Opção pela vida

Tenho me dedicado desde bem cedo, a cuidar da vida.

Toca-me profundamente o mistério do viver.

Respirar, pulsar, sentir, ver, amar, criar, alguns dos milagres da existência

E o viver em si, o haver vida na terra, é o que continua a me surpreender profundamente

Tanto quanto o avesso, o fato de haver quem mate

Quem dedique força, tempo e dinheiro, para matar.

Tocou-me desde bem pequenininho, sentir de perto a proximidade da morte

Recuperando esta memória, descobri o que foi que me ajudou a estar aqui

Como foi que consegui viver e me manter vivo e ativo, saudável, e com esperança na construção coletiva, na comunidade, na humanidade

Foi um conjunto de estratégias.

Descobri que não estava nem estou sozinho. À minha volta, há incontáveis pessoas que passaram e passam por situações semelhantes

Nessa companhia, que começou no seio da minha família, fui fazendo o caminho de volta

O Brasil encara de frente, hoje, a sua própria história

Olhar de frente é, de fato, o mais valioso

Ver o que há, o que é, o que está aqui, o que está havendo

Na Argentina, onde nasci, a fome não era um problema tão grande quanto no Brasil

Descobri que a fome era e é uma decisão política.

Combati contra a fome, incluindo gente e me incluindo com a gente

Abrindo um lugar para mim no mundo

Estudando, escrevendo, publicando. Trabalhando, como a maior parte dos mortais

Aonde quero chegar?

Aonde estou. Na manhã de 7 de setembro

Na revista Consciência, um lugar de refazimento

Uma pessoa se refaz quando é acolhida

Quando somos aceitos, começamos a ver que temos valor

Eu lutava para me livrar do que em mim ficara como consequência de uma ditadura que assolou a Argentina entre 1976 e 1983

Aqui encontrei um espaço para vir a tona. Fui valorizado. Fui aceito

Exclusão social é o pior crime. A pior violência

A fome mata, mas a exclusão ainda mata mais do que a fome

Você enganar as pessoas, imbecilizá-las, plantar ignorância e abestalhamento, são crimes sem perdão

O Brasil está saindo de um trajeto de humilhação e destruição que fora implantado pelas elites dominantes

Hoje é dia de juntar forças para levar até o fim a imprescindível justiça que tanto demorou em acordar

Refazer a esperança. Saber que todos e todas, toda pessoa humana, toda comunidade, tem o direito de existir.

Fazer justiça não é apenas cumprir a lei que obriga a toda pessoa deste país a se responsabilizar pelos seus atos

É também assumir plenamente a responsabilidade por estarmos vivos, vivas

E o que é isso?

Amar sem reservas, abertamente, honestamente, limpamente, à luz do dia, sem medo

Amar a si mesmo, a si mesma

Estou chegando a esta última fronteira

Me aceitando. Isto aconteceu recentemente em um curso de formação em Técnicas e Vivência de Resgate da Autoestima, em Cuité, PB.

Atividade do MISC-PB (Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba), em parceria com a UFCG.

Aceitar a pessoa que sou, do jeito que sou. Desativada a violência interior, deixo de ver o outro como uma ameaça.

É preciso erradicar a violência

É um trabalho progressivo e contínuo

A vida é muito curta. De fato, já muita gente querida morreu

E os que ainda estamos aqui

Temos o direito de existir

Em paz

Sem ameaças

Sem abusos

Sem impunidade.

É isto.

Ilustração: “Pontos de luz”

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