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Mídia brasileira atesta: prisão de Lula ‘comprova’ Estado de Direito

Por Iara Moura, Bia Barbosa e Marcos Urupá*

Com a pompa que precede a previsão de um mestre místico, o plantão da TV Globo e sua musiquinha – parte da memória histórica brasileira – anunciou à nação: “O juiz Sérgio Moro acaba de determinar a prisão do ex-presidente Luíz Inácio Lula da Silva”.

Concomitantemente, pronunciamentos de figuras públicas sucederam-se nas redes sociais. Links e mais links de notícias e declarações foram compartilhados.

Ao vivo, logo depois, BandNews e GloboNews seguiram, de helicóptero, o carro em que Lula se deslocava até o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, no ABC paulista. Vivemos, no aqui e agora, o desenrolar da história, como tragédia e como farsa.

No canal privado de notícias da Globo, os analistas apressaram-se em desconstruir qualquer questionamento público sobre a decisão do STF e de Moro. Gerson Camarotti acusou o PT de tentar criar a narrativa de que a prisão era política. Lembrou sádica e oportunamente que, dos seis ministros que negaram o habeas corpus ao ex-Presidente, cinco foram indicados por governos petistas.

Eliane Catanhêde denunciou o uso, por parte do partido, da pressão externa de líderes da América Latina e da Europa. Citou a manifestação de Rafael Côrrea e do ex-presidente Pepe Mujica contra a prisão, afirmando que a estratégia dialogava com a usada durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff: a de afirmar que as elites que a tiraram do poder também perseguem Lula. “Este discurso cola lá fora, mas não tem eco aqui dentro”, concluiu Catanhêde. “Estes governo bolivarianos não afetam em nada aqui”, arrematou.

Enquanto os analistas se sucediam, imagens aéreas do Globocop mostravam o aglomerado à espera de Lula em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos. A câmera esforçava-se num exercício voyeur focando as janelas, uma a uma, a procura da imagem precisa. E que imagem era essa? Contrariando a expectativa de alguns setores da sociedade e da própria mídia, o despacho de Moro orientou o não uso de algemas. O espetáculo midiático, montado, prescindia desse detalhe.

Passado o anúncio da decisão de Moro, as análises na GloboNews voltaram-se à disputa eleitoral de 2018. A tese de que a transferência dos votos de Lula não terá grande peso na decisão e de que os eleitores de Lula seriam fieis à figura em si e não à ideologia partidária foi repetida à exaustão. Nos intervalos das análises, a sentença de Moro (outro documento carente de uma análise do discurso aprofundada) era lida repetidamente.

No Jornal das 10, decorridas quase quatro horas da publicação da sentença, o advogado de defesa de Lula, em rápida aparição, destacou que ficou surpreso com a expedição do mandado e firmou que o pedido de prisão era ilegal. Mas os comentaristas Merval Pereira e Camarotti atestaram que não havia um clima de comoção nacional e que esta seria apenas “mais uma prisão”.

Não obstante as imagens de milhares em marcha até São Bernardo, as declarações de políticos e o anúncio de centrais sindicais e movimentos dos protestos convocados para esta sexta-feira, Merval concluiu: “Está tudo normal”.

“Não se trata de uma prisão política, houve toda uma investigação sobre o tríplex, a defesa atuou”, ponderou Camarotti. “Destaco que, com todo esse caminho jurídico percorrido, não pode o PT dizer que existe injustiça”.

Jornal Nacional não ouve Lula

Numa edição de mais de uma hora de duração, o principal telejornal do país foi quase todo dedicado, na noite de quinta-feira 5, à decretação da prisão do ex-presidente Lula. Fazendo a retrospectiva da decisão do STF sobre o pedido de habeas corpus no dia anterior e de sua repercussão, o jornal, ao contrário do canal de notícias do mesmo grupo, aparentou objetividade e isenção, com os apresentadores e repórteres limitando-se ao relato dos acontecimentos das últimas 24 horas.

Mas como diz o provérbio alemão: é nos detalhes que o diabo mora. E aí vale destacar três pontos que permearam toda a edição da quinta.

