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‘É como uma prisão’: entramos em um campo de refugiados em Lesvos, na Grécia

As condições insalubres dos campos e os atrasos na avaliação das solicitações de refúgio são alvo de constantes protestos. Por Herivelto Quaresma, em Lesvos, Grécia, para o MigraMundo.

“É como uma prisão. Alguns de nós vemos isso como uma prisão.”

S*., com seus vinte e poucos anos, é o mais novo do grupo de 16 pessoas que vivem em uma pequena tenda onde cabem de cinco a seis pessoas. “Somos um grupo, fazemos tudo juntos”, conta, após me convidar para uma visita a sua tenda, montado no campo de refugiados de Moria, na ilha grega de Lesvos. A administração é de responsabilidade do governo federal, com o campo localizado em uma área militar.

S. é o mais interessado em falar e, depois de relutar, decide dar uma entrevista em vídeo, sob a condição de que sua identidade não fosse revelada. A entrevista e as imagens são feitas clandestinamente, já que o governo proíbe qualquer registro dentro do campo. Cedemos uma câmera para que um dos refugiados faça as imagens que considera mais importantes. Parte do resultado pode ser vista no vídeo abaixo, disponível no canal do MigraMundo no YouTube.

“Aqui não é bom para seres humanos”, diz o jovem, relatando as condições do banheiro e da moradia (confira no vídeo exclusivo). Nas tendas, o frio pode chegar a 5 graus Celsius, enquanto a chuva pode tornar qualquer descanso impossível.

O governo afirma que viviam em Moria, ao final de 2016, cerca de 4,5 mil pessoas – números questionados por uma agência da ONU. “O governo não tem o controle de quem sai do campo. Nosso último levantamento independente mostra que há menos, cerca de 2,5 mil. Mesmo assim, é muita gente”, comenta um funcionário das Nações Unidas que preferiu não se identificar.

Situação precária é uma das marcas do campo de Moria, que abriga refugiados em Lesvos (Grécia). Crédito: Herivelto Quaresma

A rota de refugiados no Mediterrâneo é uma das mais importantes do mundo. A Turquia – país que abriga a maior parte deles, cerca de 2 milhões – está a apenas poucos quilômetros, pelo mar, das ilhas gregas, principais pontos de chegada por essa via.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) havia registrado 7.927 mortes de migrantes no mar em 2016, em todo o mundo. Só no Mediterrâneo foram 5.143.

Uma passagem da Turquia para a Grécia pela mesma via custa cerca de 10 euros, enquanto a rota insegura oferecida pelos traficantes pode chegar a um custo de 4 mil dólares, conforme o relato de muitos dos refugiados em Moria. A ONU tem insistido na necessidade de uma rota segura na região para acabar com as mortes, sem grandes resultados: 2016 bateu um novo recorde nesse quesito.

Refugiados não ficam calados diante das condições que encontram no campo de Moria. Crédito: Herivelto Quaresma

As Nações Unidas dão apoio a outro campo na ilha, de Kara Tepe, administrado pela Prefeitura. Perto do campo do governo federal, é um modelo de boa gestão, mostrando que algo melhor pode ser feito. No local, os refugiados – cerca de mil, no total – possuem espaços infantis e hortas administrados pelos próprios moradores, com apoio de ONGs que atuam na região. A situação migratória, no entanto, é a mesma de todos os demais solicitantes de visto. E Kara Tepe também tem problemas, como a falta eventual de luz e água potável.

Sob um acordo da União Europeia com a Turquia, migrantes e refugiados que chegavam após o dia 20 de março do ano passado poderiam ficar detidos em um dos centros localizados nas cinco principais ilhas gregas do Mar Egeu, incluindo Lesvos. Caso sejam pegos se movimentando pela ilha sem documentos, afirmam, os migrantes podem ser presos dentro do próprio campo de Moria, onde foi instalado um centro de detenção.

Um integrante de uma organização não governamental me aciona: “Há um incêndio em Moria, você precisa ir para lá”. Um botijão de gás explodiu, matando uma mulher de 66 anos e uma menina de seis. Outras duas pessoas foram levadas para Atenas gravemente feridas. Uma delas, a mãe, estava em coma até o fechamento da edição.

“Outra família terá de morrer antes de termos uma solução?”, protesta refugiado após incêndio que deixou mortos em Moria. Crédito: Herivelto Quaresma

“Nunca é acidente”, diz um refugiado palestino vivendo no campo. “Eles colocam você lá e nos deixam nessa situação estressante para desestimular os refugiados. O incêndio não é a causa, é uma consequência da política que eles fazem”, opina.

As condições insalubres e os atrasos na avaliação das solicitações de refúgio – alguns com quem conversei esperavam há mais de seis meses para serem chamados para a primeira entrevista – são alvo de constantes protestos, como um ocorrido no final de 2016, logo após o incêndio.

