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Urgência de Gandhi para os nossos dias

A urgência de Gandhi no mundo atual

Assim como termômetro denuncia a febre, se houvesse um instrumento que mostrasse o grau de intolerância e violência presente na sociedade, talvez tivéssemos inventar números acima de cem. Parece que, a cada dia, as pessoas se tornam mais incapazes de lidar com diferenças políticas, culturais e religiosas. Há quem se pergunte porque e como chegamos a esse ponto. No Brasil, nenhuma rede de televisão ou órgão de comunicação vai publicar tudo o que tem feito para semear, ódio, racismo e para sustentar no poder não apenas um Bozo qualquer, mas os/as representante daquilo que, com razão, Jessé de Souza chama de “elite do atraso”. Por isso, é urgente buscar algum antídoto para a epidemia da raiva e reencontrar motivos para teimar em termos fé na humanidade. Assim sendo, nunca foi tão necessário e oportuno, nestes últimos dias de janeiro, nos unir aos irmãos e irmãs da Índia, no aniversário do martírio do Mahatma Gandhi. Que a memória da sua vida e da sua mensagem de paz e não violência possam nos ajudar.

Em Dehli, no dia 30 de janeiro de 1948, um hindu fanático assassinou Gandhi pelo fato de que o mestre, sendo hinduísta, decidiu morar em um bairro de muçulmanos para vivenciar o diálogo entre as religiões. Até hoje, na Índia, um partido político prega que ser hindu de nacionalidade significa pertencer à religião hinduísta. E assim todos os hindus que são muçulmanos, judeus ou cristãos são considerados traidores.

Infelizmente, mais de 70 anos depois, o mundo de hoje ainda está menos tolerante e menos capaz de convivência nas diferenças. Por isso, é urgente recordar a herança do Mahatma Gandhi e atualizá-la para nós e para toda a humanidade. Alguns de seus pensamentos percorrem o mundo inteiro e propõem um novo modo de agir: “Comece por você mesmo a mudança que propõe ao mundo”.Você pode se considerar feliz somente quando o que pensa, diz e o modo como age estiverem em completa harmonia”. Aí está uma profunda indicação de caminho.

A realidade do mundo atual é muito diversa da época de Gandhi na qual a Índia era dominada colonialmente pela Inglaterra. No entanto, apesar disso, as principais intuições de Gandhi se mantêm necessárias.  Sua luta pacífica, através da Satyagraha, o caminho da verdade e da Ahimsa, a não violência podem ser  para nós instrumentos de nossa ação social e política para transformar o mundo.

No século XX, a ação de Gandhi conduziu a Índia à sua independência política. Na África do Sul, inspirou líderes como o bispo Desmond Tutu e Nelson Mandela. Nos Estados Unidos, norteou o pastor Martin-Luther King em sua luta contra a discriminação racial. No Brasil,  foi a inspiração para o trabalho de Dom Hélder Câmara contra a ditadura militar e por uma insurreição evangélica, a partir da justiça e da paz.

Na América Latina, muitos movimentos sociais têm se firmado no caminho da não violência ativa como instrumento de luta pacífica pela justiça e pela libertação dos povos. Na Argentina, Adolfo Perez Esquivel, escultor e ativista cristão pelos Direitos Humanos, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Também, em 1992, Rigoberta Menchu, índia Maya da Guatemala foi agraciada com o mesmo prêmio por sua luta pacífica pela libertação do seu povo e sua mensagem de esperança para todo o continente.

 Nas novas Constituições nacionais, aprovadas no Equador e na Bolívia, um dos princípios fundamentais colocados como meta do Estado é garantir o “bom viver” que cada povo indígena chama de uma forma diferente (suma kawsay ou suma kamana ou ainda com outros nomes), mas significa a opção por uma vida plenamente sadia, baseada no princípio da sustentabilidade ecológica e social e na dignidade de todas as pessoas. O “bom viver” privilegia o coletivo e não o individual e busca uma cultura da sobriedade e da partilha solidária na relação com a Terra e na forma de desenvolver a educação e a saúde. Quem é cristão, logo se recorda de que esta busca de uma vida que seja verdadeira e plenamente vivida é o objetivo pelo qual Jesus de Nazaré define a sua missão: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10). 

Apesar de que estes caminhos políticos são intuições latino-americanas e a partir das necessidades do mundo deste século XXI, sem dúvida, podem se considerar uma digna e bela realização da herança do Mahatma Gandhi na vida de nossos povos.

