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Os 5 anos de um blogue de resistência

O blogue Náufrago da Utopia completa cinco anos de existência nesta 5ª feira, 8.

 No post inaugural (vide aqui), com a sinceridade habitual, eu admiti que nunca almejara ser blogueiro, mas fora uma opção alternativa quando minhas maiores metas não deslancharam:

Em novembro/2005, ao lançar meu livro de estréia, ‘Náufrago da Utopia’, acreditava ter desimpedido os caminhos para meu projeto maior: propor um novo ideário para a esquerda, retomando, num contexto mais propício, as propostas neo-anarquistas da geração 68. Mas, passados dois anos e meio, nada marchou como esperava.

O ‘Náufrago’ não concretizou seu potencial, mantendo-se apenas como um cult para algumas dezenas de pessoas e uma referência para alunos e professores de História.

Não encontrei espaço para meu  great come back  à grande imprensa, sonho que jamais abandonei. Só que, como nunca, as tribunas estão hermeticamente fechadas para os articulistas de esquerda, salvo os que construíram sua reputação num passado distante e continuarão sendo suportados enquanto durarem, mas não substituídos.

Vai daí que a nova utopia singra os mares meio sem rumo, incapaz de encontrar seu porto seguro.

Na minha visão daquele momento, um blogue de verdade serviria para ir acumulando forças, à espera de dias melhores. O que eu tinha, O Rebate, era apenas um depósito dos textos que eu redigia semanalmente para o site coletivo homônimo. Decidi fazer as coisas direito, produzindo textos diários, para conquistar um público mais amplo e mantê-lo interessado.

 O projeto acabou me encantando, pois veio ao encontro de outra antiga paixão: os circuitos marginais. Quantos esforços desenvolvemos, na década de 1970, para difundir nossas obras diretamente às pessoas, escapando do controle da indústria cultural!

 As precárias coletâneas que editávamos com tiragem de mil exemplares continuam pegando pó na minha estante, como marcos de uma fase talvez ingênua, mas muito gratificante. O que encarávamos como resistência cultural era, também, uma forma de travarmos o bom combate. Se não produziu resultados mais expressivos, ao menos ajudou-nos a manter a sanidade, durante as terríveis trevas ditatoriais.

 Então, aos poucos, o blogue foi tomando forma.

 De um lado, cumprindo meu dever de sobrevivente de uma guerra trágica, defendi a memória da resistência à ditadura militar e prestei tributo aos companheiros que nela lutaram, aproveitando todas as oportunidades para lembrar seus nomes e seus feitos, honrando seu sacrifício.

Muitas informações sequer registradas em livros estão presentes no blogue, pois, mais que o antigo Repórter Esso, posso me considerar uma  testemunha ocular da História: estava no palco dos acontecimentos e os observei com os olhos do jornalista que viria a me tornar, tanto quanto com o olhar do militante em ação (para ser absolutamente sincero, eles ficaram impressos na minha memória, mas os desafios imediatos exigiam tanto de mim que  só os pude digerir, interpretar e aprofundar depois, no recesso compulsório, qual sejam as intermináveis horas que tinha para preencher nos cárceres militares, passada a fase dramática das torturas).

Também resgatei e trouxe para o blogue o melhor da minha experiência  jornalística, chegando a digitar e atualizar longos textos que escrevera profissionalmente, como o dedicado à época de ouro da MPB, tão extenso que fui obrigado a dividi-lo em cinco posts.

E, se nunca se criaram as condições para lançar meu sonhado livro teórico com mínima possibilidade de atingir um público mais amplo do que as poucas centenas de leitores que habitualmente consomem tais obras (veneno  para as livrarias) no Brasil, fui colocando no blogue, pouco a pouco, tudo que eu tinha para dizer. Talvez sejam irrelevâncias, talvez ainda venham servir para apontar caminhos às novas gerações de revolucionários.

