Alguém já haverá observado as semelhanças entre “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, e “Batman, o cavaleiro das trevas”, de Christopher Nolan? Inicialmente, ambos os diretores se inspiraram no noticiário real para criar suas obras de ficção. Além disso, tanto numa quanto noutra película, os cidadãos “de bem” estão ameaçados pela criminalidade associada à extrema corrupção das altas esferas do poder público. Coringa – explicação psicanalítica para o crime – e o miliciano Rocha – solução da criminologia clássica para explicar os motivos que levam ao desvio de caráter – são a encarnação do mal, seres frios e calculistas que não medem esforços para terem seus objetivos atingidos. Para freá-los somente a intervenção dos incorruptíveis e infalíveis Batman e Nascimento. Estaria a nossa Gotham City a salvo?
Em certo momento desacreditados pela opinião pública, nossos heróis não desistem de fazer o que acreditam ser o “bem” e livrar a população de suas cidades do “mal”. Para isto, contarão com o auxílio luxuoso do promotor público Harvey Dent e do deputado Diogo Fraga, representantes do lado “ficha limpa” do Estado. Outra semelhança: se Dent e Bruce Wayne, assim como Nascimento e Fraga, unir-se-ão na luta contra o crime, inicialmente deverão resolver suas rivalidades amorosas. A mensagem é clara: entre o amor e a missão de levar a paz à socidade, o herói sacrifica a própria individualidade em nome da coletividade. Nada há de mais raro em nossos tempos.
Se os dois filmes parecem obras mais amadurecidas no sentido de elevar a discussão sobre a segurança pública a um nível estrutural, o maniqueísmo permanece. Em um momento de eleição presidencial, quando cada candidato apresenta-se como aquele líder messiânico “que irá nos redimir” de todos os males, “Tropa 2” e “Batman” também dão indícios de que ainda esperamos pelo salvador. Tanto a personificação da corrupção no mafioso chinês, no bandidão patológico, no apresentador reacionário, cínico e corrupto, no miliciano cruel, ou no político ambicioso, quanto a representação do justiceiro mascarado e o policial honesto, que lutam contra o “sistema”, parecem reducionistas.
O espectador que vê a esperança no semblante do herói e aplaude a sequência em que Nascimento espanca o secretário de segurança envolvido no esquema das milícias pode não observar que ambos os roteiros apresentam o crime como conseqüência de comportamentos desviantes de uma pessoa ou grupo político dominante seduzido pelos benefícios de poder. Esta sedutora explicação desconsidera que o crime pode ser relativo (por que a luta contra o comércio varejista de drogas é a prioridade das políticas de segurança pública no Rio há, pelo menos, três décadas e não a venda – legal ou ilegal – de armas, que, de fato, ocasiona todas as mortes diariamente estampadas nos jornais?). Além disso, explicar o comportamento “anormal” através da caracterização de grupos sociais específicos desvia o foco das pequenas ilicitudes permissíveis ou ignoráveis aos olhos de grande parte das pessoas, como subornar um guarda de trânsito, dirigir embriagado, avançar o sinal vermelho, comprar um DVD pirata, ou mesmo urinar na calçada.
Por que não roubamos um banco? Não é pelo fato de não querermos todo aquele dinheiro. Mas sim, porque nos acostumamos com as normas sociais estabelecidas desde antes de chegarmos a este mundo. Como observa James Wilson, em “Thinking about crime” (1975), se um carro velho está abandonado na esquina do seu bairro, você irá depredá-lo? Possivelmente não. Mas se uma pessoa, branca, loura e bem vestida como você, começa a destruí-lo, como num ritual lúdico, a tendência é que, ao notarem que ninguém se importa com aquele veículo fora de uso, mais pessoas se juntem a ela, como numa brincadeira de malhação do Judas.
“Batman” e “Tropa 2” são exemplos bem-sucedidos em termos de público pelo seu apelo à justiça, uma catarse social em favor de uma moral estabelecida que repudia o enriquecimento ilícito, o crime e a violência. Batman/Nascimento representam eu e você, que seguimos as normas aceitáveis para alcançar as metas estabelecidas dentro de uma sociedade capitalista, indignados com tantas mortes de inocentes, escândalos de corrupção e desigualdade social. Coringa/Rocha são os desviados, aqueles que buscam as mesmas metas que nós, mas que não aceitam o caminho definido como “certo” e recorrem a seu repertório de práticas moral e socialmente condenáveis. No entanto, vale a pena perguntar se, na “vida real”, tais práticas são privilégio de certo grupo social ou se são, ao contrário, parte de nossa sociabilidade, cada vez mais banalizadas e toleráveis.

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Muito bom o texto. José Padilha não é Eduardo Coutinho ou João Moreira Salles. Para reflexão mais profunda sobre o tema recomendo “Notícias de uma Guerra Particular”, sobre o mesmo BOPE.
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