“Max Weber, ciência e valores,” uma pequena história

No ano de 1993, defendi na FFLCH-USP a minha tese de doutorado, intitulada “Simpatía pelo Daimon: Max Weber, ciência e valores”. Nela, tentei aprofundar no que me parecia que a sociologia oficial deixava de fora da pesquisa científica e da prática acadêmica: o lado interior do sujeito, os valores, as crenças, o sobrenatural e divino, o irracional. Mais ainda, foi uma espécie de acerto de contas, um desabafo, de anos de suportar uma frieza, um mercantilismo no âmbito da minha profissão, tão distante do que para mim é a vocação sociológica.

Dessas indagações, que de início cobriam um leque amplo de autores e temas, intitulada “Claro-escuro: repensando o paradigma da sociologia”, nasceu um livro que se chama “Max Weber: ciência e valores”, editado pela Cortez em São Paulo. Não sei que direções terão tomado a sociologia oficial e o seu racionalismo estreito, o intelectualismo academicista que critico nesse livro. Mas penso que continua vigente o apelo de Max Weber, a escuta do Daimon que dirige os fios das nossas vidas, o fio condutor da minha pesquisa no doutorado. Agradeço ao meu orientador, o Prof. Dr. Sedi Hirano, a generosidade com que me acolheu na tarefa acadêmica, e a sua sapiència em me indicar os caminhos para alcançar esse Weber escondido que consegui explorar na minha tese e no livro subsequente.

Continuo achando que a escuta do Daimon é um dos maiores desafios que devemos enfrentar como seres humanos desta época tão incerta: a escuta interna do nosso próprio espírito, desse deus interior que nos fala de diversas formas. Da minha parte, e a título de conclusão esta breve consideração, posso dizer que tive a sorte de deixar o âmbito dito acadêmico, para me somar a um movimento social, ou dois, melhor dizendo: o da Terapia Comunitária Integrativa, criado por Adalberto Barreto, e o grupo de estudos, reflexão e ação social Kairós-Nós também Somos Igreja. Um e outro convergem na valorização da pessoa humana, sua auto-estima e o empoderamento subsequente.

Creio que o apelo de Max Weber continua vigente. Continua fazendo sentido que a pessoa se pergunte qual é o rumo que há de dar à sua vida, quais os valores que hão de direcionar os seus atos, internos e externos.

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