas neste país.

Atrasos, superfaturamento, licitações tendenciosas, propinas, inchamento orçamentário…Não são poucos os problemas que (quase) sempre aparecem no desenrolar de empreendimentos envolvendo verba pública no Brasil, seja na casa dos milhares, milhões ou bilhões. Afinal, os desvios envolvem desde míseros recursos para merenda escolar a bilionários investimentos em moradias para a população de baixa renda.

O que o ministro Rebelo fez, ao dar essa declaração, foi reforçar a corriqueira prática de políticos brasileiros de usar de (grossa) ironia e escárnio sempre que são confrontados por perguntas mais delicadas, envolvendo temas espinhosos. Trata-se de tradicionais ferramentas retóricas, só que, no caso do ministro dos Esportes, o sofismo aplicado adquiriu um ar um tanto quanto alucinado.

Num ponto em específico, contudo, Aldo Rebelo está corretíssimo: os brasileiros sabem que o país organizará um evento de sucesso. Afinal, somos profissionais em ludibriar gringos. Fazemos coisas “para inglês ver” desde 1810, ano de que datam aqueles tratados com a Inglaterra prevendo ações para acabar com a escravidão, lembram? Pois é, foram “apenas” mais 78 anos para a Lei Áurea ser sancionada no país…

Sem dúvida, a Copa de 2014 será um espetáculo. Só que boa parte do show e suas benesses se limitará ao mês de realização do evento. Depois disso, não há muitas dúvidas sobre os principais legados que ficarão para o país, não é verdade? Anexos de “papelão” em aeroportos; estádios do tipo elefante-branco; rodovias, estradas e sistemas viários com nomes bacanas em inglês (tipo Bus Rapid Transit) que mantêm a hegemonia do transporte coletivo sobre rodas e a diesel  – em vez de modais mais integrados e menos poluidores, etc. e tal.

“E a segurança do evento?”, perguntarão muitos. Isso não é motivo para alarde. No Rio, as UPPs estão aí exatamente para eliminar esse problema – ou alguém acha mesmo que o projeto é uma iniciativa séria e viável em termos de política de segurança pública de longo prazo para a cidade? Ou que elas irão de fato inserir os favelados na sociedade carioca? Ok, pode ser. Mas, só para início de conversa, faltam “apenas” mais umas 1.080 favelas, somente na capital fluminense…

Quanto aos outros estados, basta um aperto de mão com um traficante aqui, um acordo com o bicheiro ali, um acerto com o grupo de extermínio acolá, que tudo ficará numa boa enquanto os olhos do mundo estiverem atentos ao o que acontece no Brasil.

A experiência com o Panamericano de 2007, no Rio de Janeiro, relativamente fresca na memória da sociedade, é um dos indicativos, ainda que numa escala micro, do que deverá ser a Copa por aqui. Bem sucedida, sim, mas com poucos avanços que gerem transformações socioeconômicas estruturais no país.

Esta pode ser uma visão extremamente pessimista, mas não há como negar que exista nela uma razão de ser ou um mínimo de fundo de verdade. Disso, somente os políticos discordarão – se estiverem à frente das câmeras, claro.

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