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Itália: morte e transfiguração

O chamado mercado viu assustado ruir a esperada fácil vitória do centro-esquerda, dirigido pelo Partido Democrático, ex-Partido Comunista Italiano (PCI), reconvertido ao social-liberalismo, com a qual contava para impor, com a menor resistência possível, as políticas conjunturais e estruturais ditadas pelo capital financeiro europeu e mundial.

O recuo do centro-esquerda, o renascimento das cinzas da direita berlusconiana, a alta votação do movimento do humorista de esquerda Beppe Grillo e o forte fracasso eleitoral de Mario Monti, chefe do governo técnico que radicalizou as políticas de austeridade, foram indiscutíveis e confusas formas de rejeição da população ao presente que vive e ao futuro que lhe apresentam como inevitável.

Na Itália como em enorme parte da Europa, as passadas promessas sobre a nova sociedade pós-moderna mostram-se em sua plena imaterialidade. As grandes indústrias abandonaram o país à procura de força de trabalho – se possível semiescrava – e o enorme ralo da crise engoliu a prometida economia pós-industrial a ser construída sobre o terciário, a tecnologia, o design, a informática, o turismo, as finanças, as dinâmicas médias e pequenas empresas.

Sob os duros golpes da recessão; do desemprego; dos cortes de gastos, investimentos e das políticas públicas; da desregulamentação e precarização das relações trabalhistas; da verdadeira enxurrada de taxas e impostos nacionais, regionais e municipais, a Itália transformou-se em uma espécie de cemitério de pequenos e médios negócios e indústrias que fecham as portas comumente sem anunciarem os prédios para venda ou aluguel, mais do que improváveis.

A perplexidade da população é enorme, pois há consciência de que o caminho trilhado levou ao desastre e que as soluções apontadas indicam a mesma trilha. A direita berlusconiana renasceu das cinzas do incêndio que ateou e alimentou por doze anos, agitando promessas fantasiosas de menos impostos, mais trabalho, mais consumo. Beppe Grillo construiu seu Movimento Cinco Estrelas com o projeto de tudo botar abaixo sem indicar minimamente como reconstruir.

A Itália e a Europa Ocidental vivem uma crise epocal. No Velho Continente acelera-se o inexorável eclipse da sociedade de bem-estar social geral mínimo, quanto à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia, à segurança, à aposentadoria construída nos dois últimos séculos, através de duríssimas lutas populares e operárias e, no século passado, alimentada pela poderosa ameaça da expansão da sociedade socialista.

No final desse longo ciclo depressivo, sobretudo a Europa frágil e periférica – Portugal, Espanha, Itália, Grécia etc. –, mas também seu núcleo duro – Alemanha, Holanda, França, etc. – emergirão desfigurados social e espacialmente por reconstrução que espelhará ao seu modo o nosso chamado Terceiro Mundo.

O continente se apresentará como a pele de um leopardo envelhecido, onde manchas de riqueza se sobrepõem a amplos espaços sociais e geográficos de pobreza. Um cenário que poderá dar lugar a movimentos de reindustrialização, apoiados em classe trabalhadora reeducada à semiindigência normal na periferia do mundo e nos países emergentes!

Na longa, fastidiosa e estreitamente controlada campanha eleitoral italiana, apenas um micro-partido levantou-se propondo política de restauração social do país e do continente, através da estatização do sistema bancário, que literalmente vampiriza o país; de nacionalização das já poucas grandes empresas que esperam apenas financiamentos públicos para abandonar a Itália; de rejeição de uma imensa dívida pública, impossível de ser paga, a não ser através da destruição social que progride a galope solto através do Velho Continente.

Mas apenas uma vez, e uma só vez, o micro Partido Comunista dos Trabalhadores (PCdL na sigla em italiano) teve direito de aparecer na televisão pública italiana, por uma hora, com indiscutível impacto e sucesso, reconhecido até mesmo pela imprensa conservadora.

O PCdL, o único partido a se apresentar com a foice e o martelo que já dominaram o coração do eleitorado popular italiano, exerceu um seu direito constitucional, transformado em concessão magnânima, no segundo canal público italiano (RAI 2), enquanto no primeiro (RAI 1) acontecia o célebre Festival de San Remo, talvez a única unanimidade nacional italiana, ao lado do café expresso e do azeite de oliva.

A Batalha de Gênova, por Gregorio Maestri

As imagens pasteurizadas transmitidas pelas emissoras de TV não permitiram que o mundo soubesse como ocorreu o confronto em Gênova, quando da reunião do G-8.

A morte de um estudante durante as manifestações não ocorreu por acaso. Foi fruto de uma repressão violenta e assustadora por parte do governo italiano, que coloca em cheque os princípios democráticos constitucionais, defendidos não só pela esquerda, mas também pela direita (ao menos retoricamente).

Gregorio Maestri, um ítalo-brasileiro, conta o que viu e faz uma breve reflexão sobre o comportamento dos movimentos de esquerda frente à sangrenta e covarde batalha. Após ler seu texto, é inevitável a pergunta: o que nos espera?

Clique aqui para acessar o artigo, em PDF.

Sobre o caso Cesare Battisti: a contradição pouco comentada do governo Berlusconi

Artigo de Luiz Sérgio Henriques, publicado em fevereiro de 2009 no site “Gramsci e o Brasil”, aponta uma importante contradição do governo Berlusconi no caso Cesare Battisti. Jorge Troccoli, ex-capitão dos Fuzileiros Navais do Uruguai, contribuiu para o desaparecimento de muitos oposicionistas da ditadura uruguaia, entre os quais seis cidadãos italianos. Troccoli foi um dos agentes da Operação Condor, uma “internacional” do terrorismo de Estado em ação nos países do Cone Sul dominados pelas ditaduras militares nos anos 1970 e 1980. “O curioso”, aponta Henriques, “é que o governo de Berlusconi negou a extradição de Troccoli para o Uruguai, alegando dupla cidadania”. E completa: “Não faltaram pressões diplomáticas do governo uruguaio, recursos às instâncias do Judiciário italiano, etc., mas o governo de Berlusconi parece irredutível na sua decisão sobre Troccoli”. Leia o artigo abaixo.

Sobre o caso Cesare Battisti

Luiz Sérgio Henriques – Fevereiro 2009

O contexto italiano dos anos 1970, no qual se desenrolaram os episódios que levaram à condenação de Cesare Battisti, tem sido descrito com uma certa superficialidade nesta nova e acirrada batalha entre defensores e críticos da recente medida do ministro Tarso Genro, que deu refúgio político àquele militante do PAC — os Proletari armati per il comunismo. Supõe-se muitas vezes que a Itália de então fosse uma ditadura e que se justificava, contra tal ditadura, a resistência armada, ou ainda que se viviam tempos revolucionários, a serem consumados com o recurso à “crítica das armas”, pretensa antessala do comunismo. Supõe-se ainda que, hoje, tal como dito pelo ministro Tarso Genro, a Itália viva algo semelhante a um estado de exceção, incapaz de zelar pela integridade física de um prisioneiro ou, então, disposto a fazer desencadear contra ele injustificável perseguição política.