A desobediência civil – cem anos

Quando a cidadania exige desobediência civil 

Governos autoritários e instituições militares valorizam a hierarquia e a submissão aos superiores. Igrejas e religiões falam da obediência como virtude necessária para se viver a espiritualidade. No entanto, a ONU e organismos internacionais, assim como a Constituição de diversos países reconhecem o direito a desobedecer ordens injustas.

Nesta semana, se completam cem anos do dia 01 de agosto de 1920, quando, na Índia, o Mahatma Gandhi lançou a Campanha de Desobediência Civil. Esta campanha ensinava o povo hindu a desobedecer às autoridades da Inglaterra. Foi o início de todo o processo que culminou com a independência da Índia. Do mesmo modo, nos Estados Unidos do início dos anos 1960, a partir da Desobediência Civil, Martin Luther King liderou a luta pacífica pela igualdade racial, ao menos no plano legal. Ainda nos nossos dias, infelizmente, policiais continuam a matar, de preferência, homens negros. Mais infelizmente ainda, nos Estados Unidos, até as Igrejas cristãs se dividem em Igrejas de brancos e Igrejas de negros. No entanto, perante a lei se conquistou a igualdade racial.

A desobediência civil tem sido importante arma pacífica contra estados que cometem injustiças e violações aos direitos humanos. Em Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório se negam a expulsar palestinos dos territórios que lhes pertenciam e a explodir suas casas. Na Europa, jovens conquistaram o direito de prestar serviço civil a comunidades carentes no lugar de fazer carreira militar. Nos Estados Unidos, jovens se negam a ir fazer guerras e praticar violências em outros países do mundo. Os meios de comunicação não mostram e os governos não divulgam, mas todos invocam um direito individual, assegurado pela ONU: o direito de objeção de consciência. A objeção de consciência é a atitude de quem, por convicção religiosa, social ou política, se nega a pegar em armas e a participar de guerras ou atos violentos. Em vários países, a objeção de consciência é direito civil, reconhecido por lei. No Brasil, a Constituição garante aos jovens brasileiros o direito de fazer um serviço civil no lugar da prestação ao serviço militar obrigatório. Entretanto, as leis complementares não foram sancionadas. Por isso, este direito ainda não se pode exercer e poucos brasileiros têm consciência disso.

A espiritualidade ecumênica compreende a obediência como abertura pessoal e livre que leva as pessoas a escutar interiormente o outro e a acolher positivamente a palavra e as propostas de quem assume tarefa de acompanhá-lo e orientá-lo. No entanto, esta obediência deve ser adulta e responsável. Tem de se basear na liberdade do coração. Só se realiza através do diálogo franco e aberto. Esta obediência crítica e amorosa propõe a colaboração mútua no lugar da competição e contém um elemento subversivo diante da mesquinhez do mundo.

A ciência e a arte de viver têm progredido mais por conta das pessoas que ousam desafiar as leis e inovar os costumes do que pela ação das que simplesmente seguem caminhos convencionais. Homens e mulheres, admirados no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, foram ou ainda são, em seus países, considerados como rebeldes e desobedientes. Para os budistas tibetanos, Sua Santidade, o Dalai Lama, é a 14a reencarnação do Buda da Compaixão, mas, para o governo chinês, é um dissidente, desobediente às leis. O prêmio Nobel da Paz foi dado a dois latino-americanos ilustres: Rigoberta Menchu que viveu anos sem poder voltar à Guatemala para não ser morta e Adolfo Perez Esquivel que, durante anos, era constantemente ameaçado de prisão na Argentina. No Brasil da ditadura militar, Dom Hélder Câmara, era escutado no mundo inteiro, enquanto, em nosso país, o governo proibia que os meios de comunicação divulgassem o seu nome. No passado, Gandhi e Martin-Luther King foram presos e condenados como desobedientes à lei. Para os cristãos, os mártires são testemunhas da fé. Muitos foram condenados à morte por se negar a obedecer a autoridades injustas. Outros, por objeção de consciência ao serviço militar. Do ponto de vista da fé, são santos, mas a sociedade da época os condenou como desrespeitadores das leis e até criminosos.

Objetar é mais do que estar em desacordo. É opor-se a cumprir uma lei que fere a consciência. A violência, mesmo se é institucional, nunca será capaz de construir um mundo de paz e justiça.

Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com mais razão ainda, as religiões e Igrejas deveriam reconhecer o direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário, ou cúmplice de um governo violento e genocida. Conforme a Bíblia, quando os sacerdotes de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar em nome de Jesus, estes responderam: “Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus”(At 5, 29).

A negação do direito da desobediência civil e mesmo espiritual abre a porta ao fundamentalismo religioso, hoje, responsável por tantos atos de intolerância e mesmo de violência. Há cristãos que apoiam governos irresponsáveis que propagam notícias falsas e estimulam ódio e violência. São adeptos de uma religião civil que utiliza o evangelho em seu beneficio, mas nada têm a ver com Jesus. Na Bíblia, a fé só pode ser vivida na liberdade tanto interior como social. Paulo escreveu aos coríntios: “Onde estiver o Espírito do Senhor, aí haverá liberdade” (2 Cor 3, 17). E aos gálatas: “Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou. Vocês não devem aceitar, por nenhum pretexto, voltar à situação de não liberdade” (Gl 5, 1. 13).

(01-08-2020)

A paz e a memória de Gandhi

Para o mundo viver em paz
Há menos de um mês desejávamos uns aos outros ano novo de paz. No entanto, do início de janeiro até hoje, o mundo continua imerso em um mar de violência. O presidente dos Estados Unidos assume oficialmente que, em ato terrorista, mandou assassinar um general do Irã e ao armar o atentado no Iraque, por acaso, matou mais onze pessoas. Na Europa, governos deixam migrantes clandestinos se afogarem no Mediterrâneo.  No Brasil, mesmo sem guerra declarada, morre mais gente assassinada as nas periferias das cidades do que em muitos combates de guerra. Policiais e traficantes disputam quem mata mais. Cada dia, milícias particulares e membros da própria polícia exterminam rapazes da periferia e de preferência negros. O governador do Rio de Janeiro declara que matar bandido não fere a Constituição. Esse extermínio de jovens, com requintes de crueldade, lança o veneno da desesperança sobre o futuro.
O mais trágico é que muitos desses homens cujo esporte é matar ou provocar a morte de milhares de pessoas se dizem cristãos e não ligam a fé com a solidariedade e a defesa da vida. Ao contrário, fomentam uma cultura de intolerância e violência. Meios de comunicação transmitem a ideia de que a pena de morte é a única solução para os problemas do Brasil.
Em Nova Dehli, na Índia, nessa segunda-feira e durante toda a semana, milhões de pessoas visitam o túmulo do Mahatma Gandhi. Reverenciam o profeta da paz e da não violência, assassinado por um fanático religioso hindu, no dia 30 de janeiro de 1948. Ele ensinava que o único remédio para a violência é não entrar na mesma lógica. Insistia na não violência ativa e no caminho da verdade. Mais de 70 anos depois, a humanidade ainda não aprendeu. Nos anos 60, nos Estados Unidos, o pastor Martin-Luther King perdeu a vida. No entanto, através da não violência ativa, venceu a luta contra a discriminação racial. No Brasil, Dom Helder Camara consagrou sua vida à luta pacífica pela justiça e pela paz.
No livro “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire afirma que estamos mal porque seguimos um mau modelo de sociedade e não nos damos conta de que é um caminho equivocado.  As pessoas são orientadas a competir. Vencer na vida passa a significar exercer um domínio sobre outros. A cada dia, a Mãe Terra, explorada e ameaçada, grita de dor. E a humanidade segue sua luta por paz. No entanto, como imaginar que pode ter paz um mundo no qual um pequeno grupo de pessoas privilegiadas possui 90% dos bens disponíveis para todos e o resto, mais de 80% da população da terra tem de viver com quase nada?
O Capitalismo mundial é uma iniquidade, responsável pela morte de milhões e pela infelicidade de povos inteiros. Como isso não se faz impunemente, o sistema se protege com imensos gastos em armamentos. Não se dá conta de que a única coisa que geraria verdadeira segurança seria a igualdade social. No momento atual, nenhum país em crise busca alternativas para esse modelo de organização social.
O único líder mundial sensível a esse problema parece ser o papa Francisco que convoca para março, em Assis, um encontro com economistas jovens de todo o mundo para pensar como seria uma economia baseada na solidariedade às pessoas e no cuidado com a vida no planeta. As Igrejas cristãs precisam superar a divisão entre fé e vida. Precisam servir ao projeto divino que os evangelhos chamam de “reino de Deus”. Jesus deu sinais do reino ao curar doentes, reconciliar pessoas excluídas com a comunidade e anunciar a libertação de toda pessoa humana. Neste ano, a Conferência dos bispos católicos do Brasil escolheram como tema da Campanha da Fraternidade 2020: Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso. O lema é a palavra do evangelho que diz: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). Assim, a fé cristã nos convida a todos, crentes e não crentes a refletir sobre o significado mais profundo da vida em suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.

