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Cabral liberou construções em Angra

Cabral deu aval para construção de imóveis em encostas de Angra. Por Alexandre Rodrigues, Clarissa Thomé, para o jornal O Estado de S. Paulo. Foto: WILTON JUNIOR/AGENCIA ESTADO/AECabral deu aval para construção de imóveis em encostas de Angra. Por Alexandre Rodrigues, Clarissa Thomé, para o jornal O Estado de S. Paulo.

Embora o governador do Rio, Sérgio Cabral, tenha defendido a “radicalização” contra a ocupação desordenada das encostas de Angra dos Reis, moradores e ambientalistas de Ilha Grande recolhem, há quatro meses, assinaturas contra um decreto de Cabral que abriu uma brecha para novos imóveis na região. O Decreto nº 41.921/09, publicado em junho de 2009, autoriza a construção em áreas não edificáveis da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, que inclui uma faixa de mais 80 quilômetros do litoral de Angra, a face da Ilha Grande voltada para o continente e as mais de 90 ilhas da baía. A Pousada Sankay e outras sete casas soterradas, na tragédia que matou 29 pessoas, ficam na região.

Segundo o decreto – que, para ambientalistas, atende à especulação imobiliária -, residências e empreendimentos turísticos poderão ser construídos em áreas da chamada zona de conservação de vida silvestre que já tenham sido degradadas, limitando-se a 10% do terreno. Até então, só era licenciada a expansão de imóveis construídos antes de 1994, quando a APA foi regulamentada. Donos de terrenos vazios não podiam construir. O decreto foi publicado sem debate com líderes locais ou órgãos consultivos. Com as críticas, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) comprometeu-se em não conceder licenças com base no decreto, mas ambientalistas querem a sua revogação.

“O governador demonstra desapreço pela área ambiental. Estimula a especulação imobiliária e dará cabo das poucas e bem preservadas áreas que compõem a Baía da Ilha Grande”, diz um manifesto que busca assinaturas na internet. Segundo o presidente do Comitê de Defesa da Ilha Grande, Alexandre Oliveira e Silva, o documento já tem 6 mil assinaturas.

“O decreto entrega à especulação imobiliária o filé mignon da Ilha Grande. Qualquer um sabe que não é difícil, ainda mais quando se tem boas relações com quem licencia, apresentar laudo de que o terreno já foi degradado”, afirma Silva. “Acho que ele (Cabral) está mordendo a língua, sendo demagogo. A pousada atingida fica nessa área, que é toda parecida geologicamente. Há risco.”

SUSPENSÃO

O deputado estadual Alessandro Molon (PT) propôs um projeto de lei que suspende o decreto. “Alteração de zoneamento ambiental tem de passar pelo Legislativo. O projeto tramita devagar, talvez a tragédia sensibilize a Assembleia”, disse Molon, que estranhou a veemência de Cabral. “O rigor que ele pregou foi o que não teve ao baixar esse decreto.” O Ministério Público Federal avalia questionar a constitucionalidade do decreto.

Procurada, a assessoria de Cabral informou que só a Secretaria de Estado do Ambiente falaria sobre o decreto. A secretária Marilene Ramos disse que a legislação anterior limitava ampliações a 50% da construção existente, desde que não ultrapassasse 20% do terreno. “Essa regra acabou ensejando a falsificação de documentos sobre o tamanho. Por isso, reduzimos a área edificada a 10%.” Referindo-se ao decreto como “famigerado”, ela afirmou que o ato não trata de áreas de risco e encostas. “Queremos seguir com o licenciamento das construções que já existem, o que não é o caso da Sankay nem do Morro da Carioca. Misturar as duas coisas é de um oportunismo nefasto.”

O diretor de Áreas Protegidas do Inea, André Ilha, informou que uma reunião ontem definiu que o decreto não será revogado, mas substituído por um plano de manejo, que será debatido e terá áreas definidas por critérios ambientais e de risco.

