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nosso amor só viveu enquanto versos. Foi ao mesmo tempo tudo e ao mesmo tempo nada. Havia as arestas do tempo e metade dos espectros: éramos eu, você e mais duzentos olhos na cama. Prenúncio da violação do destino através da procura: palavras enquanto madrugada; missivas enquanto literorgia. Permeada pelos teus rugidos, negava teus sentidos extravasados entre quatro paredes - sóbria o bastante para perceber teu ser impassível, ébria o bastante para ainda te querer. À ironia da tua ausência, senti-me livre de mim ao ser enlaçada por braços que não eram teus, mas eram possuídos por um espectro meu - tamanha congruência das essências. (Mas Eros te acobertava, enquanto fiavas teus versos dissimulados). Entre rasgos félidos cumpria-se o fado: o olho - espelho de mágoa - rompeu-se indiferente à advertência de Kairós em direção ao teu olhar - lapso do etéreo. Despidos de nós mesmos, lacrimejamos carmesim no desengano da colisão, enquanto as translações rasgaram-se ao nosso redor. Ana Rachel | 30.01.03
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