Jorge Troccoli, terrorista de Estado que Berlusconi não quer devolver para que seja julgado. Imagem de http://www.larepublica.com.uy

São suposições que merecem, pelo menos, alguns reparos. A Itália dos anos 1970, mesmo tendo recorrido a leis de emergência na luta contra o terror (tanto o chamado “negro”, de direita ou extrema direita, quanto o chamado “vermelho”, de esquerda ou extrema esquerda), jamais cancelou a vigência da ordem democrática e constitucional. Na verdade, havia uma “democracia de partidos” em pleno funcionamento, e mais do que isso: os anos 70 do século passado representaram, por assim dizer, o auge e o rápido declínio da possibilidade de entrada no governo de um partido tão significativo quanto o antigo PCI. E isto por uma série complexa de motivos.

Por décadas, como se sabe, este partido desempenhou importante papel na reconstrução da Itália, depois do desastre do fascismo e da guerra: o PCI, mas também o PSI e o movimento sindical representaram forças poderosas no processo de modernização e democratização de um país devastado pelo fascismo e pela guerra: fizeram com que o Estado italiano começasse finalmente a superar taras históricas, incluindo as classes subalternas na sua estrutura, legitimando-as como atores de fato e de direito da cena política. E mesmo a Democracia Cristã, sob o impacto deste desafio, não se comportou como partido tradicional da direita, ao reunir massas católicas, conservadoras ou moderadas, e legitimar, também por este lado, o regime democrático e os conflitos a ele inerentes.

Os anos 1970, vistos como o auge deste audacioso movimento de democratização, transcorreram, na política, sob a expectativa do sorpasso (a ultrapassagem) dos democratas cristãos por parte dos comunistas, que pareciam prestes a se tornarem a principal força política e eleitoral. E, naturalmente, a presença dos comunistas, no centro de um novo bloco de forças, representaria o início da via italiana para o socialismo, teorizada pela velha direção togliattiana, ou ainda o ponto de partida para a introdução de “elementos do socialismo”, na visão de Enrico Berlinguer, um dos últimos grandes dirigentes do comunismo histórico.

Este, definitivamente, não é o quadro de um estado de exceção. Bem ao contrário, tratava-se de uma sociedade e de um Estado em ebulição, nos quais se testava a possibilidade de uma transição democrática para uma sociedade de tipo socialista, sob a égide da democracia política, das liberdades e do respeito às leis. Na frase de Berlinguer, uma frase que por si só é quase um programa político ainda hoje, a democracia devia ser “um valor universal”, não um expediente tático que se atira na lata do lixo uma vez obtido o poder. Um elemento fundamental, portanto, do próprio socialismo, que não devia ter as estruturas viciadas do partido único ou do partido-Estado.

Sabe-se hoje que aquela possibilidade de transição era frágil, e por um conjunto grande de razões. Primeiro e fundamentalmente, o povo italiano, chamado a se pronunciar regularmente em eleições livres, jamais permitiu aquele sorpasso. De modo consistente e ao longo dos anos, a formação de um bloco alternativo ao da Democracia Cristã nunca se mostrou viável — e só numa eleição para o Parlamento europeu, já nos anos 1980, é que o PCI teria mais votos do que a DC, mas isso, registre-se, sob o impacto da morte em campanha do próprio Berlinguer. Em segundo lugar, eram os anos em que se iniciou a grande reestruturação econômica e política do capitalismo, depois do impetuoso desenvolvimento do pós-guerra e do compromisso entre capitalismo e democracia a que dera lugar. Os “caminhos nacionais” se estreitavam e se tornavam impraticáveis na Europa, e o próprio “eurocomunismo” de Berlinguer, que de certa forma tinha consciência do fim destes caminhos nacionais, restou dramaticamente isolado: sem o apoio dos demais partidos comunistas tradicionais (e obviamente sem o apoio da URSS) e sem os meios para agir no ambiente sob domínio dos Estados Unidos e do Pacto Atlântico.

Um terceiro elemento se juntou a este conjunto de fatores, e com ele entramos plenamente no nosso tema. Setores subversivos da direita intensificaram sua velha “estratégia da tensão”, iniciada ainda nos anos 1960, partindo para uma sequência de atentados e carnificinas que não poupavam vítimas civis e até buscavam intensificar o número destas. Era a marca do “terrorismo negro”, a de matar indiscriminadamente, como quando, já no final de 1980, explodiu-se a estação ferroviária de Bolonha — uma infame “punição” contra uma cidade símbolo do PCI e então modelo de vida cívica e de economia plural e inovadora.

A estes setores somou-se, gravemente, uma miríade frequentemente confusa de organizações de extrema esquerda, das quais a mais conhecida são as Brigadas Vermelhas, responsáveis pelo ainda hoje obscuro e sob muitos aspectos inexplicado assassinato de Aldo Moro, o político democrata-cristão mais aberto a entendimentos com o PCI. A marca deste “terrorismo vermelho” era uma certa seletividade: assassinavam-se políticos e sindicalistas, inclusive do PCI, grandes dirigentes industriais e pequenos comerciantes. Às vezes, a seletividade tinha algum requinte sádico, como quando se adotou uma nova tática para a qual se criou o vocábulo “gambizzare”. Como se sabe, “gamba” é “perna”, em italiano. Alvejar joelhos e pernas dos adversários passou a ser algumas vezes a nova tática dos que cogitavam chegar ao socialismo ou ao comunismo pela luta armada. Considero isso particularmente cruel. Uma perversão da política. Coisa de criminosos comuns.

Não se trata de “criminalizar a oposição ou o dissenso”, como hoje tantas vezes se diz a propósito de tudo e de nada. Por tudo o que dissemos, pode-se muito bem constatar que, na tarefa comum de desestabilizar o Estado de Direito e fazer retroceder a luta política na Itália, retirando o protagonismo das massas e barrando o notável processo de socialização da política então em andamento, aliaram-se objetiva e subjetivamente o terrorismo vermelho e o negro. Uma aliança que muitas vezes foi tecida com instrumentos fornecidos por setores desviados do Estado — particularmente os serviços secretos —, por lojas maçônicas como a tristemente célebre P-2, por espiões e agentes de ambos os lados em conflito na Guerra Fria e, last but not least, pela criminalidade comum das variadas máfias e camorras. Não exagero nem julgo fatos específicos, mas Cesare Battisti é uma criatura deste momento e deste contexto. Nem mais nem menos. Gente como ele cometeu crimes iguais ou semelhantes aos que lhe são imputados. Crimes contra pessoas comuns e, simultaneamente, contra a democracia e contra o Estado de Direito.

