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Patriciado

Você não precisa simpatizar com o Lula para apreciar que o ódio que ele desperta em parte do nosso patriciado é um bom sinal, de que a novidade está tendo efeito e certos pressupos­tos antigos sobre quem tem direito ao poder no Brasil já não valem. Em outros tempos, quando um discurso podia derrubar um go­verno, essa reação feroz já teria tido conseqü­ências institucionais. Hoje não. Outro exem­plo de como melhoramos aos poucos.

Luis Fernando Veríssimo, em entrevista a Caros Amigos, janeiro de 2008.

Comentário: O suicídio do planeta

Por Luis Fernando Verissimo, n’O Globo e n’O Estado de S. Paulo

Desta vez, falou-se mais em aquecimento global e outras questões ambientais em Davos do que no Fórum Social. Aquela risível obsessão de eco-chatos e cabeludos ingênuos atrás de uma causa transformou-se no principal tema dos ricos.

Agora está todo o mundo preocupado com o suicídio do planeta.

Repete-se, um pouco, o que acontece na arte há anos: uma vanguarda visionária primeiro é combatida e ridicularizada como coisa de loucos e depois incorporada ao pensamento dominante.

Com a diferença que, se nunca demorou muito para o capitalismo absorver e desfrutar todos os seus desafiantes e hereges e transformar até um Che Guevara de revolucionário em grife, a conversão dos fatiotas de Davos à causa ambientalista pode ter vindo tarde demais.

Se tivessem ouvido e adotado os cabeludos há mais tempo o planeta ainda poderia ser salvo.

Como na arte, as esquisitices de hoje podem ser o caminho de amanhã. Nada parece mais excêntrico, na vigência do atual pensamento econômico único, do que um pensamento divergente do dogma.

Mas as esquisitices proliferam, mesmo no Brasil, onde o pensamento único era tão forte que até o PT tinha se resignado à sua inevitabilidade.

Leia o Kupfer, leia o Pochmann, leia o Belluzzo, leia até o Bresser-Pereira e o Ricupero – só para ficar nos excêntricos nacionais com credenciais suficientes para desafiar a empáfia ortodoxa.

Países excêntricos como a Malásia e a Argentina de Kirchner estão mostrando que heresias contra o dogma não causam tempestade de enxofre.

Talvez em Davos já tenham se dado conta que o importante do que acontece na América do Sul hoje não é o neopopulismo, o neo-indigenismo ou as bravatas de Hugo Chaves, o Fidel Castro com petróleo.

É o fim de um modelo que pifou. Importante não é o que está começando, que nem bem se definiu ainda. É o que está acabando.

O pensamento único ainda resiste à realidade e predomina, pelo menos entre as teses, mas está a caminho de se tornar, ele sim, uma excentricidade.

No Brasil, fora os fundamentalistas do mercado ninguém está combatendo o novo intervencionismo do governo Lula por razões ideológicas. A maior crítica que se ouve ao pact-PAC é a de intervenção insuficiente.

Há, portanto, conversões em curso. Como na questão ecológica, os resultados do milagre levarão algum tempo para aparecer.

Não espere ver o Bush abraçando árvore e se manifestando pelas baleias nem o PFL defendendo a renacionalização da Vale num futuro próximo, mas pelo menos a empáfia diminuiu.

Dizem que o Fórum Social está acabando. É uma pena. Deveria ser mantido por Davos como uma espécie de mafuá de arrabalde onde os ricos fossem procurar idéias adaptáveis e heresias aproveitáveis, e ouvir das videntes o futuro da sua raça.