Especulação imobiliária e ocupação do solo: uma sugestão de pauta

O único acesso à pousada Sankay e às casas atingidas é por mar. Foto: BBC Brasil.

Por Marcelo Salles, editor do Fazendo Media, publicado originalmente sob o título “Uma excelente reportagem e uma sugestão de pauta“.

Na noite desta segunda-feira, dia 4, a TV Brasil mostrou que está a fim de produzir e veicular um outro tipo de Jornalismo. Em seu principal telejornal, o Repórter Brasil, a emissora exibiu extensa e corajosa reportagem sobre a tragédia ocorrida em Angra dos Reis, mas com uma grande diferença em relação às empresas comerciais: a especulação imobiliária aparece entre os atores causadores das cinquenta mortes.

A TV Brasil foi a campo e entrevistou um vereador da oposição, em Angra, e o deputado estadual Alessandro Molon. Eles criticaram, respectivamente, o desvio de verba da prefeitura municipal, que deveria ser usada na proteção ao meio-ambiente, e o afrouxamento, pelo governador Sérgio Cabral, da legislação que garante a segurança das construções em áreas de encosta. De quebra, o telejornal ainda explicou, didaticamente, como funcionam as autorizações para as intervenções em regiões consideradas de risco.

Enquanto isso, as corporações de mídia culpam a chuva – que não tem assessoria de imprensa e nem verba publicitária. Quem assistiu a esta reportagem do Repórter Brasil não apenas tomou conhecimento de aspectos fundamentais para a compreensão da tragédia em Angra dos Reis. Também entendeu por que é tão importante a existência de veículos de comunicação que não sejam pautados pela lógica comercial, da audiência a qualquer preço.

Novos desastres anunciados

Na última quinzena de 2009, o deputado estadual Marcelo Freixo protagonizou uma discussão importantíssima para o cidadão fluminense, mas que infelizmente ainda não teve grande repercussão nos meios de comunicação (quem sabe a TV Brasil não se interessa?). Trata-se da tentativa de aprovação da lei que amplia a área de proteção do Parque Estadual da Serra da Tiririca – que abrange os municípios de Niterói e Maricá -, cuja votação estava marcada para agosto. A demora, segundo denúncia gravíssima de Marcelo Freixo, ocorre devido a um acordo do prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, com o presidente da Alerj, Jorge Picciani. A maior beneficiária desse acordo é a especulação imobiliária, que em Niterói está concentrada nas mãos de uma empresa privada chamada Patrimóvel.

Em razão de sua luta pela aprovação da  lei (assinada também pelos deputados Rodrigo Neves e Luiz Paulo), Freixo foi xingado de “leviano” por Jorge Roberto num jornal local. Sua resposta, na mesma moeda, foi dada no dia 15 de dezembro, no plenário da Alerj, e publicada no Diário Oficial.

Quem vive em Niterói, como eu vivo há 30 anos, conhece bem os males da especulação imobiliária. Crescimento desordenado; muita gente sem casa, muita casa vazia; preços exorbitantes dos imóveis; um trânsito cada vez pior (já levei 50 minutos para percorrer 8km); problemas graves de distribuição de água e energia; poluição crescente das praias (incluindo uma das mais belas do mundo, a de Itacoatiara); saneamento básico comprometido.

Se a sociedade não se mobilizar agora, Niterói pode viver uma tragédia de enormes proporções nos próximos anos. Além, é claro, de as tragédias cotidianas citadas no parágrafo anterior continuarem deteriorando, aos poucos e sem divulgação, a vida de milhares de pessoas. Muitas delas devido a esse profundo caso de amor entre o prefeito e a Patrimóvel.

