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Universidade de Nova York na oficina do Teatro do Oprimido

Estudantes da Universidade de Nova York vêm ao Rio de Janeiro beber na fonte as técnicas do Teatro do Oprimido, em sua sede na Lapa…

Foto: Ney Motta/CTOFoto: Ney Motta/CTO
Parece uma aula, mas muito divertida. Essa foi a primeira impressão que tive na apresentação de uma oficina com alunas norteamericanas, que vieram à sede do Centro de Teatro do Oprimido (CTO), no Rio, para aprender o método desenvolvido por Augusto Boal. As encenações, no dia 11 de agosto, encerraram uma semana de aprendizado junto aos curingas (artistas multiplicadores) Geo Britto e Bárbara Santos.
É o quarto ano consecutivo que o CTO recebe uma turma da New York University (NYU), que cursa a disciplina Theather of the Oppressed (Teatro do Oprimido) da Steinhardt School of Culture, Education and Human Developmente (Escola de Cultura, Educação e desenvolvimento Humano). Segundo Philip Taylor, diretor de teatro e professor responsável pelo projeto, essa relação se estabeleceu há 30 anos quando um pós-graduando da NYU conheceu o Boal numa atividade em Paris que, posteriormente, levaria o teatrólogo brasileiro à Nova York para dar um curso e estender seu modelo teatral pelo país afora.
A turma de 27 pessoas da NYU, composta por alunos de teatro, artes e drama-terapia, é em sua maioria de norteamericanas de Nova York, Los Angeles, Yale, Havaí, Houston e San Diego, mas conta também com a participação de pessoas da África do Sul, México e Inglaterra. Lauren Sutherland, estudante norteamericana, de 23 anos, ao relatar sua vivência na oficina, afirmou que “é um tipo de teatro muito difícil por ser político, mas a experiência foi ótima. Pena que só tivemos uma semana, o que torna tudo muito corrido, pois normalmente essas técnicas são ensinadas ao longo de seis meses”. Ela elogiou o Teatro-Fórum, uma forma própria e interativa de fazer teatro criada pelo CTO, que ainda não conhecia.
O professor, Philip Taylor, destacou que o Teatro do Oprimido é estudado “porque se trata de ajudar a comunidade, ajudar as pessoas nos seus problemas locais” e a escolha de vir ao Rio com os seus alunos se deu “pelo fato de ser o local de origem do Teatro do Oprimido”. As apresentações e projetos do TO têm um caráter pedagógico, induzindo as pessoas ao questionamento e à conscientização, visa transformar a sociedade a partir de iniciativas locais dentro de um contexto de intervenção política, daí o depoimento do professor.
Na apresentação pública, com entrada franca, os alunos da NYU representaram as cenas criadas durante a oficina. Ocorreram três, cada uma debatendo um tema de opressão, discriminação, dentre outros aspectos do nosso cotidiano. Primeiro, foi feito uma espécie de aquecimento, junto à platéia, durante a arrumação do cenário. Depois, feita a interpretação, os atores perguntam ao público: alguém tem alguma idéia de como poderia ser diferente? De como poderia mudar a situação? Então quem apresenta a alternativa entra em cena, refaz à sua maneira a peça e as pessoas vão conversando a respeito; vários atos são realizados num mesmo enredo. Os brasileiros presentes também fizeram suas intervenções, com os curingas traduzindo ao lado. Ao final, os aplausos também são dirigidos aos expectadores.
Os temas abordados foram: discriminação racial dentro de uma sala de aula; as barreiras religiosas ou de classe nas relações sociais; e a representação de um programa de auditório, satiricamente, mas num contexto em que um soropositivo é estigmatizado em seu tratamento. No desenrolar dessas histórias, você ouve, nas palavras dos curingas, o público ou os atores, reflexões do tipo: “os dois viram a verdade, mas de maneiras diferentes” ou “… mas é uma possibilidade”. Não há pré-determinações, tampouco formatos ou uma estética única, tudo vai sendo construído através do diálogo, na troca, relativizando também com o olhar do outro, uma bela demonstração de desenvolvimento do ser enquanto humano.
Durante os dias 3 e 11 de agosto, além da apresentação foram feitas também atividades externas para os alunos acompanharem o trabalho na prática e entenderem o contexto da realidade local. Participaram, junto a dois grupos populares do TO, de atividades no Manicômio Juciário Heitor Carrilho (antigo Frei Caneca) e no Hospital Psiquiátrico Jurujuba, nos projetos GTO-Liberarte e GTO-Pirei na Cenna, respectivamente. E no dia 6 foi exibido o filme “Jana Sanskriti, um teatro em campanha”, sobre o trabalho de um grupo indiano que desenvolve o TO, seguido de debate com os diretores Sanjoy Ganguly e Sima Ganguly.
Agora todos estão capacitados a multiplicar o Teatro do Oprimido nos seus locais de trabalho, pois a filosofia e seus métodos foram adquiridos. Levaram consigo também lições, muitas delas relacionadas aos direitos humanos, no meio da diversão, pois não faltou descontração.

Por Gustavo Barreto

Jornalista, 39, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (fb.com/gustavo.barreto.rio) e Twitter (@gustavobarreto_).

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