Em um dos cartazes, uma questão era colocada: “Precisará outra família morrer antes que consigamos uma solução?”

*Os nomes verdadeiros dos refugiados e solicitantes de refúgio entrevistados foram omitidos como forma de preservar suas identidades. Link da matéria original, clique aqui.

Editorial da “Folha” expressa a fúria dos poderosos face ao fracasso do arrocho fiscal

Os editoriais da Folha de S. Paulo não cheiram nenhum perfume que agrade ao olfato dos melhores seres humanos; nem, na maioria das vezes, fedem. Ficam mais nas obviedades e platitudes, no nem sim, nem não, muito pelo contrário

São raros os contundentes como o provável campeão de rejeição em todos os tempos —aquele  que, baixando o cassete em Hugo Chávez, en passant minimizou o terrorismo de estado imposto ao Brasil pelos golpistas de 1964, qualificando-o de ditabranda.

Então, chama a atenção o tom exacerbado, cuspindo fogo, que a Folha adotou nesta 6ª feira (24) para deplorar o malogro do arrocho fiscal do Joaquim Levy:

O Brasil está à deriva num mar tempestuoso. O lamentável desfecho do debate acerca das contas públicas acentuou a sensação de que ninguém controla o leme desse gigantesco transatlântico.

Acho que entendi errado aquelas teses do Friedman

Reduzir a meta de economia de gastos em 2015 foi o menor dos males, pois já estava clara a impossibilidade de o setor público destinar R$ 66,3 bilhões para abater a dívida ao final deste ano de aguda recessão. A magnitude da revisão e sobretudo o modo como se desenrolou é que recendem a capitulação.

O novo objetivo [saldo positivo de R$ 8,7 bilhões] já surge com uma cláusula que perdoa seu descumprimento e admite deficit de até R$ 17,7 bilhões.

Premia-se a irresponsabilidade do Congresso…

 …à exceção do Ministério da Fazenda, os atores institucionais relevantes para a condução da política econômica se sentem livres para boicotar o ajuste.

…Perfilam-se entre os sabotadores os líderes do Congresso e do Judiciário, o ministro da Casa Civil, o titular do Planejamento e a própria presidente da República, cuja inépcia se ressalta a cada decisão importante que tem a tomar…

…Se quiser recuperar a confiança maculada, Dilma Rousseff precisa decidir-se sobre o rumo a seguir e agir resolutamente. Chega de sustentar uma equipe desarmônica de ministros. Aos sabotadores a mensagem deve ser clara: ou submetem-se ou deixam o governo.

Ou seja, a Folha apresenta o ministro da Fazenda como uma Chapeuzinho Vermelho cercada de lobos por todos os lados. Nem uma palavra a respeito de sua falta de estatura para o cargo: Levy não passa de um economista menor, sem brilho acadêmico, que atuou quase sempre em governos e, como mero coadjuvante, em instituições como o FMI e o Banco Central Europeu, nelas aprendendo a priorizar invariavelmente os interesses do capital financeiro, em detrimento da felicidade e até da sobrevivência dos seres humanos.

Mesmo no Bradesco (cujo diretor-presidente, Luiz Carlos Trabuco, indicou-o para Dilma após recusar a proposta de ele próprio assumir a Pasta) só servia para cuidar da gestão de ativos de terceiros, um tentáculo menor do polvo.

Tem as simpatias da direita em geral por ser um neoliberal de corpo e alma, mas inspira desconfiança no chamado mercado por ter um currículo meia-boca. Se era para impor aqui uma política de austeridade igualzinha àquela que tem desgraçado nações como a Grécia, por que a Dilma não chamou logo o Delfim Netto? Seus valores ideológicos são tão execráveis quanto os do Levy, mas possui a expertise que falta ao patético e (agora) fracassado Chicago (office) boy

Querer ficar bem com a direita…

O fiasco era a chamada caçapa cantada, não só pela resistência dos que se beneficiam do loteamento do Estado e mamam nas suas tetas, mas também por um motivo que venho  apontando desde a campanha: a política econômica que os poderosos exigiam (essa que está aí) JAMAIS poderia ser implantada pelo PT, que a vinha rechaçando veementemente desde seus longínquos primórdios, na segunda metade da década de 1970, quando Lula liderava as grandes greves do ABC paulista. Não se pode pisar num passado destes, destruindo a própria identidade do petismo.

O PT poderia, simplesmente, haver disputado a eleição de forma leal, sem desconstruir Marina Silva com uma satanização de fazer inveja a Joseph Goebbels. Provavelmente perderia, deixando para sua filha pródiga a espinhosa tarefa de mergulhar o País numa recessão para fazer a vontade dos grandes capitalistas.

