
Carlos Alberto Lungarzo
Anistia Internacional (USA)
Reg. 2152711
A doutrina e a prática dos Direitos Humanos não se confundem com a teoria e a prática política e, ainda menos, com uma prática política partidária focada em problemas da obtenção ou preservação do poder. Por isso, é suspeito quando ativistas dos DH se embrenham em defensas ou ataques tendenciosos de partidos ou governos.
Entretanto, seria um reducionismo exagerado pensar que os DH devem ser tratados de maneira puramente abstrata e que deve evitar-se toda contaminação com a política. Quase todo ativista sério dos DH arrisca sua segurança pessoal e sua vida com bastante freqüência. Seria uma “frescura” (peço perdão pelo vulgarismo, mas não consigo pensar em outra palavra) recusar-se a discutir assuntos de cruzamento entre política e Direitos Humanos, por medo a ser considerado conivente com alguma forma de establishment.
É por isso que, contrariando minha tendência habitual, quero referir-me a um problema político. Isso não tira minha condição de membro de AI, mas reitero que não falo em nome da minha organização.
Durante um evento acontecido o sábado 10 de abril, a candidata Dilma Rousseff, de acordo com as transcrições da imprensa, teria dito o seguinte:
“Eu não fujo quando a situação fica difícil. Eu não tenho medo da luta. Posso apanhar, sofrer, ser maltratada, mas estou sempre firme com minhas convicções. Em cada época da minha vida, fiz o que fiz por acreditar no que fazia. Só segui o que a minha alma e o meu coração mandavam. Nunca me submeti. Nunca abandonei o barco”
Eu não sei se a frase da candidata foi tirada de contexto, nem gosto deduzir resultados de premissas que não estão explícitas. Celebro a imaginação de poetas, artistas e teólogos, mas acredito que, nos fatos concretos da vida real, devemos nos guiar por critérios objetivos.
Para mim, e para qualquer outra pessoa isenta, honesta e racional (que, acreditem ou não, são a maioria do planeta, embora às vezes nossas mentes sejam poluídas pela mídia), o que a candidata disse foi muito claro: que ela é fiel a suas idéias, que se arrisca por elas, e que não se acovarda quando a situação é difícil (frase embutida na metáfora de “abandonar o barco”).
Mesmo sendo o que Lênin chamava “massa se partido”, sou uma pessoa comprometida com a realidade, e não tenho nenhuma dúvida que, pelo menos no passado, a afirmação da candidata é correta. Somos da mesma geração e eu e meus amigos nos confrontávamos com os militares argentinos em 1970, na época em que os irmãos brasileiros se confrontavam com os deles. Isto, então, não seria em princípio nenhuma inverdade. O que Dilma fará no futuro, dentro ou fora do poder, não sabemos.
Em meu caso particular, tanto por ser ativista de DH como uma pessoa que esteve muitas vezes exilado, considero imprescindível fazer algumas observações.
Abandonei a Argentina duas vezes, durante outras tantas ditaduras, trabalhei junto à Unidade Popular no Chile, e saí daí em 1973, quando vi que a alternativa era morrer sem prestar nenhuma utilidade a meus colegas revolucionários. As bases da Unidade Popular não tinham sido armadas para resistir o golpe e, por tanto, ter insistido na luta era apenas o suicídio, no caso dos militantes desconhecidos como eu, cuja morte não teria servido de estímulo para outros, como acontece com os líderes.
Não há nenhum indício de que o comentário de Dilma Rousseff seja uma acusação contra os exilados de qualquer índole.
Talvez alguns achem que meu português não é suficientemente bom, mas, para não correr riscos, fiz traduzir o texto ao espanhol por um colega brasileiro.
Venho de um país famoso pela crueldade de suas elites desde há dois séculos, e conheço quase toda América Latina e parte da Europa. Sei que o pensamento e a linguagem suja são as maneiras mais fáceis de manipular a opinião pública de todos os políticos comerciais: uns falam de Deus, outros falam de liberdade, todos falam de democracia, mas a maior parte das vezes esses slogans são apenas de um jogo triste e doentio para caluniar os adversários.
Bom, quero dizer que, apesar de toda minha experiência como espectador de políticos infames em muitos países, fiquei surpreso pelo cinismo da reação contra a mensagem da candidata. Mesmo uma mente muito tortuosa, deve esforçar-se para encontrar na frase de candidata Dilma uma atitude de desprezo em relação com os exilados. Não há nada no texto que deixe pensar nisso. Ela fala de si mesma, e depois diz que ela não é das abandonam o barco, o que significa: abandonar a causa, mas não significa abandonar um local geográfico.
A história é riquíssima em exemplos de pessoas que abandonaram seu país para continuar lutando por suas causas desde o exterior, onde poderiam fazê-lo com mais eficiência. Toda América Latina, em particular, está cheia dessas figuras, como José Marti, Jacobo Arbenz, Ernesto Guevara de la Senra (dito Che), Emiliano Zapata e muitos outros. O próprio Bolívar esteve algum tempo exilado e, embora este caso seja repudiado pelo ódio dos neofascistas contra Chávez, me deixem explicar que Bolívar é anterior a Chávez. Alguns políticos deveriam apreender que inteligência e informação, mesmo em doses modestas, podem ser mais úteis do que calúnias.