A democracia italiana defendeu-se deste assalto violento sem se desviar do regime constitucional. A atitude do PCI, então hegemônico entre as forças de esquerda, foi decisiva para que se isolassem e derrotassem os setores subversivos: a atitude de uma força de esquerda madura e responsável, atenta à defesa do seu programa fundamental, que, na verdade, era a Constituição republicana feita sob a presidência de Umberto Terracini, um grande comunista amigo de Gramsci e que, por sinal, recebeu uma pena ligeiramente superior à deste último no processone fascista contra os dirigentes do PCI nos anos 1920. A involução autoritária, objetivo nem tão oculto dos terroristas de direita e de esquerda, foi impedida, e é em momentos desse tipo que se afirma, ou não, a capacidade de direção nacional de uma grande força política, mesmo eternamente condenada à oposição pelos constrangimentos da Guerra Fria.

Hoje o PCI não mais existe, mas é perfeitamente possível afirmar que as forças que majoritariamente o compunham se encontram, ao lado de católicos democráticos, no recentemente criado Partido Democrático, depois da experiência do Partido Democrático da Esquerda e dos Democráticos de Esquerda. A Itália tem um governo de centro-direita e à sua frente está uma figura particularmente polêmica, a de Silvio Berlusconi. A coalizão no poder inclui forças que expressam um persistente e não muito disfarçado mal-estar com a própria unidade nacional, como é o caso da Liga Norte. Expressa-se nesta Liga até mesmo um racismo intraétnico contra os italianos do Sul. A luta política, pois, é duríssima, as tensões sociais são inéditas, mas nada disso autoriza a caracterizar como fascista ou pró-fascista o Estado italiano. Na presidência deste Estado encontra-se um homem do porte de Giorgio Napolitano, egresso do PCI, assim como, nos anos 1970, à frente do Estado estava Sandro Pertini, um socialista histórico com passagem relevante numa luta armada de verdade, travada por motivos históricos irrefutáveis — a Resistência contra o fascismo e o nazismo.

Deduz-se facilmente que o atual governo de centro-direita, o terceiro dirigido por Berlusconi, está imerso em contradições graves, embora não tenha chegado ao poder através de golpe de Estado e o país continue sendo, como é acaciano observar, uma democracia, apesar de todas as suas imperfeições. Gostaria de chamar a atenção para uma dessas contradições do governo Berlusconi, um fato que talvez ainda não tenha sido devidamente comentado e divulgado no nosso país.

Tal contradição, que aqui nos interessa, encarna-se num personagem: tem nome e responde por atos tão graves quanto os imputados a Cesare Battisti. Jorge Troccoli — este o personagem — foi capitão dos Fuzileiros Navais do Uruguai e contribuiu para o desaparecimento de muitos oposicionistas da ditadura uruguaia, entre os quais seis cidadãos italianos. Troccoli foi um dos agentes da Operação Condor, uma “internacional” do terrorismo de Estado em ação nos países do Cone Sul dominados pelas ditaduras militares nos anos 1970 e 1980. O curioso é que o governo de Berlusconi negou a extradição de Troccoli para o Uruguai, alegando dupla cidadania. Fora este último aspecto, o caso Troccoli tem muitas semelhanças com o de Battisti. Não faltaram pressões diplomáticas do governo uruguaio, recursos às instâncias do Judiciário italiano, etc., mas o governo de Berlusconi parece irredutível na sua decisão sobre Troccoli, “o Battisti uruguaio”, no dizer do jornal L’Unità. E se trata de um episódio recente, cujas escaramuças diplomáticas e judiciárias mais dramáticas ocorreram em 2008.

No fundo, diante de situações como estas, volto a pensar num homem como Berlinguer. Um homem de partido, sem dúvida um comunista que aos olhos de hoje se diria tradicional, mas cuja formação moral, cuja reflexividade e até certa melancolia talvez o tenham poupado de ilusões mais graves quanto às virtudes supostamente imaculadas dos seus partidários e aos defeitos pretensamente insuperáveis dos seus adversários. Um líder cujo carisma talvez residisse no anticarisma, no apelo ao que havia de mais sensato, razoável e inteligente nos seus amigos, partidários e até mesmo nos que a ele e ao PCI legitimamente se opunham. Precisamos de homens e mulheres assim, que apelem, com grande autoridade moral e sem ambiguidade, ao caráter universal de alguns valores básicos. Sem isso, o que nos espera é a agitação estéril dos sectarismos. De direita ou de esquerda.

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Luiz Sérgio Henriques é o editor de Gramsci e o Brasil. Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil. Mais informações sobre o caso Troccoli podem ser encontradas em um artigo publicado recentemente no jornal italiano “l’Unità” clicando aqui e aqui.

Cesare Battisti: uma vergonha que a imprensa brasileira leva para seu anuário

Como a Revista Consciência.Net informou por dezenas de vezes, os crimes atribuídos a Battisti não estão provados por evidências tangíveis, não há testemunhas que não sejam falsas ou compradas, não houve advogados e, pior, os autores dos quatro assassinatos estão perfeitamente identificados.

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva deve mesmo conceder refúgio ao italiano Cesare Battisti. Para interlocutores próximos a Lula, a quem cabe a decisão de acordo com o STF (Supremo Tribunal Federal), a decisão é dada como certa e ocorrerá entre hoje (29).

A Advocacia Geral da União entregou na semana passada à Presidência da República o parecer com o embasamento jurídico para a recusa do pedido italiano de extradição.

Como a Revista Consciência.Net informou por dezenas de vezes, os crimes atribuídos a Battisti não estão provados por evidências tangíveis, não há testemunhas que não sejam falsas ou compradas, não houve advogados e, pior, os autores dos quatro assassinatos estão perfeitamente identificados (leia detalhes aqui e aqui).

Em um dos exemplos, o professor universitário e ativista da Anistia Internacional no Brasil, Carlos Lungarzo, demonstrou que em 2005 a historiadora, arqueóloga e romancista francesa Fred Vargas, auxiliada por uma perita do Tribunal de Apelações de Paris (Evelyne Marganne) e por dois advogados franceses (Turcon & Camus), descobriu um fato fundamental sobre o caso: as procurações utilizadas pelos advogados italianos de Battisti, no processo de 1982 até 1990, no qual foi condenado a prisão perpétua, foram falsificadas (leia aqui e aqui em detalhes).

A maior parte da imprensa brasileira, por sua vez, tem afirmado que a decisão de Lula é “política” – sugerindo que haveria uma decisão “técnica”, que seria a extradição. Com isso, estes jornalistas apoiam direta ou indiretamente o Estado ditador italiano à época, que perseguiu e assassinou ativistas. Pior: omitem informações que mudariam decisivamente a opinião pública, repetindo por mil vezes a mesma mentira sobre os assassinatos.

Já que é para falar dos “terroristas de esquerda”, que tal falarmos dos atos terroristas do Estado italiano à época? Há muitos casos, processos etc. Falaremos sobre isso? Lá, como aqui, todos os generais e agentes da Polizia di Stato ficaram impunes. Todos.

Uma vergonha que a imprensa brasileira leva para seu anuário.

(Atualizado às 15h47)

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(*) Gustavo Barreto, jornalista. Contato pelo @gustavobarreto_.

