Uma hora sem fazer nada

É interessante observar quantas coisas fazemos nessas horas mortas em que nos parece que não estamos fazendo nada. Para começar, creio que foi nesta manhã, quando acordei, e descobri que ainda era cedo, que não era ainda hora de começar o dia propriamente dita. Fui ver televisão, passando de um canal para outro, sem achar nada demasiado interessante.

E aí é que começa a gente a deixar de perceber o que acontece. Vi uma mulher dançando num programa que dizia ser de strip-tease, mas não era. Não era nada atraente. Um outro canal, mostrava uma moça que se vestia como homem, com roupas demodée, e era  criticada por uma amiga, que caçoava dela por seu jeito de se vestir como se fosse uma freira em dia de folga.

Outros canais mostravam cenas de corrida de fórmula 1, futebol, uma jovem fazendo uma bola de argila, alguém falando sobre os segredos de Bin Laden, um outro com cenas futuristas, shows de super-estrelas. Olho pela janela e vejo estrelas de verdade, as que estão no céu e brilham, cintilando. Senti algo bom, uma sensação antiga. Escrevo como escrevo, e não como deveria escrever. Lembrei de algo que lera no livro de Henry James sobre A arte da ficção.

Ontem, ao começar esse livro, lembrei de coisas que Cortázar e Borges e Bradbury, disseram sobre o escrever. O que é para cada um deles, escrever. Coisas tão distintas, e uma impressão parecida, de que cada um busca e encontra a si mesmo e aos outros escrevendo. Já estão chegando ao seu fim estas anotações, de quase uma hora que passei sem fazer nada, nesta madrugada. Para não disser que não fiz nada, acrescento algumas observações sobre A delicadeza do amor, um filme que assisti no cinema na 5ª. feira passada.

Uma beleza, uma obra prima, tantas coisas que mostra sobre o amor, o encontro humano, o despirmo-nos de máscaras e formalidades quando chega a pessoa que nos encanta, que nos fascina, que é capaz de abrir caminho a través das cascas que nos escondem. Nessa hora sem fazer nada, lembrei de seres queridos, orei, pensei na oração, como ela foi mudando, como segue mudando sempre. Como me apeguei no passado a formalismos ritualistas que ainda apreço, mas que hoje tem conteúdos diferentes.

Pensei o que faria neste domingo que começa. E quando alguém diz que não faz nada, poderia pensar: não estou vendo? Algo estou fazendo. Não estou ouvindo? Estou fazendo alguma coisa. Estou pensando, sentindo, imaginando, recordando, respirando, amando, sentindo pena, esperança, tantas coisas que fazemos quando não fazemos nada.

Por Rolando Lazarte

Escritor e sociólogo. Terapeuta Comunitário. Professor aposentado da UFPB. Membro do MISC-PB Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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