O primeiro, e mais impressionante – apesar de não inédito – foi a ausência de qualquer declaração de Lula no telejornal, tanto sobre a decisão do STF quanto sobre a decretação da prisão.

Lula pode não ter dado entrevistas à imprensa nas últimas horas, mas falou em inúmeras ocasiões e espaços públicos sobre este fato, e sua posição poderia ter sido facilmente recuperada pela produção da emissora. Mas não o foi.

O posicionamento da defesa do ex-presidente foi apresentando somente mediante a leitura de trechos de notas do advogado de Lula, citados pelo apresentador William Bonner depois de 10 minutos corridos da edição do jornal.

O desequilíbrio das falas contra e pró-Lula também foi nítido na edição. Uma matéria de Brasília, trazendo a repercussão dos fatos, citou duas falas de petistas contra cinco de outros políticos defendendo a prisão.

Da senadora Ana Amélia (PP/RS), fervorosa opositora do PT, a frase de que “ninguém está acima da lei”. Do deputado federal Rodrigo Maia (DEM/RJ), presidente da Câmara, “o mandato ocorreu dentro de um processo conduzido pela mais alta corte e onde foi respeitado o direito de defesa”. E do governador de São Paulo e candidato à presidência da República, Geraldo Alckmin, que “isso simboliza uma importante mudança que vem ocorrendo no Brasil, com o fim da impunidade”.

A única representante do Partido dos Trabalhadores que teve de fato voz no Jornal Nacional foi a presidente da legenda, senadora Gleisi Hoffmann, que mereceu 10 segundos para declarar que “esta é uma prisão política”.

Gleisi apareceu numa reportagem somente no terceiro bloco do jornal, que mostrou como havia sido o dia do ex-presidente Lula pós-decisão do STF, reunido com lideranças partidárias em seu instituto. A reportagem focada no PT foi mais curta (menos de dois minutos) até que aquela que mostrou a repercussão internacional da decretação da prisão.

A cobertura internacional destacada pelo JN mostrou diversos jornais de outros países afirmando que o Brasil estava dividido. A Globo, entretanto, não mostrou essa divisão.

Um terceiro aspecto característico do JN, nessa e em outras ocasiões estratégicas pra história do País, é reforçar as ideias do grupo por meio de declarações de entrevistados escolhidas minuciosamente para ir ao ar. Assim, não é preciso um posicionamento editorial direto para influenciar a opinião pública de acordo com seus interesses.

Além da já mencionada “a lei vale para todos”, mas também do ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, outras quatro permearam todo o jornal: a de que as instituições estão cumprindo sua função, como declarou um líder do MDB, partido do presidente Michel Temer, a de que a Justiça deve ser célere, em resposta às acusações de que Moro teria sido muito rápido para expedir a ordem de prisão, a de que a carreira política de Lula teria acabado, ideia reforçada por reportagens citadas do Washington Post e do The New York Times; e, por fim, a de que a jurisprudência sobre a prisão a partir de decisão em segunda instância não deve ser alterada.

Neste caso, o jornal produziu uma reportagem de sete minutos de duração sobre as ações de declaração de constitucionalidade sobre este tema, que tramitam no STF, com longas declarações da ministra Rosa Weber dizendo que mudanças de jurisprudência em curto prazo não são saudáveis ao Direito.

E que uma mudança na composição do STF ou na posição de um ministro não justificariam rever este tipo de posicionamento. A matéria terminou com discurso do ministro Alexandre Moraes, segundo o qual, desde que a prisão pós-decisão em segunda instância passou a ser válida em 2016, o combate à corrupção ganhou muito no País.

Por fim, vale citar duas cerejas do bolo desta edição histórica, como a Globo mesmo fez questão de destacar: mais uma tentativa de caracterizar o PT como um partido violento – a emissora mostrou imagens de uma briga que aconteceu em frente ao Instituto Lula e afirmou que o partido teria dito que faria “tudo para impedir a prisão do ex-presidente” – e as declarações escolhidas para o quadro “O Brasil que queremos”, que encerrou o jornal da noite com metade dos participantes falando sobre combate a corrupção, uma delas afirmando que “os políticos corruptos tem que ser banidos do País”.

