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Terapia Comunitária Integrativa: uma luz sobre um mundo de desigualdade e conflitos

[Trago hoje aqui um post escrito a quatro mãos* com minha querida amiga Maria Henriqueta Camarotti, psiquiatra e propagadora de tecnologias sociais e de saúde no DF]. 

A cena apresentada abaixo é uma ficção, mas se prestarmos bem atenção veremos que ela pode ocorrer na atualidade em qualquer parte, na nossa cidade inclusive. Imaginemos um grupo de cidadãos, principalmente formado por mulheres, que passe algumas horas em uma fila, demandando algum serviço público. Poderia ser para matricular um filho na escola, ou obter um cartão para o Bolsa Família, mas para ficarmos na área que dá significado a este blog, suponhamos que seja em uma unidade de saúde, à espera de uma vaga no atendimento. Como geralmente acontece, as pessoas começam a conversar entre si e o tom costuma ser ligado às dificuldades que enfrentam no dia a dia de suas vidas de pessoas pobres (porque rico, como se sabe, não entra em fila de nenhuma espécie).

Uma das mulheres reclama de estar ali há horas, quando deveria estar em casa preparando o almoço para os filhos. Outra que o marido está desempregado e que no momento lhe falta até dinheiro para comprar arroz e feijão; carne, nem pensar. Uma outra se revela ela própria desempregada e além do mais abandonada pelo marido, com nada menos do que três filhos para cuidar. Um dos homens da fila se diz hipertenso, mas que está há mais de trinta dias sem poder tomar os remédios receitados, porque os mesmos estão em falta ali na unidade e ele não tem dinheiro para comprar. Uma mulher grávida diz que já a terceira vez que vem ali para marcar seu pré-natal, mas que tem sido sucessivamente dispensada por falta de vagas. Desemprego; violência doméstica; violência policial; insegurança quanto ao local de moradia; banditismo e ação de milícias; longas caminhadas para alcançar o local de trabalho, por falta de dinheiro para a condução; cirurgias indicadas pelos médicos, mas repetidamente postergadas; desemprego; problemas com drogas na família; doenças de diversas naturezas; sofrimento. São alguns dos problemas que fazem parte do cardápio temático do grupo de pessoas naquela fila.

Enquanto isso o sol vai esquentando, uma pessoa desmaia, alguém reclama do banheiro da unidade que está imprestável para uso. Até que uma funcionária vem até a porta para dizer que naquele dia não haverá mais marcação de consulta porque o pessoal da unidade estará em treinamento. Nesta hora a tensão chega ao máximo, alguns abandonam a fila e vão embora. Outros esboçam uma reação agressiva contra a mensageira da infausta notícia. Há que se assente no meio fio, com a fisionomia contraída e desolada, têmpora entre as mãos.Como agir diante de algo assim?

Desistir e voltar outra hora? Botar pra quebrar ali e naquele mesmo momento? Reclamar ao Político, ao Diretor da unidade, ao Delegado, ao Presidente da Associação de Moradores, à imprensa, ao Bispo? Liderar uma passeata e uma queima de pneus na rodovia? Ir procurar uma condição melhor de atendimento em outro bairro? Mandar tudo às favas e ir para casa pensar melhor no assunto?

Talvez cada uma dessas iniciativas tenha sua justificativa, dependendo do momento. Mas queremos falar aqui de uma tecnologia social que poderia ser útil diante de situações como esta, embora não seja uma panaceia ou algo de resultado imediato, mas uma maneira de informar, conscientizar e buscar soluções possíveis ou pelo menos levantar alternativas de solução que cada um ou cada situação exige. Tudo dentro das leis que regem a vida dos cidadãos no país, com reflexos positivos não só na promoção da saúde e de cidadania e também no desenvolvimento da resiliência nas pessoas.

Referimo-nos à Terapia Comunitária Integrativa (TCI). Vale a pena conhecer algo mais sobre ela.

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A TCI representa uma ferramenta de construção de redes sociais solidárias. Foi criada em Fortaleza pelo psiquiatra, antropólogo e professor da Universidade Federal do Ceará, Adalberto de Paula Barreto, na década de 80, que a desenvolveu como estratégia para se trabalhar de forma grupal, de maneira dinâmica, participativa e reflexiva, oportunizando assim espaços para exposição e debate de problemas e inquietações das pessoas, com repercussão sensível no diálogo e na busca de soluções para os conflitos emanados do grupo. Assim, além de abrir espaços de troca de experiências, a TCI favorece e fortalece a criação de vínculos e o resgate da autonomia dos indivíduos por facilitar a transformação de carências em competências, de forma que, a partir da sabedoria dos próprios indivíduos, torna-se possível fomentar a capacidade de ressignificação das dores e das perdas por eles revelados.

As palavras de seu criador, a TCI procura suscitar a dimensão terapêutica do próprio grupo valorizando a herança cultural dos nossos antepassados indígenas, africanos, europeus e orientais, bem como o saber produzido pela experiência de vida de cada um.

