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Em um livro, o Papa e a alegria

Por Eugenio Bonanata e Giovanni Orsenigo

Em quase dez anos de pontificado, Francisco falou várias vezes sobre a alegria e agora será lançado o livro “La gioia” (A Alegria) que reúne vários pensamentos seus sobre o assunto. A introdução é de Mons. Dario Edoardo Viganò, que explica o significado desta atitude para os cristãos: “Não simples otimismo, mas sim a capacidade de olhar a história através do olhar de Deus”

“A alegria dos fiéis não é ingenuidade ou incapacidade de ver os problemas da história”. Mons. Dario Edoardo Viganò, vice-chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e das Ciências Sociais, ilustra assim o livro intitulado “A Alegria”, no qual escreveu a introdução. Um texto desejado pelo Papa, que reúne textos nos quais falou sobre este tema – extraído de encíclicas, homilias, discursos e mensagens – com o objetivo de dar ao leitor a oportunidade de embarcar no seu próprio caminho pessoal. “Não é um livro que se lê da primeira à última página, mas pode ser lido de forma desordenada”, explica Viganò. Na verdade, continua, “são textos que, especialmente neste momento de palavras gritadas, notícias terríveis e mortes, permitem alargar o coração, erguer o olhar e reapropriar-se da experiência de ser cristão”.

A alegria do vinho

“A Igreja é uma experiência de povo que vive a alegria”, esclarece o religioso, convidando-nos a refletir sobre a experiência das Bodas de Caná. A história do primeiro milagre de Jesus tem como ponto central o casamento, no qual, entretanto, falta um elemento importante, o vinho, que é um sinal de alegria. “Os jarros de purificação estão vazios”, sublinha o Viganò. E este é o símbolo de uma relação de amor agora consumada entre Deus e seu povo. Nem mesmo a lei e a purificação podem restaurar a paixão dessa relação. “É por isso que Jesus não está presente, mas é convidado”, continua. “De fato, é Cristo quem traz o vinho novo, sancionando assim uma aliança nova, eterna, última e definitiva”. Uma aliança que nasce neste primeiro grande milagre do vinho, ou seja, da alegria. É por isso que para Viganò “a Igreja é um povo de homens e mulheres que não vivem sob a Lei, mas que vivem na alegria de serem filhos e filhas de Deus”.

A alegria de viver do jeito de Deus

O dom do batismo nos permite receber a vida de Deus, tornando-nos assim filhos no seu filho Jesus. E isto nos torna capazes de viver as relações, em relação ao mundo ou a criação, no modo do Senhor. “Portanto a prioridade”, afirma, “não é o eu, mas sobretudo o outro, assim como é para Deus, cuja prioridade sempre foi o filho”. Ao contrário do que acontece com o ladrão crucificado no Calvário, que naquela ocasião diz a Jesus: ‘Se és realmente o Filho de Deus, salva-te a ti mesmo, e depois me salve também’. “Se não se vive a filiação em Deus”, continua Viganò, “os relacionamentos só serão instrumentais e funcionais, enquanto viver a alegria significa sentir a urgência de viver no modo de Deus”.

A estrutura narrativa

Para facilitar a leitura, o livro foi dividido em três áreas temáticas, ou melhor, em ‘três percursos de aproximação à alegria’, que são delineados a partir de três verbos: ‘ser’, ou seja, a identificação da alegria entendida como uma atitude pessoal e espiritual; ‘compartilhar’, que é a alegria no compromisso e na amizade social; ‘testemunhar’, que é a alegria de viver no modo de Deus. “Ler este livro”, assinala ainda, “é como caminhar nas páginas, da mesma forma que os discípulos de Emaús”. Nesta passagem do Evangelho, os discípulos só reconhecem Jesus ao partir o pão, mas se perguntam: ‘Será que ele não chega ao nosso coração enquanto conversa conosco?’ “O Espírito Santo”, conclui, “prepara o homem e a mulher para reconhecer o Senhor no ato de compartilhar o pão, mas ele trabalha antes disso, também quando estamos caminhando com uma pessoa que é desconhecida”.

