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Quando eu ia ela voltava, quando eu voltava ela ia

Um festival no festival: assim é me soa essa sucessão de gêneros, com ricas imagens poéticas, a desfilar por um festival de cantadores e repentistas.

No caso deste gênero, o desafio dos poetas e repentistas é articular, sempre de forma imaginativa, o sentido dos versos, mantendo sua respectiva forma e sem perder a beleza da construção de cada verso.

Aqui tem lugar o exercício da arte dos trocadilhos.

(…)

Com uma tal de Maristela
Eu arrumei um xodó
Entrei bebo no forró
Pra dançar bebo com ela
Me agarrei no corpo dela
Quando rodava eu pendia
Se eu pensava que caía
E a negra me segurava
Quando eu ela voltava
Quando eu voltava ela ia

(…)

Sonho que não vale nada

Que nunca realizei
Sonhei com a namorada
Acordei, ´stava bahada
Na cama com água fria
E eu pensava que havia
Acordei não tinha nada
E eu pensando que havia
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia

Eu saí de madrugada
Pra cortar capim de planta
Topei uma salamanta
De travessa na estrada
Eu lhe dei uma pancada
Pra ver sela não corria
Mas quando a vara batia
Era um bote que ela dava
Quando eu ia ela voltava
Quando eu voltava ela ia

(…)

Sempre a sorte vem e se vinga
Nada vale a vida nossa
Gastei muito tempo na roça
No serrote e na caatinga
Mas se avistava uma vinga
De melão ou melancia
Tirava a folha e comia
De noite o ladrão roubava
Quando eu vinha ela voltava
Quando eu voltava ela ia

(…)

Esse gênero apresenta uma estrutura de estrofes formadas de dez versos setessilábicos. Quanto à rima, esta reedita o já conhecido padrão ABBAACCDDC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

Cantar mourão

Dentre os variados gêneros do Repente, é este o que me reporta à figura do Prof. José Rabelo de Vasconcelos, grande especialista e incentivador da Arte do Repente. Aliás, também um exímio Poeta.

Revisitar esse gênero traz-me a idéia de estar diante de Rabelo, a escuta-lo, empolgadíssimo, a justificar seu fascínio pela Arte do Repente. E o fazia, recorrendo a páginas antológicas, inclusive desse gênero. “O Mourão é fascinante!” – dizia-me. E prosseguia sua fala, justificando com argumentos convincentes e recheado de boas metáforas, com o entusiasmo que lhe era tão caracterísitco, que, no Mourão, o primeiro repentista finca a primeira estaca: são os dois primeiros versos, que desencadeiam, como se fossem expressão da tese hegeliana. Vem o segundo cantador, e finca a segunda estaca, isto é, os dois versos seguintes, que funcionam como uma espécie da antítese hegeliana. E, por último, cabe ao primeiro cantador “fechar” o mourão construindo a porteira, como numa síntese. Que imagem, a de Rabelo!

A título de uma recordação-homenagem à figura do Prof. José Rabelo de Vasconcelos, houve por bem selecionar as seguintes estrofes.

Nelas, o primeiro cantador, ao propor um duelo, e, já na próxima estrofe, começa a anunciar a pretensa surra, dizendo-se “de chicote na mão”…

Primeiro Cantador:

Chegou a oportunidade
De se cantar um mourão

Segundo Cantador;

Eu já estava com vontade
Vamos entrar na questão

Primeiro Cantador:

Um tem que sair correndo
E o Povo ficar sabendo
Quem é o mais valentão

– Meu chicote está na mão
Pra dar surra em cabra ruim
– Mude a sua opinião
Que talvez não seja assim
– Bote pipa em sua barca
Cantador de sua marca
Tem de ser sujeito a mim

– Dou uma surra em cabra ruim
Que até o Diabo tem dó
– Mas você não em mim
Que eu quebro seu catimbó
– Sua cara é rabujenta
Vou pegar a sua venta
Boto no seu mocotó

(…)

– É muito fácil dizer
Só é difícil provar
– Então você vai saber
Que a peia vai manobrar

– Vou lhe tirar da cidade
Pois você já tem idade
De conhecer seu lugar

– Tinha graça eu apanhar
De um poeta inconsciente
– Você vai se ajoelhar
E soluçar na minha frente
– Na viola eu sou seu pai
Esse besta aonde vai
Vai fazer vergonha à gente

– Esse aí é a serpente
Que traiu Eva e Adão
– E você é a semente
Do fruto da perdição
– Esse bicho é tão ruim
Tem o gênio de Caim
Que assassinou o irmão

A forma do “Mourão” traz pouca novidade. São estrofes de sete versos, cada verso com sete sílabas, e estruturados, quanto à rima, ao modo ABCBDDB.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

Meio século de viola não é brincadeira não

Evocar os irmãos Batista (Otacílio, Dimas e Lourival) tem sido algo muito mais freqüente do que se pode imaginar. Ícones do Repente, em todos os recantos do Brasil.