A voz do povo é a voz de Deus.

Editoriais sem máscaras

Na manhã desta sexta-feira 6, os jornalões estamparam o decreto da iminente prisão de Lula. Logo abaixo da retranca “Prisão histórica”, a manchete d’O Globo: “Moro decreta prisão e ordena que Lula se entregue até as 17h”. Abaixo da manchete, um parágrafo com o lide (O quê? Quem? Onde? Como?) pretendia localizar quem ainda não estava em dia com as informações. No meio, o editorial “Prisão de Lula reforça o Estado de Direito”.

Se no JN da noite anterior o Grupo Globo usou de declarações de terceiros para fazer suas teses chegar ao público brasileiro, no veículo impresso da empresa nada foi poupado:

“Fecha-se um ciclo na política brasileira, no momento em que um líder populista esbarra na Constituição”, afirma o editorial logo em seu início. “O mandado de prisão contra Lula confirma, por si só, que os alicerces republicanos da democracia brasileira se fortaleceram”, “mais do que nunca, vale a máxima republicana de que a Justiça é para todos”, acrescentou.

Mas não foi só. O Grupo Globo, uma vez mais, reafirmou seu compromisso editorial com a Operação Lava Jato – o que o fez, em 2017, a tentar derrubar o próprio Temer: “a ordem de prisão de Lula, por sua vez, é o ponto mais alto de um processo de limpeza ética por que passa a vida pública do País, a partir do fortalecimento de instituições de Estado — Ministério Público, Judiciário, Polícia Federal —, renovadas por gerações recém-chegadas de servidores profissionais”.

“Especialistas em vitimização, Lula e PT tentam há tempos construir o papel de mártires diante de tenebrosas conspirações “da direita” (…) Mas a Lava-Jato destamparia o baú de falcatruas lideradas por Lula e PT. Longe de envergonhar o país, como acha o ministro do STF Gilmar Mendes, a condenação de um ex-presidente demonstra a força das suas instituições”, concluiu o texto.

 

No Estadão, a tonalidade discreta na manchete direta “Moro decreta prisão de Lula” é imediatamente quebrada pela falta de diversidade e da presença do contraditório na cobertura. E sem máscaras no editorial “A manobra fracassada”, em que os donos do veículo afirmam que “os ministros Marco Aurélio e Ricardo Lewandowski tentaram ganhar no grito o que não puderam ganhar por meio da argumentação e da estratégia”. E o ex-presidente, que até para Moro merece respeito especial em função da dignidade do cargo que ocupou, é chamado ironicamente pela família Mesquita de “Sr. Lula da Silva”.

Lá fora, de novo, mais profundidade

Na imprensa internacional, o discurso único de vitória democrática contra a corrupção aparece contraposto por elementos contextuais e analíticos mais profundos. A leitura de reportagens e análises a partir de diversos sites de noticias evidencia uma série de perguntas não respondidas e dúvidas sobre o respeito ao rito democrático – além, claro, da divisão na opinião pública, já mencionada.

No portal da rede Al Jazeera: “Profunda divisão no Brasil, apos juiz expedir mandado de prisão de Lula”. O The New York Times tratou a queda de Lula como “a mais dramática da história recente do País”, lembrando que o ex-presidente saiu do governo ha oito anos com 87% de aprovação da população e que mantinha o percentual mais alto de intenções de voto para as próximas eleições brasileiras, a serem realizadas em outubro deste ano, informações estas ausentes ou invisibilizadas pelos grandes veículos nacionais.

O francês Le Monde denominou Lula como “ícone da esquerda brasileira”, enquanto o espanhol El País ressaltou o fato de que o mandado de Moro saiu antes do esgotamento do prazo para recursos finais do processo e menos de 24 horas depois da votação no STF.

Por aqui, a Folha de S.Paulo foi dos poucos veículos nacionais a abrir espaço para esse tipo de questionamento.

O espetáculo midiático continua na sexta-feira 6, data do desfecho de uma história com o final que a chamada grande mídia brasileira ajudou a construir. Diferentemente do MBL, os grupos de comunicação que controlam o poder das comunicações no Brasil não precisarão soltar fogos. Como este blog destacou em outros momentos, a praça pública onde Lula (e os ideários de esquerda corporificados de maneira complexa e contraditória na sua liderança) receberão sentença foi há muito tempo montada. Agora, é desfrutar dos resultados. Triste episódio da nossa história.