Caso Battisti: Vendettas sem Férias



Nos últimos meses, a grande imprensa deu algum sossego à campanha de difamação e ódio contra o escritor italiano Cesare Battisti. A Folha de S. Paulo chegou a abrir sua frequentada sessão Tendências/Debates a Luís Barroso, um dos advogados defensores. Uma exceção é uma revista de atualidade muito lida por executivos, empresários e classe média fascistoide, cujo conteúdo prima pela grosseria, a injúria, e a agressão procaz.

Há outra exceção, mas esta não pertence à grande mídia, nem faz parte do chamado “partido da imprensa golpista”. É uma revista de média circulação, que apoia o governo, e representa os interesses dos empresariados nacionalistas.  Um número significativo de intelectuais tem considerado esta publicação como um órgão de centro-esquerda, e se sentiram “traídos” quando a revista empreendeu uma campanha obsessiva contra Cesare Battisti, não poupando seus amigos, seus defensores, e até aos indiferentes.

Esse órgão continua no ataque, e esta semana apresentou uma matéria reforçando suas já recorrentes acusações contra o romancista latino. A causa de me referir a isto não é prazer masoquista, mas o fato de que as antigas acusações encontraram uma “fonte” nova. Desta vez, as velhas histórias estão temperadas com as fofocas sobre Cesare escritas por um apresentador italiano de rádio e TV. Ele se chama Giuseppe Cruciani, e sua “fabricação” da história de Battisti foi compilada no livro: Os Amigos do Terrorista, que ainda não foi traduzido, talvez porque a Embaixada Italiana no Brasil desistiu de gastar dinheiro.

Não posso colocar scans desse livro em meu site, porque está protegido por direitos autorais, mas você talvez se arrependa de comprá-lo, gastando 15 euros mais o frete. Não quero analisar o livro todo, senão apenas a matéria dessa revista “progressista”, cujos editores tiraram alguns fragmentos do livro para se inspirar. (Nem revista nem o autor do artigo são relevantes)

O Livro de Giuseppe Cruciani

Giuseppe Cruciani (n. 1966) é um jornalista romano, apresentador de rádio e televisão, que se ocupa de assuntos gerais e mantém diálogos com tele-espectadores. Seus programas tanto por rádio como em TV, são semelhantes a alguns programadas de rádio no Brasil, onde o apresentador atende perguntas da audiência sobre coisas diversas: futebol, sexo, política, etc. Mas, não há um programa idêntico na TV brasileira. O mais parecido a Cruciani, numa versão muito menos educada, poderia ser o jornalista José Luiz Datena. Creio que dificilmente algum leitor consiga imaginar Datena escrevendo um livro sobre um complexo assunto jurídico que envolve delicadas questões históricas e políticas.

Num país onde é surpreendente que um membro da mídia não seja de direita, Cruciani foi acusado de ser incondicional do premier, mas ele se defendeu dizendo: “Qualquer um que não diga que Berlusconi é um monstro é rotulado dessa maneira”. (Vide) Seu livro foi publicado pela Sperling-Kupfer, um ramo da editora Mondadori, que, por sua vez, é controlada pela holding Fininvest, da família Berlusconi, que ganhou o controle da editora após uma sentença contra Carlo de Benedetti, em 1991, num escândalo de propinas e subornos.

O livro de Cruciani é um acúmulo de anedotas, alinhavadas por uma trama que lembra, numa qualidade infinitamente menor, as narrações “históricas” de John Forsyth. (Quem leia isto, não pense que vai obter a mesma emoção que lendo O Dossiê Odessa, por exemplo.) As anedotas não apenas visam mostrar uma imagem maniqueísta de Battisti, pintado como um sujeito diabólico, no estilo Bin Laden, como também denegrir alguns (os mais conhecidos) dos milhares de intelectuais, artistas, jornalistas e políticos prestigiosos franceses e italianos que apoiaram Battisti Cesare entre 1990 e 2005, e os brasileiros a partir de 2007.

Não é difícil perceber que o livro tem o forte toque racista e (para usar um termo vulgar) “invejoso”, que sempre opôs os grupos semibárbaros da direita italiana com a França em geral e, em particular, com a esquerda. Tampouco os mais conhecidos amigos de Battisti no Brasil se salvam a ira de Cruciani, que parece mais misericordioso conosco: porque, se os franceses são arrogantes e vaidosos, nós somos um país de miseráveis e bandidos que só pode ser tratado com desprezo.

Na matéria que estou analisando, se mencionam algumas poucas das numerosas “descobertas” de Cruciani. Vou referir-me apenas a essa matéria, e se for necessário, deixo para o futuro o resto do livro, embora haja muitos que entendem que não vale a pena.

O Caso de Saviano

Cruciani revela com grande alvoroço, que Roberto Saviano, jovem autor do livro Gomorra sobre a máfia napolitana (Camorra), que inicialmente tinha assinado um manifesto em favor de Battisti, retirou recentemente sua assinatura, aduzindo que ele assinara sem conhecer quem era o imputado e porque foi pressionado por amigos. E daí? Por que é tão importante que Saviano se tenha arrependido e agora “apoie as vítimas de Battisti”?

Aceitar um critério de autoridade (isto é bom porque o mestre disse) saiu da moda já em 1789, e hoje só é sustentado por fanáticos incapazes de pensar, sejam fundamentalistas católicos, xiitas ou stalinistas. Mas, se acreditarmos realmente que é possível aceitar critérios de autoridades balançados por dados reais, e levar em conta a opinião de pessoas tidas por esclarecidas, devemos pensar o que significa este simpático garoto (que escreveu, com muito coragem, uma denúncia da Camorra), comparado com os grandes escritores que apoiaram Cesare. Só para dar os exemplos mais importantes: temos Fred Vargas, que além de ser a mais lida e traduzida romancista da França atual, é arqueóloga e historiadora; Valerio Evangelista e Roberto Bui, ambos italianos, a celebérrima Jeanne Moreau, que fez mais feliz a adolescência da minha geração, e muitos outros. E, como broche de ouro: Quantos Savianos cabem num Gabriel Garcia Márquez? (Bom, esta última comparação foi covardia da minha parte).

O Caso de Guido Rossa

O articulista da revista Brasileira menciona (como também fez em muitos outros locais), o sindicalista Guido Rossa, que foi executado por membros das Brigadas Vermelhas.

Guido Rossa (1934-1979) foi membro da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL), e representante sindical na siderúrgica IItalsider de Cornigliano, uma vila de Genova. Ele devia ter algum posto distinguido, pois era conhecido como figura de destaque no principal clube de alpinismo e era quase impossível que um operário médio pudesse financiar esportes como alpinismo e fotografia naquela época.

Em outubro de 1978, Rossa viu Francesco Berardi, um operário do mínimo escalão, que tentava distribuir panfletos num local da empresa. Ações como estas durante a ditadura brasileira foram amiúde ignoradas ou punidas com alguns dias de detenção em delegacias. Mas, na Bela Democracia, a coisa foi diferente.

