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Oitava do Natal – A Palavra Divina se faz carne em nossas coletividades

Oitava do Natal 

(Festa de Maria Mãe de Deus) – Lc 2, 16-21

Na Liturgia deste tempo de Natal, se repete muito esta palavra do Evangelho: “A Palavra se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). É o evangelho lido durante o dia 31 de dezembro. É o nosso modo de reconhecer a presença divina na pessoa do homem Jesus de Nazaré.

Dom Pedro Casaldáliga pedia para que alargássemos o mais possível a compreensão dessa verdade de fé. Ele afirmava: “O Verbo se fez índio”. “O Verbo se fez carpinteiro na oficina de José”. Isso significa que o Cristo, como Palavra de Deus assume nossas realidades, nossas famílias, nossas culturas.

Até que ponto, você que está lendo essas linhas acredita profundamente nisso?

O nosso irmão e companheiro de comunidade Gildo Xucuru nos diz que, nestes primeiros dias do ano novo, os sábios do povo Xucuru costumam ir para a serra sagrada do Ororubá (município de Pesqueira, PE). Na montanha, passam uma noite em vigília à espera do amanhecer. Quando, no horizonte, aparece a primeira barra do dia, ao olharem o céu, dizem algo sobre o ano novo que se está iniciando. Ali, em sua sabedoria ancestral, ouvem a voz da natureza e reconhecem nela uma revelação divina sobre a vida para este ano novo.

Você interpreta isso como simples costume folclórico ou aceita como instrumento através do qual o Amor Divino fala a cada cultura? Aqui fica o convite para acolhermos as sabedorias ancestrais como expressões da encarnação do Verbo Divino que continua se fazendo carne entre nós.

Neste primeiro dia do ano, as Igrejas antigas celebram o oitavo dia da festa do Natal quando a tradição recorda a circuncisão, rito no qual, com oito dias de nascido, o menino recebe oficialmente o nome de Jesus. A partir de uma tradição antiga, a Igreja Católica dedica este dia a Maria, mãe de Jesus. De fato, independentemente dos conflitos dogmáticos de cultura grega que criaram este conceito da “Mãe de Deus”, é bom pensar que Deus se humaniza a tal ponto de ser como qualquer um de nós que teve ou tem mãe.

Contemplar em Maria, a mãe de Jesus é ver nela a imagem de toda comunidade de fé que gera Cristo em nós. Se não fosse Maria, não teríamos Jesus que nasceu de Maria. Se não fosse a comunidade de fé (a nossa comunidade), Jesus não é gerado em nós, em nossas vidas e nossa missão.

De acordo com o lecionário ecumênico, o evangelho lido nas comunidades é Lucas 2, 16- 21. Começa pelas palavras “Quando os anjos se afastaram, os pastores disseram uns aos outros: Vamos a Belém para ver o que aconteceu”. Parece final de festa. O extraordinário passou e agora se trata de ver a realidade. Os pastores ouviram uma palavra maravilhosa de promessa de salvação. Foram a Belém, mas o que encontraram ali foi uma realidade muito simples, muito pobre e sob certo ponto de vista decepcionante. O desafio foi ver aquela família pobre e sem teto e ver ali o começo da realização de um projeto maravilhoso de Deus.

Em nossas vidas, muitas vezes, é preciso que também os anjos tenham se afastado. Às vezes, ao ver e ouvir pessoas religiosas, temos a impressão de que vivem sempre na presença de anjos. Não se dão conta de que, no mundo em que vivemos e na cultura em que estamos, os anjos se foram embora. A missão nos envia à inserção no meio do povo, sem anjos nem sinais do céu. Só mesmo a abertura para ver a presença e atuação do amor divino no meio da vida como ela é…

Este evangelho é praticamente o mesmo lido nas celebrações da aurora e da manhã do dia 25, tenho apenas acrescentado o verso 21: “Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo, antes de ser concebido”.

Sabemos que o rito da circuncisão está ligado a culturas patriarcais. Consideramos a chamada circuncisão das meninas uma crueldade ainda mais violenta contra a mulher e o seu corpo. No entanto, o sentido original do rito nos ensina que, desde muito crianças,  somos tocados no que há de mais íntimo de nós mesmos, na própria identidade sexual, de modo que todo o nosso ser e nosso corpo entrem em sintonia com o mais profundo do nosso projeto de vida. Ao lembrar a circuncisão de Jesus em seu oitavo dia de vida, podemos dar graças ao ver como Deus assume a cultura humana de um povo, mesmo com seus aspectos culturais que podemos criticar (como o patriarcalismo ou o machismo).