Otra Mendoza, otra Argentina, otro yo

No sé si dará un artículo, o si serán solamente algunas reflexiones, unas anotaciones preliminares como para ir dándome cuenta de que todo cambió. Lo que quiero compartir aquí, es un hecho en el ámbito personal, que me está siendo dado experimentar a lo largo de las cada vez más prolongadas estadías en Mendoza, mi tierra natal.

He venido volviendo, y seguiré volviendo, sin dejar sin embargo mi tierra de adopción, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Ir y venir. Mi destino. El movimiento de la vida. Ir y venir e ir llegando cada vez más acá, cada vez más aquí, a esto que está aquí, el presente. Este presente en que está alguien allí y alguien aquí.

La hoja como lugar de encuentro. Esto de escribir como una forma de ir llegando. Como decía Julio Cortázar en “Después hay que llegar”. Llegar no se sabe bien a qué, pero llegar. De algún modo, me sigo sorprendiendo con el estar vivo. Me sigue sorprendiendo el estar haciendo parte de um mundo hecho de gente, plantas, agua, mar, montaña, todo lo que está aquí.

Esto me sigue sorprendiendo. Y me sorprende también que después de tantos años de haber venido a Mendoza como un visitante, casi furtivo, esta tierra mía siga teniendo por mí el afecto que la tierra tiene por sus hijos. Me siento un hijo de esta tierra, que tuve que dejar en 1977, a la cual sin embargo nunca dejé de volver a ver. Volvía como por una rendija.

Ciertamente con una mezcla de miedo y rabia, rencor. Las heridas uno las va procesando, y de pronto descubre que se hicieron flores. De donde mucho hemos sufrido, un día vemos que han brotado flores. Salió una flor. Y esa flor es uno mismo. Sos vos mismo o vos misma, que estás leyendo esto, y a quien sin duda deben haberle pasado muchas cosas dolorosas a lo largo de la vida.

Pero en todas estas idas y venidas, también fui viniendo yo mismo. Fui viendo que yo también estaba aquí, también estoy aquí. Me fui pero me quedé. Uno se va de sí mismo por muchos motivos. Por presiones sociales, por la violencia, una agresión. La dificultad de coexistir siendo de una forma que la gente rechaza o rechazó en alguna oportunidad.

Uno se aparta, se va, se aleja de sí mismo. Pero vuelve. Siempre se vuelve. No hay ida sin vuelta. No me refiero solamente a un regreso territorial, a un volver a vivir en un lugar. También es esto, pero lo es en un sentido primero, más bien dentro de uno mismo, en uno mismo. Adalberto Barreto lo describe muy bien en su artículo: “As dores da alma dos excluídos no Brasil”.

Una experiencia dolorosa nos aparta de nuestro cuerpo. Nuestro cuerpo queda como que deshabitado, o habitado a medias. Pero de algún modo uno puede volver. En estos varios regresos, fui viendo que hay aquí otra Mendoza. Es otra Argentina. Una Mendoza y una Argentina que no descifro muy bien. Creo que en realidad mi país y mi tierra me fueron siempre bastante indescifrables.

Talvez porque mi mundo sea un mundo más pequeño, en cierta medida. Un mundo que me vi obligado a dejar a la fuerza. No solamente por lo ocurrido a partir de 1976, sino también por otros golpes anteriores y posteriores, en el ámbito íntimo. La violencia me visitó desde temprano, y me siguió acompañando después.