Sabe-se pouco de Berardi, estigmatizado por jornalistas e intelectuais do sistema. Em mais de 1300 documentos sobre Rossa, Berardi é descrito como títere da esquerda, fraco, miserável, analfabeto e marginal. Também é injuriado por sua condição de operário não qualificado, um insulto esquisito em membros de um partido comunista, que se gabava de defender as classes exploradas. Só sabemos que chegou a Genova no começo da década de 50, que tinha pertencido a Luta Contínua, e que nunca militou nas Brigadas Vermelhas. Mas, para enlamear sua memória, é qualificado às vezes de brigadista.

Quando Rossa viu Berardi colocando os panfletos perto do bebedouro, este tentou fugir com natural medo de ser delatado. Guido foi mais rápido e o fez deter pela guarda da fábrica. Conduzido à justiça, onde foi indiciado por distribuir propaganda terrorista (o texto dos volantes não aparece nas crônicas sobre o caso), foi condenado a 4 anos e 6 meses de prisão especial (“especial” quer dizer isolamento e tortura). Rossa levou seu deduração a todos os limites, e confirmou o “crime” de Berardi na polícia e nos juizados. Tempo depois, a polícia declarou que Berardi tinha cometido suicídio, mas uma pesquisa pedida por organismos de Direitos Humanos foi impedida.

As Brigadas Vermelhas pensaram vingar Berardi, apesar de ser um simpatizante sem nenhuma militância. Houve muita discussão porque, apesar da repugnância que inspirava o Partido Comunista em seu papel de alcaguete, todos respeitavam o legado histórico do antigo comunismo, cuja tradição revolucionária continuava viva em alguns países da América Latina.

Decidiu-se aplicar de novo uma praxe absurda dos grupos armados: ferir levemente o delator como advertência. Rossa foi emboscado por dois brigadistas, mas a tensão levou a um deles a disparar um tiro mortal. A autopsia encontrou projéteis nas pernas, mas apenas um no coração. Apesar disso, Vincenzo Guagliardo, responsável só pelas feridas leves estava ainda preso em 2008, ou seja, 31 anos após o atentado. Membros da Brigadas que não tinham participado no crime também foram condenados a penas draconianas.

Na matéria da revista que comentamos, distorcem-se vários fatos: (1) Oculta-se totalmente o caráter de delator de Rossa, que não apenas passava informação aos patrões, mas perseguia os membros da esquerda até conseguir sua prisão.(2) Sonega-se que tinha um altíssimo nível de vida, incompatível com o melhor salário de operário. (3) Oculta-se que foi morto pelas Brigadas, e não pelos PAC, que nunca foram processados por isso, nem mesmo acusados, apesar do acúmulo de culpas que a justiça italiana colocou sobre eles. (4) Distorce-se a autoria do ataque, que não foi feito pela Prima Linea, como diz o libelo, mas pelas Brigadas, cuja estrutura autoritária e militarista, própria da esquerda católica, era repudiada pelos outros grupos. (5) Omite-se o dado importante de que as Brigadas não tencionavam matar Rossa, mas apenas feri-lo, o que, sem dúvida, é uma aberração, mas de menor tamanho.

Há algumas semanas, em outra das recorrentes citações de Rossa por parte do libelista, eu escrevi um e-mail perguntando: “Você atribui a Battisti a morte de Rossa?”. Um auxiliar dele me respondeu: “Não, imagina, ninguém disse isso. Apenas mencionamos o assunto, porque o assassinato dele e parecido aos que cometeu Battisti!”.

Parecidos? Os crimes que se atribuem a Battisti tiveram como vítima dois policiais e dois empresários. Qual é a analogia com a morte de um sindicalista? Por que não incluir o nome de Rossa, então, em qualquer outro anúncio fúnebre?

Se quiser ver uma matéria redigida na Itália, e que não é de esquerda (pelo contrário, seus autores elogiam Rossa), veja isto. Neste texto, você pode ver, entre outras coisas, que é falso que o assassinato de Rossa fosse executado por Prima Linea; eles deixam claro que foram as Brigadas. Informação adicional pode ser vista no blog de nada menos que Luciano Violante, um magistrado italiano que já foi deputado pelo stalinismo, e um dos mais acérrimos inimigos da esquerda. Por que ele preferiria culpar as Brigadas e não Prima Linea, sendo que esta tinha alojado ex membros do PAC?

Se você quiser escolher e gerar sua própria opinião dentre mais de 2.000 artigos sobre Rossa, veja aqui. Acredito que fica claro que esta história de Prima Linea como assassina de Rossa (que aparece em todos os artigos do libelista sobre o tema), tem por objetivo vincular esse crime com uma organização que parece ter relação com os PAC e, ao mesmo tempo, criar um sentimento subliminar de que Battisti colaborou nesse crime também.

Eu acho interessante o caso Rossa porque mostra de que maneira é manipulada a informação para sujar o máximo possível a imagem de Battisti.

O disse que Rossa era o Lula da época. Independentemente de apreciações políticas (que não são relevantes à minha atividade), Lula é conhecido como uma pessoa que sempre foi leal a seus companheiros. Compará-lo com um delator é ofensivo.

O Caso de Pietro Mutti

Cruciani, em seu livro, e o autor da matéria comentada, enfatizam a “mentira” de que Battisti fosse condenado pelo único delator, Pietro Mutti, e que também é falso que tenha sido premiado com a liberdade.

Eventualmente, algumas pessoas do Círculo de Apoio a Battisti mencionam apenas Mutti, porque foi o mais importante, e quem inventou junto com os promotores toda a armação. Mas não negamos que houve outros. Dissemos e comprovamos com citações das sentenças, que os delatores foram vários, sendo Mutti o principal. Os outros delatores foram Sante Fatone e Maria Cecília Barbetta, cujos testemunhos foram corroborados por outros que também estavam presos e precisavam descontos nas suas penalidades. Por exemplo, Tirelli, e possivelmente Memeo e Grimaldi.

Pessoalmente, penso que houve entre 6 e 8 delatores e não apenas um. Então, concordo com o libelista do magazine: não foi apenas Mutti. O que nós afirmamos é que não houve nenhuma testemunha, objetiva, isenta, presencial, documentada, etc. Será que o libelista pode dar algum exemplo?

Também não dissemos que Mutti ganhou a liberdade. Ele teve sua pena de prisão perpétua comutada a oito anos. Calculando que sua expectativa de sobrevida na época fosse de 48 anos (tinha uns 27 ou 28, e chegar aos 80 anos na Europa não é excepcional), ele teve uma redução de 80% (4/5). Estão achando pouco?

