Os recentes escândalos de pedofilia praticados por integrantes da Igreja Católica não são exatamente surpreendentes, mas sintomáticos. Na tentativa de se equiparar aos anjos, abstendo-se de qualquer atividade sexual – símbolo maior dos “pecados e desejos carnais” –, aqueles que optaram por seguir uma vida eclesiástica têm de lidar com consequências físicas e psicológicas que repercutem sobre seus corpos e mentes, entre as quais figuram sintomas que podem não ter boa aceitação social.
Segundo Freud, o sintoma é o signo e o substituto de uma satisfação pulsional que não teve lugar; o resultado da moção pulsional tocada pelo recalcamento. Na condição de sujeitos, inseridos no âmbito da linguagem, qualquer dos seres humanos manifesta, ao longo de sua vida, sintomas de toda estirpe, os quais respondem à ação constante dos significantes. Se assim não fosse, as pessoas seriam irreconhecíveis, uma vez que sua própria identidade e singularidade estão relacionadas aos tipos de sintomas que lhes caracterizam.
No entanto, o celibato, por propor um intenso contrato de privação pessoal, tanto em função da impossibilidade de realizar um ato que responde a instintos ou chamados naturais, como o sexual, como por uma série de outras restrições de conduta impostas pelos preceitos católicos – além da recorrência de constante sensação de culpa e busca pelo perdão – pode contribuir para a agudização de determinados sintomas. Isso, claro, combinado com as próprias razões que levaram o sujeito a levar uma vida celibatária.
Não que isso signifique que todos os padres e bispos necessariamente apresentem sintomas como a pedofilia. Tampouco que é o voto celibatário o que gera a perversão. Tal visão seria generalista, ignorante, simplista e até preconceituosa. Mas, no mínimo, em alguma medida, certas reações tendem a se manifestar a partir do momento em que se opta por uma vida tão regrada e fisicamente limitadora. O que de forma alguma impede que muitos padres sejam bons padres e felizes, satisfeitos com sua condição.
Sintomas e sujeitos
Em realidade, qualquer pessoa está sujeita a manifestar sintomas, seja qual for o tipo de vida, profissão e comportamento pelos quais optar. Trata-se de um fenômeno inevitável, recorrente em qualquer organismo que seja complementado por um sistema subjetivo, como é o que conforma nossas mentes. Nem por isso somos todos infelizes. Convivemos com os sintomas, os quais são inerentes a nossa própria constituição física e mental, isto é, à nossa existência como sujeitos, sem mesmo que assim os percebamos. Não por acaso, ao contrário do que muitos pensam, o objetivo da psicanálise não é eliminar o sintoma (embora ela, sem dúvida, seja desejosa disso), mas identificá-lo, localizar suas origens e trabalhar no sentido de torná-lo controlado, de maneira que o paciente possa conviver com ele.
Deve-se discutir, entretanto, até que ponto a formação de sintomas socialmente inaceitáveis como a pedofilia, pode ser evitada. No caso da Igreja, deve-se argumentar que, por mais bonita que seja a idéia, jamais um ser humano poderá equiparar-se a seres celestiais e assexuados. Lutar contra a sexualidade é uma causa perdida: se não for com uma mulher adulta, será com uma criança – a qual, em sua ingenuidade, desconhecimento, reverência pelo pedófilo ou vergonha dos pais, pode simplesmente se calar. Se assim não for, há a possibilidade da masturbação. E, se o desejo sexual não encontrar escape em nenhuma dessas formas diretas, de certo haverá outras maneiras pelas quais se manifestará, seja pela violência, pela reclusão ou pela incapacidade de convivência social, o que, historicamente, foi definido como loucura.
Claro que sempre existe a possibilidade de padres sublimarem seu desejo sexual em sua relação com Deus, o que provavelmente faria deles bons padres; ao menos, aos olhos da sociedade. Mas – o que é tão ou mais comum – pode ocorrer de a pulsão sexual encontrar refúgio em determinadas atividades tidas como positivas, como o estudo, a arte ou o esporte, sob o risco de que sejam feitas de maneira obsessiva, o que, como qualquer outra ação empreendida com exagero, não é sadio para as pessoas.
Animalesco vs. hipocrisia
Diversos casos recorrentes em nossa sociedade podem ser, de certa forma, relacionados aos escândalos que estão deixando o Vaticano de cabelos em pé. Mocinhas evangélicas “certinhas” que dobram a esquina e levantam a saia para o primeiro homem que veem pela frente (aliás, isso já foi tema de novela das oito…); rabinos que, apesar de todo o moralismo pregado, são pegos roubando gravatas em lojas; homens de família, sérios e bem-sucedidos, admirados por todos, mas que pagam por prostitutas seja para relações ativas como passivas. Enfim, o animalesco que existe em todos nós manifesta-se de um jeito ou de outro, embora, no mais das vezes, permaneça oculto, por detrás das cortinas do espetáculo social. Quando aparece, entretanto, é motivo de fortes críticas e olhares de desaprovação por parte, inclusive, daqueles que agem veladamente de forma parecida. É nesse ponto que os hipócritas vão`a forra.
Hipocrisias à parte, a pedofilia não deve jamais ser perdoada e seus adeptos precisam ser punidos, pois, para além das razões físicas e psicológicas, trata-se de uma agressão covarde contra as crianças. E, embora, não seja algo recorrente apenas entre membros da Igreja – muito pelo contrário: há muito mais casos que ocorrem nos próprios lares de família, entre professores e alunos, etc. – cabe a crítica à obrigatoriedade do celibato eclesiástico, bem como aos diversos “celibatos sociais”, isto é, às castrações sofridas pelas pessoas devido às convenções quanto a comportamentos, à conduta moral e ética que devem ser adotados, além do próprio modelo de vida que se convencionou levar na sociedade capitalista ocidental, que privam, em alguma medida, a liberdade de exacerbar as mais profundas reverberações da sexualidade humana.
Pode ser equivocado dizer que o celibato é fundado na hipocrisia, mas, sem dúvida alguma, a hipocrisia é celibatária – em todos os sentidos. Daí a falta de vida que há no ideal perseguido pelo hipócrita, que não aceita ou deixa espaço para os sintomas, os quais são as conseqüências mesmas e os agenciadores de tudo em que o ser humano se diferencia do animal irracional…ou de zumbis.

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