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Tropa Sagaz: quem disse que rap é coisa (só) de menino?…

Novo grupo feminino de rap em Salvador concede entrevista ao blog À queima roupa – jornalismo com segurança. Silvia Santana, integrante do Tropa Sagaz – “uma flor de quatro pétalas no solo da favela”, fala sobre as dificuldades do Movimento Hip Hop baiano…

divulgacao
O Gente é pra brilhar deste domingo conversou com Silvia Santana, a Sil Kaiala, integrante do grupo feminino de rap Tropa Sagaz. O grupo, formado por quatro mulheres, moradoras de Brotas, Narandiba e Tancredo Neves, considerados bairros desfavorecidos de Salvador, está na ativa desde o ano passado e vem garantindo o seu espaço no Movimento Hip Hop baiano. São mulheres que optaram por reivindicar e compartilhar com a sociedade, as suas ideias através do rap, usando as rimas, o compasso e dinâmica, próprios do som, importado dos negros americanos. Confira a entrevista com Sil Kaiala, além das fotos do Tropa Sagaz – “uma flor de quatro pétalas no solo da favela”.
Como e quando surgiu o Tropa Sagaz? Todas vocês já faziam parte do Movimento Hip Hop?
O Grupo surgiu em 29 de março de 2009. Decidimos formar o grupo através de uma conversa que tivemos. Na verdade foi uma ideia que surgiu em uma reunião da Família STN (um clã composto por vários grupos de rap de Salvador). Mc Nana fazia parte do Grupo Fase Ideológica (grupo de rap do bairro de Narandiba); Mc Nete é esposa de um dos integrantes do Fase Ideológica, ela fazia participações no grupo juntamente com a Nana; Yaiá Reis canta no grupo de rap Ilusão Obscura e eu, que cantava em um grupo de rap feminino chamado Hera Negra. Bom, em um evento que ocorreu no Bairro de Sussuarana, eu e Yaiá cantamos com Mc Nete e Mc Nana. Vendo o que aconteceu, decidimos em uma reunião, nos juntarmos e formarmos o Tropa Sagaz.

Eu – Sil Kaiala – faço parte do Movimento Hip Hop há 10 anos. Cantava com o grupo Hera Negra, formado só por mulheres, era membro da Possi Orí (que hoje é a rede Aiyê), e do Movimento as “Maloqueiras” (composto pelas mulheres da rede Aiyê). Mc Nana nunca fez parte do Movimento Hip Hop, ela só cantava no Fase Ideológica, só veio conhecer mais do Movimento através do Tropa Sagaz; Mc Nete também não conhecia nada do Movimento Hip Hop, só fez participação no Fase Ideológica; Yaiá Reis conheceu o Movimento Hip Hop há três anos por fazer parte do CRIA (uma ONG que trabalha com adolescentes). Lá ela conheceu pessoas que eram envolvidas com o Movimento, mas não fez parte. Começou a cantar Rap naquele mesmo ano com seus amigos da ONG, depois daí se engajou e hoje está no TROPA SAGAZ.
Por que um grupo só de mulheres?
Bom, primeiro, porque amamos cantar, cantar e cantar rap. Segundo, porque aqui em Salvador não se vê mais grupos de rap feminino, e é muito bom poder representar as mulheres. Alguns grupos de rap, convencionalmente, não falam das mulheres como tem que ser falado. Falam de uma forma reversa, comparando com objetos e relacionando sempre ao sexo e não estamos aqui para aceitar esse tipo de coisa.
Vocês dizem que são da periferia, de onde exatamente? É de onde vocês moram que vem a inspiração para as letras das músicas?
(risos) Somos sim da periferia de Salvador, eu moro em Brotas, mas não é na área nobre (risos), Mc Nete e Nana moram em Narandiba e Yaiá Reis mora em Tancredo neves. As inspirações vêm de tudo que vivemos e passamos. Tanto da periferia, pelas coisas que ouvimos e vemos e também pelas coisas que sentimos.

Quais as principais críticas que vocês fazem ao Estado, nas letras?
Ah são tantas coisas. O descaso e a falta de respeito com nosso povo, falta de oportunidade.. Não nos queixamos pelo que temos, mas sim pelos que nos é negado! Não queremos migalhas do Estado e sim nossos direitos.
E a Tropa Sagaz, está sobrevivendo bem no mercado da música em Salvador, que é abafado pelo axé music? Onde vocês fazem show?
Sobrevivendo não, paralelamente ao que fazemos temos as nossas correrias. Não dá pra viver de rap aqui em Salvador. Quem dera que o mercado da música olhasse também para esse estilo musical. Bom, tocamos em vários lugares, é mais comum tocarmos em bairros do que em casa de show. Fizemos alguns sons no Pelourinho e também em São Paulo.
A Tropa Sagaz tem CD gravado? Onde pode ser encontrado?
Ainda não, estamos providenciando isso para 2010.
Qual a maior vantagem do grupo ser totalmente feminino? Existe algum ponto negativo nisso? Sofrem algum preconceito?
Não diríamos vantagem, mas é sempre novo e diferente ver mulheres reunidas na militância do rap. O que há de bom nisso é a curiosidade que despertamos nas pessoas… Todos parecem muito interessados em conhecer o tal grupo de mulheres que cantam rap, até as pessoas que não são do Movimento Hip Hop se interessam em conhecer nosso trabalho. Existe, sim, o preconceito que é fruto do machismo. Muitos homens, antes de nos ver em ação, fazem algumas piadinhas sem graça, mas isso tiramos de letra!

Vocês gravaram a música “Chuva de Ideias” em São Paulo, com outros grupos de rap. Então o alcance da Tropa Sagaz já ultrapassou os limites de Salvador?
Foi uma experiência maravilhosa para o Tropa, saber que o pessoal de Sampa curtiu o nosso som é muito bom. Ainda não saímos de Salvador. São Paulo foi o primeiro lugar que fomos, mas, com a fé em Jah, vamos sim ultrapassar esse limite que tanto queremos.
Quais as metas do grupo?
Gravar o nosso CD e expandir nosso trabalho.
Todas têm trabalhos paralelos ou vivem exclusivamente do grupo?
Dizer que vivemos do rap é utopia, temos trabalhos paralelos, como citamos, não dá para viver de rap aqui em Salvador. Quem dera (risos).
“Uma flor de quatro pétalas no solo da favela” é como vocês se definem. Qual a mensagem que o grupo quer passar com essa frase?
Queremos dizer que em meio a tanta sujeira, tanta desordem e descaso nas nossas periferias, nós existimos e resistimos. Queremos expor a beleza que existe no olhar de um povo sofredor, no sorriso de uma criança, na garra e coragem das mulheres de fibra que a cada dia vem conquistando seu espaço. Nós estamos aqui e queremos ser vistas, escutadas e sentidas.
Caso queira falar sobre algum assunto que não foi abordado acima, fique à vontade.
Na verdade não quero falar de nenhum assunto, mas mandar um Salve para todos e todas que fazem o Hip Hop crescer aqui na Bahia, e para a galera que apoia o TROPA SAGAZ e que curte nosso som: Com o discurso afiado e a voz firme, somos uma Tropa com atitude Sagaz!”
(*) Entrevista publicada originalmente em À queima roupa – jornalismo com segurança.

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