Mi mundo era y es, siempre fue y siempre será, un mundo imediato. El presente, lo que está aquí. Lo que puedo ver. Los rostros que puedo ver. Las expresiones que puedo ver. Las miradas que alcanzo a descifrar. Este es mi mundo. Un mundo pequeño, si se quiere. Pero es un mundo inmenso pues desde allí vislumbro y vivo la eternidad. Desde esta inmediatez, me sumerjo en la totalidad de la vida. Así fue y así será siempre, mientras viva. Por eso tengo la impresión de que si bien esta es otra Mendoza y otra Argentina, yo también soy otro y al mismo tiempo seguiré siendo siempre el mismo.

Reforma da polícia é fundamental para enfrentar a violência contra os jovens

O Mapa da Violência 2014, divulgado no início de julho, mostra um crescimento de 13,4% nos registros de homicídios em comparação com 2002. As principais vítimas são jovens do sexo masculino e negros. Enquanto o número de assassinatos de brancos diminuiu, passando de 19.846, em 2002, para 14.928, em 2012, as vítimas negras aumentaram de 29.656 para 41.127, no mesmo período.
Nesta entrevista, o professor Marcelo Paixão fala sobre o crescimento da violência contra os jovens, especialmente os negros e aqueles que residem nas favelas e periferias, e analisa alguns dos problemas que tornam esses jovens mais vulneráveis a situações de vitimização. Na avaliação dele, para se enfrentar o problema, é necessário, entre outras coisas, repensar e transformar os sistemas policial e judiciário brasileiros.
Marcelo Paixão coordena o Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (Laeser) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), principal centro de estudos acadêmicos das desigualdades raciais do país.
Rede Mobilizadores – Há 16 anos, os mapas da violência divulgados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontavam os acidentes de trânsito, os homicídios e os suicídios como as principais causas de morte de jovens. O mapa de 2014 mostra o mesmo quadro, porém agravado. Por que esse cenário tem persistido? Quais as principais políticas públicas necessárias para reverter esse quadro?
R.: A violência aumenta no contexto da redução das desigualdades sociais e por isso é difícil fazer uma avaliação. Acredito que, apesar da redução das desigualdades, a juventude ainda não encontra muitos caminhos para se inserir de uma forma melhor na sociedade. Temos uma grande concentração de população nos centros urbanos, as famílias estão passando por mudanças profundas, o mercado de trabalho não está gerando oportunidades para grande massa da população, e os postos de trabalho que se abrem são para posições de menor remuneração. Tudo isso contribui para o agravamento da violência, fora o fato de que temos um verdadeiro câncer na sociedade brasileira, chamado sistema policial. A corrupção policial favorece a entrada das drogas e de armas e, na outra ponta, age, nas favelas e periferias, com uma violência que é absurda. Isso somado à falta de controle civil sobre o sistema policial ajuda a manter os níveis de violência muito elevados.
A nossa polícia foi criada por D. João VI, em 1808, e durante 80 anos se dedicou a perseguir escravos fugidos. Depois, durante o Estado Novo e a ditadura militar, passou a ser uma estrutura auxiliar do Estado repressivo. E perdemos a oportunidade histórica, na Constituição de 1988, de reformular o sistema policial do país.
Precisamos de uma reforma profunda desse sistema, de uma revisão da criminalização do uso de drogas, especialmente da maconha. Mas essas e outras questões são muitas penosas para a sociedade brasileira. As forças políticas do país precisam se reunir e apresentar propostas que sejam capazes de enfrentar grupos de interesse. Não se faz política pública sem esse enfrentamento.
Rede Mobilizadores – A psicanalista Maria Rita Kehl afirmava em 2004 que jovens de todas as classes sociais, mesmo aqueles que não têm como consumir todos os produtos, se identificam com a imagem do jovem consumidor difundida pela publicidade e televisão. Isso de alguma forma pode estar associado ao crescimento da violência cometida por jovens?
R.: Eu respeito o ponto de vista, mas particularmente não gosto dessas abordagens que relacionam a violência a determinados segmentos da sociedade. A sociedade brasileira é violenta como um todo. Evidentemente, se existem mercadorias para serem consumidas e não existe um poder de compra correspondente na população para que esse consumo ocorra, o país precisa repensar a maneira como está gerando seus empregos, como está gerando renda.
