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Como não me sentiria feliz, se sinto?

Sinto o meu corpo

Sinto o prazer de respirar e fazer parte de uma família

Sinto o alívio de ver se afastando o medo e o terror

Sinto o prazer de me sentir, e não apenas me usar para fazer isto ou aquilo

Muitas pessoas não sabem o que fazer com os seus sentimentos

Sinto a minha história

Passo a passo vou andando

Assim foi como cheguei até aqui

Não foi aos solavancos

Sentir é o meu forte

Me espero e espero

Sinto a vida nova nascendo a cada instante

Ano novo é agora

Natal é agora.

Não preciso reagir de imediato, nem falar sem saber o que estou a dizer, nem fazer mais do que posso

Posso me respeitar, e me respeito.

Eleições 2022: ainda há uma possibilidade

Existe uma possibilidade de que que o Brasil volte à normalidade institucional quebrada pelo golpe de 2016 e pelas eleições fraudulentas de 2018.

Teremos aprendido, como coletividade, o valor do trabalho?

Ou ainda restam restos de imbecilidade entre nós?

Teremos aprendido o valor da leitura, do estudo, da reflexão?

Ou teremos perdido de vez a noção de realidade, de humanidade?

Perguntas. Perguntas.

Perguntas abrem espaços. Podemos sair do automatismo.

Podemos sair da idiotice.

Isto significa que podemos ter aprendido donde vêm a comida que comemos, se é que ainda comemos.

Podemos ter aprendido que as pessoas valem pelo trabalho, pelo que produzem, pelo que são capazes de gerar.

A imbecilidade coletiva nos precipitou na confusão, e dela resultou o que está aí.

Eleições 2022.

Há uma possibilidade.

Deixem-nos viver!

Resta pouco ou nada a dizer diante do óbvio. Regimes instalados à base de mentira e enganação não podem fazer o que nem sabem nem querem.

Cuidar da vida é patrimônio de quem têm dentro de si o amor. Muitas pessoas apoiaram a instalação na presidência da república de alguém totalmente desprovido de qualquer sentimento humano.

Um apologista da tortura. Um defensor da ditadura. Um legislativo que respalda tanto por ação quanto por omissão o genocídio em andamento, os ataques aos Direitos Humanos, sociais e laborais.

Um país sem cultura, sem educação, sem reflexão, sem criatividade, sem solidariedade, não é de fato um país. É uma massa de manobra que não distingue realidade de enganação. Acreditam no que lhes metem na cabeça.

Pode ser que o Brasil tenha aprendido que sem justiça, sem decência, sem fé na vida, fé no trabalho, não há nem pode haver vida. Vida se faz, se constrói, se mantêm com trabalho árduo.

Quem sabe todas e todos tenhamos aprendido que é importante saber diferenciar o que é, o que existe de fato, e o que querem nos impor desde tecnologias digitais que nos transformam em máquinas de repetição de bobagens.

Uma coisa é um trabalhador presidente da república, outra muito diferente parasitas matando gente friamente e ainda achando graça. Vão para o inferno e deixem-nos viver!

Reeducação

Impossível não expressar indignação diante das ações nefastas do desgoverno atual no que diz respeito à educação. Tentar desmontar as universidades federais é um crime contra a humanidade. Mais um dos que já coleciona a sombra que se abateu sobre o Brasil.

A universidade pública, estatal, gratuita, aberta e de excelente qualidade é um dever que a cidadania em pleno têm a obrigação de preservar. É enojante que existam governantes voltados para destruir o próprio povo, o próprio país.

A educação é a base de uma existência social igualitária, respeitosa, includente. É um espaço de construção de identidades que formam o quadro cidadão sobre o qual se edifica um país.

A história mostra que estes atentados contra o que de mais sagrado que existe no país, a sua própria população, apenas pode ser detido e revertido mediante a ação enérgica, sustentada e persistente do conjunto da população.

A mídia venal também é culpada por mais este crime. Elites vivem da deseducação. A humanidade, de livros, reflexão pesquisa, arte e cultura. É preciso dizer que não basta deter a tentativa de privatizar as universidades federais.