Ao dizer que aos oito dias de nascido, Jesus foi circuncidado, o Evangelho mostra que ele se inseriu plenamente na cultura do seu povo. Ao inserir-se na cultura coletiva e pertencer ao povo judeu, ele assume seus valores e também suas limitações e lacunas. E é neste processo de inserção cultural e histórica que recebe o nome de Jesus. Ieoshuá significa “Deus é Salvação”. Hoje podemos traduzir o nome de Jesus como “Deus Amor é Libertação e Bem-viver”. E a própria vida de Jesus tornou sempre verdadeiro o nome que lhe foi dado como missão.

Hoje vivemos em um mundo no qual muita gente que diz ter fé testemunha um Deus patriarcal, violento, cruel e exclusivista, ou seja, amigos dos que lhe obedecem e inimigo dos que não seguem a lei que Ele, Deus teria imposto. Cada vez mais é preciso, seja em que religião nos situarmos, deixar claro que se cremos em Deus só pode ser um Deus que só possa amar e se é Deus nunca possa ser fonte de ódio, intolerância e exclusivismo. O irmão Roger Schutz dizia: Deus só pode amar.

De acordo com o evangelho, essa foi a missão de Jesus. Testemunhar isso seja a nossa missão neste ano novo. Há mais de 50 anos, os papas consagram o 1º de janeiro como “dia mundial da Paz”. Neste ano de 2023, a mensagem do papa Francisco para este dia tem como tema: “NINGUÉM PODE SALVAR-SE SOZINHO. JUNTOS, RECOMECEMOS A PARTIR DA COVID-19 A TRAÇAR CAMINHOS DE PAZ. Ao contemplar Maria como mãe de Jesus deixemos que, assim como este evangelho diz, também nós, como Maria, “guardemos todas essas coisas, meditando-as no coração”(v. 19).  Comecemos este ano novo com uma prece da espiritualidade indígena: “Ao despertar para um novo dia ou iniciar um caminho novo,

 olhamos para o Avô Sol  e para o Espírito presente

em todo o mundo que nos rodeia.

Não o vemos, mas cremos

que ele está ali e quer tomar conta de tudo,

através do comportamento certo que nos inspira.

 

Se trilhamos pelo lado certo do bem e do amor,

somos como os braços e as pernas do Espírito que nos move

e vai mexendo com a gente para o lado bom,

sem nem a gente notar”

(Testemunho de um velho cacique Kayapó). 

(31/12/2022)

Como anda atualmente na Igreja a profecia?

O fraterno encontro do lançamento do mais recente livro do nosso querido Pe. José Comblin, A Profecia na Igreja (São Paulo: Paulus, 2009), no Centro de Defesa dos Direitos Humanos Dom Oscar Romero, em meio à calorosa acolhida da Comunidade de Tibiri, me inspirou compartilhar com vocês algumas impressões que guardei da leitura deste abençoado e fecundo livro.

Gostaria, pois, de partilhar com vocês os pontos que mais me tocaram do livro. E achei melhor faze-lo em forma de versos de nossa poesia sertaneja.

Para tanto, em recente viagem a Aracaju, aproveitei bem o tempo, na ida e na volta, e tratei de escrever esses versos que seguem.

Participando de um mutirão, como o que o encontro do lançamento do livro nos favorecerá, teremos oportunidade de dizer e de ouvir de tantas pessoas suas impressões acerca do mesmo livro.

Tratei de intitular esses versos “Na Igreja atualmente / Como anda a Profecia?” Nessa troca fraterna, estou desejoso de ouvir os testemunhos de muitos, de muitas de vocês. Permitam, então, que lhes conte em versos o que senti acerca do livro do Pe. José.

João Pessoa, 20 de fevereiro de 2009

João Pessoa-Aracaju-João Pessoa

Como anda atualmente na Igreja a profecia?

 

Outra vez Pe. José

Ardoroso missionário

Do Evangelho servidor

E dos pobres solidário

Nos convida à conversão

Não deixemos ser em vão

Dos profetas o calvário!