 

Mas, ao alertar para as terríveis ameaças que o capitalismo nos inflige, ao sobreviver muito além de sua  vida útil, tornando-se cada vez mais parasitário e nefasto, creio ter, pelo menos, cumprido o papel de estimular discussões extremamente necessárias. Poucos se dão conta de quão grande é o risco da  espécie humana não subsistir por mais um século, nem da premência com que precisamos agir, para salvarmos a humanidade da extinção. O meu papel eu tenho cumprido.

Finalmente, o Náufrago serviu como tribuna para as muitas lutas que tenho travado, algumas vitoriosas, outras não. Esta é a sua faceta mais conhecida, daí eu considerar dispensável estender-me no assunto.

Basta mencionar que, além dos aproximadamente 250 diferentes textos redigidos ao longo da cruzada pela liberdade de Cesare Battisti, o blogue defendeu o ex-etarra Joseba Gotzon, vítima menor do mesmo espírito revanchista da direita européia; Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; a iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; o cineasta Roman Polanski, quase-vítima do moralismo mais rançoso. o movimento estudantil em geral e os universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.

Acredito que o balanço seja positivo. E peço encarecidamente aos companheiros e amigos que ajudem a difundir o acervo nele armazenado, pois não basta plantarmos as sementes, elas precisam ser irrigadas. E a colheita almejada está muito além do alcance dos meus esforços pessoais.

Ditador sírio é clone de Pinochet

Bashar al Assad: a mesma carranca…

O ditador sírio Bashar al Assad esmera-se em imitar, detalhe por detalhe, o carniceiro chileno Augusto Pinochet: seu regime genocida não só liquidou o Victor Jara do seu país, como está despejando presos políticos em estádios de futebol.

Compositor e cantor de músicas que combinavam ritmos folclóricos com mensagens de protesto, Jara lembrava muito o nosso Geraldo Vandré, também assassinado por uma ditadura bestial, embora por outros meios: dele só exterminaram a alma, deixando o corpo a perambular como zumbi.

Já do expoente máximo da  Nueva Canción Chilena os militares ensandecidos tiraram também a vida.

pinochetazzo o surpreendeu na universidade, sendo lá sequestrado pelas tropas golpistas, juntamente com outros alunos e professores.

Levaram-no ao Estádio Chile (não confundir com o Estádio Nacional do Chile), onde eram amontoados os seguidores do presidente legítimo Salvador Allende. Uma boa idéia dos horrores que lá tiveram lugar é dada no filme O Desaparecido – um grande mistério (d. Costa Gravas,  1982), cujas sequências mais chocantes são as que mostram as pilhas de cadáveres dos cidadãos executados pelos fascistas.

A versão mais difundida da morte de Jara é a que aparece em outro filme, Chove Sobre Santiago (1976), do chileno Helvio Soto: ele é desafiado a cantar para seu público, reunido nas arquibancadas do estádio sinistro — e o faz. Então, os verdugos o espancam até a morte.

Seu corpo foi exumado em 2009, quando ficou comprovado que realmente esmagaram-lhe as mãos a coronhadas.

Teve seus restos mortais atirados num matagal de beira de estrada, mas acabaram sendo encontrados e levados à câmara mortuária. Depois que a esposa o identificou, foi enterrado no Cemitério Geral de Santiago.

…e a mesma bestialidade de Pinochet.

Enfim, tratou-se de um destino bem semelhante ao que acaba de ter o músico sírio responsável pelo  hino das manifestações contra a tirania do seu país — cujo título, numa tradução livre, seria ‘Pede pra sair, Basher’.

O cadáver do autor da canção, Ibrahim Qashoush, apareceu boiando num rio, no início do mês passado.

Agora, chega a notícia de que as tropas do ditador sírio estão invadindo casas num distrito sunita do porto de Latakia, prendendo pessoas às centenas e as levando para os estádios da Cidade Esportiva de al-Raml, sede dos Jogos Mediterrâneos na década de 1980.

“Os estádios da Cidade Esportiva estão servindo de abrigo para refugiados, para impedir que eles fujam de Latakia e, tal qual vimos em outras cidades atacadas, também como um centro de detenção”, disse o diretor do observatório Rami Abdelrahman à agência Reuters.

Os relatos de torturas provêm de todos os lados. Só não foram confirmadas, por enquanto, execuções nos estádios-masmorras.