Fonte: Vatican News

XII Semana Teológica Pe. José Comblin em marcha: Ressonâncias da segunda jornada comunitária em Café do Vento

Segue em curso a XII Semana Teológica Pe. José Comblin (STPJC), que se estende por vários meses de trabalho, quatro jornadas comunitárias, além da Sessão de encerramento, marcada para o dia 25 de setembro vindouro. 

Esta XII edição de STPJC, organizada por diversos grupos e coletivos (Kairós, CPT, Coletivo Feminista, CEBI, Comunidades organizadas em volta de Café do Vento, entre outros), tem como tema central: “Os pobres e Pe. José Comblin nos ensinam a caminhar no Caminho de Jesus”, que se desdobra em outros temas conexos, trabalhados durante as jornadas comunitárias: “Fé e Evangelho na vida cotidiana”, “humanizar a humanidade: o rosto humano de Jesus”, “Evangelho não é Religião”, além de reflexões sobre o tema central da XII STPJC, durante a Sessão de encerramento.

No domingo, 26/06/2022, realizamos a II Jornada Comunitária, que teve lugar no Centro de Formação Pe. José Comblin, em Café do Vento. Acolhidos pelo Pe. Hermínio Canova, que, juntamente com Rolando Lazarte, coordenou os trabalhos do Encontro, do qual participaram em torno de vinte pessoas: representantes do Kairós, do Coletivo Feminista, do CPT, de vários grupos de jovens das comunidades em volta de Café do Vento, procedentes de Sobrado, Sapé, Riachão do Poço, São Miguel de Taipu, Pilar, Caldeiras Brandão, Riacho do Gado…

A Segunda Jornada Comunitária se inspirou no tema “Fé e Evangelho na vida cotidiana”, como havia sido escolhido desde a I Jornada. Pe. Hermínio Canova e Rolando Lazarte coordenaram o Encontro. De início, coube ao Pe. Hermínio Canova apresentar para os participantes do Encontro, muitos dos quais eram jovens que se faziam presentes pela primeira vez, uma síntese das últimas STPJC, bem como especificamente acerca do tema central da XII STPJC (“os pobres e o Pe. José Comblin nos ensinam a caminhar no Caminho de Jesus”). Coube a Pe. Hermínio e a Elinaide explicitarem o sentido da Teologia, já que estamos vivenciando a XII STPJC. Sublinharam tratar-se do estudo sistemático e metodológico da ideia que os humanos têm de Deus muitas vezes atribuindo a Deus predicados humanos. A reflexão prosseguiu com diversas outras intervenções. Um dos entendimentos expressos acentua  a teologia como uma estratégia usada e abusada pelo Clero, ao longo da história da Igreja para afirmar-se como Classe ou casta, com o objetivo de ditarem normas de crença e conduta dos leigos e leigas. Por outro lado, não esqueçamos que, a despeito de tal hegemonia, sempre houve e há da parte das “minorias abraâmicas” a produção de uma teologia alternativa, tal como a Teologia da Libertação e a Teologia Feminista, que teologizam a partir do povo dos pobres.

Neste sentido, destacam o aprendizado recíproco: Comblin, como verdadeiro discípulo de Jesus, de quem os pobres são os prediletos, em sua longa convivência com o povo da América Latina, muito aprendeu a viver a insegurança dos pobres, ao mesmo tempo em que, como grande teólogo, pastor e profeta, empenhou-se incansavelmente em rememorar o espírito do Evangelho, ajudando o povo dos pobres a discernir os apelos do Evangelho frente aos contra-valores que impregnam a cultura das classes dominantes.

A leitura orante e comunitária do Evangelho nos permite, pessoal e comunitariamente, não apenas desmascarar esses contravalores, como também fazemos uma leitura crítica da realidade, com o objetivo de transformá-la, conforme o espírito do Movimento de Jesus.

Dando sequência as reflexões, coube a Rolando Lazarte compartilhar, como coordernador dos trabalhos, distintos aspectos de seu sentir acerca do tema da Jornada. Expressou seu encanto pelas afinidades encontradas entre o Papa Francisco, o Pe. Comblin e o Antropólogo Aldaberto Barreto, fundador do Movimento Terapia Comunitária Integrativa (TCI): as três personalidades se empenham em ressaltar a incidência da Fé e do Evangelho nas relações do dia a dia. Os três, cada qual atuando em seu modo e conforme o contexto em que atuam, sublinham a relevância de se testemunhar os Valores do Evangelho, desde as ações mais simples do cotidiano.