 

Relembrando pontos vários

É louvável o seu gesto

De nos pôr a refletir

Nesse tempo indigesto

De profetas tão escassos

Em que tantos caem no laço

Do sistema, sem protesto

 

O propósito é manifesto

“Profecia na Igreja”

Pelo título deste livro

Eu entendo que ele anseja

Despertando leigas e leigos

Pra que sejam dóceis, meigos

Ao que Cristo bem almeja

 

Como vive nossa Igreja?

Do Evangelho segue o rumo

Ou é cúmplice do poder?

Vocação de leigo assumo?

Ou me calo ante o sistema?

Nosso barco aonde rema?

Qual é mesmo o nosso prumo?

 

Do bom livro eu resumo

As idéias principais

Onze são os seus capítulos.

Na abertura o Autor faz

Pedagógica introdução

Relembrando de Dom Helder

Palavras tão radicais

 

“Não permitam que jamais”

– Disse o Dom a Irmão Marcelo –

“Se extinga a profecia!”

Que recado santo e belo

Suas palavras derradeiras!

Desse homem sem fronteiras

Que cumpramos seu anelo”

 

À bondade agora apelo

Dos leitores bem atentos

Para ver o profetismo

No Antigo Testamento

O primeiro dos assuntos

Que nós curtiremos juntos

Alguns pontos eu comento

 

Noutros povos tem assento

A figura dos profetas

Não há só na Palestina

Mas, distintas são as metas

Pois, enquanto em Israel

Só a Deus ele fiel

Noutros, rei é quem decreta

 

Só Deus é quem indica a seta

Moisés bem assim se sente

Escolhido pra missão

Eliseu, de igual corrente

Chama Elias, atrai Amós

Isaías logo após

“Vem e vai dizer à Gente!

 

Jeremias também sente

Do chamado o desafio

A princípio, desconversa

Revelando-se arredio

Confiou em Deus, porém

Do Senhor se fez refém

Afinal, Deus seduziu-o

 

Contra a corrente do rio

De opressão e de injustiça

Contra os pobres, deserdados

O profeta vê e atiça

Junto aos pobres, solidário

Denuncia seu calvário

E sua voz não fica omissa

 

Não se prende a culto, a missa

Qual profeta do Oriente

Defender a Aliança

É tarefa sempre urgente

E do pobre ouve o gemido

Socorrendo o desvalido

E o faz sentir-se Gente

 

Mas, o livro segue em frente

Vem Jesus como profeta

Ele eleva à perfeição

Seu sentido, então, completa

Jesus cita-os amplamente

Mas se põe à sua frente

Ele alcança toda a meta

 

Distinções Ele acarreta

Dos profetas de outrora

– Mais em grau que em natureza –

Se vingança antes vigora

Ele ensina a compaixão

Sem deixar de dizer NÃO

À riqueza, a toda hora

 

Basta remeter agora

A Mateus, em vinte e três

Às seguindas maldições

Ao estilo algo burguês

Farisaico, incoerente

De oprimir a pobre gente

Em grotesca estupidez

 

Também pobre Ele se fez

Operário, um carpinteiro

Ele próprio anunciando

Ser do Pai o Mensageiro

Pra forjarmos outro mundo

De justiça mais fecundo

Onde os últimos são primeiros

 

Outro assunto alvissareiro:

Como era a profecia

Lá nos tempos primitivos

Quando ainda não havia

A nociva apartação

= Uns decidem, outros não –

Em cerrada hierarquia?

 

Do Evangelho se esvazia

Quem sucumbe a rumo tal

O sentido de irmandade

Adquire tom formal

A servir, Jesus nos chama

Preferimos mais a fama

Isso é coisa de Baal…

 

Paulo apóstolo como tal

Também vem a ser profeta

Em seus textos acentua

De uma forma bem concreta

“Não extingam a profecia”

Era assim que ele dizia

Do cristão seja uma meta

 

Em Coríntios bem completa

Dos carismas há u´a lista

Em seguida ao de apóstolo

Profecia bem se avista

Isto muito pouco dura

O poder faz ditadura

E os profetas saem de vista

 

Mesmo assim, há quem insista

Profecia é dom divino

Homem algum pode detê-la

Controlar o seu destino

Matam um, surgem mais duas

Não se ausentarão das ruas

Não descansam repentino

 

Segue era de confino

A partir do século dois

Quando a instituição

Profecia não propôs

Restringindo ao bispo o mando

Ao profeta escanteando

O silêncio vem depois

 

Noutra página, nos expôs

Da Patrística três figuras

João, Basílio e mais Gregório

Crivam de palavras duras

Quem os pobres espolia

Recobrando a profecia

Contra os que vivem de usura

 

O profeta não descura

O que a Bíblia assevera

Primazia é dos pobres

Que padece em meio às feras

Pois Jesus toma seu lado

Defendendo os deserdados

Hoje é assim? Ah, quem nos dera!

