12.10
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Seja o que Deus quiser
A
experiência com mídia descentralizada mostra que o caráter
anárquico das novas tecnologias ultrapassa qualquer esfera de entendimento
que possuímos atualmente, exatamente porque se trata de uma mudança
radical de paradigma. Esta revolução se iniciou na primeira
vez em que se contestou o saber único (Deus) e "termina" na prática
cotidiana da construção do mundo, todos e cada um de seus
próprios pontos de vista (Deuses, co-autores de suas próprias
vivências). As limitações tecnológicas a que
a maior parte das pessoas está submetida não cessa a fúria
tecnológica que tomou conta do mundo pós-moderno. Com o excesso
de dados disponíveis, qualquer um que pense estar a par do que acontecerá
nos próximos 10 anos está muito provavelmente errando feio
em sua análise. Ou então será o único a acertar.
14.05
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O jogo sujo do Pereira
Quatro e cinqüenta
e sete da tarde de um verão, em junho. (No Rio, o verão começa
em junho e acaba em maio do ano seguinte). Chega no escritório do
Pereira um fax. É da Presidência. Ele já sabe: emergência.
Pereira é um experiente redator, já viveu mais presidentes
do que aniversários que seu filho adolescente comemorou. Sempre
trabalhou em política, no jornalismo, mas decidiu largar tudo para
fazer poesia. É tudo questão de linguagem, repete.
O pedido é
pesado: a economia do país tá na merda e os homens lá
de cima já tentaram de tudo. Até mesmo vender o país.
Nada deu certo. Daqui a dois dias o presidente vai discursar em praça
pública, para milhões, em pleno domingo. Vai falar sobre
economia, mas, como os últimos quarenta e oito dirigentes nacionais
que ocuparam o cargo máximo da nação (Pereira parece
ser atingido na perna por um tiro quando alguém se refere à
palavra nação), o presidente não entende nada sobre
o assunto.
Pereira dá
seu sorriso-anzol e deixa o texto para o dia seguinte. Não era a
primeira vez que fazia o trabalho sujo, mas impressionava a calma com que
tratava o tema. Parei de ficar nervoso em situações-limite
desde que meu sogro fugiu com minha mulher, recorda. No dia seguinte,
antes do café (só café mesmo, porque sempre pagaram
pouco pro Pereira), ele começa a escrever:
Companheiros. Companheiras.
Brasileiros. Brasileiras. Latino-americanos. Latino-americanas.
[respire, olhe para
o infinito, mas não muito para não parecer maluco, como quem
olha para as crianças construindo um futuro]
Eu estou aqui neste
domingo, neste tão belo domingo para aqueles que ainda são
alcançados pelo sol, para rebater a crítica de alguns segmentos
da sociedade que não raras vezes omitem nossas realizações.
[o ar deve ser de
total respeito aos críticos, como se você realmente acreditasse
que eles são melhores. Fale exatamente o que eles pensam, como se
fosse você]
São muitos os
que nos atacam falando que a economia não está bem. Que a
economia não está avançando. Que a economia não
se sustentará por muito tempo.
[atenção:
mudarei de assunto, mas você deve manter o mesmo tom, como se fosse
a mesma coisa]
Estou aqui, minha gente,
para falar a essas pessoas sobre o quão grande é o nosso
país. Este é um país cheio de diversidade, seja na
sua tão brava gente, seja na sua tão admirada riqueza natural.
Estou aqui para falar a eles que, em 30 anos de vida pública, nunca
fui de correr da briga. Nunca fui de correr da luta. Quem já sofreu
como eu sofri sabe que tudo que é bom e correto nessa vida deve
ter muito sacrifício. Que nada é de graça. Que nós,
trabalhadores e trabalhadoras, estamos dispostos a lutar muito para conquistar
o que é nosso.
[atenção
novamente: o mesmo tom]
É por isso, meu
povo, que os críticos que tentam atacar as bases sólidas
deste governo popular, todos eles protegidos e confortáveis em seus
escritórios e mansões, não podem vencer esse debate
tão importante, como é o debate sobre a economia no Brasil.
[pausa, como quem
sofre para beber água e se alivia profundamente, feliz com um líquido
sagrado, que você aproveita gole a gole]
Então me respondam,
companheiros e companheiras. Eu pergunto a vocês, brasileiros e brasileiras.
Amigos e amigas deste Brasil de [colocar um líder histórico
de sua preferência] e de tantos outros heróis. Por acaso
o companheiro [líder da História recente de sua preferência],
ao se ver restrito a poucas possibilidades e perseguido cruelmente por
seus adversários, recuou da luta?