Atuais regras sobre ocupação do solo precisam ser revistas, diz professora da USP

Do IGD News

A arquiteta Regina Meyer, professorar da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), defende a revisão das atuais regras sobre ocupação do solo e definição de áreas de risco, de acordo com notícia publicada pelo site do jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo a arquiteta, conceitos de declividade para definição de áreas de risco, por exemplo, talvez tenham de ser atualizados para compensar o aumento no volume de chuvas causado pelo aquecimento global em determinadas áreas. Regina criticou ainda a postura do poder público, que muitas vezes opta por legalizar as ocupações irregulares ao invés de remover as famílias. Para ela, essa atitude não muda o fato de um lugar ser impróprio para morar, já que o risco não deixa de existir.

No caso da tragédia em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, foi um cenário inusitado já que as construções, explica a reportagem, eram regulares e não estavam em áreas consideradas como de risco. Não estavam em áreas de declive e o morro acima das casas tinha a mata preservada. Ao contrário do que acontece em áreas de favela, por exemplo, onde as construções são feitas na própria encosta.

Para os geólogos, o problema em Ilha Grande pode estar na camada de solo naquela região – muito fina e sobre uma base de pedra. Quando a terra encharcou, por causa da chuva forte, as raízes não suportaram. Na avaliação de Regina, será preciso fazer uma análise de risco em toda a ilha para saber se há outras áreas como esta, que, em última instância precisarão ser desocupadas.

Sobre a cobiça humana

Causa, em mim, uma angústia profunda ao testemunhar, pela televisão, os recentes “incidentes da Natureza” na região central de Angra dos Reis e na Ilha Grande. Mas não só por conta das perdas irreparáveis. Também pela lógica que a manterá, depois deste momento inicial de “indignação”.

Perdi um amigo em Paraty, Bernhard Metzger, e fui obrigado a reconhecê-lo no mesmo IML de Angra dos Reis, apesar da minha indignação com o descaso das autoridades locais. Ele era suíço e não tinha qualquer obrigação – assim como milhares de turistas – de saber que o mar da região não é para brincadeira. Nenhuma placa de sinalização na praia de Trindade, onde ele se despediu de nós. Nenhum informe. Quase nenhum apoio oficial diante do nosso desespero. Na semana seguinte, eu observava durante horas a praia. Famílias inteiras passavam pela mesma situação. Desconhecem totalmente os perigos da ressaca, o poder da Natureza, pouco sabem sobre os riscos iminentes.

No lugar de alertas, recebemos apenas panfletos mostrando “as maravilhas de Paraty”, oferecendo serviços, hotéis luxuosos. Em toda a região é assim. A mídia, igualmente, nem sequer nota. Toda semana alguém é pego pela ressaca, pelos deslizamentos, por falta de aviso. O problema é complexo, mas temos que dar o nome aos bois: é descaso e cobiça.

Na época, sem holofotes, eu tive que ficar durante uma semana em Paraty buscando Bernhard no mar, quase que implorando por atenção. Alguns exemplos de reação: o gabinete da prefeitura de Paraty duvidou da minha palavra (!) e o editor-chefe do RJTV tratou com desrespeito a namorada do rapaz, fazendo pouco caso do ocorrido e desdenhando da dor alheia (!!). Por uma questão de ética, não citarei o nome desse monstro em forma de humano, mas ele sabe quem é. Um típico editor de TV, a la Boris Casoy. A solidariedade veio apenas da população. Das pessoas reais.

Mídia a serviço da espetacularização

No caso mais recente, nem sequer os holofotes ajudam: a imprensa se limita a noticiar as histórias trágicas, depoimentos de parentes, sobreviventes e conhecidos. Mostra ainda recortes de depoimentos de políticos, que se limitam a desinformar o público ou fazer demagogia, conforme demonstrarei neste artigo. E voltam a se preocupar com o turismo, com os negócios. É tudo muito previsível. Que atividade mais medíocre é o jornalismo hoje em dia.

Uma única reportagem no Jornal da Band dia dois de janeiro – que por sinal é uma das poucas que não está no site deles! (aqui) – possui uma fala lúcida (e se alguém souber de outras, comente aqui nesta postagem). Um especialista, geólogo, é objetivo e direto neste vídeo: “Neste tipo de região o ser humano não poderia nem chegar perto”. Poderia, claro, explorar, conhecer, como eu mesmo gosto de fazer. Mas nunca, em hipótese alguma, ocupar. Em seguida o Jornal da Band mostrou um infográfico que deixa claro o posicionamento do especialista. É aterrorizante ver o quanto a tragédia estava anunciada.

