por.Gustav.o Bar.reto..ver.são.20.05Estamos todos cegos.
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Novembro.]
O poder da síntese

Era uma reunião política. Surge o assunto do “homem cordial”. Imagine a cena: uma reunião política. Alguém cita o homem cordial. Esta é uma reunião de pessoas que pensam. Fiquei à vontade para dizer, em pouquíssimas palavras:

Inclusive vocês sabem o que pensa o Sergio Buarque de Holanda sobre isso, não?

Silêncio. Continuei:

Ele diz que a cordialidade do brasileiro, que ele chama de “polidez”, é um ato de resistência cultural à crescente industrialização e financeirização das relações humanas, uma defesa diante da sociedade moderna, que se opõe às tradicionais formas de organização familiar no Brasil.

Mais silêncio ainda. Todos param e começam a se olhar, tentando entender o que eu havia dito. De repente, um dos presentes interpreta:

O cara é educado pra não cair dentro.

Todo mundo entendeu instantaneamente o que eu tinha dito, começou a falar com suas próprias palavras. Bastou um “empurrão” sociológico.

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Agosto.]
Culinariamente falando
Chego na casa da minha mãe para almoçar e encontro o tradicional copo que, algum tempo depois, sempre se enche de suco. O copo é sempre o mesmo. A cena é sempre a mesma. Mas alguma coisa naquela sombria sexta-feira 12 me dizia que o copo estava cheio. Não havia suco, nem água, nem nada, mas eu sabia que havia algo naquele copo.

Foi aí que eu decidi, em uma atitude inacreditavelmente inteligente, virar o copo de cabeça para baixo, confiando que a minha intuição masculina falharia.

E eis que cai todo o açúcar na mesa.

Pode parecer bobo, mas foi um momento muito intenso. Culinariamente falando.

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Junho.]
Meio copo d’água,
porque nunca se sabe
Foi nesta sexta-feira, um dia frio de junho de 2005. Geladeira de pobre, quando vê coisa muito colorida, logo desconfia. Simplesmente apareceu. Não sei como. Era um daqueles sucos coloridos de caixinha. “Néctar de manga”. A última vez que eu cruzei com um desses o Lula ainda acreditava no socialismo e não chamava banqueiro de companheiro. Tempos em que o guarda-chuva materno proporcionava alguns ‘privilégios’ no final de semana.

A priori, mantínhamos uma relação de respeito. Eu e o suco, de longe, para não dar problema. Cada um na sua, levando a vida. Depois pensei: “Que diabos! Eu moro sozinho!” Ou seja, se ninguém o bebesse, ia ficar lá. Com todas aquelas cores, ao lado dos bravos companheiros de luta – o leite e a água. Porque, até hoje, líquido para mim era leite e água. Sem contar aquela gosma que sai do queijo minas, que acompanha o pão de ontem e o biscoito com sal. Mas acho que esse líquido não conta.

Então tá. Alguém esqueceu aí, deu mole, é meu. Mas como é néctar, não custa nada colocar meio copo d’água, pra durar mais. Até porque nunca se sabe quando que o Lula vai voltar a acreditar no socialismo e parar de chamar banqueiro de companheiro.

A via das dúvidas
Hoje conheci a mulher da minha vida. Estava no 433, no banco da frente, sentada no lugar que tradicionalmente sento.

E se dissesse que não gostaria de ter filhos? Na minha idade, é o fim da relação. Escondi dela, na via das dúvidas, minha mochila, que é de um congresso de medicina. Tenho horror a médicos, exceto meus pais.

(Courier New faz você parecer velho, mesmo que hoje a tinta da minha máquina de escrever tenha acabado)

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Maio.]
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Onde colocar as mãos?!

Na televisão, a maior dificuldade do/a apresentador/a é não saber o que fazer com as mãos. Quando resolve esse problema, surgem novos obstáculos. Como, por exemplo, achar uma forma de segurar o microfone.
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Janeiro.]
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O José é dos nossos

Verdade seja dita: está cada vez mais difícil dizer que “fulano é dos nossos”. A crise vem se desencadeando há muito tempo, mas parece que a lavação de roupas sujas dentro do governo fez aflorar uma revolta geral contra aquele sujeito que parecia ser “dos nossos”, mas não era.

A expressão foi até substituída pelo popular “nunca se sabe”.

Que isso, Humberto. É o seu José!
Nunca se saberesponde o Beto, há muito desconfiado.

Os “nossos”eis o problemaestão em número cada vez menor. Como tem pouco, a galera evita espalhar.

Oliveira, qual o telefone do seu Tião?
Pra quê?
É que a Cleide quer consertar o chuveiro dela.
Disfarça e pede pra ligar pra portaria. Seu Tião é dos nossos. Não quero ele com essa gente fofoqueira.

Existiu uma época em que o contrabando não era só de drogas ou de cigarros falsificados. Tinha também o contrabando de letras de músicas que fariam a garota se derreter mais facilmente, contrabando de lugares escondidoscom música boa e cerveja barata,  além da intensa cooperação de saberes entre os alunos, por coincidência bem no horário das provas.

Mas, com tanta desgraça na novela das oito, o pessoal já está elaborando uma lista oficial dos “nossos”, com a finalidade de socializar os nomesdesde que paguem a taxa anual investida nos testes de honestidade.

Acabou não dando certo, infelizmente. Descobriram um esquema de inclusão ilegal na lista dos “nossos”sem verificação prévia de bons antecedentes e pureza de almaem troca da indicação de gente séria lá na comunidade exclusivamente para o pessoal da cúpula.

Seu José, que é “dos nossos”, continua teimando em acreditar nas pessoas. Ele sabe que tem muita gente ruim nesse mundo. Mas, sabe como é, nunca se sabe.

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Volta!

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