É necessário que as universidades como um todo, construam um projeto que ultrapasse a própria sobrevivência. Um projeto de país. Um projeto de educação libertadora. Desalienar. Conscientizar. Construir comunidade. Menos redes sociais, mais sociabilidade. Mais cara a cara. Mais toque e abraço, mais afeto, mais amor. Mais criatividade, menos consumismo. Mais respeito, menos ódio.

Do direito a tornar-se adulto com dignidade

Por Nuno Ramos de Almeida
Há um texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano em que ele confessa a humilhação que sofre no barbeiro por lhe cobrarem apenas meio corte. Não acreditando no ditado de que é dos carecas que elas gostam mais, Galeano deixa cair uma frase que lhe alivia um certo sentimento de inferiorização diária: “Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça e não fora”, e logo acrescenta convictamente: “Consolo-me comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma das minhas ideias, o que é uma alegria quando penso em todos esses arrependidos que andam por aí.”
Há uma raça de pessoas que normalmente cita, como atestado de bom comportamento, a famosa frase de recorte autobiográfico atribuída ao ex-chanceler alemão Willy Brandt de que “quem aos vinte anos não é comunista não tem coração e quem assim permanece aos quarenta não tem inteligência”.
No fundo cresceríamos com a idade. O processo de um tipo se tornar adulto passaria por uma juventude em que começamos por não aceitar o mundo tal qual existe com todas as suas gritantes injustiças, e sobretudo acharíamos que temos forças para tudo mudar. A esse estado suceder-se-ia o choque da realidade, o bom senso e o crédito à habitação e as prestações dos eletrodomésticos, de tal maneira que aos 40 saberíamos que temos de aceitar “as coisas” e tentar viver da forma mais confortável no melhor dos mundos possíveis.
Exemplo radical deste tipo de conversão à realidade existente é, e Portugal, o de uma cáfila de maoístas como Durão Barroso, que passaram de gritar loas à revolução e a um grande líder qualquer a gritar vivas ao mercado e a servi-lo pelo maior ordenado possível, dizendo para isso o disparate mais gigantesco para provar a conversão.
Neste processo de chegada à idade adulta não faríamos mais que aceitar as nossas inevitáveis limitações e preparar-nos para viver a realidade. A ideologia dominante não faria mais que assegurar que este capitalismo e este mundo estariam aqui para sempre. E, como a cultura popular e os maus filmes de ficção científica demonstram, é mais fácil imaginar uma grande catástrofe que destruísse o planeta, ou mesmo uma invasão de extraterrestres, que a simples mudança de um regime e modo de produção injusto, que desperdiça recursos e destrói o planeta. O capitalismo será, segundo este pensamento que pretendem coagir-nos a aceitar, a realidade que sobreviveria ao fim mesmo de toda a realidade: as máquinas automáticas venderiam Coca-Cola mesmo que os seres humanos desaparecessem para as consumir.
Neste horizonte inultrapassável estaríamos sempre condenados a escolher entre políticos tão excitantes e diferentes como António José Seguro, António Costa e Passos Coelho.
O nosso principal problema está nessa mesma aceitação da realidade como elemento estruturante do possível. Se consideramos que viveremos sempre num regime de banqueiros, em que os lucros têm eles e os prejuízos pagamos nós; se achamos inevitável ficarmos com uma democracia em que, independentemente do nosso voto, os políticos fazem o que lhes apetece; se transigimos com a continuação de um regime de corrupção “normal”, em que o contribuinte paga os contratos ruinosos que os políticos assinam com grupos com quem vão depois trabalhar; então temos a realidade que merecemos e vamos deixá-la em herança aos nossos netos.
A existência de situações de injustiça não decorre de sermos adultos, mas de sermos parvos.
Foto: Adrien Dewisme
Fonte: Outras Palavras
http://outraspalavras.net/destaques/do-direito-a-tornar-se-adulto-com-dignidade/