NOTAS PARA UMA REFLEXÃO NUMA SEGUNDA DE OUTUBRO

O Brasil é um país-laboratório para muitas coisas, inclusive para reflexões. Lembro-me de um artigo escrito lá pelos idos de 1994 do psiquiatra Jurandir Freire Costa sobre dois acontecimentos daquele momento. Um era a morte de Airton Sena e toda a propaganda melodramática feita em torno da figura. Galvão Bueno e sua musiquinha a frente do cortejo. A outra foi o atropelamento de uma mulher negra, pobre e empregada doméstica que foi morta em uma via pública do Rio de Janeiro e vários carros passaram por cima da mulher sem misericórdia do corpo já morto.

O titulo do artigo: “Por quem para o Brasil?”. Perguntava-se perplexo o autor e ele mesmo respondia: para aqueles que a mitologia das classes dominantes assim quiserem que pare. No País-laboratório que o Brasil é, a história con tinua. Os jornalistas e intelectuais de plantão das classes dominantes deste imenso país continuam a criar e alimentar os seus “mitos” sempre que mais uma figura deles morre. Uma história é imediatamente apagada para que outra entre em cena.

Figuras que serviram a ditadura brutal que este mesmo país viveu não a tanto tempo atrás e que foram seus colaboradores e colaboradoras de plantão deixam de ser o que foram para passar para a história como figuras de alta relevância pública. Esta operação é feita em bloco. Programas de televisão de melodramatismo abjeto, revistas de fofocas ou de simulacro de jornalismo, depoimentos de “intelectuais”, artistas, bajuladores, etc. viram fonte historiográfica da noite para o dia e uma outra história é não-contada. Interessante operação. Esta é a grande jogada dos discursos dominantes.

Apagar a memória e sempre repor “mitos” para alimentar às camadas populares. Mas como dizia o filósofo Walter Benjamin: “Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela”. Por isso se faz necessário mais que nunca mudar este foco da história e entrar nas disputas interpretativas armados com o instrumento da crítica para desmistificar os discursos e os métodos das classes dominantes que são propalados diariamente pelos seus escribas (universitários, televisivos, jornalísticos, bobocas).

Pois, “Assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura” (W. Benjamin). Sempre que morre uma figura cultuada pelos escribas das classes dominantes deste país, se faz necessário uma operação histórica do ponto de vista dos de baixo para averiguar os ditos e efeitos, fazer e “escovar a história a contrapelo” (W. Benjamin).

Precisamos entender que a forma como lemos a história e os meios que veicula m as suas noticias não são neutros e quando criam suas “fantasmagorias míticas” sobre a vida de pessoas das classes dominantes depois que morrem tem por objetivo fazer com que outros reproduzam as mesmas fantasmagorias ao máximo possível. Vemos isto em informes, reprodução de noticias e supostas comoções em e-mail, redes sociais, facebook, etc. A história na versão dos dominantes esta sendo contada e repetida e nem sempre refletida. Mais uma vez as sabia palavras de Benjamin: “A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores”.

O autor é professor no Departamento de Filosofia da UFS

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