Categorias
Mídia

Uma infeliz constatação: a deficiência da “educação” da elite

A palavra-chave #nordestisto ficou conhecida na infeliz sequência da vitória de Dilma. Nela, e em centenas de perfis no twitter e no facebook, mensagens de ódio contra os nordestinos e nortistas, pela suposta influência nas eleições – e, principalmente, por estas pessoas acreditarem que o “voto inteligente” era em José Serra.

Ignoram resultado consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral: mesmo sem os eleitores do Norte e do Nordeste, Dilma venceria Serra. Além disso, a candidata petista teve mais votos que Serra na soma de Sul, Sudeste e Centro-Oeste – 33,2 milhões contra 32,9 milhões.

Resultado: mais de 1.000 perfis denunciados no Ministério Público por xenofobia.

Faça-se justiça: nem todos eram abertamente preconceituosos. Por vezes, apareciam pessoas ultraliberais – a ponto de condenar até mesmo políticas sociais básicas, apoiadas pelo governo social-democrata do PT. Em outros momentos, jovens de 14, 15 anos que não possuem qualquer discernimento para entender a gravidade de suas “declarações”. E notem: em tempos de redes sociais abertas, pré-adolescentes já podem ser responsabilizados por suas “declarações” públicas.

O caso mais famoso é a de Mayara Petruso, que pediu um “favor” aos paulistas: que “afoguem um nordestino”. Detalhe: o pai de Mayara, ela própria fruto de caso extraconjugal, dá entrevista antes de falar com a filha. Dá pra desconfiar qual é o problema?

Lembro ainda que o preconceito, o ódio e as declarações infelizes são marca, e não exceção, na internet. Como a abaixo, recuperada por mim há pouco:

Óbvio que não se trata de responder com ódio. É tempo de refletir: que tipo de educação parte da elite está recebendo? Está se formando, afinal, para quê? Será que é tão incomum assim essa situação? Como adotar uma educação efetivamente libertadora, emancipadora e transformadora, como sugeriu Paulo Freire? Existem exemplos? Onde?

O vídeo com parte dos comentários, cujos perfis já estão quase todos já fora do ar, e alguns que ainda estão no ar abaixo.

@MerlinLipe disse: “Tem gente que fala que todos os brasileiros são iguais discordo… Não quero e não sou igual ao povo do Norte/nordeste”

@ClaytonAmerico disse: “Bem vou trabalhar porque não ganho bolsa família dos Nordestinos. Nem faço 2 filhos por ano pra ter mais bolsa família”

@xKiozo disse: “Qual é essa dos nordestinos… Não tão falando mais que a verdade, quem trabalha no sul paga a bolsa família do nordeste…”

@deehsativa disse: “No Sul/Sudeste tem muito mais gente bonita do que no Norte/Nordeste, ainda bem que moro em SP (:”

@Vovo_Panico: “Gente, o que nois do Sul/Sudeste estamos fazendo no twitter? vamos trabalhar pra sustentar mais 4 anos de Bolsa Família do Norte/Nordeste”.

__________________________________
Gustavo Barreto, colaborador neste espaço. Contato pelo @gustavobarreto_

Por Gustavo Barreto

Jornalista, 39, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (fb.com/gustavo.barreto.rio) e Twitter (@gustavobarreto_).

2 respostas em “Uma infeliz constatação: a deficiência da “educação” da elite”

Deixe uma resposta Cancelar resposta

Sair da versão mobile