|
Fevereiro
Não
sei o que aconteceu. Não me perguntem mais nada, eu não agüento
mais. Não posso mais responder estas perguntas sem sentido. Estava
tudo escuro, já disse. Não. Por favor.
Era fevereiro.
1975. A Lua estava cheia de mim. Cheia de luz e, de presente, me deu uma
cruz. Pediu-me para carrega-la como quem pede licença com um porrete
na mão. Não, era 76. Fevereiro de 76, eu sei. Sei de tudo,
mas pare de fazer perguntas. Tudo tem seu tempo. O tempo está em
tudo, nada mais.
Tudo ficou
escuro de repente. Bom, anoiteceu. Era provável que isto acontecesse.
Estava temeroso de não conseguir. Esperava não perder a esperança.
Esperava e nada fazia. A esperança não suporta a solidão.
Como eu, a falta de esperança.
Uma luz
de repente. Não, de terno. Era um guarda. Fez-me indagações
pífias. Não respondi. Buda escreveu que às vezes a
melhor resposta é o... “ai”, pensei! Uma pancada, mesmo que seqüencial,
sempre dói. A demonstração de dor é sinônimo
de fragilidade em uma sociedade fragilizada pelo sexismo.
Fui liberado.
O que é diferente de ter liberdade. Liberdade de comer. Liberdade
de vestir. Acham que liberdade é consumir. Estúpidos. Liberdade
é decidir. Decidir se quer consumir ou não. Hoje em dia quem
pode não tem escolha: consome. Quem não pode quer ter o direito
de futilizar sua relação com o mundo.
A minha
liberdade tem relações diárias com minha consciência.
E que se foda o resto.
Gustavo
Barreto | 12.04.03 |