Não conto as vezes em que, ora da parte do Prof. Aleixo Leite Filho, ora parte do Prof. José Rabelo de Vasconcelos, ambos colegas meus, por vários anos, na Faculdade de Arcoverde (com Aleixo, também, na Faculdade de Filosofia de Caruaru), escutava histórias desses Repentistas exponenciais, em suas proezas em parceria com outros ícones, como Pinto de Monteiro, para citar um só exemplo.

Nas estrofes que seguem, cabe ao sobrevivente da trindade a tarefa de evocar um pouco de suas proezas.

Sou do Pajeú das Flores
Rama do mesmo jardim
Cidade de Itapetim
Dos três irmãos cantadores
Lá eu cantei meus amores
Na noite de São João
No tempo que no sertão

Quem mandava era a pistola
Meio século de viola
Não é brincadeira não

No começo de quarenta
No dia seis de janeiro
Fiz meu repente primeiro
De anos já faz cinqüenta
A viola me sustenta
Deus é mais do que patrão
Jogou em meu coração
Do céu a bendita esmola
Meio século de viola
Não é brincadeira não

Lourival, o mais fecundo
Repentista da trindade
Dimas já virou saudade
Sem saudade desse mundo
De Severino e Raimundo
Eu canto a recordação
Nas asas da inspiração
Meu pensamento decola
Meio século de viola
Não é brincadeira não

Foi sorte nascer com sorte
E viver sempre cantando
Pelo Brasil espalhando

Poesia de Sul a Norte
Canto até depois da morte
O que não cantei no chão
Sou livre como a canção
De um canário sem gaiola
Meio século de viola
Não é brincadeira não.

Para nos contar alguns traços de seu longo e produtivo percurso, Otacílio Batista serviu-se das estrofes de dez versos setessilábicos, glosados a partir do mote “Meio século de viola / Não é brincadeira, não”. Quanto ao tipo de rima, acosta-se ao padrão ABBAACCDDC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

Mourão voltado

“Mourão voltado”: outro gênero apreciado nas cantorias. Da forma trataremos adiante. Quanto ao conteúdo, ainda que não seja dos gêneros que melhor se prestem à criação de imagens, percebe-se que, vez por outra, isso também acontece. No jogo de inversões de palavras, o Poeta também pode recorrer a belas imagens. Vamos conferir o trocadilho instantâneo.


Dou o quente pelo frio
Dou o frio pelo quente
Dou o rio pela enchente
Dou a enchente no rio
Dou batelão em navio
Dou navio em batelão
Empregado em patrão
O patrão em empregado
Assim é mourão voltado
Assim é voltar mourão

(…)

Dou a brasa na centelha
Dou a centelha na brasa
Dou a telha pela casa

Dou a casa pela telha
Dou zangão pela abelha
Dou abelha por zangão

Dou cercado em selão
Dou selão em cercado
Assim é mourão voltado
Assim é voltar mourão

(…)

A estrutura do “Mourão voltado” reside em estrofes de versos setessilábicos, dos quais os últimos dois são dados como mote. Todos obedecem a uma estrutura de rima à base do ABBAACCDDC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

Sanfoneiro ruim

(Canção de Maciel Melo)

Humor, sátira e ironia são traços relevantes também no processo de produção da poesia. Constituem fortes marcas dos Poetas e dos Repentistas. As situações do cotidiano se acham, não raro, impregnadas de humor. Nelas se inspiram e delas se servem também os compositores, como é o caso do Poeta Maciel Melo.