[pausa para que pensem
que ele não recuou]
Sim, amigos e amigas.
Ele recuou. Recuou por se saber humano e por conter dentro de si o dom
da humildade.
[a partir de conter
vá ficando mais calmo, até culminar em um humildade leve
e sutil, como quem tem um misto de respeito e medo da palavra]
Quando o nosso mestre
[nome de cantor ou ator conhecido, que tenha uma filha pequena e que
foi perseguido pela ditadura] ficou durante trinta dias preso nos anos
70, sem poder se comunicar com sua filha [nome da filha] e sua família,
o que ele fez?
[pausa]
Desistiu?
[pausa]
Não. Ele não
desistiu. Como tantos outros milhares de brasileiros e brasileiros, [ator/cantor,
agora com um nome mais carinhoso] tinha uma missão a cumprir.
[pausa] Tinha uma família a honrar. [pausa] Tinha
uma vida a viver.
[se puder, chore.
Se não conseguir, hoje há ótimos produtos no mercado
que não deixam pistas sobre a honestidade das lágrimas]
Desculpem-me. Não
é sobre isso que viemos falar. Esse capítulo da História
felizmente ficou no passado. Viemos aqui, meus queridos companheiros, falar
sobre a economia. Viemos aqui, neste domingo onde o sol começa a
surgir para aqueles que estão na sombra, para dizer que os indicadores
da economia brasileira são os melhores dos últimos 10 anos.
[ao final dessa frase, comece a balançar levemente a cabeça
para cima e para baixo em indicadores, feche os olhos como quem está
sutilmente gozando em melhores e dê uma serena risada de satisfação
depois de 10 anos]
[aumente o tom para
dizer as próximas duas frases]
É para dizer
que o crescimento do PIB foi além das expectativas mais otimistas.
Que o investimento cresceu e a inflação está sob controle.
[aumenta mais ainda
o tom]
Estamos aqui, companheiros
e companheiras, não para falar de números que os trabalhadores
e trabalhadoras deste país não entendem, mas sim para falar
que o resultado dessa política é a maior retomada do emprego
desde 1992. [fale 1992 pausadamente, citando letra por letra]
[atenção
para a próxima parte: treine antes para falar errado, dando a impressão
de que o discurso é espontâneo. Continue aumentando pouco
a pouco o tom, de acordo com os aplausos]
Que é mais emprego
para o povo. Que tem mais oportunidade pra dona de casa, pros jovem desse
país, pra gente que não agüenta mais sofrer.
[grite, de forma
educada]
Eu não vim aqui
falar pros economista sentado nos arranha-céu da Avenida Paulista,
minha gente, eu vim falar pra vocês, e vim falar que este país
tem jeito e que nós vamos dar um conserto neste país de qualquer
maneira, queira ou não queira a oposição.
[se acalme. Limpe
a testa. Olhe para os olhos do povo, como se estivesse procurando alguém.
Agora fique com cara de sério e continue]
Os empresários
vão a Brasília reclamar dos juros [use um certo tom com
juros, dando ênfase no ju], companheiros. Toda semana, eles
estão em Brasília, reclamando dos juros [use o mesmo tom].
Eles têm fixação com os juros [repita o tom]. Eu vou
falar uma coisa para vocês. Quando você tá num time
de craques, como é o nosso governo popular, você não
tem coragem de mexer. Era fácil, pra gente, fazer o que eles queriam
que nós fizéssemos. Tira o fulano, o sicrano, o beltrano.
Mas eu não recebi [número de exato de votos] votos
do povo para fazer o que eles querem. Eu recebi [repete o número
de votos, mas arredonda dessa vez para (...) e tantos mil, para pensarem
que foi espontâneo] votos do povo para armar um time de craques,
e não é porque tem gente lá em cima insatisfeita que
eu vou ceder, que eu vou tirar quem eu preciso perto de mim.
[finja pensar, faça
o truque das crianças construindo o futuro]
Este é um país
que sofreu com o saque externo de mais de 500 anos, com a ganância
de gente inescrupulosa que não queria o nosso bem. Era um avião
sem rumo, que tava caindo. Quando a gente pegou esse país, muita
gente queria mudar tudo de uma vez. Queria fazer a faxina toda da casa
de uma vez só. Eu conversei pessoalmente com cada companheiro e
companheira que eu chamei pra trabalhar comigo e falei pra eles: companheiros,
a gente tem que levantar esse avião. Tem que colocar ele no rumo,
de pouquinho em pouquinho. Não pode saí dando cavalo de
pau com o avião, querendo fazer tudo de uma vez só.