 

Quinto ponto nos espera:

Como era a profecia

No distante medievo?

Quem de tantos ousaria

Enfrentar poder e leis

Duma época que se fez

Do Evangelho arredia?

 

Algum monge seguiria

A denúncia dos antigos

Se afastando da luxúria

Preferindo o desabrigo

Procuravam no deserto

A Jesus viver aberto

Da pobreza sendo amigos

 

De Francisco os passos sigo

Deste livro no relato

Convertido a vida nova

Com os pobres mais cordato

Reprovado pelo pai

Decidido agora vai

Assumir o anonimato

 

O que antes era chato

Ele torna relevante

Do supérfluo já não vive

A Pobreza lhe garante

Tantos ganhos e alegria

Que, profeta, ele iria

De seu tempo estar distante

 

Da Pobreza vira amante

Nela encontra fundamento

De fazer-se enquanto homem

Ao chamado estando atento

De servir Jesus no pobre

Rejeitando o ouro, o cobre

E a vida de convento

 

Eis que o dia corre lento

Nessa era medieval

Com Francisco e companheiros

A viver seu ideal

Testemunham a Boa Nova

Denunciam a falsa trova

Do poder imperial.

Foto: Padre José Comblin

A importância do fator religioso nas atuais eleições presidenciais

Que a religião possui uma força política poderosa confessa-o  Samuel P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações (1977) que hoje,com a nova guerra-fria, se tornou novamente atual. Afirma ele: “No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez a força central que mobiliza as pessoas…O que em última análise conta não é tanto a ideologia política nem os intersses econômicos, mas as convicções religiosas de fé, a família, o sangue e  doutrina; é por estas coisas que as pessoas combatem e estão dispostas a dar as suas vidas”(p.79; 47; 54).

Ele mesmo fazia pesada crítica à política externa norte-americana por nunca ter dado importância ao fator religioso. E teve que sentir na própria pele o terrorismo islâmico de fundo religioso.

Consideremos a situação do Brasil. Cito aqui a reflexão de uma pessoa inserida profundamente no meio popular com agudo sentido de observação. Vale a pena ouvir sua opinião pois pode ajudar na campanha para a derrotar a  quem está desmontando nosso país.

Afirma ele:”Temo que, apelando cada vez mais para o fator religioso, agitando o fantasma do comunismo = ateísmo e da perseguição religiosa, o negacionista e o “inimigo da vida”,  eventualmente possa ainda ameaçar de vencer a eleição”.

“Pois, é inelutável reconhecer: o povo em massa é religioso até o osso (supersticioso dirão os “intelectuais”, não importa).

Ele vende o corpo e a alma pela religião, entendida de modo indistinto como “essa coisa de Deus”, sobretudo o brasileiro, sincretista que é.

E esse apelo, não digo que seja bom, mas apenas que tem uma força tremenda e temo muito que possa ser decisiva no momento de decidir o voto”

“Infelizmente, essa questão tem pouco peso na campanha do Lula e de seus aliados. Diria quase a mesma coisa com respeito aos dois outros valores que Bolsonaro e toda a “nova direita” do mundo alardeia: Deus, Pátria e Família, a trilogia do Integralismo que a velha esquerda não quer ver nem pintada. E no entanto é por aí que a nova direita está mobilizando as massas no mundo e também no Brasil”.

“E note-se como é fácil para um candidato da nova direita como Bolsonaro apresentar à massa eleitoral essa tríade: ele rezando (Deus), com bandeira do Brasil (Pátria) e com Michelle ao lado (Família), três cenas de comoção garantida e atração irresistível para o povão. Quem pode ser contra a reza, a bandeira verde-amarela e uma esposa (sobretudo se é bem feminina)?”

“Os intelectuais podem falar o que quiserem contra esse populismo de direita. Mas que funciona, funciona. E é isso que importa à direita, e acho que deveria importar também à esquerda, sem ofensa à ética, pois dá perfeitamente para defender essas três bandeiras, outrora integristas, como valores morais, à condição, contudo, de não serem excludentes: dos sem religião, das outras pátrias e dos LGBT+respectivamente”.