Maria Oliveira, formadora do Movimento Terapia Comunitária Integrativa, compartilhou o relato de diversas experiências, nos trabalhos da TCI, ilustrando a eficácia da partilha fraterna de experiências, observadas nas rodas de conversa.

Da parte dos jovens participantes surgiam uma dúvida: diante do Evangelho que apresenta um Jesus pobre entre os pobres, será que nós também não somos chamados a ser pobres? Das sucessivas falas compartilhadas, formou-se um certo consenso, de que importa distinguir entre pobreza e miséria. Para Jesus, pobreza deve ser uma opção a ser tomada por seus discípulos e discípulas, com abertura e liberdade, assegurada a satisfação das necessidades básicas como sugere o texto dos Atos dos apóstolos (“e todos repartiam o pão, e não haviam necessitados.”), enquanto a miséria deve ser sempre combatida por desfigurar o ser humano em sua dignidade.

A Segunda Jornada foi encerrada com a confraternização dos participantes, com brindes e um saboroso almoço preparado por Maria José.

 

João Pessoa, 09 de julho de 2022

Têm pra todos? Ou não se tenha pra ninguém? Que os direitos tornemos universais.

Têm pra todos? Ou não se tenha pra ninguém? Que os direitos tornemos universais.

 

Emergência climática entre nós

Que tornemos agenda número um

Em socorro de nossa causa comum

Contra crimes de inimigo tão feroz

Nos ergamos, lancemos nossa voz

Numerosas espécies não há mais

Outras tantas emitem maus finais

E se formos os próximos, nós também?

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

QUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

Com um povo decente, não se aceita

Que uns luxem a custa dos famintos

No Brasil, chegam à casa de um/quinto

Multidão que não come, com fome deita

Um por cento em banquete na espreita

Não se diga que o Brasil não é capaz

Um país que alimenta tantos mais

Sem justiças direito não se tem

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

QUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

É altíssimo o déficit de moradias

No Brasil e no mundo do Capital

Com milhões sem abrigo, algo brutal

E milhares de casas estão vazias

Tantos, nada; e poucos, em demasia

Enfrentar este mal e outros tais

Convocando quem sofre e outros mais

Esta luta aos “de baixo” só convém

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

QUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

Se da Terra viemos, somos Terra

E a Mãe-Terra de todos cuida tanto

Elevemos a ela nosso canto

Trabalhar e viver, pois, nela encerra

O direito ao cultivo, mas sem guerra

Da Reforma Agrária marchemos atrás

O tamanho do Brasil já satisfaz

Das barreiras precisamos ir além

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

QUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

Dentre tantas problemas tão urgentes

Desemprego afeta enormes massas

Provocando miséria; a fome grassa

Como vive a sofrer a nossa gente

Desgoverno agrava enormemente

Carestia faz sofrer a nossa gente

Se hoje come, amanhã já não tem mais

E se enfermo cair um pobre alguém ????

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

MOQUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

Quem tem força pra isso transformar?

É a base, reunida em movimento

Que organiza as massas, estando atento

Ao processo formativo regular

De jamais limitar-se a esperar

Que seu sonho por terra, pão e paz

Que de cima a elite vem e faz

Cabe a nós ir atrás do nosso bem

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

QUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

Na questão Segurança Alimentar

Nosso povo padece enormemente

Pois bem mais da metade desta gente

Come um dia, outro não… como explicar?

No cultivo, o Brasil seja exemplar

Bate récorde em safra, mais e mais

De nutrir os pobres, é incapaz

São milhões (33) que nada têm

TEM PRA TODOS? OU NÃO SE TENHA PRA NINGUÉM?

QUE OS DIREITOS TORNEMOS UNIVERSAIS

 

João Pessoa, 10 de junho de 2022.