* Colaborou Camila Nóbrega. Iara Moura, Marcos Urupá, Bia Barbosa e Camila Nóbrega são jornalistas e integram o Intervozes.

'Vamos matar todo mundo', sugere participante do 'Big Brother' como solução para o fim da aids

No entendimento da ‘brother’ Angela, a aids se proliferou porque um ‘idiota’ transou com um macaco, sendo a solução final a morte de todos os que contraíram o vírus HIV. (Foto: Divulgação)

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+ Brasil) lamentou neste domingo (16), por meio de nota, o comentário de Angela, participante do Big Brother, na sexta-feira (14) sobre a pandemia de HIV/AIDS.
Em meio a uma conversa sobre o tema, Angela soltou: “Vamos matar todo mundo”. Depois de um rápido silêncio constrangedor, ela acrescentou que, em seu entendimento, “um idiota” teria feito sexo com um macaco e posteriormente disseminado o vírus.
A RNP+ Brasil observou que a Rede Globo não pediu explicações a ela – como fez em outras ocasiões com afirmações descabidas – e se disse preocupada com os comentários, em um meio que forma a opinião de milhares de telespectadores em todo o país.
“A RNP+ Brasil lamenta profundamente que a Rede Globo tenha se omitido no cumprimento de seu papel social, contribuindo para aprofundar o preconceito, a discriminação e prestando um desserviço às pessoas que vivem com HIV e AIDS”, disse a RNP+.
“Lamentamos ainda que o apresentador do programa, em respeito à sua longa amizade com o cantor e compositor Cazuza, vítima mortal da AIDS, não tenha se sensibilizado com a frase infeliz da participante do reality show”, observou o grupo.
Assista abaixo ao comentário e acesse em seguida a nota na íntegra da RNP+ Brasil.

