Cuba: Medidas de 'relaxamento'

Um autêntico mojito cubano (Foto: reprodução)

Um autêntico mojito cubano (Foto: reprodução)
Um autêntico mojito cubano (Foto: reprodução)

O mundo cor-de-rosa dos noticiários começa a me assustar. Informações importantes (só pra complementar):
1. ‪Cuba‬ já recebia a visita de milhares de norte-americanos por ano, assim como os EUA também recebia a visita de milhares de cubanos que iam visitar parentes, estudar, trabalhar temporariamente etc. Eu mesmo conheci, em Havana, um novaiorquino muito simpático que já tinha ido 11 vezes ao país, e me explicou como e porquê americanos visitam Havana. Um dos motivos: obter tratamento de saúde de qualidade, sem custo.
2. Cuba não muda seu regime, que continua uma excelente democracia socialista, democracia pra valer mesmo, com discussão da política no bairro — quem puder visite e converse com as pessoas. Fiquem tranquilos: não mudará tão cedo, visto que as pessoas têm uma forte cultura democrática e um sistema político muito bem estabelecido. E jornalistas internacionais de todas as agências de notícias do mundo trabalhando livremente para contar isso, como quiserem, inclusive manipulando grosseiramente.
3. Abre, com cautela, a economia nos últimos anos — o que nada significa perto do grotesco embargo do vizinho neurótico, é isso o que atrapalha. Até agora não foi anunciado o fim do embargo, apenas um “relaxamento”. Mais charutos e rum? Tem mais, só que por enquanto é pouco.
4. Foi-se o tempo em que os EUA mandavam e desmandavam; a decisão da Casa Branca é consequência natural do óbvio, já aceito por quase todos os países do mundo e todos os organismos internacionais do planeta. É um “manque-se” global.
5. Mercado consumidor? Por favor, né? São 11 milhões de pessoas, dos quais muito menos são consumidores e a maioria já ficaria imensamente feliz com mais produtos franceses, chineses e alemães, que são alguns dos principais parceiros do país. Basta pôr fim ao embargo, porque empresas inclusive de outros países não terão mais receio de negociar com os cubanos.
6. O país não é uma “ilha socialista” que “se perderá” frente ao “avanço do capitalismo”. Cuba tem valores fortemente socialistas, mas pra isso são necessárias pessoas solidárias e coletivistas. Esse é o maior patrimônio de Cuba, mudar isso levaria uns cem anos, no mínimo.
7. Agora, o que de fato mais me assusta é pessoas prevendo “melhorias” em Cuba após o anúncio de hoje, que de fato é histórico por outros motivos.
Não basta ter a melhor saúde das Américas e ser o país que mais enviou médicos para lutar contra o ebola (segundo a OMS), ter acabado com a fome (segundo a FAO, e desde os primeiros anos da revolução), ser um país livre do analfabetismo (segundo o UNICEF), uma ciência comprometida com o povo (segundo a UNESCO) e um dos melhores sistemas de educação do mundo (segundo a UNESCO e o Banco Mundial).
Nada disso adianta. As pessoas querem “melhorias”. Em vez de ficarmos disfarçando, chama logo essa tal de “melhoria” de capitalismo, só pra sermos mais honestos e diretos no debate, pô. Que coisa.
8. Mas podem desanimar os capitalistas mais apressados: a única competição que o povo cubano adora é a exercida nos esportes, uma estratégia do país seguindo o preceito da OMS de que cada dólar gasto no esporte para a infância e a juventude são 3 dólares a menos gastos em saúde pública. E, em se tratando de esportes, se o negócio é competir. cuidado: com sua diminuta população, os cubanos são notáveis ganhadores de medalhas olímpicas.
9. Problemas? Claro, como qualquer país, a maior parte tive o prazer de ouvir atentamente da boca deles, um povo lindo que luta pelos seus direitos. Curiosamente são ligeiramente diferentes do que sugerem os neuróticos de plantão. Mas uma dica: olhe para os lados, pela janela mesmo por exemplo, que a coisa tá muito, muito pior. Seria ótimo se começássemos com o dever de casa, que isso estamos devendo brabo.
10. Se você continua estressado com a ameaça comunista, uma dica valiosa: pegue um avião para Havana, vá até a cobertura do Hotel Ambos Mundos (o mesmo no qual ficava hospedado o Ernest Hemingway) e peça um delicioso mojito e um charuto da marca Cohiba. Você vai se sentir muito, muito melhor. Não tendo dinheiro, fazer o mojito é terrivelmente fácil e já vai ajudar bastante no processo, como diz o Obama, de “relaxamento”.

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