É só o que falta para Bashar al Assad igualar-se a Pinochet em tudo e por tudo.

Quanto à presidente Dilma Rousseff, o que falta é ela confirmar a alardeada priorização dos direitos humanos, repudiando a ditadura síria com a mesma firmeza adotada em relação à congênere iraniana.

Afinal, para quem é ou foi revolucionário(a), não importa o sexo da vítima ou se a forma de execução é particularmente cruel (caso do apedrejamento). Temos o dever moral de nos posicionar contra as matanças, a barbárie e o despotismo em si mesmos, sob quaisquer circunstâncias e independentemente das conveniências econômicas.

RP da barbárie dá entrevista desastrosa

O pior assessor de imprensa do mundo está no Brasil para defender o apedrejamento até a morte de Sakineh Ashanti (acima), verdadeiramente por adultério e alegadamente por homicídio (acusação inventada pelo estado teocrático do Irã depois que o mundo inteiro repudiou a punição bestial e arcaica).

Trata-se do chefe de Imprensa do Governo do Irã e um dos principais conselheiros presidenciais, Ali Akbar Javanfekr (no topo) que, entrevistado por Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, disse tudo que precisava dizer para os inimigos brotarem como cogumelos.

SOBRE O BRASIL

“Esse não é o caminho correto [criticar direitos humanos], é um caminho que não tem fim. Existem 2.500 Sakinehs nas prisões brasileiras, acusadas de homicídio. Nos EUA, uma mulher foi executada recentemente. Se a presidente está preocupada, também podia criticar os EUA.” COMENTÁRIO: CRITICAR OS DIREITOS HUMANOS É REALMENTE UM CAMINHO SEM FIM… NO IRÃ, QUE OS INFRINGE SISTEMATICAMENTE. DE RESTO, COMO BRASILEIRO, CONSIDERO UM INSULTO COLOCAR NO MESMO PLANO OS PROCESSOS POR HOMICÍDIO DE MEU PAÍS E A FALSIDADE COM QUE OS AIATOLÁS ENSANDECIDOS TENTARAM JUSTIFICAR O INJUSTIFICÁVEL. E A FORMA COMO JAVANFEKR SE REFERE À NOSSA PRESIDENTE É TÃO DESRESPEITOSA QUE ELE DEVERIA SER CONVIDADO A RETIRAR-SE IMEDIATAMENTE DO BRASIL

SOBRE O HOLOCAUSTO

“Se o Holocausto é uma realidade histórica, por que não se permite que seja estudado? Qualquer pessoa que questiona é logo condenada. Devemos ficar preocupados com a distorção da história.” COMENTÁRIO: O HOLOCAUSTO É UMA VERDADE HISTÓRICA QUE SÓ OS FANÁTICOS MAIS DELIRANTES PÕEM EM DÚVIDA. DEVE, SIM, SER CRITICADO O USO E ABUSO DO HOLOCAUSTO, POR PARTE DE ISRAEL, COMO ÁLIBI PARA MASSACRAR OUTROS POVOS. MAS, QUE O HOLOCAUSTO EXISTIU, EXISTIU.

SOBRE OS GAYS

“Na República Islâmica do Irã, não há. Nossa visão sobre esse tema é diferente da de vocês. É um ato feio, que nenhuma das religiões divinas aceita. Temos a responsabilidade humana, até divina, de não aceitar esse tipo de comportamento. Existe uma ameaça sobre a saúde da humanidade. A Aids, por exemplo. Uma das raízes é esse tipo de relacionamento… vi que no Carnaval [brasileiro] foram distribuídos 90 milhões de preservativos, e isso é muito feio. Não é a favor da saúde da humanidade.” COMENTÁRIO: TUDO DE QUE NÃO PRECISAMOS SÃO LIÇÕES DE INTOLERÂNCIA. VÁ INSUFLAR PRECONCEITOS NOUTRA FREGUESIA!