Ou ter, uma vez reeleita Dilma, feito exatamente o que prometera: não se vergar aos bancos e ao patronato em geral. Os austericídios já consumados são provas eloquentes de que o emagrecimento forçado proposto por Friedman e imposto por Thatcher, Reagan, Pinochet, Merkel, etc., NÃO FUNCIONA!!! Leva as nações à anorexia, mandando-as para a UTI.

e com a esquerda não funciona mais, portanto…

Já passou da hora de os países imolados no altar do capital começarem a unir-se para reagirem, e o Brasil poderia desempenhar um papel de destaque num processo desses. Isto, sim, seria coerente com o que o partido proclamou no seu manifesto de fundação:

O PT nasce da decisão dos explorados de lutar contra um sistema econômico e político que não pode resolver os seus problemas, pois só existe para beneficiar uma minoria de privilegiados.

O que o PT jamais poderia é ter adotado uma retórica de esquerda para salvar (na bacia das almas) uma eleição praticamente perdida e depois aplicar a política econômica da direita mais impiedosa. É POR ISTO QUE NÃO CONSEGUE CONTROLAR O LEME DO TAL TRANSATLÂNTICO E A REJEIÇÃO A DILMA HOJE ALCANÇA NÍVEIS ESTRATOSFÉRICOS!

A melhor saída para o buraco em que se meteu será voltar a ser fiel aos seus ideais:

  • exonerando Levy e outros estranhos no ninho como Kátia Abreu e George Hilton;
  • dando uma guinada de 180º na política econômica; e
…chegou a hora de escolher um lado.
  • retirando a coordenação política das mãos fisiológicas de Michel Temer (Lula é o ÚNICO quadro de que o PT dispõe para exercer tal papel num momento crítico como o atual).

Desta forma, ou viraria o jogo ou, pelo menos, perderia por razões defensáveis e posicionado do lado certo, o dos explorados.

As lições esquecidas da História

Eu fui atirado de janeiro de 2009 neste mundo que está cada vez mais esquisito, os chamados tempos estranhos, e parece que o mundo está precisando mesmo de uma chacoalhada para ver se acorda.

É que em janeiro de 2009 eu dava início ao meu mestrado e, agora, findo o doutorado, abro finalmente a porteira da minha caverna.

Em 2009 o mundo já dava sinais de que as coisas não iam bem, tinha a crise da bolha imobiliária, umas guerras rolando, mas nada como os 60 milhões de deslocados (internos ou refugiados) e os 15 conflitos (civis ou militares) em plena atividade.

Em 2009 o Brasil estava numa boa em meio à crise cíclica global, abre-se a porteira da caverna e parece mais estranho do que já era um governo se dizer de esquerda com ministro da Economia ortodoxo.

A dívida brasileira é do tamanho da suposta dívida da Grécia, um país bem menor, claro, mas que agora quebra os mitos da economia liberal (desculpe a piada infame) para ele próprio não quebrar. Algo que o lulopetismo não ousou fazer, e nem sequer cogitar, mesmo que os recursos naturais do Gigante Adormecido garantam quase sempre uma marola amena se comparada aos tsunamis do Norte. O Gigante abriu um dos olhos em 2013, deu um tapa no despertador e, incrédulo, voltou a pegar no sono profundo.

Um pouco melhor é o túnel imaginário de dez anos antes. Em 1999, as “crises” — que no grego antigo costumava significar também “escolha”, “eleição” –, devidamente fabricadas por um sistema que precisa pagar as contas de vez em quando, nunca do próprio bolso, levaram a América Latina a dizer “όχι”, no bom grego, às maracutaias financeiras dos especuladores, elegendo novos governos e reduzindo, apesar dos pesares, a pobreza pela metade, segundo o mais novo relatório da ONU publicado esta semana.

Ser atirado de 1999 para 2009 parecia ser algo mais interessante, ou no mínimo menos desesperador, com a eleição de um presidente negro nos States e o título nacional do Flamengo. Havia décadas que tanta coisa inédita não acontecia em tão pouco tempo.

Ser atirado de 2009 para 2015 parece ser um convite à reflexão: ou as coisas estão mudando muito mais rápido do que antes, ou a fabricação de boas e más notícias é mais eficiente, com pequenas vitórias espetaculares podendo virar tragédias da noite para o dia.

A questão é importante porque parecemos não saber mais sequer analisar se uma notícia é boa ou ruim, tamanha a pressa com que elas são noticiadas. Ou será que estamos repetindo frases feitas a torto (e à direita) para justificar nossas ansiedades contemporâneas diante do desequilíbrio das democracias? O mundo parece ter esquecido, por exemplo, do papel do Fundo Monetário Internacional na década de 1990, mesmo que a produção desse esquecimento seja um investimento que move alguns bilhões de dólares anualmente.