As Garantias de Battisti

O libelista cita os processos originais contra Battisti, como provas de que ele esteve bem defendido e teve todas as garantias. Em meu site, pode encontrar-se a totalidade dos documentos que a Itália liberou ao público, e alguns que pode obter por via de contatos. Talvez o libelista e o escritor Cruciani tenham outros documentos, que a justiça italiana lhes confiou sigilosamente, quem sabe? Seja como for, esses documentos não podem ser aduzidos como provas se não foram divulgados. O que se conhece publicamente é:

  1. Mais de 400 intelectuais e políticos franceses protestaram várias  vezes pela inusitada cumplicidade de Chirac com o governo italiano, em troca de vantagens econômicas, o que constitui um grande motivo de vergonha para a brilhante cultura francesa, tão rica em libertários e iluministas. A Liga dos Direitos do Homem, a mais antiga organização de DH fundada no século 19, enviou duas cartas às autoridades brasileiras.
  2. A organização Antígone, a mais importante OGN de DH de prisioneiros (políticos ou comuns) que opera na Itália, enviou em novembro de 2009, uma nota ao presidente Lula, advertindo sobre o péssimo estado das garantias individuais no estado italiano.
  3. Os advogados de Battisti, Pellaza e Fuga, que já tinham intervindo num julgamento anterior, não foram autorizados pelo réu para representá-lo. As procurações foram falsificadas como denunciou Fred Vargas numerosas vezes, sem obter a menor atenção do Supremo Tribunal Federal do Brasil nem da mídia.
  4. Argumenta-se que o processo de Battisti foi analisado por mais de 60 juízes togados, e o libelista acusa de “caraduras” e de outras obscenidades aos que não leram os autos nem atentaram para esse aspecto. De fato, é verdade que foram muitos os que aparecem mencionados na sentença de 1988, mas não sabemos quem redigiu o relatório, e o único protagonista do caso Battisti que mostra frequentemente as caras é Armando Spataro. Não é evidente, mas um raciocínio detalhado mostra que o discurso de Spataro é contraditório, embora possa ter, sem dúvida, algumas afirmações verdadeiras.
  5. A displicência da Corte Europeia de DH no caso Battisti não é um argumento que mostre que foi desprezado porque ele era culpado. Talvez isso fosse sensato, se essa corte estivesse muito preocupada realmente com a defesa dos cidadãos. Já em 2008, a Corte arquivava cerca de 95% dos processos sem tê-los monitorado. (1.543 casos atendidos sobre cerca de 32 mil ignorados). Os únicos casos que funcionam nessa Corte são os que têm grande repercussão como foi o dos crucifixos em locais públicos da Itália. Textos do próprio Conselho da Europa se referem com alarma a esta irregularidade. (Vide)

Os Crimes

Cruciani e o libelista reiteram o que a justiça italiana já afirmou milhares de vezes: que Santoro e Campagna foram assassinados por Battisti.

No relatório da sentença do processo concluído em sua primeira instância em 1981 se deixa claro que Mutti foi o executor de Santoro, secundado por uma menina e com a cumplicidade de duas pessoas que guiavam o carro. Não se fala em absoluto de Battisti. Sugiro que o leitor se informe nesse documento.

O caso de Campagna se atribui a Memeo, um membro da organização famoso por ter sido fotografado numa passeata com uma arma na mão. Ambos eram conhecidos por especial inclinação à violência. Na época (1979), ainda não existia nenhum interesse em culpar Battisti, pois os promotores não tinham pensado nas vantagens de ter um bode expiatório para todos os crimes. Portanto, os jornais da época, alguns dos quais o leitor pode encontrar na Internet, reproduzem a notícia assertivamente. Veja especialmente Corriere della Sera e Repubblica. Quem tiver acesso aos jornais italianos em papel, pode ver também Il Giornale e muitos outros diários menos famosos, porém todos eles comerciais e sem interesse partidário.

O caso de Sabbadin e o de Torregiani já foi discutido ad nauseam e polemizar sobre ele seria fazer o papel de ingênuo, o que não me parece respeitoso com o leitor.

A transferência das culpas a Battisti aconteceu em 1982, quando Mutti e os promotores decidiram colocar todos os crimes dos PAC numa única pessoa. O leitor pode ver que a sentença de 1988, que possui mais de 700 fólios, é muito confusa ao se referir a Mutti. Não se menciona que os crimes eram atribuídos, antes, a outras pessoas. Também aparecem muitos e redundantes elogios a Mutti, que, por sua condição de ultraesquerdista violento não deveria merecer, supomos, tanta simpatia dos juízes. Uma leitura atenta (o que pode ser muito cansativo, mas a verdade exige esforço) mostra que a sentença de 88 foi forjada, pois é rica em inconsistências. O que não está provado fisicamente, embora existam alguns testemunhos de ativistas da época, é que Mutti tenha recebido dinheiro, mas nunca usamos esse argumento, justamente por não ser apodictico. Quanto a sua condição de delator, é reconhecida pela própria Itália, sob o eufemismo de pentito.

O Caso Barbetta

Maria Cecília Barbetta é uma jovem que estudava filosofia e entrou no PAC, como aconteceu em outros países com muitos estudantes de humanidades. Ela é atualmente professora em Verona, mas recusou conversar com qualquer contato nosso na Itália. Tanto a justiça, como Cruciani, como o STF brasileiro, como centenas de interessados na execução de Battisti, repetem uma declaração que ela fez em Milão em 1982, dizendo que Battisti lhe tinha confessado que tinha matado Santoro.

Qual é a validade dessa informação? Segundo os autos, Maria Cecília disse que ele lhe contou como era a sensação de ver sangue correndo, ou coisa semelhante. Se eu dissesse a alguém de minha intimidade que participei do atentado de 11 de setembro, seria levado a sério? Pode parecer ridículo que me detenha neste argumento absurdo, mas o caso de Barbetta foi citado digamos mais de 200 vezes, pelos mais variados panfleteiros.

O Caso de Giacomini

O libelista cita como amostra de canalhice dos PAC que Giacomini tinha dito que eles  consideravam o roubo como um método legítimo para pessoas que tinham sido privadas pela burguesia do direito de trabalhar. Qual é a novidade? Já os socialistas utópicos, em 1850, diziam que a propriedade privada era roubo. O direito a roubar dos ricos pelos pobres foi o motor da lenda de Robin Hood, que, mesmo que seja imaginária, reflete o espírito da época, e aquela fábula surgiu há mais de 3 séculos, pelo menos.

Ou seja, a ideia de que existe uma grande injustiça social e que a pessoa que rouba para sua subsistência apenas está reequilibrando as relações sociais, é tão velha como a sociedade de classes. Hoje em dia, há numerosos sociólogos, especialmente de países avançados, como a França, que defendem este ponto de vista. Ele também está implícito em alguém tão conhecido como Foucault, que coloca em juízo todo o sistema punitivo e prisional, e não apenas a punição de presos comuns.

Em fim, o caso Battisti está cheio de declarações e interpretações que se multiplicaram durante estes dois últimos anos, de maneira proporcional à vontade de Itália de investir em sua condenação. Essa vontade parece ter piorado. O serviço secreto de exército já perdeu em 2004 a soma de 2 milhões de Euros, ao encomendar o sequestro de Battisti, Loiacono e outro ex-ativista, a um grupo paramilitar neofascista. Os criminosos não fizeram nada, afinal, porque, como toda gangue, queriam mais dinheiro.

Vale também salientar que o ex embaixador no Brasil, Michel Valensisi, foi afastado do país e destinado a outra embaixada, a meados do 2009, quando se descobriu que tinha recebido a uma pessoa do círculo de defesa de Cesare Battisti. A demora da decisão do presidente Lula no caso de Cesare preocupa a todos nós, mas há algo que preocupa ainda mais aos linchadores: o presidente não está disposto a entregar carniça aos abutres. Se quisesse, teria tido numerosas oportunidades para fazer isso desde dezembro de 2008, ganhando o aplauso da cúpula do STF e de milhares de neofascistas.

