Casos de Polícia

Certa vez, eu, minha namorada e um amigo fomos abordados por três homens que tentavam nos roubar ou intimidar (até hoje não sei ao certo o que queriam) a apenas 10 metros de dois policiais militares que a tudo assistiam passivamente. Eles só agiram quando, depois de um tempo, a situação tinha ganhado contornos críticos, pois amigos meus que estavam na festa para a qual nos dirigíamos (o antigo “Forró da Lagoa”, em frente ao Monte Líbano, no Rio de Janeiro) vieram nos prestar socorro, o que chamou a atenção de um motorista. Como o sujeito interveio com a autoridade de um policial à paisana, os PMs, grilados, tiveram que agir, mas simplesmente mandaram os marginais embora, em vez de conduzi-los à delegacia.

Recentemente, fui assaltado nas proximidades do Baixo Gávea, na Zona Sul do Rio, e, depois de aguardar por cerca de dez minutos pela primeira viatura que passasse, pedi que os policiais parassem, sinalizando claramente para isso. Eles me olharam e fingiram que não viram nada. Cinco minutos depois, a mesma viatura passava pela Marquês de São Vicente e eu fui para o meio da rua para pedir que parassem (afinal, poderíamos fazer uma ronda atrás dos assaltantes, os quais estavam armados e poderiam, inclusive, realizar outros assaltos). Novamente, os policiais me ignoraram. Liguei então para a polícia, mas a telefonista me disse que não poderia enviar uma patrulha, pois eu teria antes que fazer um BO na delegacia. Bem prático e eficaz, não?

Uma vez, um conhecido meu andava pela rua à noite e, literalmente do nada, foi agredido e ferido por outro rapaz. Ele correu para chamar um policial que se encontrava em esquina próxima, mas o PM disse que não poderia sair daquele ponto, sabe-se lá por quê.

Outro dia, estava num ônibus passando pela Vieira Souto, em Ipanema, e preparava-me para saltar, quando vi uma menina sendo assaltada na calçada, em frente ao Country Club. Ao descer do veículo, chamei um policial que estava no Jardim de Alah. Em vez de correr em direção ao local da ocorrência ou chamar imediatamente pelo rádio outras patrulhas para tentar cercar os assaltantes – não é difícil fazer isso num bairro como Ipanema, com vias paralelas e transversais perpendiculares –, o PM demorou uns 30 segundos apenas para levantar-se do assento da viatura e, até hoje, não sei se chegou a avisar alguém pelo rádio.

Certa vez, dois amigos meus foram abordados por policiais nas proximidades do túnel Santa Bárbara e, mesmo sem terem nada de irregular no automóvel ou praticado ação errada ou suspeita, só foram liberados depois de dar uma quantia em dinheiro às “autoridades”, simplesmente porque estavam numa via que ligava a uma favela.

Por algum tempo, fui frequentador da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil), cuja entrada dos fundos fica na Cruzada de São Sebastião, no Leblon. Sempre via o tráfico de drogas rolando solto a menos de 50  metros de uma unidade policial que ficava na área (há alguns meses, foi desativada) e a cerca de 200 metros da delegacia da Polícia Civil, na Afrânio de Melo Franco. Ou seja, todos sabiam o que ocorria ali. Mesmo assim, tive que aturar a publicação de matérias em diversos jornais, no mês passado, exaltando uma operação policial que “desarticulara quadrilha de traficantes da Cruzada”policia-militar-ilustrativa. Atualmente, o tráfico de drogas ocorre normalmente no local.

Com freqüência, vejo policiais militares parando e revistando jovens (playboyzinhos, por assim dizer) nas ruas do Leblon, muitas vezes deixando-os desconcertados pela cena pública desconfortante. E sempre fico com a impressão de que o objetivo dessas abordagens não é exatamente impedir que algum crime aconteça ou levar o suspeito à delegacia, mesmo porque, quando muito, os indivíduos são colocados na viatura e levados em direções contrárias à DP do bairro…

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Essas são histórias relativamente brandas pelas quais eu passei, vi ou de que tive conhecimento, a maior parte ocorrida na Zona Sul do Rio de Janeiro, teoricamente o lugar mais bem policiado da cidade. Já perdi a conta de quantas situações revoltantes e assutadoras passadas em outras regiões do Rio ou em favelas – e aí, não importa tanto se estão ou não na Zona Sul –, e incomparavelmente mais graves que as supracitadas, escutei de conhecidos ou vi pela TV.

Por essas e outras, não me surpreende ver casos como o de Rafael Mascarenhas, cujo atropelador foi liberado mediante pagamento de propina aos policiais, ou do coordenador Social do Afrorregae, Evandro João da Silva, assassinado no ano passado no Centro do Rio, com os bandidos sendo liberados em seguida pelos policiais que patrulhavam a área. O que me deixa surpreso é ver nos jornais especialistas dizendo coisas como “parecia que a corporação vinha apresentando melhoras, mas…”, principalmente em função da instalação de UPPs e do mar de reportagens favoráveis a essa política – que, no entanto, mostra como a relação do Estado com a favela ainda se limita aos aparelhos repressores – publicadas pela Grande Mídia.

Pela experiência que tenho nas ruas do Rio de Janeiro e pelos depoimentos que ouço, a PM, infelizmente, é para mim uma corporação, quando não mal preparada e negligente, manchada e tomada pela corrupção normativa.

2 comentários sobre “Casos de Polícia”

  1. Pode ser um non-sequitur, mas que país desenvolvido mantém uma Polícia Militar?

    Segundo, alguém acredita que no Brasil exista alguma ordem de fato? Ordem social, ordem política? Você precisa temer, de maneira equivalente, psicopatas, estupradores, bandidos, policiais, juízes.

  2. Caro Francisco,

    Certamente que temo esses outros por você mencionados. Aliás, o certo é nos preocuparmos ainda mais com altas autoridades, pois, se pensarmos bem, a Polícia Militar de fato serve a alguém, não é verdade? Algum interesse está sendo vislumbrado por uma polícia que age dessa forma.

    Além disso, não podemos cair na ingenuidade de pensar que é um fato isolado haver corrupção na PM. Acho que a corrupção é inerente a uma série de atividades humanas, como na política, por exemplo. Não imagino um político chegando à presidência sem fazer acordo com deputados, senadores e governadores que dominam currais eleitorais.

    Mesmo assim, acho que, em certas ocasiões, vale destacar e reclamar desse problema em esferas menos “macro”, principalmente quando há um gancho para tanto.

    Abraço

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