No caso em apreço, trata-se da descrição de uma cena mais corriqueira do que se imagina. Se é verdade que de artistas, poetas e loucos temos um pouco, não menos certo é que isso não se dá de modo uniforme. Uns apresentam maior familiaridade com certas habilidades do que outros. Por outro lado, mesmo tendo reconhecidos pendores para certas artes, caso não se apliquem a exercitá-las, dificilmente vão lograr um lugar de destaque. Pode até ocorrer que outros, como bem menos possibilidades, por força de sua maior aplicação e autodisciplina, alcancem um lugar de reconhecimento. Pode, igualmente, ocorrer a alguns com pouco pendor artístico, que não conseguem afirmar-se, mesmo não lhes faltando vontade.

Este último parece ser o caso do tocador de sanfona, que se tornou alvo do gracejo do compositor… Os vizinhos se aborreciam dos ensaios pouco agradáveis do sanfoneiro. Queixavam-se de sua performance esquisita (“É uma munganga / Um remoído da molesta / Gemendo e franzindo a testa”). Daí a gozação: “Eita cara pra tocar / Ruim que só!”.

Pior do que isso é a cruel recomendação que acenam ao tocador: simplesmente mudar de profissão… Só que, ao fazerem isso, parecem cometer uma injustiça com o lavrador, deixando a entender tratar-se de um ofício de menos valia. Vamos conferir as estrofes.

Pertinho de lá de casa
Tem um sanfoneiro
Todo dia, o dia inteiro
É um firin-firin… firin-firin

Ele aprendeu
Uns quatro pés-de-galinha
E logo de manhãzinha
Começa a finrifunfar
É u´a munganga
Um remoído da molesta
Gemendo e franzindo a testa
Eita cara pra tocar
Ruim que só (4 vezes)_

Zé, a cigana te enganou, José
Pega a enxada e o borná
Deixa a sanfona
Pra quem tem os dedos moles
Tu só sabe puxar fole
Pra ferreiro trabaiar

(extraído da faixa 1 do CD intitulado “Maciel Melo. Acelerando o coração”)

Além do estribilho (composto de três versos com sete sílabas, mais um quarto (o “fin-rin-fin-fin”). As estrofes seguem compostas por oito versos, sendo o primeiro e o quinto versos de quatro sílabas, enquanto os demais têm sete sílabas. A rima segue o padrão ABBCDEEC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa; Edições Buscas, 2009)

Quadrão mineiro

Como de hábito, deixemos para depois as considerações em torno da forma da canção. Cabe-nos, por enquanto, sublinhar a beleza da composição. A sensibilidade do autor (ou autores, já que nos escapou o dado relativo à autoria) aparece a olhos vistos. As imagens são muito felizes!

Sem maior esforço interpretativo, eis que nos aparece num quadro poético uma paisagem rústica de uma extraordinária beleza. Temos diante dos olhos a natureza em movimento: local apropriado, animais-ambiente, inclusive a contemplar os ovinos “De pedra em pedra saltando”…

Na estrofe seguinte, sublinha-se mais uma cena sertaneja, impregnada da ambiência característica: o “quebrar da barra”, o coral da passarada, a “temperar” a invasão do milharal pelos pássaros, a romperem qualquer norma privatista

Outros belos postais sertanejos vemos pintados nas estrofes seguintes: ora dando conta da diversidade de animais em movimento, ora a destacar cenas pitorescas do Sertão, como a do uso do pilão e as enfatizando os pratos saborosos da cozinha sertaneja como um cuscus soltando cheiro e um tacho cheio de queijo…

No topo da serrania
Salta a onça, o gato mia
O macaco é o vigia
Lá no alto do coqueiro
A cabra, o bode, o carneiro
De pedra em pedra saltando
Eu de fora admirando
Cantando um quadrão mineiro

Quando a barra vem quebrando
A brisa mansa soprando
A passarada cantando
Nos galhos do juazeiro
O cação voa maneiro
Pra comer milho na roça
Pensa que é dono e se apossa
E eu canto em quadrão mineiro

(…)

Um cão de caça acuado
Um cavalo estropiado
Um touro velho, cansado
Deitado lá no terreiro
Um bode pai de chiqueiro
O dono dando ração
São retratos do sertão
Que eu canto em quadrão mineiro

Um paiol de algodão
Um silo cheio de feijão

Uma negra num pilão
Pilando milho e tempero
Um cuscus soltando o cheiro
Um tacho cheio de queijo
São glórias do sertanejo
Que eu canto em quadrão mineiro

O quadrão mineiro compõe-se, como se percebe, de oito versos, cada um com sete sílabas, e apresenta um formato de rima à base do esquema AAABBCCB

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)