“Esta área é instável naturalmente. Ocorrem escorregamentos mesmo sem a ação humana. No caso específico do desabamento na Ilha Grande era uma das situações naturais mais críticas, mais instáveis que se conhece. Costa bastante íngreme, com uma camada delgada de solo sobre uma laje de rocha impermeável, ou seja, de forma nenhuma poderia ser autorizada a ocupação do sopé daquelas encostas”, disse o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, em matéria no Portal Terra.

Essa situação era conhecida. E não só pelos especialistas.

Nesta matéria, e em outras declarações, o vice-governador e secretário de Obras do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, confirma em letras garrafais que a situação era conhecida. Há muito tempo. Agora, apenas após uma tragédia, eles “anunciam” mudanças (será?). Ou alguém com o mínimo de bom senso acredita que, da noite para o dia, um político qualquer “descobre” que existem 40 pontos suscetíveis a deslizamentos em uma única cidade?!

Sobre o turismo e a cobiça humana

A região de Angra dos Reis, todo o seu entorno – incluindo Paraty, onde meu amigo morreu – é conhecida pelos riscos. Mas a equação é conhecida: a mais importante secretaria destas cidades não é a de obras, e sim a de turismo. É pelo turismo que os políticos da região – e também os do governo estadual – pensam. É com o bolso.

Voluntaria ou involuntariamente, turistas e moradores em encostas, se afetados por qualquer tragédia, são considerados “efeito colateral”. Este é o pior tipo de “ação humana”: o descaso. O que deve ser feito não o é em nome do lucro, do turismo, do interesse em gerar renda a partir da exploração de áreas perigosas.

Eu já fui na Ilha Grande dezenas de vezes e a praia mais longe que visitei foi Aventureiro. Mesmo não sendo geólogo, sei que é inimaginável que se ocupe aquela região seriamente. No mínimo, com chuva forte, é essencial a evacuação imediata.

Solução e tecnologia já existem há anos

O Brasil já possui tecnologia. É simples. Basta o município se interessar em fazer uma carta geológica. Seria fácil se os nossos ditos “representantes” não estivessem comprometidos com medidas eleitoreiras e burras, como atenuar as exigências que restringiriam a ocupação desordenada do solo pelo homem. Foi o que o Senhor Sergio Cabral, co-responsável por estas mortes, fez. Quase toda a “imprensa”, que se diz livre, omitiu esta informação. Na TV a informação sumiu. Reproduzo matéria de suma importância na Folha de S. Paulo:

Tragédia anunciada
Renata Lo Prete

Em setembro, três meses depois da edição do decreto de Sérgio Cabral (PMDB) que permitiu ocupação maior em áreas de preservação ambiental, como o local da tragédia em Angra dos Reis, o Ministério Público Federal na região elaborou um parecer apontando irregularidades nas novas regras.

O texto alerta para o risco de crescimento imobiliário desordenado e defende que esse tipo de alteração territorial só poderia ser feita por meio de lei. O relatório foi enviado ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Para referendar o documento, os procuradores se ampararam em uma decisão sobre um caso semelhante do ministro Celso de Mello, do STF.

Dado seu caráter tolerante para com as construções de ricos e famosos, as regras do governo do Rio para Angra ganharam na região o apelido de “decreto Luciano Huck”, em alusão à casa que o apresentador tem no local. […] (Matéria reproduzida no Blog do Noblat)

“Nossa briga sempre incluiu uma política que modificasse essa ocupação desordenada. A gente derrubava tanto casas populares como mansões clandestinas que ocupavam encostas, mas ainda é difícil mudar a realidade”, afirmou Carlos Minc, que foi secretário de Meio Ambiente do Estado. A pressão política que representa a cobiça humana, infelizmente, é maior.

