No começo do ano de 2023 tive sensações de proximidade da morte.
O sentido desta rememoração é o de tentar recuperar algumas sensações que venho experimentando desde então, neste período de recuperação da minha saúde.
Um diário é um espaço de partilha. A princípio íntimo, mas também comunitário.
O que quero é ver com mais clareza, o que é que veio a acontecer comigo nestes já 20 meses de enfrentamento de um tratamento que agora começa a mostrar bons resultados.
O que posso ver agora é que a minha vontade de viver, e a qualidade da vida que levo, melhoraram muito. Isto é o principal.
Não vou entrar em detalhes sobre o tipo de situação de saúde que estou superando, uma vez que não interessam.
O ponto é: o que fazer com a vida que venho recuperando nestes 20 meses? O que fiz e continuo a fazer para ter mais plenitude e felicidade nos meus dias?
Valorizar o riso, o amor, a arte como espaço de criação e transformação. O trabalho comunitário como lugar de segurança e pertencimento. Afetos. Esperança. Construção coletiva. Estes eixos ou focos são os que me vêm dando sustentação, eliminando o que não é meu e deixando apenas o tesouro que sempre me pertenceu.
As sensações de morte, na minha opinião, vieram também do período de retrocesso institucional vivido pelo Brasil nos anos de 2013-2022, até a eleição que determinou o fim do regime de exceção.
O restabelecimento da democracia constitucional, creio que tenha sido um favorecedor forte para que meu corpo e a minha alma, o ser que sou, botassem para fora o que fora empurrado goela abaixo pelo grupo que mergulhou o país na barbárie e no medo.
Seja como for, a vida nova está amanhecendo, brilhando com força e sustentada em laços de afeto, pertencimento e esperança. Isto é o que conta. Daqui pra frente.
A solidariedade que venho encontrando no meu âmbito de pertencimento, é de emocionar. Tudo parece mais precioso. Cada gesto, cada palavra, toda proximidade, tudo ganha um sentido ainda mais belo e profundo.
A minha vida toda vem a mim de volta, como um presente e uma dádiva. Detalhes da minha infância em Mendoza, Argentina. Os valores que me sustentaram desde sempre, reforçados na consciência que fui tendo a partir do momento em que comecei a me ver na perspectiva unificada que hoje visualizo.
Refazer um país e uma pessoa acontecem ao mesmo tempo.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

Rolando Lazarte é muito generoso em partilhar conosco os sentimentos e impressões que lhe envolvem nesses tempos de convalescença e, por certo, de novas descobertas de vida. De certa forma, viver é um continuum de convalescença e, portanto, suas reflexões enriquecem a caminhada de todos nós. Obrigado, companheiro. Nossa torcida para que em breve você se recupere totalmente.
É certo o que você relembra, Martim! Obrigado pelas suas palavras.
A exemplo da Santo Agostinho, no seu famoso livro, As Confissões, a partilha do Prof. Lazarte nos remete a facticidade da vida, de modo que nos provoca a pensar o viver a vida no seu cotidiano.
Obrigado pela sua ressonância, Gedeon.
Bom ter a sua ressonância, Gedeon! Obrigado pelas suas palavras.