Então, encontrar nas palavras da candidata críticas aos exilados seria um exercício de fantasia (ou de delírio) se no fosse uma forma baixíssima (inclusive para o teor das diatribes eleitoreiras) de utilizar a imagem dos que fomos exilados, para usá-la com fins demagógicos.
Devo dizer que, como várias vezes exilado, sinto nojo e desprezo por pessoas que pretendem usar nossos sentimentos de ex-perseguidos para manipulá-los em contra de outros candidatos, porque não têm argumentos limpos.
Quero incluir uma nota pessoal: quando me exilei da Argentina, em 1976, sabia que a única opção que tinha não era ir preso, nem ser exonerado de meu emprego: era morrer, junto com minha mulher grávida, em meio de horríveis torturas, como aconteceu com mais de 30.000 pessoas, incluindo mulheres e crianças. A outra opção era sair e seguir lutando. Chegado ao Brasil, me ofereci de voluntário ao ACNUR e ajudei a proteger algumas dúzias de pessoas igualmente perseguidas.
Um dado importante: esta atividade minha não deve ter sido tão inútil, porque irritou os setores fascistas da UNICAMP, que me obrigou a assinar minha demissão em 15 de junho de 1979. Na época, o lugar onde eu estava (um centro de pesquisa de lógica matemática), tinha entre seus professores dois informantes do embaixador argentino e outro do governo chileno, que eram os xodós de nosso chefe. (Os três estão mortos, mas não quero conflitos jurídicos com suas famílias, de modo que só darei as iniciais: EdO, AAR e RCK)
Por sinal, o chefe que me fez assinar minha demissão, era amigo da juventude da figura recente mais famosa da “social-democracia” brasileira. Coincidência?
Finalmente, quero dizer que, apesar de que a frase de Dilma não tem a mais remota referência aos exilados, eu, como exilado durante décadas, posso acrescentar:
Houve, sim, exilados fictícios de todas as nacionalidades. Houve pessoas que se exilaram, não porque eram opositores, mas porque eram apenas suspeitos e podiam perder o emprego. Houve exilados que colaboraram com as embaixadas das mesmas ditaduras das quais tinham fugido. Houve exilados que puderam voltar ao país, porque se comprometeram a trabalhar para essas mesmas ditaduras.
Não estou falando de infiltrados, mas de verdadeiros exilados, que fugiram de seu país diante do caráter monstruoso e ilimitado da repressão, mas, depois, para demonstrar que não eram opositores, se ofereceram a colaborar para tornar seu regresso possível.
Estes exilados foram uma minoria, mas não tão pequena. No caso da Argentina, passou de 20%. No caso brasileiro, realmente desconheço.
Em fim: os que pretendem ferir sujamente a seus adversários políticos talvez pensem que “quem sai na chuva para se molhar”. No entanto, de maneira nenhuma têm o direito de utilizar os sentimentos autênticos de outras pessoas que não estão na contenda eleitoral. Distorcer um discurso para criar ressentimentos nos exilados de numerosos países que habitam hoje no Brasil (muitos dos quais estão naturalizados e podem votar) é algo tão miserável como usar o ódio racial, de gênero, religioso, etc.

São muito lúcidas e claras as ideias expostas pelo articulista a quem parabenizo e rendo as minhas sinceras homenagens!
Só mesmo a perverção de uma campanha eleitoral teria o condão de dar às palavras da pré-candidata o sentido de denegrir ou ofender os exilados políticos do Brasil, na época da maior repressão vivida nesse pais!
Aliás, muitos a acusam de participar de atos como assalto a bancos, sequestros, na intenção de desqualificar a luta por um ideal como meros crimes comuns…
Naquela época, perfeitamente justificáveis os assalto a bancos, por exemplo, pois era com esse dinheiro, retirado dos capitalistas que financiavam a repressão que era possível manter a luta pela redemocratização do pais, e mesmo auxiliar financeiramente os brasileiros que viviam no exílio…
O sequestro do Embaixador Americano é um episódio que devemos reverenciar como um ato heróico! Conseguiram, com isso, a liberdade de muitos presos políticos do regime, que hoje poderiam engrossar a lista de mortos e desaparecidos… E nenhuma violência foi praticada contra o Embaixador, fato por ele mesmo reconhecido.
Fazem críticas à pre-candidata Dilma por sua participação em ações como estas, mas não vejo críticas a tantos outros que, da mesma forma, participaram, como o Deputado Fernando Gabeira…
Críticas eleitoreiras, sem dúvida!
Oi, Paulo, nos encontramos de novo!!! Que bom!!!
Seu comentário, para ser sinceiro, é muito melhor que meu artigo.
Grande abraço
Carlos