Daí que ainda existam essas fofocas histéricas tanto na Itália como no Brasil. É bom perceber, porém, que eles não confiam muito em sua vitória, e seus uivos são cada vez menores. O mesmo Cruciani respondeu a um jornalista italiano, quando lhe foi perguntado se ele acreditava na extradição de Battisti:

-Io non credo.

Nota Final

É interessante comprovar que esta matéria está postada num dos sites do Ministério de Relações Exteriores, que sempre trabalhou pela extradição de Battisti, e por todas as causas reacionárias que estivessem por perto.

Vida, Façanhas e Milagres de Ignazio La Russa


Se você não sabe quem é Ignazio La Russa, não se envergonhe.  Ele só ficou conhecido fora da Itália por sua perseguição contra o escritor italiano Cesare Battisti, montando um circo que incluiu cenas tais como se acorrentar às grades da Embaixada Brasileira em Roma, e de proferir enfaticamente a frase: “Sei que não é possível, mas eu adoraria torturar Battisti”. Não sabemos se ele disse que “não é possível” porque Battisti está longe, ou porque pegaria mal que o ministro de defesa da Itália torturasse um prisioneiro. Não é, sem dúvida, por medo da lei, porque a Itália não possui uma legislação que considere que a tortura é crime. É o único país da UE nestas condições. Nem a Turquia, autora do genocídio da Armênia e aplicadora de tratos prisionais brutais, admite a tortura do ponto de vista legal.

Fundador da Juventude Neofascista

Ignazio Benito Maria La Russa nasceu em julho de 1947, em Paternò, uma cidade de 50 mil habitantes (em 2009) da Província de Catania, na região da Sicilia. Seu pai foi o influente senador Antonino La Russa, membro do Movimento Social Italiano (MSI), uma agrupação fascista fundada em 1946 pelos grandes amigos de Mussolini (Giorgio Almirante, Pino Romualdi e Manlio Sargenti) e pelo antigo voluntário do falangismo na Guerra Civil Espanhola, Arturo Michelini.

A criação do MSI foi permitida porque os aliados Ocidentais que libertaram a Itália, não empreenderam uma tarefa de neutralização do fascismo, como foi feita, pelo menos parcialmente, no caso do nazismo. Os Estados Unidos, conscientes de que a experiência dos fascistas seria importante para sua implantação da Operação Gládio (uma operação sistemática de terrorismo de estado destinada a aniquilar a esquerda em todos seus estilos) limitaram-se a proibir ações fascistas deste tipo: tentar restaurar a ditadura explícita no estilo de Mussolini, ameaçar outros países da Europa Ocidental, mostrar falta de cooperação com NATO, e fazer propaganda ostensiva do nazismo alemão (o que poderia irritar os países vítimas do Holocausto). Entretanto, um partido com os mesmos princípios que o Partito Nazionale Fascista seria permitido, desde que respeitasse essas limitações. Inclusive, a propaganda do Fascio (mas não do Terceiro Reich) foi permitida. O MSI convocava atos em locais públicos e especialmente em Igrejas, onde se desfraldavam bandeiras com a águia fascista e a cruz céltica, e se fazia a saudação romana. No entanto, quando os encontros eram mais solenes, como alguns enterros, e a visibilidade menor, também se exibiam algumas suásticas.

O MSI foi exatamente isso: o antigo partido fascista sem pretensões de domínio na Europa. O MSI aliou-se em 1994 com outro partido neofascista, a Destra Nazionale, e finalmente se dissolveu em 1995, após 49 anos de sucessos, deixando passo a uma nova e mais eficiente direita neofascista: Alleanza Nazionale. Ignazio, que na época tinha já grande experiência parlamentar como representante de diversas coalizões fascistas, foi um dos fundadores.

Duas décadas antes, em 1972, La Russa fez parte do grupo que criou o Frente da Juventude, o braço juvenil do MSI, que era tanto um grupo político para que os calouros do fascismo fizessem suas primeiras experiências, como uma esquadra de choque para atacar esquerdistas ou simpatizantes, tanto individualmente, nas ruas e passeatas, como massivamente, em seus locais, atos e encontros.

Nesse mesmo ano, Marco Bellocchio rodou um filme sobre o jornalismo fascista na Itália, chamado Esmaga o Monstro na Primeira Página. A abertura inclui segmentos de um documentário real, onde aparece um comício em Milão da organização anticomunista de extrema direita Maioria Silenciosa. O orador daquele comício é o futuro ministro Ignazio La Russa, que na época estava com 24 ou 25 anos.

Mas, foi em abril de 1973, quando o Frente da Juventude teve sua mais árdua tarefa. Participar de uma passeata do MSI, no dia 12, quando todos os fascistas de Milão se juntariam para fazer uma megaprovocação, da qual culpariam os comunistas.

O fato é antecedido por um frustrado ataque fascista 5 dias antes. Nico Giuseppe Azzi (1951-2007) tentou fazer explodir o trem do circuito Turim-Roma com uma expressiva carga de TNT. Primeiro, passou por vários vagões do comboio, mostrando ostensivamente exemplares da revista do movimento de esquerda independente Luta Contínua, chamando a atenção de vários passageiros. Quando quase todos tinham visto aquele jovem alardeando de sua ideologia, Nico se fechou no banheiro para preparar a detonação da carga de TNT. Para sorte dos passageiros e desgraça sua, o detonante (um pequeno explosivo que deflagra a explosão maior) explodiu em sua mão. Mesmo de baixo impacto, o estouro deixou em seu corpo várias feridas.

Apesar da falha no atentado, o projeto fascista seguia os passos habituais. Aquele grande atentado de Piazza Fontana, também em Milão, tinha sido atribuído aos anarquistas em 1969. Este falho ataque de 1973 seria atribuído a Luta Contínua, já que os passageiros tinham visto aqueles jornais e ninguém reconheceria Nico como fascista, já que ele era um total desconhecido. Tampouco existia o risco de ser denunciado, porque polícia e justiça eram coniventes. Então, o ato de 12 de abril, mostraria a decisão dos fascistas de salvar seu país e as tradições nacionalistas e católicas, e repudiar os comunistas e outros esquerdistas.

