|
por.Gustav.o
Bar.reto..ver.são.20.05Estamos
todos cegos.
______________________________
O poder
da síntese
Novembro.] Era uma reunião política. Surge o assunto do “homem cordial”. Imagine a cena: uma reunião política. Alguém cita o homem cordial. Esta é uma reunião de pessoas que pensam. Fiquei à vontade para dizer, em pouquíssimas palavras: — Inclusive vocês sabem o que pensa o Sergio Buarque de Holanda sobre isso, não? Silêncio. Continuei: — Ele diz que a cordialidade do brasileiro, que ele chama de “polidez”, é um ato de resistência cultural à crescente industrialização e financeirização das relações humanas, uma defesa diante da sociedade moderna, que se opõe às tradicionais formas de organização familiar no Brasil. Mais silêncio ainda. Todos param e começam a se olhar, tentando entender o que eu havia dito. De repente, um dos presentes interpreta: — O cara é educado pra não cair dentro. Todo mundo entendeu instantaneamente o que eu tinha dito, começou a falar com suas próprias palavras. Bastou um “empurrão” sociológico. ______________________________
Culinariamente
falando
Agosto.] Chego na casa da minha mãe para almoçar e encontro o tradicional copo que, algum tempo depois, sempre se enche de suco. O copo é sempre o mesmo. A cena é sempre a mesma. Mas alguma coisa naquela sombria sexta-feira 12 me dizia que o copo estava cheio. Não havia suco, nem água, nem nada, mas eu sabia que havia algo naquele copo. ______________________________
Meio
copo d’água,
Junho.] porque nunca se sabe Foi nesta sexta-feira, um dia frio de junho de 2005. Geladeira de pobre, quando vê coisa muito colorida, logo desconfia. Simplesmente apareceu. Não sei como. Era um daqueles sucos coloridos de caixinha. “Néctar de manga”. A última vez que eu cruzei com um desses o Lula ainda acreditava no socialismo e não chamava banqueiro de companheiro. Tempos em que o guarda-chuva materno proporcionava alguns ‘privilégios’ no final de semana.A via das dúvidas Hoje conheci a mulher da minha vida. Estava no 433, no banco da frente, sentada no lugar que tradicionalmente sento. ______________________________
.
Maio.] Onde
colocar as mãos?!
Na televisão,
a maior dificuldade do/a apresentador/a é não saber o que
fazer com as mãos. Quando resolve esse problema, surgem novos obstáculos.
Como, por exemplo, achar uma forma de segurar o microfone.
______________________________
.
Janeiro.] O José é dos nossos Verdade seja dita: está cada vez mais difícil dizer que “fulano é dos nossos”. A crise vem se desencadeando há muito tempo, mas parece que a lavação de roupas sujas dentro do governo fez aflorar uma revolta geral contra aquele sujeito que parecia ser “dos nossos”, mas não era. A expressão foi até substituída pelo popular “nunca se sabe”. — Que
isso, Humberto. É o seu José!
Os “nossos” — eis o problema — estão em número cada vez menor. Como tem pouco, a galera evita espalhar. — Oliveira,
qual o telefone do seu Tião?
Existiu uma época em que o contrabando não era só de drogas ou de cigarros falsificados. Tinha também o contrabando de letras de músicas que fariam a garota se derreter mais facilmente, contrabando de lugares escondidos — com música boa e cerveja barata —, além da intensa cooperação de saberes entre os alunos, por coincidência bem no horário das provas. Mas, com tanta desgraça na novela das oito, o pessoal já está elaborando uma lista oficial dos “nossos”, com a finalidade de socializar os nomes — desde que paguem a taxa anual investida nos testes de honestidade. Acabou não dando certo, infelizmente. Descobriram um esquema de inclusão ilegal na lista dos “nossos” — sem verificação prévia de bons antecedentes e pureza de alma — em troca da indicação de gente séria lá na comunidade exclusivamente para o pessoal da cúpula. Seu José, que é “dos nossos”, continua teimando em acreditar nas pessoas. Ele sabe que tem muita gente ruim nesse mundo. Mas, sabe como é, nunca se sabe. ------------------------------------------
|