SOBRE A LIBERDADE ARTÍSTICA

“Temos milhares de cineastas trabalhando no Irã, produzindo filmes, ganhando prêmios em festivais internacionais. Se um deles [Jafar Panah] pratica um crime que tem punição pela lei, será que é uma restrição das atividades do cineasta? Ser cineasta significa ter imunidade? Esse senhor praticou um ato ilegal. COMENTÁRIO: VERDADEIROS ARTISTAS PROPÕEM VISÕES ALTERNATIVAS ÀS OFICIAIS [O “ATO ILEGAL” QUE O LEVOU À MASMORRA, ANTES MESMO DE INICIAR AS FILMAGENS!!!]. ASSIM COMO O ADULTÉRIO DE SAKINEH, O QUE PANAH FEZ SÓ DESPERTA REAÇÃO TÃO BIZARRA EM NAÇÕES QUE AINDA NÃO SAIRAM DAS TREVAS MEDIEVAIS.

Irã insiste em satanizar Sakineh e perseguir jornalistas

Se alguém ainda precisava de motivos para deplorar o estado teocrático iraniano como uma excrescência medieval sem lugar no século 21, os aiatolás ensandecidos trataram de os fornecer.

Foram duas demonstrações a mais de despotismo gritante, aberrante e aviltante.

Coagiram Sakineh Mohammadi Ashtiani a participar, na TV, de uma farsa em que ela fingiu aplicar no finado marido uma injeção de sedativo, para que seu amante depois o eletrocutasse.

Sendo, como são, totalmente inconfiáveis os Torquemadas iranianos, useiros e vezeiros em forjarem e propagarem mentiras como justificativas para suas práticas sanguinárias, não dá para acreditarmos sequer que o finado morreu de morte matada…

O certo é que Ashtiane foi condenada à execução por apedrejamento APENAS E TÃO SOMENTE em função de haver cometido adultério.

TODO O MAIS VEIO DEPOIS. Quando o mundo inteiro repudiava, horrorizado, esta sentença bestial, foram acrescentadas (o que tudo leva a crer não passarem de) sórdidas invencionices.

Tentou-se fazer dela uma assassina, para dourar a pílula. Satanizou-se a vítima para melhorar a imagem dos carrascos. É como sempre agem os linchadores travestidos de otoridades.

Em vão. Para quem não é fanático religioso, misógino exacerbado ou sádico enrustido, nem mesmo esta pretensa cumplicidade em assassinato justificaria a condenação ao apedrejamento.

E, claro, o fedor da farsa era tamanho e tão inconfundível que ninguém dotado de perspicácia e espírito de justiça acreditou, alhures.

Agora, ao torturá-la (ou ameaçá-la com novas torturas, contando com o trauma que lhe causaram as já sofridas) para que produza trunfos propagandísticos contra si própria, participando de uma grotesca encenação, o regime iraniano apenas consegue se tornar mais repulsivo ainda aos olhos do mundo.

Lembra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Chile de Pinochet ou o Camboja de Pol-Pot. Merece o que está tendo: o mais veemente repúdio do mundo civilizado.

De quebra, a  Santa Inquisição Iraniana acaba de condenar o presidente da Associação de Jornalistas do Irã, Mashallah Shamsolvaezin, a 16 meses de prisão por ter cumprindo seu dever como profissional de imprensa e como representante da categoria. Eis o seu próprio relato:

“Fui condenado a um ano de prisão sob a acusação de ter minado o regime, dando entrevistas para televisões e agências de notícias estrangeiras. Também fui condenado a quatro meses de prisão por me referir a Ahmadinejad como ‘megalomaníaco’ numa entrevista em árabe à [rede] Al Arabiya”.

Como revolucionário formado na tradição marxista (e, portanto, visceralmente avesso a medievalismos), como defensor dos direitos humanos em quaisquer circunstâncias, como homem civilizado e como jornalista,  manifesto meu veemente repúdio a mais esta condenação iníqua.

De resto, cabe lembrar uma argumentação correta que os companheiros estão utilizando no caso de Julian Assange: é inaceitável a intimidação de quem apenas divulgou aquilo que os governos foram incompetentes em proteger.