Mensagem do Papa Francisco

“Ângelus”- Dia 25.07.2021

O Evangelho da Liturgia deste domingo conta o célebre episódio da multiplicação dos pães e dos peixes, por meio da qual Jesus sacia a fome de cerca de cinco mil pessoas que vieram para escutá-Lo. É interessante observarmos como se dá este prodígio: Jesus não cria do nada os pães e os peixes, não, mas opera a partir daquilo que lhe apresentam os discípulos. Um deles diz: “Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes: mas o que isto dá para tanta gente?”. É pouco, é nada, mas para Jesus isto basta.

Agora vamos nos colocar no lugar daquele rapaz. Os discípulos lhe pedem para repetir tudo o que ele tem para comer. Parece uma proposta sem sentido, até mesmo, injusta. Por que privar uma pessoa, ainda mais, um moço, daquilo que trouxe de sua casa e que tem o direito de ter como seu? Por que retirar de alguém o que nem é bastante para satisfazer a todos? Do ponto de vista humano não tem lógica. Mas para Deus, não é assim. Antes, justamente graças àquela pequena oferta gratuita, e, por isto, um gesto heróico, Jesus pode matar a sede de todos. Eis um grande ensinamento para nós. Diz-se que o Senhor pode fazer muito com pouca coisa que Lhe pomos à disposição. Seria bom que nos perguntássemos todos os dias: “O que trago hoje para Jesus?”. Ele pode fazer muito com a nossa oração, com o nosso gesto de caridade para com os outros, até mesmo com a nossa miséria permeada da misericórdia Dele. As nossas coisas miúdas oferecidas a Jesus, Ele transforma em milagres. Deus gosta de agir assim: faz coisas grande de coisas pequenas, das coisas gratuitas.

Todos os grande protagonistas da Bíblia – desde Abraão a Maria, até os jovens de hoje – nos mostram esta lógica da coisas pequenas e da doação. A lógica do dom é diferente da nossa. Nós buscamos acumular e aumentar o que temos. Jesus, ao contrário, nos pede para dar, para diminuir. Nós amamos juntar, gostamos das adições. A Jesus agradam as subtrações, o tirar de nós alguma coisa para dar aos outros. Nós queremos multiplicar as nossas coisas, enquanto Jesus aprecia dividir as coisas com os outros, quando partilhamos. É curioso como nos relatos da multiplicação dos pães presentes no Evangelho nunca aparece o verbo multiplicar. Antes, os verbos utilizados sinalizam o contrário: repartir, dar, distribuir. Jamais se usa o verbo multiplicar. O verdadeiro milagre, diz Jesus, não é a multiplicação que produz orgulho e poder, mas a divisão, a partilha, que acrescenta amor e permite a Deus que realize prodígios. Aprendamos a partilhar mais, experimentamos este caminho que Jesus nos ensina.

Também hoje, multiplicar os bens não resolve os problemas, sem uma justa partilha. Vem-nos à mente a tragédia da fome, que afeta particularmente os mais pequenos. Foi estimado – oficialmente – que, a cada dia, no mundo, cerca de sete mil crianças, abaixo dos cinco anos, morrem por motivos ligados à desnutrição, porque elas não têm o necessário para viver. Diante de escândalos que tais, Jesus também nos faz um convite, um convite semelhante ao que provavelmente recebeu o rapaz do Evangelho, rapaz anônimo e que representa cada um de nós: “Tenha coragem, dê o pouco que você tem, seus talentos, e seus bens, coloque-os à disposição de Jesus e dos irmãos. Não tenham medo, nada será perdido, por se compartilhar, Deus multiplica. Supere a falsa modéstia de sentir-se inadequado, confiem em mim. Creia no amor, creia no poder no serviço, creia na força da gratuidade”.

Que a Virgem Maria, que respondem “sim” à inédita proposta de Deus, nos ajude a abrirmos o coração aos convites do Senhor e às necessidades dos outros.

Digitação: AJFC

Trad: EAFC

Partilha de bens e função social da propriedade privada

Por Andrea Tornielli

Em sua homilia de domingo, 11 de abril, Francisco falou sobre o costume dos primeiros cristãos de partilhar tudo. Um olhar sobre os desenvolvimentos do Magistério social do século passado que se liga aos grandes Padres da Igreja.