Rede Mobilizadores – O Mapa da Violência 2014 aponta uma acentuada tendência de queda no número de homicídios da população branca e de aumento no número de vítimas na população negra, tanto para o conjunto da população quanto para a população jovem. O que justifica esse crescimento da violência contra o jovem negro?
R.: A população negra, entre 15 e 17 anos, deveria estar na escola frequentando o ensino médio. Mas de acordo com a taxa de adequação ao sistema de ensino, não mais do que 15 % da população negra nessa faixa etária está estudando e na série correta. Essa defasagem escolar é um elemento de desalento que faz com que o jovem queira sair da escola. Esse é um dos fatores que contribuem para tornar essa parcela da população socialmente mais vulnerável a situações de vitimização.
Além disso, houve o deslocamento geográfico da violência, que tem diminuído no Sudeste e crescido no Nordeste. A população jovem dessa região é majoritariamente negra, principalmente em estados como Bahia e Maranhão. Esse processo do deslocamento da violência para uma região com uma composição racial tão assimetricamente negra, associado ao racismo que permeia a sociedade brasileira, contribui para o aumento da taxa de homicídios.
Rede Mobilizadores – Temos visto o discurso oficial associar moradores de favelas e periferias com tráfico de drogas, com a criminalidade, o que justificaria intervenções policiais agressivas, não raro com mortes. Na sua avaliação temos convivido com a “naturalização” e aceitação social da violência, especialmente contra os jovens negros das favelas e periferias? A que atribui essa naturalização e como reverter esse quadro?
R.: A sociedade brasileira sempre foi extremamente violenta: com os escravos, com os índios, no período pós Abolição, nos massacres de Canudos, nas repressões políticas no Estado Novo, na ditadura militar. A diferença, atualmente, é que a forma da violência mudou. Na ditadura era uma violência política e havia em paralelo uma violência civil contra a população mais pobre. Hoje, a violência política é bem menor, mas há uma violência muito grande, sobretudo em relação aos jovens das periferias.
As formas de interpretação do que ocorre podem ser as mais variadas, mas, sem querer fazer um discurso reducionista, eu acho que as técnicas de confronto que ocorrem nas favelas e periferias são técnicas de controle social visando manter a miséria e a pobreza “no seu lugar”.
Não é apenas nas favelas e periferias que se consomem tóxicos. Se a elite consome, ela é rebelde, se os pobres consomem, eles são bandidos. O que ocorre é uma assimetria no tratamento dado pelo Estado brasileiro a um mesmo ato social que é disseminado na sociedade. Grande parte da responsabilidade sobre a violência é do Estado, que não deveria responder dessa forma aos problemas sociais existentes.
Temos um país que às vezes parece caminhar de forma totalmente contraditória. Reduzimos fortemente as taxas de mortalidade infantil, mas, por outro lado, aumentamos a taxa de mortalidade na juventude por homicídios, acidentes de trânsito e suicídios. Nesse sentido, não tiro a responsabilidade do Estado pelo que está acontecendo. Essa responsabilidade pertence ao governo federal, principalmente, e também aos governos estaduais e municipais, ao poder Judiciário e ao poder Legislativo. Ela permeia o sistema político brasileiro, na medida em que as pessoas que tomam decisões políticas no Brasil respondem a um quadro de 55 mil homicídios por ano com técnicas estritamente repressivas.
Hoje, todos os partidos políticos no Brasil, da extrema esquerda à extrema direita, têm responsabilidade por esse quadro. Esse problema não aparece nos programas dos partidos políticos. É tratado como um não assunto. É um tema melindroso, no qual ninguém toca com medo de perder voto. Há, portanto, um grau de cumplicidade com o que está acontecendo.
Rede Mobilizadores – Têm sido frequentes os casos de justiça pelas próprias mãos, quando cidadãos agridem e/ou tentam linchar supostos infratores, em geral adolescentes e jovens. A que podemos atribuir esse crescimento da atuação de “justiceiros” em nossas cidades? Esse problema é decorrente da deficiência da segurança pública ou envolve outros fatores? Quais?
R.: Há uma falta generalizada de confiança por parte do conjunto dos segmentos sociais no Brasil em relação aos sistemas policial e judicial que nós temos. O que faz as pessoas praticarem a justiça com as próprias mãos é a falta de confiança nas instituições. Nossosistema policial e judiciário precisará, necessariamente, ser profundamente repensado e transformado.
Entrevista concedida a Eliane Araujo em 04/09/2014
Fonte: Rede Mobilizadores
http://www.mobilizadores.org.br/entrevistas/reformulacao-dos-sistemas-policial-e-judiciario-e-fundamental-para-enfrentar-violencia-contra-os-jovens/?eixo=