Da mesma forma, não somos nós que temos de zelar pela imagem do Irã, ameaçado de intervenção externa contra seu programa nuclear. São os próprios dirigentes iranianos.

Se eles insistem em fornecer, de mão beijada, tudo de que os propagandistas ocidentais necessitam para criar um ânimo belicoso em relação ao Irã, não faria sentido traírmos nossos princípios e negarmos o óbvio ululante a pretexto de dificultar os planos dos EUA e Israel.

Comportarmo-nos como cegos ou como avestruzes nos tiraria toda credibilidade, jogando-nos na mesma vala comum em que está o truculento Irã.

É certo que, por pior que seja tal regime, ainda assim a tarefa de regenerá-lo cabe ao próprio povo iraniano, devendo ser firmemente repudiada qualquer intervenção militar estrangeira, sob qualquer pretexto.

Mas, daí a compactuarmos com o extermínio legalizado de oposicionistas, torturas, estupros, apedrejamentos e todo tipo de violação dos direitos humanos e direitos civis, vai uma grande distância.

A pressão moral temos, sim, o direito e a obrigação de exercer. A mais incisiva possível.

Prazer em te reencontrar, companheira Vanda!

Sem falsa modéstia, acertei em praticamente tudo que escrevi sobre a campanha e o resultado do 2º turno da eleição presidencial.

Leitores contrariados com a derrota demotucana, entretanto, correram a me rotular de “petista”, forma bem brasileira de desqualificar argumentações irrespondíveis.

No terreno minado em que se transformou o debate político na internet, não há mais espaço para nuances e sutilezas.

Caímos no maniqueísmo total: reduz-se tudo a uma disputa entre o Bem e o Mal, só diferindo o entendimento sobre quem seja o  mocinho e quem seja o bandido.

Para veteranos de outros carnavais, entretanto, há uma infinidade de tons entre o branco e o negro. Foi assim que aprendemos a pensar a realidade e a direcionar nossas ações.

Não mudarei para satisfazer o primarismo de ninguém. Pois, mais do que êxitos, ganhos e prestígio, o que me importa é a coerência. Sou capaz de suportar a reprovação generalizada, quando intimamente sei que estou certo.

Nem imagino o que aconteceria se me sentisse um  safado — como muitos que abriram mão dos seus ideais devem, lá no fundo, estar cientes de que são, embora finjam acreditar que  evoluíram.

Então, não me incomodei nem um pouco quando alguns me acusaram de ajudar  a direita, ao defender a posição de que cidadãos com convicções revolucionárias deveriam, no 1º turno, votar num dos quatro candidatos assumidamente anticapitalistas, e não na candidatura reformista com chance de liquidar logo a fatura.

E, como tudo confluía para (se houvesse) um 2º turno entre Dilma Rousseff e José Serra, também antecipei que, nesta hipótese, o certo seria apoiarmos a candidatura reformista contra a que, além de ser de centro-direita, englobava suspeitíssimos bolsões neofascistas.

REFORMA OU REVOLUÇÃO

Que eu me lembre, foi no final de 1968, ao redigir meu primeiro documento político mais ou menos autoral, que respondi à celebre questão colocada por Rosa Luxemburgo (reforma ou revolução) alinhando-me com os defensores da segunda, contra os esquerdistas que se conformavam com a primeira.

Para mim, não foi só uma besteirinha alinhavada para um congresso secundarista. Foi uma diretriz para a vida inteira.

Mais tarde, vim também a perceber quão insensata era a postura dos companheiros que faziam oposição meramente destrutiva às por eles chamadas  políticas econômicas burguesas, arriscando-se a atirar o Brasil numa depressão.

Ou seja, num momento de grande fragilidade econômica, sustentavam que seria bom se o caldo entornasse de vez, para as massas aprenderem na carne quão perverso é o capitalismo.

Contra esses eu argumentava que, nas crises econômicas (que eu havia estudado em profundidade para produzir uma série jornalística), a primeira coisa que acontece é o arrefecimento da combatividade dos trabalhadores.

Temerosos de perder o emprego numa época de vacas magras, eles, em sua maioria, abdicam de reivindicações, desertam dos sindicatos e enfiam a cabeça na areia.