A informação anda tão rápido hoje em dia que não tem tido tempo de olhar para trás. E corre o risco, portanto, de ser atropelada pela própria História e suas lições esquecidas. Sobretudo no Brasil de 2015, aparentemente.

Grécia desafia o Olimpo

A submissão canina da grande imprensa à desumanidade capitalista está emblematicamente expressa no editorial desta 5ª feira (3) da Folha de S. Paulo, Drama grego, que começa assim:

A inoportuna iniciativa grega de convocar um referendo sobre o pacote de ajuda causa turbulência e pode agravar ainda mais a crise europeia

É potencialmente explosiva a decisão do primeiro-ministro grego, George Papandreou, de convocar um referendo sobre o pacote de socorro ao país aprovado pelas principais lideranças da zona do euro.

O plano, embora não resolva de forma imediata e definitiva a insolvência do país, o que seria impossível, pode pelo menos salvá-lo de um calote desordenado, com graves consequências para a economia europeia e mundial.

Ou seja, atendendo à prioridade de evitar “graves consequências para a economia europeia e mundial”, o premiê grego deveria enfiar um pacote recessivo goela adentro dos cidadãos de seu país sem sequer consultá-los, salvando bancos e desgraçando pessoas.

Os poderosos do mundo assim exigem, e seus cãezinhos midiáticos obedecem fielmente ao comando dado pela voz do dono.

Crack de 1929: eu sou você amanhã

A iniciativa de Papandreou vai tornar o povo grego alvo de todos os raios do Olimpo, se outros povos e outros governantes não seguirem o altaneiro exemplo da Grécia, recusando-se também a levar adiante este jogo de cartas marcadas que, ao preço da penúria de homens e nações, apenas adia o inevitável.

As crises cíclicas do capitalismo têm hoje outra aparência, mas a mesma essência: a irracionalidade básica de um sistema fundado na mais-valia, que gera um permanente desequilíbrio entre a oferta e a procura, cujas consequências são apenas postergadas pelos mecanismos de crédito que empurram para a frente o acerto de contas — o qual, mais dia, menos dia, chegará.

O intervalo entre as ameaças de um novo  crack e a engenharia financeira que o evita temporariamente está cada vez mais curto. É inimaginável chegarmos ao final desta década sem que o mundo inteiro pague, na forma de uma depressão pior ainda que a da década de 1930, o preço de já não ter se livrado do capitalismo.

Pois, mais apropriada do que a metáfora antiga de parto da revolução, é a de que urge enterrarmos o quanto antes um defunto que já está fedendo.

Grécia em transe

Despacho da agência noticiosa espanhola Efe revela que a paciência do povo grego com a desumanidade capitalista está chegando ao fim.

A conta do desequilíbrio estrutural do sistema vai sendo enfiada goela adentro dos cidadãos de cada nação, sem que jamais se chegue à solução definitiva, pois ela transcende o capitalismo: o mundo só se verá livre da alternância perversa de euforias econômicas e terríveis recessões quando o reparte das riquezas produzidas for regido pelo bem comum e pelo atendimento das necessidades humanas, não pelo lucro.

Do berço da democracia vem o grito de  basta!:

A Grécia vive nesta 4ª feira o primeiro dos dois dias consecutivos de greve geral, o que deve paralisar a atividade econômica do país, incluído o fechamento do espaço aéreo.

Os controladores aéreos anunciaram na  3ª feira à noite adesão ao protesto por 12 horas, gerando 300 cancelamentos no país.

Durante as primeiras 4h desta 4ª feira, o transporte público na capital ficou paralisado.

A indústria, o ensino, sítios arqueológicos e museus, bancos, ministérios, tribunais e serviços públicos estão praticamente paralisados pela falta de trabalhadores.

Profissionais como advogados, funcionários da Fazenda e de Alfândegas continuarão com as greves até 6ª feira e os taxistas se somaram à greve de 48 horas.

Nesta 4ª feira também permanecerão fechados os postos de gasolina, padarias, farmácias e comércios.

Dezenas de toneladas de lixo permanecem nas ruas do país inteiro apesar do decreto de mobilização civil da véspera do Governo para que se faça o recolhimento.

Por enquanto, a união popular se dá em torno da rejeição de mais um pacote recessivo.

Dia virá em que os verdadeiros democratas, em todos os países, dirão  basta! ao capitalismo em si — até porque ele esvaziou a própria noção de democracia, ao tornar o poder econômico tão poderoso que subjuga e sateliza o poder político, esvaziando a representação popular.

Os movimentos anticapitalistas que estamos vendo pipocar mundialmente na atual década constituem apenas acumulação de forças para o confronto decisivo — no qual se jogarão as esperanças de sobrevivência da espécie humana, seriamente ameaçada de ser arrastada à extinção pelo capitalismo agonizante.