Agora Cabral vem posar de administrador competente, “denunciando” a situação em Angra?! Demagogo. Assassino. É isso o que ele é. Se não foi ele o responsável, que aponte os responsáveis pelas autorizações criminosas, ou deve ser ele o responsabilizado. Porque, no fundo, este é o ponto central: quem autorizou o decreto assassino de Cabral?

E assim seguimos, perdendo nossas Yumis e Bernhards (fotos ao lado). Pessoas com sonhos do tamanho do mundo.

Lembro-me que Bernhard comprou uma edição de um jornal popular carioca. Ele se preocupara em aprender o português antes de vir para o Brasil.

Bernhard conhecera, por mim, a situação de uma creche em Shangrilá, periferia de Belford Roxo, em que 72 crianças de famílias da região passavam enormes dificuldades. Essa é uma das regiões mais problemáticas do Brasil, com toda sorte de dificuldades. Queria conhecer o local, intervir na realidade. Era um apaixonado pela vida e não admitia sua supressão a quem quer que fosse. Como Yumi, que transparece com facilidade sua grandeza espiritual. E assim seguimos, sem nossas Yumis e nossos Bernhards.

Se a Natureza não tem representante legal, falemos por ela. Não é culpa da chuva. É a ação humana, ou sua falta. É a cobiça pelo lucro e o desrespeito à Natureza os verdadeiros responsáveis por esta situação. Até quando?

.

Dedicado aos pais de Bernhard Metzger e a Ana Rachel Dantas, pela surpreendente força interna. E ao Bernhard, que está conosco.

Sobre a cobiça humana

Causa, em mim, uma angústia profunda ao testemunhar, pela televisão, os recentes “incidentes da Natureza” na região central de Angra dos Reis e na Ilha Grande. Mas não só por conta das perdas irreparáveis. Também pela lógica que a manterá, depois deste momento inicial de “indignação”.

Perdi um amigo em Paraty, Bernhard Metzger, e fui obrigado a reconhecê-lo no mesmo IML de Angra dos Reis, apesar da minha indignação com o descaso das autoridades locais. Ele era suíço e não tinha qualquer obrigação – assim como milhares de turistas – de saber que o mar da região não é para brincadeira. Nenhuma placa de sinalização na praia de Trindade, onde ele se despediu de nós. Nenhum informe. Quase nenhum apoio oficial diante do nosso desespero. Na semana seguinte, eu observava durante horas a praia. Famílias inteiras passavam pela mesma situação. Desconhecem totalmente os perigos da ressaca, o poder da Natureza, pouco sabem sobre os riscos iminentes.

No lugar de alertas, recebemos apenas panfletos mostrando “as maravilhas de Paraty”, oferecendo serviços, hotéis luxuosos. Em toda a região é assim. A mídia, igualmente, nem sequer nota. Toda semana alguém é pego pela ressaca, pelos deslizamentos, por falta de aviso. O problema é complexo, mas temos que dar o nome aos bois: é descaso e cobiça.

Na época, sem holofotes, eu tive que ficar durante uma semana em Paraty buscando Bernhard no mar, quase que implorando por atenção. Alguns exemplos de reação: o gabinete da prefeitura de Paraty duvidou da minha palavra (!) e o editor-chefe do RJTV tratou com desrespeito a namorada do rapaz, fazendo pouco caso do ocorrido e desdenhando da dor alheia (!!). Por uma questão de ética, não citarei o nome desse monstro em forma de humano, mas ele sabe quem é. Um típico editor de TV, a la Boris Casoy. A solidariedade veio apenas da população. Das pessoas reais.

Mídia a serviço da espetacularização

No caso mais recente, nem sequer os holofotes ajudam: a imprensa se limita a noticiar as histórias trágicas, depoimentos de parentes, sobreviventes e conhecidos. Mostra ainda recortes de depoimentos de políticos, que se limitam a desinformar o público ou fazer demagogia, conforme demonstrarei neste artigo. E voltam a se preocupar com o turismo, com os negócios. É tudo muito previsível. Que atividade mais medíocre é o jornalismo hoje em dia.

