Passaram-se já 33 anos desde o dia em que os militares argentinos deram início ao genocídio de 1976-1983. É um exercício recorrente, diário, o reviver daqueles fatos, daqueles atos. “Uma ostra que não foi ferida, não produz pérola”, diz um dos pilares básicos da Terapia Comunitária, a resiliência.
A ferida de 1976-1983 foi de um tamanho e profundidade, de uma natureza tal, que pode ser comparada ao que ocorreu com a consciência e com a vida diária dos índios que povoavam estas terras, quando da chegada dos conquistadores. Foram quebrados todos os padrões, todos os parâmetros de humanidade. Desde o Estado, desde o poder político, a bandeira argentina se tornando símbolo aterrador da matança, do extermínio.
Campos de concentração e centros de tortura, desaparecimentos que ultrapassam a cifra de 30.000 pessoas, mentira sistemática sobre o destino das pessoas que sumiam. “Deixe vir essas memórias de dor, e que o seu anjo da paz o guie”, disse uma vez Dom Fragoso, quando lhe comentei estes fatos.
Na Terapia Comunitária, que vim conhecer em 2004, pude compreender que não havia tamanho de dores, que a minha não era a maior dor do mundo, uma da qual sequer poderia falar, porque ninguém compreenderia. Compreenderam, seguem compreendendo. Todo mundo compreende. Encontrei mães que perderam filhos, gente que vivia no terror doméstico por causa da violência produzida pela bebida. “O que tens feito da tua dor, tens apenas sofrido, ou tens crescido com ela?” Esta é uma pergunta que ouvimos nos encontros e formações da Terapia Comunitária.
Durante anos, me culpei e puni por ter sobrevivido. Hoje, compreendo que era um destino sobreviver. Era necessária essa dor e o amor que nos foi sarando e segue nos sarando diariamente, para irmos recuperando, aos poucos, cada dia um pouco mais, a normalidade da vida, essa alegria pura e sã da criança interior que começa a voltar, a ter o seu lugar, a saber que tem direito de existir.
O genocídio de 1976-1983 deixou tarefas para os argentinos, e aqui apenas tento esboçar algo do que vou apreendendo graças a esta tecnologia de cuidado que me retirou da depressão e da autopunição, bem como o vem fazendo com pessoas das classes humildes do Brasil e da América Latina às quais me somei e com as quais sigo trabalhando nesta eterna luta diária por sermos mais felizes, mais plenos, não a pesar, mais graças aos golpes recebidos. Isso é resiliência, a carência que gera competência.
Um modelo que gera autonomia (Paulo Freire, Pedagogia do oprimido) ao invés de dependência. Uma sociabilidade e uma esperança que se constroem entre todos e todas, de maneira circular, horizontal.
Tudo que os genocidas não queriam. Um dia, irei olvidar, espero, mas não tenho certeza, esse extermínio que ainda e muito, visita meus sentimentos. Tenho certeza de que há de estar visitando as vidas de muitos e muitas.
No plano da antropologia cultural, outro dos pilares básicos da Terapia Comunitária, vem a tona alguns aspectos: a necessidade de compreendermos as coisas no seu contexto, descobrir que a mente mente e ue você cria a sua própria história, a sua própria versão dos fatos; valorizar a cultura, os valores pessoais, locais, nacionais, humanos em sentido amplo; valorizar a sua própria história familiar, o que foram os seus antepassados e os seus conterrâneos e conterrâneas. Estas são apenas algumas lições que quero partilhar com os leitores e leitoras. A tarefa é contínua, e esta é a primeira vez que faço pontes entre estas duas realidades fundamentais da minha vida, apontadas no cabeçalho deste escrito.
Sei que estas observações são rudimentares, e demasiado pessoais, mas por algum lugar há que se começar.

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

Rolando, meu querido irmão
Li o seu texto e o senti carregado de humanismo por todos os lados, aliás, esse é o seu traço característico.
Em grupos de ajuda mútua aprendi que os problemas, as frustrações que enfrentamos devem ser oportunidades para crescimento. Você está utilizando essa prática de maneira extraordinária. Não senti o “aterramento” de uma situação de terror vivida no passado, ou seja, o querer soterrar o que aconteceu, não, você a relembra, pois trata-se de uma experiência vivenciada, e dessa recordação você procura retirar meios de crescimento.
Continui, meu irmão, expressando suas experiências que vai lhe fazer, e a nós também, um grande bem.
João Fragoso
Bendito destino, Rolando, sobreviver um homem como você, capaz de traduzir com a força das palavras a terapia comunitária capaz de nos regenerar, porque a vida quer prevalecer. Vejo no seu testemunho pessoal, abraçado aos que sofrem, e que não conseguem expressar sua dor, a vida prevalecendo, como a animação contagiante dos pássaros que nos avisam que saem toda a manhã a procura de um alimento para uma fome completa.