Como já foi noticiado pela mídia, uma revolta de trabalhadores do projeto da usina hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, estourou nesta semana, levando à paralisação das obras na última quinta-feira (17/3). Ônibus e instalações foram depredados por operários, que protestam contra a truculência por parte de funcionários, como seguranças e motoristas de ônibus, no trato com eles. O estopim, inclusive, se deu quando um trabalhador foi agredido por um motorista.
Ao jornal O Globo, a Camargo Corrêa – detentora de 9,9% de participação no Consórcio Norte Energia, que conduz as obras -, responsável por 19 mil dos 22 mil trabalhadores envolvidos, limitou-se a dizer que “esses atos de violência foram provocados pela ação criminosa e isolada de um grupo de vândalos”. Já a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou ao veículo que não tem como interferir no conflito, por se tratar de um problema trabalhista. O Ministério do Trabalho, por sua vez, não respondeu aos pedidos de informação do Globo.
A sequência de acontecimentos acima revela como funcionam as coisas nos dias de hoje no Brasil. Se você, que é cidadão, trabalhador ou consumidor, se sente lesado ou desrespeitado, raramente consegue ser atendido com prontidão por alguém que não seja um atendente de Call-Center do interior da Bahia. Isso se realmente houver tal serviço disponível, e se você conseguir, de fato, ser atendido por um telefonista. O pior é que, mesmo neste último caso, você não conseguirá, salvo algumas exceções, resolver seu problema por inteiro, e saberá que não adianta nem reclamar porque o atendente não poderá fazer nada, até porque normalmente sequer entende o seu problema em toda sua complexidade.
Esse mecanismo de distanciamento de autoridades e/ou executivos dos cidadãos e consumidores é uma estratégia que, de certa forma, responde às orientações neoliberais de racionalização, desregulamentação e participação mínima do Estado – no caso de uma companhia privada, da atenção despendida por um alto funcionário a problemas “pequenos”, que não envolvam diretamente grandes transações de capital –, uma herança maldita das décadas de 80 e 90.
No caso específico de Jirau, salvo um ou outro caso de má fé por parte de trabalhadores, é difícil acreditar que suas reclamações não tenham embasamento. Imagine se, num país em que as cidades mais ricas, como São Paulo e Rio de Janeiro, têm motoristas de ônibus, policiais militares e seguranças em geral que tratam mal os clientes, em sua maioria, brancos e bem vestidos, no estado de Rondônia – que está relativamente longe dos holofotes midiáticos –, não irão destratar peões (pobres) pardos e negros, numa obra no meio do mato?
Ao fazer pouco do problema como fez a Camargo Corrêa em resposta ao O Globo, a empresa poderia estar criando uma situação péssima para sua imagem, caso a situação se passasse em outro país. Porém, no Brasil, a companhia conta com a morosidade e desinteresse das autoridades em resolver uma questão que envolve tão somente peões de obra de pele escura – e que estão lá longe, bem longe, em Rondônia apenas. A companhia conta ainda com a falta de orientação, com a ignorância desses trabalhadores, que desconhecem seus direitos e que devem ter até vergonha de prestar queixas oficialmente junto às autoridades competentes. Aliás, provavelmente desconhecem a maneira de fazer isso.
A construtora sabe também que mesmo aqueles que não são pobres e têm acesso à educação de qualidade também se vêem num verdadeiro imbróglio quando querem lutar por seus direitos, até em casos nos quais são totalmente desrespeitados. A empresa deve ter conhecimento do fato de que, neste país, não existe punição séria para quem tem muito dinheiro. E isso, como se sabe, não é problema para nenhuma empreiteira, principalmente aquelas que vivem no paraíso das licitações de programas de aceleração do crescimento.
