Por Fábio Nogueira e Amanda Heloísa,
Sou estudante de história e ainda tenho muito que aprender com professores e demais pessoas. Estudar o Brasil e sua gente me faz fazer muitas reflexões sobre qual país queremos para as demais gerações.
O momento político do Brasil é delicado, estamos decepcionados com o rumo da economia e com a atual mandatária do país. Por outro lado, a mesma decepção está dando vazão ao ódio político semelhante a outros presidentes da república que centralizaram seus governos no trabalhador e demais grupos que não tinham vozes . Claro, isso atiça a raiva em outros grupos sociais que não aceitam e nunca aceitaram dividir seus espaços sociais com outros grupos mais desfavorecidos.
Nunca vou esquecer do depoimento de um manifestante na última manifestação de 2015, quando sem nenhum pudor disse que esse governo numa década e meia no poder tem dado privilégios demais aos pobres. O mesmo sentindo de ódio semelhante nos governos de Getúlio Vargas e João Goulart.
Esses dois governos promoveram processos de desenvolvimento econômico focando o trabalhador como principal ator social . Qual a reação das classes dominantes? Ódio visceral da atualidade, não deixa adesejar o que foi no passado. O queijo muda várias vezes de forma, os ratos não.
Não sejamos inocentes, o partido do governo errou e errou feio. Mas me digam qual foi o governo que não foi corrupto em menor ou maior grau de corrupção? O senso comum disse que nos governos dos militares nunca houve roubo. Será que somos tão inocentes em acreditar numa falácia tão berrante como tentam passar para nós? Quem seria o herói de denunciar tanta roubalheira naquela ocasião? Não querendo fazer comparações, porém os ratos da ditadura encheram suas barrigas com o alto poder de concentração de riquezas durante as primeiras décadas de 70. É bom lembrarmo-nos que desenvolvimento econômico não é acompanhado por desenvolvimento social. Hoje é semelhante aos governos de Vargas e Jango: os oitos primeiros anos do governo Lula foram pautados por um programa de inclusão social, onde o combate à desigualdade social foi o seu forte.
As ratazanas ficaram com muito ódio, e junto a milhares de teleguiados não sabendo o porquê regurgitaram palavras de ódio, segurança e preconceitos.
http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2014-03/milagre-para-uns-crescimento-da-economia-foi-retrocesso-para-maioria
http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/corrupcao-e-a-ditadura-militar
Em mais de trinta anos de redemocratização, nunca testemunhamos tanta onda de ódio. Na metade da década de oitenta, o plano Cruzado deixou o país sem gêneros básicos para o nosso dia a dia, a inflação era mais de 50% ao MÊS, nem por isso não houve sentimento de ódio contra o ex-presidente José Sarney. Igualmente aconteceu com Collor de Mello. No auge do processo de cassação de seu mandato, o sentimento de raiva e preconceito não era tão forte.
Certa vez, o antropólogo e educador Darcy Ribeiro afirmou que o país possui uma das mais conservadoras e reacionárias classes dominantes do mundo. Essa classe tem como meta um Brasil voltado para suas vontades e privilégios. Abrir mão da divisão de bens e direitos é insulto.
Os acontecimentos recentes da política brasileira instigam reflexões importantes a toda sociedade. A História testemunha nos sucessivos governos os conflitos de interesses entre os privilegiados socioeconomicamente, com prerrogativas de raízes escravistas, e os que foram historicamente marginalizados e reivindicam devidamente os seus direitos.
A tradição do trabalhismo, os partidos de esquerda e os movimentos sociais foram e são de fundamental importância para empoderar os socialmente excluídos: a classe trabalhadora explorada pelo capitalismo neoliberal e os grupos oprimidos pelas vertentes conservadoras.
A História não é cíclica, não se repete, mas os métodos tiranos são constantemente reaproveitados. Percebe-se isto com as atuais perseguições ideológicas aos livros que integram o PNLD, projetos como o ‘Escola Sem Partido’, o recente ataque à sede da UNE, a invasão da PM-SP a uma reunião sindical, as manifestações clamando por intervenção militar, a prisão arbitrária de uma liderança política… Entre outras medidas.
Os golpes de Estado, portanto, como a atual tentativa de depor um governo legitimamente eleito, não são uma histeria coletiva ou apenas uma preocupação com os rumos da economia (que sim, é alarmante). Mas um claro propósito de calar as vozes e as conquistas que o atual governo proporcionou às classes oprimidas pelas elites. Não há motivações patológicas, mas sim o interesse de conservar a subordinação, mesmo que seja preciso ferir a democracia.
Quem pratica a corrupção deve ser punido. O partido que preside necessita fazer urgentes autocríticas, pois o legado é permanente mesmo que a detenção do poder seja transitória. A ascensão do proletariado não se faz apenas pelo aumento do poder de compra, é preciso retomar as alianças com os movimentos sociais e suas respectivas reivindicações. Há muito a continuar sendo feito durante esta gestão.
No momento, os posicionamentos estão ainda mais exaltados. Contudo, é preciso sustentar que, concordando ou discordando do governo petista, clamar pela deposição da presidenta da República que ocupa este cargo legalmente é amanhecer em um 1° de abril de 1964.
(*) Fábio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro.
E-mail – historiadorfabioucb.49@outlook.com
Amanda Heloísa é formada em história pela universidade Castelo Branco.
Foto: guerrilheirodoanoitecer.blogspot.com
