| Solidão
As unhas dilaceravam
o sol no meu peito e ela sorria auroras, dentes claros, hálito e
a espuma de nossas entranhas trançadas com coxas e pêlos.
Eu nada, inerme. Seus dedos devoravam meu pescoço, os espelhos das
orelhas, os reflexos do reverso, meu avesso em chamas.
Não jogo mais
dados com meus universos. Jogo dardos nos meus versos. Prantos líricos
do sangue, seiva das minhas arenas, espetáculos de morte, insânia
e dor. Nada por mim.
Ainda odeio meus
dias de Deus, silepse de sinfonias e cartas aladas, silhuetas de primavera
nas lápides conhecidas. Empalando lembranças sobre o asfalto
ou transições internas. Odeio. Meu peito ainda arde suas
unhas. Minhas coxas inda esfregam sua alma. Perispírito de impressões
espreguiçando lágrimas sobre o sofá.
Gotas. Suor, orgasmo
e lágrimas. O amor se resume em gotas. Senhores ou cravos, escravos
ou lírios. A vida em gotas. Pólen, seiva, sangue e fel. Lágrimas,
mortificando as necrópoles sob minhas veias.
Meus dias santos
escorrem num abismo brando, vão-se como chuvas articulando as trajetórias
das flores. Silentes e intensas. Mortas, resolutas. Não há
sementes.
Talvez um escárnio
infame, túmulo revirado ou apenas flores secas caindo ao redor.
Borrões vermelhos no meu corpo, cicatrizes negras em minha alma.
Apenas um ciclo vicioso de prazer e estrofes.
E eu saudades, rasgos
e lâminas, sorrindo eclipses entre as suas pernas, solidão.
Renato Kress e Ana Rachel
| 3.3.02
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