Uma única reportagem no Jornal da Band dia dois de janeiro – que por sinal é uma das poucas que não está no site deles! (aqui) – possui uma fala lúcida (e se alguém souber de outras, comente aqui nesta postagem). Um especialista, geólogo, é objetivo e direto neste vídeo: “Neste tipo de região o ser humano não poderia nem chegar perto”. Poderia, claro, explorar, conhecer, como eu mesmo gosto de fazer. Mas nunca, em hipótese alguma, ocupar. Em seguida o Jornal da Band mostrou um infográfico que deixa claro o posicionamento do especialista. É aterrorizante ver o quanto a tragédia estava anunciada.

“Esta área é instável naturalmente. Ocorrem escorregamentos mesmo sem a ação humana. No caso específico do desabamento na Ilha Grande era uma das situações naturais mais críticas, mais instáveis que se conhece. Costa bastante íngreme, com uma camada delgada de solo sobre uma laje de rocha impermeável, ou seja, de forma nenhuma poderia ser autorizada a ocupação do sopé daquelas encostas”, disse o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, em matéria no Portal Terra.

Essa situação era conhecida. E não só pelos especialistas.

Nesta matéria, e em outras declarações, o vice-governador e secretário de Obras do Estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, confirma em letras garrafais que a situação era conhecida. Há muito tempo. Agora, apenas após uma tragédia, eles “anunciam” mudanças (será?). Ou alguém com o mínimo de bom senso acredita que, da noite para o dia, um político qualquer “descobre” que existem 40 pontos suscetíveis a deslizamentos em uma única cidade?!

Sobre o turismo e a cobiça humana

A região de Angra dos Reis, todo o seu entorno – incluindo Paraty, onde meu amigo morreu – é conhecida pelos riscos. Mas a equação é conhecida: a mais importante secretaria destas cidades não é a de obras, e sim a de turismo. É pelo turismo que os políticos da região – e também os do governo estadual – pensam. É com o bolso.

Voluntaria ou involuntariamente, turistas e moradores em encostas, se afetados por qualquer tragédia, são considerados “efeito colateral”. Este é o pior tipo de “ação humana”: o descaso. O que deve ser feito não o é em nome do lucro, do turismo, do interesse em gerar renda a partir da exploração de áreas perigosas.

Eu já fui na Ilha Grande dezenas de vezes e a praia mais longe que visitei foi Aventureiro. Mesmo não sendo geólogo, sei que é inimaginável que se ocupe aquela região seriamente. No mínimo, com chuva forte, é essencial a evacuação imediata.

Solução e tecnologia já existem há anos

O Brasil já possui tecnologia. É simples. Basta o município se interessar em fazer uma carta geológica. Seria fácil se os nossos ditos “representantes” não estivessem comprometidos com medidas eleitoreiras e burras, como atenuar as exigências que restringiriam a ocupação desordenada do solo pelo homem. Foi o que o Senhor Sergio Cabral, co-responsável por estas mortes, fez. Quase toda a “imprensa”, que se diz livre, omitiu esta informação. Na TV a informação sumiu. Reproduzo matéria de suma importância na Folha de S. Paulo:

Tragédia anunciada
Renata Lo Prete

Em setembro, três meses depois da edição do decreto de Sérgio Cabral (PMDB) que permitiu ocupação maior em áreas de preservação ambiental, como o local da tragédia em Angra dos Reis, o Ministério Público Federal na região elaborou um parecer apontando irregularidades nas novas regras.

O texto alerta para o risco de crescimento imobiliário desordenado e defende que esse tipo de alteração territorial só poderia ser feita por meio de lei. O relatório foi enviado ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Para referendar o documento, os procuradores se ampararam em uma decisão sobre um caso semelhante do ministro Celso de Mello, do STF.