[finja que está
se lembrando do momento dessa suposta conversa com os ministros, como se
estivesse lá. Dê uma risadinha, como quem lembra da reação
de um deles]
Eu falei isso pra eles,
e eles entenderam que esse país é muito grande pra não
ter projeto. É muito brasileiro e muita brasileira, um coração
maior do que o outro, querendo que isso aqui vire uma nação,
que vire uma terra de todos os cidadãos, que não tenha mais
mãe e pai pedindo dinheiro pra comer, pra dá de comer aos
filhos. São 175 milhões... [pausa para pensar, tática
das crianças, aumente o tom inesperadamente]... é muita
gente querendo que esse país dê certo, e ninguém vai
impedir, eu juro, ninguém vai impedir a gente de se tornar uma nação
mais digna e mais humana. Muito obrigado. [com o tom certo, de forma
inesperada, termina com aplausos. O presidente deve sair antes dos aplausos
terminarem]
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23.04
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Confuso
"A
gente vai fazendo as tranças, percorrendo teu umbigo (te achei!).
Está bem - eu disse - fechei os olhos e foi. As palavras saíram
desabotoando tudo. Rasgando as peças do tecido e o que você
trouxe para mim. Um pouco de paz. Mereço? Obscenamente necessário
nestes meus tempos estranhos."
(Não
é meu o texto, mas e daí?)
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16.04
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Para
quando perguntarem "Tudo Bom?"
Não,
o bom e o ruim se confrontam o tempo todo, coexistindo no espaço
e no tempo e tornando o mundo uma grande dialética.
* *
*
Pensa!
O
maior problema da sociedade é a omissão. Pode-se matar alguém
da forma mais cruel: a tragédia só será completa se
houver omissão da sociedade.
* *
*
Ei,
espera aí
Seu
olhar belo e penetrante
Sua
voz macia e aconchegante
Seu
jeito sereno de ser
Que
me dá vontade de viver
Pernas
e braços se confundem
O
suor que escorrega não é em vão
Delírio
de uma noite quente
Com
esse protuberante pomo de adão
...ei,
espera aí
* *
*
Pensamintos
nefelibatos
1.
Poucas vezes tive a sensação de estar entrando numa tigela
gigante cheia de pipoca. Quem não gosta de avião certamente
não gosta de pipoca.
2.
Perigoso mesmo vai ser se um dos milhos não tiver estourado.
3.
Passar apenas de avião pelas cidades brasileiras é uma experiência
muito rica. Você fica com a impressão de que todas são
habitadas por formiguinhas e possuem apenas aeroportos.
* *
*
Páscoa
Te
desejo muito amor, carinho, felicidade, prosperidade, saúde, grampos,
sucesso, respeito, humildade e longa vida.
* *
*
Inútil
'Tchunichãine
kailan' significa 'Parabéns pra você' em chinês.
* *
*
É
verdade
Os
suecos bebem mais café do que qualquer outro povo no mundo.
* *
*
Cada
vez mais útil
De
acordo com antigas legendas celtas, a oeste do continente europeu haveria
uma ilha, chamada de 'Hy Brazil', que se moveria pelos oceanos. (Quem diz
é Flávio Aguiar)
* *
*
Iniciando
um programa de rádio
[voz
grossa de apresentador de programa de música clássica] "É
com satisfação, amigo e amiga, que chego ao seu receptor
(...)".
* *
*
A
mais
Era
um exagerado, esquentava café com usina nuclear.
* *
*
Einstein
"A
ciência não evolui resolvendo problemas".
* *
*
Psicólogo
I
O
cara chega, te olha e vai logo falando: "Você vai bem, e eu?"
* *
*
Psicólogo
II
Eu
queria falar do passado, o cara me vem com um papo de "meu ontem patológico".
* *
*
Diferenças
Sabe
o café com leite? No Rio: média. Em Porto Alegre: cortado.
* *
*
Definição
da Carol
Gustávares
de Azevedo Barreto, aspirante byroniano a jornalista marxistístico.
03.03
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Grande
amigo
Grande
abraço
Grande
Gra
G.
>>
Essa
é a nova e revolucionária poesia neominimalista (ela vai
se minimizando pouco a pouco), foi inventada pelo primeiro grande poeta
neominimalista, o H.
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