Então, eu concluía, seria suicídio contribuírmos para o agravamento de qualquer recessão, além de uma desumanidade em relação aos humildes, que são sempre os que mais sofrem.

Dessa polêmica me veio a certeza de que o “quanto pior, melhor” não deve ter lugar nas lutas políticas e sociais.

Lembrei-me de haver lido, em Isaac Deutscher, que a democracia alemã fora detonada pelo ataque conjunto da direita e da esquerda: os comunistas, qualificando os socialistas de “sociais-fascistas”, ajudaram Hitler a varrê-los do poder.

Acreditavam que, alijados os  intermediários, no confronto aberto com o  verdadeiro inimigo levariam a melhor.

Mas, perderam. E, com sua aposta insensata, pavimentaram o terreno para os horrores da 2ª Guerra Mundial.

Lera sem muita atenção este relato. Mas, minhas próprias opções me levaram a perceber, posteriormente, sua enorme importância. Trata-se de um erro que jamais deveremos repetir.

Assim, no 2º turno, coloquei-me vigorosamente contra o retrocesso, enfatizando os riscos que a democracia brasileira correria na eventualidade de um governo com forte presença do DEM (herdeiro dos  arenosos apoiadores da ditadura), um vice ultradireitista como o ìndio da Costa e uma relação pouco clara com as correntes virtuais neofascistas.

Isto incomodou aquelas tendências de esquerda que colocam o lulismo praticamente no mesmo plano dos inimigos capitalistas.

Fazer o quê?! Toquei minha caravana adiante.

CIVILIZAÇÃO x BARBÁRIE

Na antevéspera da votação, com a certeza da eleição de Dilma, antecipei a postura a ser adotada no day after:

“[Dilma} já conseguiu evitar o retrocesso, parabéns!

“Torçamos para que ela seja igualmente bem sucedida em deslanchar o avanço, com determinação e ousadia”.

Tornei mais clara ainda esta idéia no domingo da vitória:

“Torço para que a Dilma saiba aproveitar seu grande momento, não sendo apenas uma estátua de Davi, mas sim a aguerrida companheira que:

  • como Chaplin, queria chutar o traseiro dos ociosos;
  • como Cristo, trouxe uma espada para combater a injustiça; e
  • como Marx, pretendia proporcionar a cada trabalhador o necessário para a realização plena como ser humano”.

Trocando em miúdos, com seus oito anos de políticas cautelosas, Lula melhorou a vida dos humildes e fez jus à sua gratidão.

Agora, com nossa economia deslanchando como não se via desde os melhores anos do  milagre brasileiro, Dilma pode desarquivar algumas propostas originais do PT que ficaram para trás, à espera de melhor oportunidade.

Tal oportunidade chegou e, se ela a aproveitar, desempenhará um papel de primeira grandeza na História escrita pelos explorados e oprimidos, que é bem diferente da História oficial.

Em sua primeira coletiva à imprensa, houve um momento mágico em que Dilma recolocou os valores humanitários no centro das decisões políticas, descartando o pragmatismo amoral:

“Mesmo considerando usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro o apedrejamento da Sakineh”.

Sim, chega dessa relativização obscena que o Itamaraty vinha adotando em questões, estas sim, sem meio termo possível: ou se está ao lado dos homens, ou ao lado das bestas-feras!

A esquerda tem de voltar a alinhar-se, decidida e incondicionalmente, à civilização, contra a barbárie. Só assim tocará de novo os corações e mentes, atraindo para seu campo os melhores seres humanos — aqueles que são movidos pela esperança num mundo melhor e disposição de contribuir para seu advento.

À Dilma que proferiu tal frase eu dou um voto de confiança: fez-me lembrar a vibrante companheira que conheci nos idos outubro de 1969, durante o Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares.

Posso ser um incorrigível sonhador, mas espero sempre o melhor das pessoas.

Então, até prova em contrário, prefiro acreditar que, lá no fundo, sem  dar bandeira porque isso em nada facilitaria sua jornada, Dilma ainda é Vanda — e não um ex-Gabeira qualquer.

