Categorias
Cultura

Um beijo roubado

Mais conhecido no ocidente pelos filmes “Amor à flor da pele” e “2046”, o diretor Wong Kar Wai vem mais uma vez, em “Um Beijo Roubado”, nos presentear com um filme autoral, uma linguagem instigante e uma, ou melhor, algumas histórias de amor. Por Raquel Gandra (*), repórter cultural da Revista Consciência.Net, da redação.

O filme mais recente de Wong Kar Wai é “Um Beijo Roubado”. Mais conhecido no ocidente pelos filmes “Amor à flor da pele” de 2000 e “2046” de 2004, o diretor vem mais uma vez nos presentear com um filme autoral, uma linguagem instigante e uma, ou melhor, algumas histórias de amor.

Resumindo, a temática do filme está em apenas uma frase dita por Norah Jones num momento crucial e genial: “At the end of that night, I decided to take the longest way to cross the street”. [No final daquela noite, eu decidi pegar o caminho mais longo para atravessar a rua]

Para aqueles que já conhecem o trabalho de Kar Wai há um tempo, os símbolos de sua cinematografia ficarão bastante evidentes logo nos primeiros 10 minutos de filme. Eu gostaria de comentar alguns desses elementos.

A fotografia – como sempre, muitas cores. Cores quentes e tons fortes. Primordialmente vemos as cores primárias da luz: azul, verde e vermelho. Há também muito amarelo. Para os que não sabem, aqui vai uma cultura inútil, luz verde mais luz vermelha dá em luz amarela. =)

Enfim, voltando à fotografia, há os casos de câmera lenta, onde os personagens normalmente estão passando por momentos de intimidade, de subjetividade ou de observação. Granulado constante, principalmente nas cenas à noite. Os planos são regularmente alternados entre closes e planos próximos, o que gera bastante proximidade com os personagens. As pequenas ações, detalhes importantes para a trama, também são filmadas em close.

Provavelmente a lente usada em muitas dessas cenas foi uma objetiva com distância focal maior, o que gera menor profundidade de campo, ou seja, um foco mais “exigente”. Para exemplificar melhor o que quero dizer, nas cenas de close, os personagens em questão ficam em foco e todo o fundo, por mais próximo que seja, vira borrado, fica fora de foco, gerando um lindo efeito.

Os personagens estão constantemente iluminados por duas ou mais luzes ao mesmo tempo. A câmera normalmente tem algum objeto entre si e o ator, como eu gosto de chamar: elementos que vêm antes da imagem. Alguma separação. Algo que a distancia e acaba gerando um distanciamento entre aqueles inseridos na história. Nesse campo ainda, como em seus outros filmes, muitas vezes vemos a ação através de um meio qualquer, seja um espelho (não nesse), vidros, uma câmera que se rejeita a funcionar, etc. Além disso, esses vidros ajudam a dar uma ligeira deformação aos personagens.

Agora indo para outros elementos também muito característicos desse diretor chinês:

Há o movimento interno e o externo. O relógio (normalmente grande, redondo e com néon nas bordas), as inserções de imagens de trens passando velozmente, entre outros ajudam a marcar bem essa distinção. É como se dentro do bar de Jeremy (Jude Law) ou quando Elizabeth (Norah Jones) está sentada escrevendo uma carta dentro de um bar em Memphis, fosse um tempo só deles, mas assim que se pisa fora disso, ficaríamos submetidos ao tempo do mundo.

Essa noção de tempo em si é muito importante. Além dos relógios e dos símbolos de efemeridade, há o problema de sono de Elizabeth, que troca o dia pela noite. A noite em si é o horário preferencial de Kar Wai para desenvolver as ações e os personagens.

Já o espaço é muito bem construído para que não necessariamente o identifiquemos como aqui ou ali. Só identificamos que é uma grande cidade, já que os interiores e as fachadas de bares com, mais uma vez, suas luzes néons é que acabam dando o tom do lugar.

Objetos são determinantes para moldarmos os personagens e identificarmos suas características. Sejam as chaves num pote de vidro, as “chips” do grupo A.A., um carro jaguar ou a conta não acertada de um bar. Há também algo simbólico, alguma imagem que resume um pouco o significado do filme, como as cachoeiras em “Felizes Juntos” ou as palmeiras em “Dias Selvagens”. Nesse filme é o plano detalhe de blueberry com o que provavelmente é sorvete de creme escorrendo. E para terminar essa enumeração de elementos “wong kar wainianos” estão as mulheres histéricas. Lindas e vulneráveis. Fortes e dependentes.

Ok. Vamos aos atores. A direção de atores está fantástica! Rachel Weisz está lindíssima e em uma de suas melhores atuações. David Strathairn está ótimo, como sempre. Para quem lembra de seu papel em “Boa noite, Boa sorte”, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, ele está bastante diferente, mas com a mesma impecabilidade. Natalie Portman está muito bem, se mostrando cada vez mais amadurecida e versátil em seus papéis. Jude Law, que normalmente é um pouco canastrão, está também muito bem, vulnerável até, como o dono de bar solitário. E claro, Norah Jones, que nunca tinha atuado antes, conseguiu convencer como a mulher histérica traída que passa por mudanças pessoais ao longo de sua viagem por auto descoberta.

A trilha sonora está linda. Como sempre, muito bem pensada pelo diretor para dar o clima certo à história e com músicas-tema que são repetidas ao decorrer do filme, suscitando emoções e definindo personagens. Algumas delas são da própria Norah. Há também outras surpresas agradáveis como “Yumeji’s Theme”, de Amor à Flor da Pele; “Try a Little Tenderness”, de Otis Redding; “Living Proof”, de Cat Power, dentre outras. Não só a trilha de músicas usadas, como os sons que permeiam o filme são cuidadosamente pensados. Seja o barulho do trem passando, evocando sua imagem, seja o som de tempestade se formando ao longo da conversa entre Beth e Sue Lyn.

A direção de arte é incrível, como de costume, ajudando a combinar as cores e os objetos de maneira brilhante.

Em contraponto a todos os meus elogios, consigo entender aqueles que criticam o “Um Beijo Roubado” com argumentos de ser mais leve, mais palatável, mais piegas talvez e menos próximo da direção que tomaram seus outros filmes. Entretanto, acho isso demonstração de conservadorismo, ou no mínimo, falta de sensibilidade pra apreciar esse caminho diferente, mas ainda com um olhar próprio do diretor, autêntico e lírico. Acho sim que pode ter havido alguma dificuldade em passar de uma história a outra sem nenhum percalço ou em assumir o estilo “road movie” que ele suscita, mas não completa. Porém, creio que esse não era exatamente o objetivo de Wong Kar Wai, já que sua intenção é mostrar mais os interiores que as paisagens. E a outra questão não tira de forma alguma o mérito das histórias, pois estas conseguem manter um bom link entre elas: a personagem observadora de Norah Jones que precisa das mesmas para aprender e evoluir.

Enfim. Um filme bonito, inspirador, que me fez suspirar. Um desses filmes que me faz querer fazer cinema. Um filme sobre o amor.

Assista abaixo ao trailer do filme:

(*) Raquel Gandra é repórter cultural da Revista Consciência.Net na área de cinema.

_______________________________________
http://www.consciencia.net

Deixe uma resposta Cancelar resposta

Sair da versão mobile