“Mas mesmo que ganhe o Lula, o que as pesquisam indicam,  a questão das três bandeiras acima permanecerá. E os bolsonaristas continuarão a agitá-las, como as está agitando a nova direita em todo o mundo (veja Trump, Putin, Le Pen, Salvini et caterva). E é a “bandeira Deus”, sobre todas as outras, que ser vai mais politizada pela nova direita, e isso tanto mais quanto menos a velha esquerda digeriu essa questão e quanto menos atenção a própria Igreja, progressista ou liberacionista que seja, parece dar a mudança de Zeitgeist (do espírito do tempo), designado como pós-moderno”.

O grande desafio da campanha da coligação ao redor de Lula/Alckmin, que é também das Igrejas cristãs históricas, principalmente da Católica, é como atrair estas massas, manipuladas e ludibriadas pelas igrejas pentecostais, para os valores do Jesus histórico, muito mais humanitários e espirituais do que aqueles apresentados pelos “pastores e bispos” autoproclamados e verdadeiros lobos em pele de ovelha. Estes usam a lógica do  mercado, da propaganda e estilos que contradizem diretamente a mensagem bíblica e de Jesus, pois, utilizam-se diretamente da mentira, da calúnia, da fake news.

Vale mostrar a estes seguidores das Igrejas pentecostais, como Jesus dos evangelhos sempre esteve do lado os pobres, dos cegos, dos coxos, dos hansenianos, das mulheres doentes e os curava. Era extremamente sensível aos invisíveis e aos mais vulneráveis, homens ou mulheres, em fim, àqueles cujas vidas viviam ameaçadas. Vale muito mais o amor, a solidariedade, a verdade, e acolhida de todos sem discriminação,  como os de outra opção sexual, vendo nos negros, quilombolas e indígenas nossos irmãos e irmãs sofredores. Importa se solidarizar com eles  e estar junto com eles para  fazerem o seu próprio caminho. Esse comportamento vale muito mais que o “evangelho da prosperidade” de bens materiais que não podemos carregar para a eternidade e, no fundo, não preenchem nossos corações e não nos fazem felizes. Ao passo que os outros valores do Jesus histórico vão conosco como expressão de nosso amor ao próximo e a Deus e nos trazem paz no coração e uma felicidade que ninguém nos pode roubar.

Logicamente, importa desfazer as calúnias, rebater as falsificações e, eventualmente, usar os meios disponíveis para incriminá-los juridicamente.

Vale sempre crer que um pouco de luz desfaz toda uma escuridão e que a verdade escreve a verdadeira página de nossa história.

O Brasil merece sair desta devastadora tempestade e ver o sol brilhar em nosso céu, devolvendo-nos esperança e alegria de viver.

(17/08/2022)

Um Deus diferente

Dando aulas como professor visitante na Universidade de Heidelberg, onde Martin Heidegger, Max Weber e o próprio Karl Marx estudaram, um estudante muçulmano assistia meu curso sobre a Igreja na base, as assim chamadas comunidades de base. Relatei que num grande encontro,há anos, na cidade de Trindade, no estado de Goiás, havia um  lema, escrito em letras garrafais logo na entrada do local do encontro: ”A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”.

Sabemos que os muçulmanos bem como os judeus professam um estrito monoteismo. Este estudante muçulmano me perguntou: “se eu disser que o Deus que está acima de nós e é nossa Fonte originária chamamos de Pai; e o Deus que está ao nosso lado e se mostra como nosso irmão chamamos de Filho; e o Deus que mora dentro de nós e se revela como entusiasmo chamamos de Espírito Santo, o Sr. acha que estou falando na Santíssima Trindade cristâ”? Eu fiz uma pequena pausa, coloquei as mãos na barba e lhe disse: “no nível existencial, da experiência de um cristão, podemos dizer que isso é a Santíssima Trindade. E comentei: “a teologia não fala assim; usa expressões abstratas de uma única natureza ou substância, subsistindo em três Pessoas divinas, coisa que poucos entendem; mas você tem razão, pois o que vc diz todos podem entender”. Ao que ele respondeu: “eu como muçulmano aceito um Deus assim; ele não conflita com minha fé muçulmana”.