“RNP+ BRASIL LAMENTA QUE A REDE GLOBO PRESTE DESSERVIÇO À SAÚDE DE MILHARES DE BRASILEIROS
Emissora deveria informar ao invés de reforçar o preconceito e a discriminação às pessoas com HIV
“Vamos matar todo mundo.” Com a frase, uma participante do Big Brother Brasil 14 sugeriu que se acabasse com a epidemia de HIV/AIDS no planeta. Transmitida em rede nacional pela Rede Globo na sexta-feira, 14 de março, a sugestão da pena de morte às pessoas que vivem com HIV e AIDS, acompanhada da informação de que “um idiota” teria feito sexo com um macaco e posteriormente disseminado o vírus, sem que a emissora tivesse pedido explicações a ela – como fez em outras ocasiões com afirmações descabidas –, preocupa a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS (RNP+ Brasil) ao formar a opinião de milhares de telespectadores em todo o país.
A pandemia de HIV/AIDS eclodiu no início dos anos 1980, acompanhada de preconceito, discriminação e uma sentença de morte às suas vítimas. A partir de 1996, a introdução da terapia antirretroviral – combinação (coquetel) de medicamentos – tem aumentado paulatina e significativamente a expectativa de vida das pessoas infectadas pelo HIV, chegando-se a que, na atualidade, para as pessoas que contraíram o vírus por via sexual, com diagnóstico e tratamento oportunos, a expectativa de vida é similar àquela das pessoas sem HIV.
Milhares de cidadãs e cidadãos em todo o Brasil têm HIV e não sabem; significativa parcela destes brasileiros deve chegar aos serviços de saúde com complicações provocadas pela AIDS, síndrome que se instala no organismo de quem tem o vírus HIV, não conhece o diagnóstico e não recebe tratamento.
Recentemente, pesquisas científicas têm mostrado que essas mesmas drogas podem impedir que o vírus instale-se no organismo de um indivíduo possivelmente infectado pelo vírus, se em até 72 horas depois da ocorrência sexual ou profissional procurar um serviço de saúde e tomar o coquetel por um mês.
Adotada há alguns anos pelo Ministério da Saúde em todo o Brasil, essa estratégia é chamada de profilaxia pós-exposição (PEP). Outro estudo, sobre a profilaxia pré-exposição (PrEP), sugere combinar o coquetel ao uso de preservativos para reduzir expressivamente a infecção em populações mais vulneráveis ao vírus, como jovens em fase escolar e adultos em idade de alta produtividade no trabalho.
Atualmente, sabe-se que pessoas com HIV que tomam seus antirretrovirais regularmente têm chance desprezível de infectar suas parcerias sexuais. A estratégia do tratamento como forma de prevenção (TcP) da transmissão do HIV começa a ser implantada no Brasil. A circuncisão masculina tem elevada eficácia na proteção da infecção para homens heterossexuais.
Baseados em evidências, pesquisadores em todo o mundo têm afirmado que essas novas tecnologias de prevenção e de tratamento podem acabar com a transmissão do HIV em até 50 anos.
A RNP+ Brasil lamenta profundamente que a Rede Globo tenha se omitido no cumprimento de seu papel social, contribuindo para aprofundar o preconceito, a discriminação e prestando um desserviço às pessoas que vivem com HIV e AIDS. Lamentamos ainda que o apresentador do programa, em respeito à sua longa amizade com o cantor e compositor Cazuza, vítima mortal da AIDS, não tenha se sensibilizado com a frase infeliz da participante do reality show.
Em nome das pessoas que vivem com HIV e AIDS no Brasil, de seus pais e de seus filhos – que ficariam órfãos com a eliminação de seus pais soropositivos –, a RNP+ Brasil pede que a Rede Globo de Televisão se esforce para corrigir a declaração da participante de seu programa de entretenimento.
Criada em 1995 no Rio de Janeiro, a RNP+ Brasil tem atuação em todos os estados e no Distrito Federal, nos quais participa de conferências e conselhos de saúde, bem como na proposição e monitoramento de políticas públicas de saúde. Acreditamos que contribuímos para o controle da transmissão do HIV e para a eliminação da epidemia de AIDS no Brasil. Até que a cura torne-se uma realidade e não a eliminação das pessoas que vivem com HIV e AIDS.
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS, 16 de março de 2014.”
Saiba mais sobre a RNP+ Brasil em www.rnpvha.org.br

O impacto da exposição de crianças a cenas de sexo e violência na TV

Cecília Bizerra, para o Observatório do Direito à Comunicação

A Andi -Comunicação e Direitos e o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social publicaram o documento “Mídia e infância: o impacto da exposição de crianças e adolescentes a cenas de sexo e violência na televisão” que, em dez páginas, faz o levantamento dos principais estudos elaborados em diversos países sobre o tema.

A pesquisa apresenta estudos sobre os impactos da exposição de crianças e adolescentes a cenas televisivas de sexo e violência desenvolvidas há várias décadas em diversos países. A conclusão é que, majoritariamente, o contato regular de garotos e garotas com conteúdos inadequados pode levar a sérias consequências, como comportamentos de imitação, agressão, medo, ansiedade, concepções errôneas sobre a violência real e sexualização precoce.

O documento apresenta resultados de estudos realizados na Holanda, Canadá, Alemanha e Suécia, mas dedica a maioria de suas páginas a pesquisas realizadas nos Estados Unidos, onde, nos últimos 40 anos, foram realizadas mais de 3.500 pesquisas sobre os efeitos da violência na televisão sobre os espectadores.

Um dos estudos norte-americanos levantados pelo documento foi o longitudinal realizado por pesquisadores da Universidade de Michigan, que relaciona a exposição de crianças à violência na TV e seus comportamentos agressivos e violentos no início da fase adulta. A pesquisa mediu em 1977 os hábitos de 557 crianças de Chicago em relação aos meios de comunicação, especialmente ao consumo de programação televisiva violenta. Após 14 anos ouviu 329 daquelas crianças, já adultas, com idades entre 20 e 22 anos, e verificou que uma maior exposição a conteúdos violentos transmitidos pela tevê durante a infância foi capaz de predizer um maior nível de agressão na vida adulta, independentemente do quão agressivos os participantes eram quando crianças.