Os Atos dos Apóstolos contam que “ninguém considerava sua propriedade o que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum” e isso “não é comunismo, é cristianismo em estado puro”. Com estas palavras, o Papa Francisco, na homilia da missa celebrada no Domingo da Divina Misericórdia, comentou a partilha dos bens realizada pela primeira comunidade cristã.

Várias vezes, mesmo em tempos muito recentes, o atual Bispo de Roma foi criticado por questionar a intocabilidade do direito à propriedade privada e suas palavras foram associadas ao marxismo e ao comunismo. Em 30 de outubro passado, numa mensagem por ocasião da abertura dos trabalhos da Conferência Internacional dos juízes membros dos Comitês de Direitos Sociais da África e América, Francisco disse: “Construímos a justiça social com base no fato de que a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto e intocável o direito à propriedade privada, e sempre enfatizou a função social de qualquer de suas formas. O direito de propriedade é um direito natural secundário derivado do direito de que todos são titulares, resultante da destinação universal dos bens criados. Não há justiça social capaz de enfrentar a iniquidade que pressupõe a concentração de riquezas”.

O Papa Francisco abordou o tema duas vezes em suas encíclicas sociais. A mais recente na Fratelli tutti, publicada em 4 de outubro de 2020. Esse texto recorda as posições assumidas nas encíclicas sociais de João Paulo II e Paulo VI. De fato, lemos no número 120 da encíclica que foi assinada sobre o túmulo do Pobrezinho de Assis: “De novo faço minhas e proponho a todos algumas palavras de São João Paulo II, cuja força talvez não tenha sido compreendida: ‘Deus deu a terra a todo o gênero humano, para que sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém’ (Centesimus annus, 31). O princípio do uso comum dos bens criados para todos é o ‘primeiro princípio de toda ordem ético-social ‘(Laborem exercens, 19), é um direito natural, originário e prioritário (Compêndio de doutrina social, 172)”.

“O direito à propriedade privada”, continua Francisco na Fratelli tutti, “pode ser considerado um direito natural secundário derivado do princípio da destinação universal dos bens criados, e isso tem consequências muito concretas, que devem se refletir no funcionamento da sociedade. Porém, frequentemente acontece que os direitos secundários são colocados acima dos direitos prioritários e originais, privando-os de relevância prática”.

Do mesmo assunto se fala no parágrafo 93 da encíclica Laudato si’. Francisco, também referindo-se neste caso ao magistério do Papa Wojtyla e comentando suas palavras, escreve: “O princípio da subordinação da propriedade privada à destinação universal dos bens e, portanto, o direito universal ao seu uso, é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social, e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social. A tradição cristã nunca reconheceu o direito à propriedade privada como absoluto ou intocável e enfatizou a função social de qualquer forma de propriedade privada”. São João Paulo II (…) observou que “um tipo de desenvolvimento que não respeitasse e promovesse os direitos humanos, pessoais e sociais, econômicos e políticos, inclusive os direitos das nações e dos povos, não seria verdadeiramente digno do homem”. Com grande clareza, ele explicou que ‘a Igreja defende o direito legítimo à propriedade privada, mas também ensina com clareza que uma hipoteca social pesa sempre sobre toda propriedade privada, porque os bens servem ao propósito geral que Deus deu a eles’. Portanto, afirma que ‘não é de acordo com o plano de Deus administrar este dom de forma que seus benefícios sejam para o benefício de apenas alguns’. Isso questiona seriamente os hábitos injustos de uma parte da humanidade”.

Pio XII, na carta Sertum laetitiae dirigida em novembro de 1939 aos bispos americanos, e depois na mensagem de rádio de 1° de junho de 1941 por ocasião do 50º aniversário da encíclica Rerum novarum, focalizou o uso dos bens materiais, e afirmou ser “uma exigência imperiosa que os bens criados por Deus para todos os homens, fluam igualmente para todos, segundo os princípios da justiça e da caridade”. Também vale a pena mencionar a Constituição Apostólica Exsul familia (1952), que recorda o princípio da destinação universal dos bens no contexto da migração. De fato, o Papa Pacelli escreve que os movimentos migratórios permitem “a distribuição mais favorável dos homens na superfície da terra; superfície que Deus criou e preparou para o uso de todos”.