Celebramos no domingo, logo após a festa de Pentecostes, a festa da Santíssima Trindade,do Pai,do  Filho e do Espírito Santo. Sobre esta doutrina trinitária se fizeram grandes elaborações teóricas e heresias condenadas. Tudo foi pensado no quadra da filosofia grega, de pessoa, substância, relação, pericórese (inter-retro-relação entre as divinas Pessoas) e outras. A reflexão ficou tão complicada que os cristãos, praticamente, não adoram a Santíssima Trindade, porque não a entendem.. Falam de Deus  numa visão monoteísta. Mas assim perdemos a originalidade do pensamento cristão sobre Deus.

Na verdade, a intuição que está por detrás da afirmação de que Deus não é a solidão do Uno mas a Comunhão de Três Pessoas é afirmar que a natureza íntima de Deus é amor, comunhão, difusão, inclusão, interpenetração num no outro: um momento tão completo que faz com que Deus seja um Deus trinitário.

Quando os cristãos falam  que Deus é Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo não estão somando números 1+1+1+1=3. Se houver número então Deus é um só e não Trindade. Mas aqui se afirma que há três Únicos. O único não é número por isso não pode ser somado. Mas ocorre que estes três Unicos se relacionam entre si tão absolutamente, se entrelaçam de forma tão íntima, se amam de maneira tão radical que se uni-ficam. Isto é, ficam um. Esta comunhão  não é resultado das Pessoas que, uma vez constituídas em si e para si, começam a se relacionar. Não. A comunhão é simultânea, eterna e originária com as  Pessoas. Elas são, desde todo sempre, Pessoas-comunhão, Pessoas-relação.  Então  há um só Deus-comunhão-relação-de-Pessoas.

Com a Trindade não queremos multiplicar Deus. O que queremos é expressar a experiência singular de que  Deus é comunhão e não solidão, é amor que se difunde com outros amores que cria. .

Pertinentemente escreveu o Papa Francisco em sua encíclica de ecologia integral Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum:

O mundo foi criado pelas três Pessoas divinas …e este  mundo criado segundo o modelo divino, é uma trama de relações”(n.238).

Desta forma,  ultrapassamos uma visão monoteísta e substancialista da divindade. A Trindade nos coloca no centro de uma visão de relações, de reciprocidades e inter-retro-comunhões bem no estilo do que se pensa  na moderna cosmologia e na física quântica: tudo está relacionado com tudo e nada existe fora da relação. Deus-Trindade é a Matriz Relacional que subjaz e sustenta todas as relação, também as nossas na forma de simpatia, amizade e de amor. A comunhão é simultânea e originária com as  Pessoas. Elas são, desde toda a eternidde, Pessoas-comunhão, Pessoas-relação., Pessoas-amor. Então  há um só Deus-amor-comunhão-relação-de-Pessoas.

Santo Agostinho, o grande pensador desta visão de Deus-comunhão, escreveu no seu “De Trinitate”: “Cada uma das Pessoas divinas está em cada uma das outras e todas em cada uma e cada uma em todas e todas estão em todas e todas são somente um” (livro VI,10,20).

Então,numa linguagem direta, fundada mais na vivência de fé do que nas doutrinas, podemos acolher o pensamento de meu ouvinte muçulmano: o Deus que está acima de nós, fonte de onde tudo emana é o Pai. O Deus que está ao nosso lado  caminhou conosco,foi amigo dos pobres é nosso  irmão de sangue,  chamamos de Filho. E o Deus que mora dentro de nós que nos sustenta no desamparo e nos dá sempre esperança e entusiasmo é o Espírito Santo. Eles são um só-Deus-comunhão-relação-amor.

Um Deus assim dá para aceitar, adorar e sentir-se envolvido em suas relações de amor.

(11/06/2022)

PT defende a liberdade de culto e de religião

E não é de agora. Partido tem em suas raízes o respeito pela constituição, a presença nas comunidades eclesiais e, ao longo dos governos Lula e Dilma, assegurou o direito à liberdade religiosa

Foram treze anos de governo do PT e, neste período, presenciamos um avanço significativo nas liberdades de culto e religião, demonstradas pelo vertiginoso aumento das igrejas evangélicas por exemplo. Assim começa a entrevista com Gutierrez, evangélico e coordenador nacional do Setorial Interreligioso do PT: “O partido deu todas as condições para que as igrejas ampliassem a sua atuação, sobretudo as evangélicas”, explica.