“O constatado pela equipe de pesquisa de Michigan é que mesmo crianças que não eram agressivas na infância – e de todos os estratos sociais – ao terem sido expostas a um volume expressivo de conteúdos televisivos violentos durante esse período acabaram por apresentar maior probabilidade de se tornarem adultos agressivos”, cita o documento.

O estudo também apresenta resultados de pesquisas que apontam como efeitos da exposição das crianças à violência na mídia o aumento de comportamentos agressivos, a perda de sensibilidade à violência no mundo real e o crescimento do medo. “O Physician Guide to Media Violence – publicado pela American Medical Association (AMA), em 1996 – alerta que a exposição a um único filme, programa de televisão ou reportagem pode resultar em depressão emocional, pesadelos ou outros problemas relativos ao sono em muitas crianças, particularmente as mais novas. E crianças amedrontadas estão mais sujeitas a se tornarem vítimas ou agressores”.

Classificação indicativa como política pública

Evidências como estas fizeram com que, ao longo das últimas décadas, as principais democracias do planeta adotassem sistemas similares ao da Classificação Indicativa utilizada pelo Ministério da Justiça brasileiro, com o fim de proteger os direitos humanos de crianças e adolescentes expostos ao conteúdo da televisão. “Com a Classificação Indicativa, as programações televisivas passam a dar indicação à família sobre a faixa etária para a qual as obras audiovisuais são recomendadas. Isso porque é um direito inalienável das famílias decidir o que seus filhos podem ou não assistir”, afirma o documento.

A opinião é respaldada por recomendações do Comitê para os Direitos da Criança da Onu e da Unesco, que aconselham os governos nacionais a assumirem atitudes concretas de proteção aos direitos da criança e do adolescente no campo da comunicação de massa. As entidades apontam que fatores como fácil acesso e alto consumo de televisão no país e a evidência que pais e mães trabalharem e permanecerem a maior parte do tempo fora de casa, fortalecem a necessidade de se defender a Classificação Indicativa como uma política pública fundamental para garantir o respeito aos direitos das crianças e dos adolescentes.

“Para os pais poderem cumprir com suas responsabilidades em relação à proteção do processo de desenvolvimento de seus filhos, antes o Estado e as empresas devem fazer sua parte, estabelecendo e obedecendo os limites para a veiculação de conteúdos potencialmente danosos”, recomenda o documento.

O estudo “Mídia e infância: o impacto da exposição de crianças e adolescentes a cenas de sexo e violência na televisão” está disponível para download, na íntegra, e pode ser conferido aqui.

Que tal criar grupos para exterminar meninos de rua? Sugestão na TV de Gilmar Mendes

Por Leandro Fortes na Carta Capital

Esse fascitóide de quinta categoria se chama Márcio Mendes (foto ao lado). É um técnico rural que a família do ministro Gilmar Mendes, do STF, mantém como cão raivoso na emissora de TV do clã para atacar adversários e inimigos políticos. A TV Diamante, retransmissora do SBT, é, acreditem, uma concessão de TV educativa apropriada por uma universidade da família do ministro. Mendes, vocês sabem, é o algoz do fim da … obrigatoriedade do diploma para o exercício de jornalistas.

Vejam esse vídeo e vocês vão entender, finalmente, a razão. Esse cretino que apresenta esse programa propõe a criação de um grupo de extermínimo para matar meninos de rua. Pede ajuda de empresários e comerciantes para montar um “sindicato do crime”, uma espécie de Operação Bandeirante cabocla, para “do nada” desaparecer com esses meninos. E preconiza: “Faz um limpa, derrete tudo e faz sabão”.

Repito: trata-se de transmissão em concessionária educativa na TV da família de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Eu denunciei isso, faz dois anos, na CartaCapital, em uma das matérias sobre os repetidos golpes que o clã dos Mendes dá para derrubar o prefeito eleito da cidade de Diamantino (MT), que ousou vencer a família do ministro nas urnas.

Vamos ver o que diz o Ministério das Comunicações e a Polícia Federal, a respeito. Seria bom saber qual a posição do SBT, também.

Veja o vídeo:

Eu ia a pé!