Transformar as olimpíadas, revolucionar o esporte!

O olimpismo de hoje participa do fechamento da nossa sociedade numa cultura da luta, a luta de cada um contra todos, onde a riqueza material que se possui nunca é suficiente, e o outro é sempre um adversário a combater, subjugar ou eliminar…

Ífitos, rei da Élida, no Peloponeso, foi quem tomou a iniciativa de fazer celebrações lúdicas a cada quatro anos, a partir de um conselho obtido do oráculo de Delfos. Seriam festas em homenagem a Zeus para demonstrações de força, velocidade e mira por parte de atletas de todas as cidades. Durante elas seriam interrompidas batalhas e guerras!
Duraram de 884 AC até 393 DC – 1277 anos ou cerca de 13 séculos. A interrupção veio com o último imperador romano, Teodósio 1o. Manifestações de inspiração pagã não podiam ser toleradas numa época em que o cristianismo se “convertia” em religião do Estado!
Quinze séculos se passaram até que Pierre de Coubertin, francês, empenhado em renovar o sistema educativo do fim do século 19, relançou os Jogos Olímpicos, visando também a emergência de um “homem novo”. Primeiro em 1896, em Atenas, depois em Paris, 1900, os Jogos foram ganhando alcance e atração.
Estas informações fazem parte do excelente livreto de Albert Jacquard, biólogo (2004, “Halte aux Jeux!”, Le Livre de Poche, Edition Stock, Paris). Jacquard é um crítico acerbo das relações humanas baseadas na competição. Ele coloca os Jogos Olímpicos dentro dos contextos históricos e político-sociais de cada época, e, dentro do sistema centrado no capital, no lucro e na competição ávida pela acumulação de riqueza material, aponta dois riscos maiores nos Jogos Olímpicos: 1. a dopagem, que destrói a significação da competição esportiva, fraudando os desempenhos, que deviam ser límpidos e transparentes para dar sentido aos Jogos; 2. a influência do dinheiro, que reduz o ideal olímpico a uma operação meramente mercantil.
Para o autor, só a recusa do espírito de competição permitiria que os Jogos recuperassem sua alardeada finalidade humanitária. Ele resume sua proposta assim: abandonar a luta contra o outro e colocar no seu lugar a luta para superar-se graças aos outros.
Jacquard destaca num capítulo inteiro o “paradoxo dos quarto-lugar”, aqueles que muitas vezes realizaram a façanha de superar seus próprios recordes através de intenso esforço, mas saem dos Jogos como se fossem derrotados, pois não ganharam medalhas. Os organizadores dos Jogos
substituíram a motivação da atitude esportiva e da beleza dos desempenhos, pela busca de fama e notoriedade. Isto explica o papel crescente do “patrocínio”: os poderes financeiros ocupam o terreno dos Jogos com finalidades que nada têm a ver com o esporte. A mesma busca de notoriedade e de entrada de divisas alimenta a avidez das cidades que se candidatam para os Jogos futuros.
Ele mostra também como um empreendimento planetário tem sido cooptado por um grupo restrito de pessoas, à revelia de toda pretensão democrática. Ele chama o Comitê Olímpico Internacional (COI) de “bando organizado” e mostra como ele se tornou uma megaempresa globalizada, sujeita aos interesses financeiros em primeiro lugar. O COI tem um poder equivalente ao dos Estados, com a diferença de que ele não resulta de um processo que o torne legítimo! Em cento e dez anos, só teve oito presidentes.
O olimpismo de hoje participa, segundo Jacquard, do fechamento da nossa sociedade numa cultura da luta, a luta de cada um contra todos. A mesma cultura patriarcal que reduz a economia a uma guerra de ganâncias, de voracidades e de insatisfações, onde a riqueza material que se possui nunca é suficiente, e o outro é sempre um adversário a combater, subjugar ou eliminar.
No entanto, aquilo de que a humanidade mais precisa hoje são verdadeiros encontros, que permitam que uns se abram aos outros para conhecê-los e enriquecer-se com os diferentes atributos de que são portadores.
“Viver e sorrir juntos” é a consigna que o autor propõe para os Jogos Olímpicos! Seriam Jogos cooperativos e solidários, onde o objetivo seria a superação de si próprio, a sociabilidade dos encontros entre povos diferentes, o prazer e a beleza.
Que os prêmios sejam atribuídos a todos e todas que batem seus próprios recordes. Que sejam apresentados em pódios de um só nível. Assim, a competição consigo próprio se torna emulação. O esporte se torna outra vez um jogo! E a humanidade se aproxima um pouco mais da Paz!
* Socioeconomista do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS).

3 respostas em “Transformar as olimpíadas, revolucionar o esporte!”

Bela concepção de uma olimpíada! O texto me fez imaginar como seriam os jogos se os ideais fossem os expressos pelo autor citado por Marcos Arruda…Daí entendo melhor porque toda essa festa em torno do Rio 2016 não me emociona..

parabens pela explanação.
os jogos olímpicos perderam suas raizes e ccaracterísticas essenciais há muito tempo.
todos os dominantes precisam demonstrar superioridade e nada melhor que o esporte para issso. Hitler deixou claro e abriu os olhos do mundo a respeito dessa forma de dominação.
é necessário uma intervenção radical na sociedade, pois o esporte é apenas uma reprodução do sistema vigente. Como afirmam alguns autores: numa sociedade comunista o esporte como é praticado desapareceria.
é necessário reinventarmos o esporte.

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