Gutierrez faz referência à lei sancionada pelo presidente Lula, em 2003, em que igrejas e associações religiosas passaram a ter personalidade jurídica. Com essa medida, as igrejas deixaram de ser tratadas como “clubes de futebol” e passaram a ter estatutos próprios.

A partir de agora é livre o direito de criar uma igreja e praticar uma religião“, disse o presidente Lula, à época.

Ou seja, com esse novo marco jurídico, as igrejas puderam dar um salto importante na própria estrutura, formalização e garantia de direitos.

Está na Constituição

O artigo 5 da Constituição afirma que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Dentre os incisos que se seguem no artigo, estão aqueles relacionados à liberdade de crença:

VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

Nos anos 80, o PT foi um dos principais partidos a participar da construção da Assembleia Constituinte, que deu origem à nossa atual Constituição, uma das mais avançadas do mundo. Ou seja, desde as suas origens, o partido defende a aplicação dos direitos constitucionais, sobretudo de liberdade religiosa e de culto.

Está na história

Atuação em igrejas não é um fenômeno novo para o PT. O movimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) faz parte das raízes fundantes e formadoras do partido, composto por trabalhadores e trabalhadoras das periferias do Brasil que lutavam arduamente, principalmente nos anos 70 e 80, contra a fome, a carestia e o alto custo de vida.

Junto com movimentos e organizações de diversas outras religiões, características e origens, o PT se consolidou como um partido plural e democrático, atento às garantias de direitos e de respeito a todas as formas de crenças, e a defesa incondicional da liberdade religiosa.

O núcleo evangélico de São Paulo, por exemplo, existe há mais de sete anos. O núcleo nacional de evangélicos realizou dez encontros estaduais e pautou a criação do Setorial Nacional Interreligioso. A experiência já tem um ano e debate internamente a questão da liberdade religiosa e a participação do segmento religioso no parlamento.

Está nos valores

“A política como missão é a mais nobre de todas as missões. Pela política você resgata vida, você abraça pessoas, com políticas de inclusão. Nós fizemos água para todos, luz para todos, ajudamos a trazer universidades e escolas técnicas, apoiamos a agricultura familiar, fizemos aquilo que prega a boa pregação, seja ela religiosa ou política: ajudar os que mais precisam”, explica Jaques Wagner, nascido em lar judaico e senador pelo PT-BA.

Combater a desigualdade social, garantir uma vida digna para quem mais precisa, combater todas as formas de preconceito e ter o amor ao próximo como a régua para a política pública, aliada à construção de justiça social, é o alicerce sobre o qual se molda os valores do PT.

O pastor Daniel Elias explica como não há conflito entre valores da esquerda e princípios cristãos.

“Cristo sempre se identificou com os pobres. Sendo pentecostal, fui membro de igrejas como a Assembleia de Deus. E o que fez eu me identificar com a esquerda foi justamente o que aprendi nessas igrejas. Não só isso, mas principalmente o que aprendi com Deus na Bíblia sagrada. A palavra de Deus, desde o Antigo ao Novo Testamento, sempre esteve do lado dos pobres e dos oprimidos”, conta o pastor.

Está na ação política

“A diminuição da pobreza, da desigualdade social, o aumento do emprego, da renda, tudo isso permite que a pessoa tenha melhores condições para a pessoa exercer a sua espiritualidade. A prosperidade econômica permite que a pessoa exerça sua fé em todas as suas acepções”, explica Gutierrez.

No caso dos evangélicos, para além de todas as políticas voltadas para defender a população mais vulnerável, ao longo dos governos do PT implementamos ações concretas na defesa da liberdade de culto, tais como:

Reconhecimento jurídico das igrejas

Criação da Marcha para Jesus

Criação do Dia Nacional do Evangélico

Criação do Dia da Proclamação do Evangelho

Estado Laico

A defesa do Estado laico é justamente para garantir o direito à liberdade de culto de todas as religiões.  Portanto, reconhecer e respeitar as crenças e garantir que todos tenham direito de exercer a própria fé é o princípio básico do Estado Laico. Assim,defender o Estado laico é defender a liberdade religiosa, como sintetiza Gutierrez:

“O Estado não pode e nem deve ter uma religião oficial, mas deve ter como pilar garantir a liberdade das pessoas exercerem a sua religião independente dela ser maioria ou não”, afirmou.

Ana Clara Ferrari, Agência Todas

Fonte: PT

(06/06/2022)