E mais Vanda será se a ajudarmos a ser Vanda.

Caso Sakineh: resposta do Irã a Lula foi grosseira

É inaceitável o comunicado do Irã em resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ofereceu asilo a Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento em função de mero adultério.

Supondo que sejamos perfeitos otários, as autoridades iranianas insistem na invencionice posterior de que a pena capital se deveu a cumplicidade em assassinato, embora a sentença reze o contrário. Não cola.

Mahmoud Ahmadinejad se nega a transferir um “problema” para Lula, como se nosso presidente fosse um incapaz necessitado de tutela externa ao tomar suas decisões.

Pior ainda foi o comunicado oficial, no qual o Irã simplesmente nos insultou, ao fazer indagações ofensivas e acintosas:

“Em relação à presença ou ao exílio de Sakineh Mohamadi no Brasil, é necessário considerar alguns pontos e questões significativas. Quais são as consequências desse tipo de tratamento aos criminosos e assassinos?

“Esse ato não promoverá e não incitará criminosos a praticar crimes?

“Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?”

Mereciam receber uma resposta sincera: oferecemos asilo a Sakineh porque temos certeza de que não se trata de nenhuma criminosa, mas sim do alvo da vez de psicopatas que utilizam a religião para acobertar seus impulsos sádicos e homicidas.

Não consigo imaginar seres humanos tão vis e covardes a ponto de apedrejarem uma mulher até a morte. Estão mais para bestas-feras.

Quanto ao  lugar para os criminosos de outros países em território brasileiro, prometo lutar até o fim para que nele não sejam admitidos os responsáveis por atos tão hediondos, quando o povo iraniano finalmente os escorraçar como merecem.

Infelizmente, estavam certos os que criticaram Lula por tentar introduzir um pouco de racionalidade na discussão sobre sanções ao Irã.

Nosso presidente tinha ótimas intenções, mas se desgastou inutilmente tentando ajudar fanáticos delirantes, ingratos ao extremo. Perda total.

A mesma boa vontade ele mostrou ao se dispor a receber Sakineh, não só pela compaixão  que seu caso naturalmente inspira, mas também para oferecer ao Irã uma saída honrosa de um episódio que está deixando sua imagem em cacos.

Os mandatários iranianos, se utilizassem a desculpa de estarem atendendo o pedido de um governante amigo, salvariam as aparências.

Mas, preferiram insistir em sua intransigência obtusa.

Agora, ou assassinam Sakineh e serão vistos pelo mundo inteiro como trogloditas.

Ou poupam Sakineh e darão apenas demonstração de fraqueza, pois parecerá que se vergaram a pressões, embora continuassem errados nas convicções.

Em qualquer das hipóteses, o mal está feito: haverá bem menos solidariedade ao Irã, se os EUA desfecharem um ataque para que os israelenses possam dormir sem pesadelos com bombas atômicas (já os vizinhos perderem o sono por causa dos petardos judeus faz parte da ordem natural das coisas…).

E a imprensa informa que as pressões por uma intervenção militar estão aumentando nos EUA.

Ahmadinejad e sua trupe sinistra mostram um talento todo especial… para marcarem gols contra.

De quebra, trataram a pontapés o único presidente de uma grande nação que lhes estendeu a mão.

REAÇÃO BRASILEIRA

O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, respondeu à altura, afirmando que o Brasil continuará empenhando-se para que o caso de Sakineh tenha uma solução humanitária e se referindo a Mahmoud Ahmadinejad como o que ele realmente é: um  ditador. Bravo!

Vocês já viram esses pobres tolos enterrando-se cada vez mais nos caça-níqueis, sem ânimo para ir embora porque já perderam durante horas a fio e querem acreditar que a sorte acabará virando?

Pois é, nunca vira e eles despencam até o fundo do poço.

A situação é a mesma. O Brasil já perdeu muito apostando no Irã e perderá mais ainda  insistindo. É hora de respeitar a si próprio e de se fazer respeitar por estrangeiros insolentes.

Então, espero que o Itamaraty não atrapalhe: Vannuchi  está falando pelo Brasil.