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Viva Gustavo Gutiérrez

Gustavo, querido irmão e companheiro, 

Há anos, não nos encontramos. Uma das últimas vezes foi no Congresso da SOTER em Belo Horizonte já há seis anos. Lembro-me que você sempre me agradece o eketé que, nas reuniões, sempre ponho na cabeça, em comunhão com as comunidades afro-brasileiras.

Nós nos conhecemos no início dos anos 80, em um curso para bispos que você veio assessorar em Itaici, no interior de São Paulo e ao qual fui convidado como assessor da Pastoral da Terra. Até hoje, uso aqueles conteúdos maravilhosos que você nos passou. Depois, por alguns anos, na mesma década, nos encontrávamos uma vez por ano no convento dos franciscanos em Petrópolis para os encontros dos autores da coleção Teologia e Libertação. E eu sempre me aproximava de você como de um grande mestre, mas guardando as distâncias necessárias.

Já nos anos 90, uma vez, fui assessorar um encontro de comunidades de base da Argentina que se encontravam na tríplice fronteira. E minha surpresa foi que quando desci do avião no pequeno aeroporto de Iguazu, a primeira pessoa que estava me esperando era você que me contou: Tinha acabado a sua parte de assessoria e tinha vindo ao aeroporto para embarcar, mas ficara feliz porque os voos coincidiram e você poderia ainda me ver e saudar. Tomamos um café juntos e depois nos despedimos.

Sempre gosto quando o vejo reagir às pessoas que o chamam de “pai da Teologia da Libertação” e sei que você sempre se colocou na linha da produção comunitária e de uma responsabilidade coletiva.

Compreendi o seu grande esforço para dialogar com o Vaticano. Não li o seu livro escrito em comum com o cardeal Muller. Não li não porque o tenha rejeitado, ou me negado  a ler. Ao contrário, só não tive de oportunidade de encontrá-lo. De todo modo, confesso que tive medo.

Algumas notícias de jornal e declarações muito simplistas contra o marxismo me recordaram de uma história que vivi ainda nos anos 80. Eu morava em Goiás e a arquidiocese de Goiânia, ainda em seus tempos de abertura (antes do atual arcebispo), me convidou para dar algumas aulas de Bíblia no então seminário arquidiocesano. E eu aceitei. Um dia, subia as escadas do seminário e me encontrei com o querido e saudoso frei Mateus Rocha que descia os mesmos degraus. Que surpresa nos encontrarmos ali. Só que Mateus me olhou com cara meio de espanto e meio de estranheza. E eu reagi quase agressivamente:

– Por que você está estranhando de me encontrar aqui? Você também não está?

E ele com cabeça baixa me respondeu como se ainda estivesse matutando com seus botões:

– Pois é… Se eles aceitaram a mim e a você como professores deste seminário, ou nós, ou eles mudamos e o meu medo é que não tenha sido eles, porque a instituição não se converte….

 Querido irmão e mestre Gustavo,

Na altura dos seus 93, você já está acima dessas discussões e para além dessas questões. Que Deus, energia de Paz e de Libertação o fortaleça e sustente sempre. Parabéns e abraço do irmão Marcelo Barros

(que escreve essas linhas sempre com o seu eketé afro).

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