A TCI representa um nítido espaço de escuta, de fala e de construção de vínculos, uma verdadeira prática terapêutica cidadã, reparadora de vínculos sociais, consubstanciada na formação de redes solidárias em regimes multiculturais e na descoberta de soluções a partir de competências  locais. A TCI é hoje realidade não só no Brasil como em muitos outros países, fazendo parte das políticas públicas em nível nacional e também de estados e municípios. Entre as instituições que a acolhem e divulgam estão universidades, instituições de ensino e pesquisa, entidades não governamentais e programas sociais de diversas naturezas.

Pode-se dizer também que a TCI representa uma metodologia facilitadora da autonomia, capaz de potencializar os recursos individuais e coletivos, na medida em que se baseia e se apropria das qualidades e forças existentes em potência nas relações sociais, constituindo-se, assim como instrumento de construção de redes de apoio social. Há evidências de que a TCI, ao desenvolver a resiliência nas pessoas, faz com que estas adoeçam menos ao sentirem que contam com suporte emocional contínuo, derivado dos encontros grupais de que participam e do decorrente  compartilhamento de seus problemas, assim valorizados em suas particularidades, contando com a sensibilidade e o apoio dos demais participantes.

A TCI como ferramenta de cuidado está fundamentada em cinco pilares norteadores: Pensamento Sistêmico, Pragmática da Comunicação de Watzlawick, Antropologia Cultural, Pedagogia de Paulo Freire e Resiliência O Pensamento Sistêmico facilita com que as crises e os problemas individuais sejam solucionados se compreendidos como inseridos em um contexto maior, que contemple o biológico, o psicológico e a sociedade. Os princípios de Watzlawick enfatizam a comunicação como elemento que une os indivíduos socialmente e que todo comportamento é determinado por uma comunicação, podendo esta se dar de forma verbal e não verbal, extrapolando as palavras ou simplesmente os sinais emitidos. A Antropologia Cultural chama atenção para as diferentes culturas existentes, sendo um elemento de referência fundamental na identidade individual e coletiva – é a partir dessa referência que os indivíduos se encontram, se aceitam e assumem sua identidade. A Pedagogia de Paulo Freire parte do princípio de que todas as pessoas têm conhecimentos e experiências a trocar, aprendendo e ensinando em sinergia constante, dentro da perspectiva da educação como prática libertadora, fazendo da opressão e da fragilidade um incentivo para a reflexão, o comprometimento e o interesse na luta por sua libertação. E a resiliência, como se sabe, é a capacidade que os indivíduos possuem (ou podem adquirir) de resistir às intempéries da existência e manterem-se capazes para enfrentá-las e abrir caminhos para o futuro, seja individualmente ou como membros de grupos.

A partir de 2008 a TCI foi incorporada pelo Ministério da Saúde nas práticas integrativas e complementares e assim inserida na atenção primária em saúde, como estratégia de promoção da saúde e de prevenção do adoecimento.  Aliás, pesquisa realizada pelo próprio MS junto com a Universidade Federal do Ceará indicou que a inserção dessa abordagem na Estratégia de Saúde da Família reduziu substancialmente os encaminhamentos para os serviços mais especializados de saúde, pois as demandas que chegam a tais rodas são resolvidas em sua maioria no contexto da própria TCI ou nas instâncias comunitárias, nas instituições de direitos humanos e de apoio a população e mesmo entre as pessoas que delas participam.

Não é demais lembrar que além da área da saúde, a Terapia Comunitária está também inserida nas políticas públicas da educação, justiça comunitária, áreas sociais, nas artes e nas várias instituições governamentais e não governamentais. E não está restrita apenas aos profissionais de nível superior, pois acolhe a participação como terapeutas os agentes sociais e comunitários, lideres, militantes do cuidado, voluntários e pessoas que se sentem interpeladas pelo sofrimento humano.

No Brasil a TCI é hoje uma prática fortemente enraizada. Existem cerca de 40 mil terapeutas comunitários formados em 42 polos de capacitação, atuando em 25 estados, representados por uma entidade, a ABRATECOM – Associação Brasileira de Terapia Comunitária. Aqui no Distrito Federal, uma entidade local, o Movimento Integrado de Saúde Comunitária (MISMEC-DF), criado em 2003 já formou 1280 terapeutas em 26 turmas. No mundo todo existem núcleos de TCI em variados países, como Equador, Venezuela, Colômbia, Chile, Argentina, Uruguai, Bolívia, França, Bélgica, Itália, Suíça, Alemanha, Moçambique, além de outros.

Em suma, como princípio essencial, a Terapia Comunitária Integrativa rejeita o modelo tradicional de “salvadores da pátria”, gerador dependência, para um modelo realmente participativo, promotor de autonomia. Busca também partir das ações centradas em carências sociais para investir nas competências, bem como na superação da referência individual para a comunitária, promovendo ainda a circulação de informação, o entendimento do outro como agente ativo de seu processo e o estímulo à corresponsabilidade e à cidadania.

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Informe-se mais:

Fonte: A Saúde no DF tem jeito!

https://saudenodfblog.wordpress.com/

Terapia Comunitária Integrativa: uma luz sobre um mundo de desigualdade e conflitos

* (Este blog contem textos de autoria de FLAVIO GOULART (goulart.fa@gmail.com). Médico, professor aposentado da Universidade de Brasília, doutor em Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ, residente em Brasília desde 1991. Reproduções deste material são autorizadas, desde que citada a fonte)

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