por.Gustav.o Bar.reto..ver.são.20.03Estamos todos cegos.

 
Fevereiro

Não sei o que aconteceu. Não me perguntem mais nada, eu não agüento mais. Não posso mais responder estas perguntas sem sentido. Estava tudo escuro, já disse. Não. Por favor.

Era fevereiro. 1975. A Lua estava cheia de mim. Cheia de luz e, de presente, me deu uma cruz. Pediu-me para carrega-la como quem pede licença com um porrete na mão. Não, era 76. Fevereiro de 76, eu sei. Sei de tudo, mas pare de fazer perguntas. Tudo tem seu tempo. O tempo está em tudo, nada mais.

Tudo ficou escuro de repente. Bom, anoiteceu. Era provável que isto acontecesse. Estava temeroso de não conseguir. Esperava não perder a esperança. Esperava e nada fazia. A esperança não suporta a solidão. Como eu, a falta de esperança.

Uma luz de repente. Não, de terno. Era um guarda. Fez-me indagações pífias. Não respondi. Buda escreveu que às vezes a melhor resposta é o... “ai”, pensei! Uma pancada, mesmo que seqüencial, sempre dói. A demonstração de dor é sinônimo de fragilidade em uma sociedade fragilizada pelo sexismo.

Fui liberado. O que é diferente de ter liberdade. Liberdade de comer. Liberdade de vestir. Acham que liberdade é consumir. Estúpidos. Liberdade é decidir. Decidir se quer consumir ou não. Hoje em dia quem pode não tem escolha: consome. Quem não pode quer ter o direito de futilizar sua relação com o mundo.

A minha liberdade tem relações diárias com minha consciência. E que se foda o resto.

Gustavo Barreto | 12.04.03


 
 
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