Em 1961, João XXIII comemora o magistério social de seus predecessores com a Encíclica Mater et Magistra, e no que diz respeito à propriedade privada e sua destinação social ele escreve: “A razão de ser da função social da propriedade privada não desapareceu (…), como alguns erroneamente tendem a pensar; uma vez que decorre da própria natureza do direito de propriedade. Além disso, há sempre um amplo leque de situações dolorosas e de necessidades delicadas e ao mesmo tempo agudas, que as formas oficiais de ação pública não conseguem atingir e que, em todo o caso, não são capazes de satisfazer. Portanto, um vasto campo permanece sempre aberto à sensibilidade humana e à caridade cristã das pessoas”. Caberá então à Constituição conciliar Gaudium et spes, publicada em 1965 na conclusão do Concílio Ecumênico Vaticano II, formular claramente o princípio da destinação universal dos bens: “Deus destinou a terra e tudo o que ela contém ao uso de todos os homens e de todos os povos e, portanto, os bens criados devem ser partilhados igualmente para todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade”.

Dois anos depois, em 1967, Paulo VI publicou a Encíclica Populorum progressio, ligando o Magistério social à grande tradição dos Padres da Igreja: “Se alguém, possuidor das riquezas que o mundo oferece, vê seu irmão em necessidade e fecha para ele suas entranhas, como poderia o amor de Deus habitar nele? Sabe-se com que firmeza os Padres da Igreja especificaram qual deve ser a atitude daqueles que possuem em relação aos necessitados: ‘Não é de seus bens, afirma Santo Ambrósio, que você doa aos pobres; você não faz nada a não ser devolver a ele o que lhe pertence. Pois é o que é dado em comum para o uso de todos, aquilo que você anexa. A terra é dada a todos, não apenas aos ricos’. É como dizer que a propriedade privada não constitui um direito incondicional e absoluto de ninguém. Ninguém está autorizado a reservar para seu uso exclusivo o que excede a sua necessidade, quando os demais não têm o necessário. Em suma, o direito de propriedade nunca deve ser exercido em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos padres da Igreja e dos grandes teólogos. Onde existe conflito entre direitos privados adquiridos e necessidades primordiais da comunidade, cabe ao poder público trabalhar na sua resolução, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais”.

Por fim, deve-se lembrar o número 48 da Encíclica Caritas in veritate de Bento XVI, que vincula o princípio da destinação universal dos bens à questão ambiental, incluindo também as gerações futuras entre os destinatários dos bens da criação e a consequente tarefa de salvaguardar e cultivar a criação sem depredá-la: “O tema do desenvolvimento está hoje fortemente ligado aos deveres que surgem da relação do homem com o ambiente natural. Isto foi doado por Deus a todos, e seu uso representa para nós uma responsabilidade para com os pobres, as gerações futuras e toda a humanidade”.

Fonte: Vatican News

(12-04-2021)

Sem medo

Visitando sites progressistas e democráticos 
Satura a profusão do nome maldito
A delinquência genocida
A mentira como política de estado
Os crimes cotidianos da quadrilha criminosa no poder
Devem ter razões para todas essas denúncias
Mas fica a sensação amarga de que apenas denunciar não têm sido capaz de nos municiar de ânimo para combater o crime organizado e institucionalizado
Temos que aprender a positivar a nossa agenda
O mundo da informação não pode estar tão longe assim
Da vida cotidiana
Temos que aprender a confiar mais na decência e na honestidade,
Na nossa própria capacidade
De combater o crime com atitudes concretas e seguras
Afinal enfrentar a possibilidade da morte
Não pode ser o que nos detenha
Uma vez que estamos morrendo a cada instante
A palavra deve ser capaz de voltar a ser a nosso favor
Devemos recuperar a palavra
O inimigo ganhou força por causa da nossa omissão,
Do nosso encolhimento cada vez que agrediu os nossos valores fundamentais
Devemos ser capazes de expulsar a escória que está nos destruindo como país e como povo.