Todos os grupos em ação, e especialmente o Frente da Juventude, dirigido na região norte por La Russa, protestavam contra a “violência marxista”. O prefeito de Milão proibiu todas as passeatas (de esquerda e de direita) para evitar o confronto, sob as protestas dos dirigentes fascistas, entre os quais estava o Ignazio.  Apesar do veto, os fascistas lançaram a primeira bomba, ferindo um agente e um transeunte. Logo, nova explosão matou o agente Antonio Marino. Além disso, destruíram, entre outros edifícios, a Casa do Estudante e uma Escola, ambas dirigidas por grupos de esquerda. (Vide)

Este fato tem continuação histórica com outro, ocorrido 34 anos depois. Nico Azzi sobreviveu a suas feridas, porém morreu de um ataque ao coração em 2007, sendo velado na linda igreja de Santo Ambrogio, em Milão. O fúnebre ritual teve muitos assistentes, entre os quais destacavam os skin heads, que escoltavam o caixão portando bandeiras fascistas, e o feixe (fascio) típico do movimento, do qual deriva justamente seu nome. Mas, convidados de honra mesmo foram o ministro Ignazio La Russa, junto com seu irmão Romano, que é parlamentar Europeu. Por sinal, este é um assunto para ser pensado pelos que acreditam que a União Europeia é um paraíso de democracia e justiça. Contudo, para sermos sinceros, devemos reconhecer que os fascistas no Parlamento Europeu não passam de 20%, se tanto. (Vide)

Os “Fratelli” do Signore Ministro

Falando em terroristas de grande porte, o ministro tem amigos que não são boas companhias. Um deles, camarada desde a juventude, é Giancarlo Rognoni, envolvido no primeiro grande superatentado, no Banco Agrícola de Milão, em Piazza Fontana (marcando, em 1969, a abertura dos atos ultraterroristas). Giancarlo foi condenado em primeira instância, mas absolvido por tribunais superiores, cheios de juízes fascistas. La Russa esteve, segundo muitas versões, entre os que ajudaram ele a livrar a cara.

Ora, quem afirma isto? Os membros da esquerda alternativa, subversivos e violentos? Não. Os antigos comunistas, moderados e conciliadores, porém “envenenados” pelo espírito marxista? Também não. Aliás, eles denunciam esta amizade, sim, mas não apenas eles. O principal denunciante é nada menos que Vincenzo Vinciguerra, um célebre superterrorista e o único fascista que cumpre prisão. Se ficasse alguma dúvida, veja uma matéria escrita em vivo e a cores pelo mesmo Vincenzo (em espanhol), intitulada Os Reincidentes. (Vide)

Alguns pensam que Vinciguerra está resentido porque é o único que está preso, mas esta conjetura pode beirar o preconceito. Os fascistas têm convicções violentas e desumanas, mas muitos deles realmente acreditam em seus nocivos princípios. Vinciguerra demonstrou várias vezes ser um fascista honesto, ou seja, alguém que não quer tirar vantagem, mas que se orgulha de sua ideologia de ódio, e é capaz de sacrificar-se por ela. Talvez seja por isso que não foi liberado. Ele não tentou colocar a culpa na esquerda, orgulhou-se de seus crimes, e declarou que não queria ser utilizado pelos oportunistas que colaboram com os Estados Unidos. Isso não o torna, obviamente, melhor que os outros!

O Jogo das Cruzes

Todo mundo sabe que os nazistas tornaram tristemente célebre a cruz suástica, um símbolo indostânico que não representava nada de ruim, muito pelo contrário. Em sânscrito, a palavra deriva de su e asti, que juntos significam algo como “amuleto da sorte”, horrível contraste com a imagem dos 20 milhões de vítimas do nazismo.

O atual uso da Cruz Malta já está mais próximo de seu significado inicial, pois sempre esteve associado com intolerância, crueldade e barbárie. Deriva das cruzes dos Cruzados, que a sua vez a tomaram de outros cavalheiros cristãos, e foi usada pelos fascistas de todo o mundo, mas também pelos exércitos não fascistas nas condecorações militares.

O Ministro La Russa é também chegado a uma cruz. Um exemplo é sua defesa da presença de crucifixos nos locais públicos da Itália, recentemente condenada pela Corte Europeia de Direitos Humanos.

[NOTA: Sobre a exposição de símbolos religiosos pode existir, algumas vezes, uma tênue divergência até dentro das grandes OGNS de DH. Por exemplo, o pesquisador de Anistia Internacional para assuntos islâmicos se pronunciou contra a proibição de burca na França. Nossas coincidências são absolutas em assuntos básicos, como tortura, genocídio, racismo, pena de morte, aborto, escolha sexual, etc., mas pode divergir em pontos menores. Faço questão de salientar que minha posição neste escrito é puramente pessoal.]

Em novembro de 2009, a Corte Europeia de DH instou a Itália a tirar os crucifixos das escolas públicas. Estes crucifixos não são simples cruzes, que podem ter um significado cultural e estético, mas são réplicas de cruz católica, com a figura de Cristo submetido à tortura da morte lenta. É bom salientar que a maioria das grandes correntes cristãs repudia a representação completa da morte de Jesus, considerando-a uma idolatria e um espetáculo constrangedor. A Corte alegou que essa proclama pública de tendência religiosa num país teoricamente secular violava o direito de consciência para as crianças que não eram católicas.

Como era natural, a medida provocou a histeria de padres, bispos e carolas de todo gênero e idade, que se referiram ao juiz de Estrasburgo como “porco muçulmano”. Por sinal, esta reação dificulta entender como os católicos reclamam “tolerância religiosa”.

Nos representantes da Igreja era natural esperar esse tipo de atitude, mas não num representante de um poder público, como o Ministro La Russa. Afinal, apesar da cultura fascista, mafiosa e teocrática que infesta Itália, esta teve também o maior movimento humanista e uma das maiores esquerdas do planeta. La Russa não tratou de “porcos” aos juízes; apenas lhes desejou a morte. Esqueceu dizer, se a morte devia ser na santa paz do Senhor. Literalmente:

Todas as cruzes ficarão penduradas, e os opositores da cruz que morram. Podem morrer, podem morrer, eles junto com esses órgãos internacionais mentirosos, que não valem nada!” [Grifo meu] (Vide e também).

Uma reflexão para os inimigos do direito de asilo. Dizem que a União Européia apoia Itália no caso Battisti. Será que as relações entre ambas são tão boas como para isso?

Os “Heróis” do Fascismo

Um ano antes da defesa do crucifixo, La Russa tinha manifestado sua vocação pelo fascismo e pelo obscurantismo de maneira ainda mais categórica. Fechamos nosso artigo com este último feito de nosso ministro.

Em setembro de 2008, num ato público em que estava o presidente Napolitano, ex-comunista e membro da Resistência antifascista durante a Segunda Guerra, La Russa defendeu os soldados fascistas que tentaram impedir a entrada das forças canadenses, americanas e britânicas, que, quaisquer que fossem seus interesses últimos, naquele momento estavam libertando o povo italiano da ditadura de Mussolini. La Russa disse que:

“[Os militares fascistas] combateram acreditando na defesa da pátria, opondo-se aos anglo-americanos e merecendo respeito”. (Vide isto1, isto2 e isto2)

Além de enaltecer o fascismo, o ministro esqueceu que grande parte da população italiana, incluindo um grupo de católicos alternativos, também apoiou a libertação do país. Aliás, percebo uma falta de gratidão. O que teriam feito todos os terroristas de estado nos anos 60, 70, 80, etc., sem o apoio dos americanos?

Bom, esta é uma breve saga, muito resumida do homem que se perfila como o maior inimigo de Cesare Battisti.