Dado seu caráter tolerante para com as construções de ricos e famosos, as regras do governo do Rio para Angra ganharam na região o apelido de “decreto Luciano Huck”, em alusão à casa que o apresentador tem no local. […] (Matéria reproduzida no Blog do Noblat)

“Nossa briga sempre incluiu uma política que modificasse essa ocupação desordenada. A gente derrubava tanto casas populares como mansões clandestinas que ocupavam encostas, mas ainda é difícil mudar a realidade”, afirmou Carlos Minc, que foi secretário de Meio Ambiente do Estado. A pressão política que representa a cobiça humana, infelizmente, é maior.

Agora Cabral vem posar de administrador competente, “denunciando” a situação em Angra?! Demagogo. Assassino. É isso o que ele é. Se não foi ele o responsável, que aponte os responsáveis pelas autorizações criminosas, ou deve ser ele o responsabilizado. Porque, no fundo, este é o ponto central: quem autorizou o decreto assassino de Cabral?

E assim seguimos, perdendo nossas Yumis e Bernhards (fotos ao lado). Pessoas com sonhos do tamanho do mundo.

Lembro-me que Bernhard comprou uma edição de um jornal popular carioca. Ele se preocupara em aprender o português antes de vir para o Brasil.

Bernhard conhecera, por mim, a situação de uma creche em Shangrilá, periferia de Belford Roxo, em que 72 crianças de famílias da região passavam enormes dificuldades. Essa é uma das regiões mais problemáticas do Brasil, com toda sorte de dificuldades. Queria conhecer o local, intervir na realidade. Era um apaixonado pela vida e não admitia sua supressão a quem quer que fosse. Como Yumi, que transparece com facilidade sua grandeza espiritual. E assim seguimos, sem nossas Yumis e nossos Bernhards.

Se a Natureza não tem representante legal, falemos por ela. Não é culpa da chuva. É a ação humana, ou sua falta. É a cobiça pelo lucro e o desrespeito à Natureza os verdadeiros responsáveis por esta situação. Até quando?

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Dedicado aos pais de Bernhard Metzger e a Ana Rachel Dantas, pela surpreendente força interna. E ao Bernhard, que está conosco.

Mais de 3.000 casas de Angra dos Reis estão em área de risco, diz Cabral

Agência Brasil

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), afirmou neste sábado que pelo menos 3.000 casas de Angra dos Reis (RJ) estão em áreas de risco. Ele esteve pela manhã no município, onde prestou solidariedade aos parentes das vítimas dos deslizamentos de terra causados pelas fortes chuvas que atingiram a região.

Cabral disse que o Estado está à disposição da Prefeitura de Angra dos Reis e criticou a construção de moradias em áreas de risco. “No fundo, essas pessoas correm risco de vida.”

Até a tarde deste sábado, 35 corpos de vitimas dos deslizamentos. Desses, 22 na região da pousada Sankay, na praia do Bananal, na Ilha Grande, e 13 no morro da Carioca, no centro da cidade. Com isso, sobe para 69 as mortes causadas pelas chuvas desde a última quarta-feira (30) no país.

O Estado do Rio é o que tem o maior número de mortes provocadas pelas chuvas, com 57 mortes registradas, sendo 35 apenas em Angra. Outras nove mortes aconteceram nas cidades de Guararema e Cunha, ambas em São Paulo; e outras três em Juiz de Fora (MG).

O governador disse ainda que hoje pela manhã conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está de férias na praia de Inema, na Base Naval de Aratu, em Salvador (BA). Segundo Cabral, Lula quis saber como estavam os trabalhos de resgate às vítimas das chuvas no Estado.

Cabral contou ao presidente que sobrevoou a região de Ilha Grande e que já reforçou o número de bombeiros na região. O governador disse que Lula fez questão de expressar a sua solidariedade durante o telefonema, que durou cerca de dez minutos. Cabral afirmou que ficará em contato durante todo o dia com o presidente.