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ONU: dois pesos, duas medidas

Em 1994, Ruanda foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

Larissa Ramina

A Líbia foi o primeiro país em toda a história do Conselho de Direitos Humanos da ONU a ser suspenso de suas atividades por violação dos direitos humanos. Seria a Líbia o primeiro Estado a ocupar uma cadeira no Conselho a violar aqueles direitos? O que dizer das prisões norte-americanas em Guantânamo e da expulsão dos ciganos na França, para citar só dois exemplos?

O Conselho de Segurança da ONU adotou, em 17 de março, uma resolução autorizando ataques aéreos contra as forças de Muamar Khadafi. A resolução foi adotada com dez votos a favor e cinco abstenções. Abstiveram-se todos os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China, e mais a Alemanha. Rússia e China, portanto, não fizeram uso de seu direito de veto. Os BRIC articularam-se com base na condenação do uso da força nas relações internacionais e na busca do diálogo.

Ao contrário da expectativa de alguns círculos, a abstenção brasileira significou, no mínimo, que não haverá uma ruptura total com os rumos da política externa antecessora, nem mesmo diante da visita de Obama ao Brasil. A liderança de Dilma Roussef não penderá para o alinhamento automático com os EUA. Como bem salientou Luiz Aberto Moniz Bandeira, a defesa dos interesses nacionais brasileiros não significa, absolutamente, antiamericanismo. A opção brasileira de se abster demonstra maturidade e, sobretudo, coerência.

A resolução contra a Líbia só pôde ser adotada quando os EUA tornaram possível seu não envolvimento direito, delegando a execução das operações militares à França e ao Reino Unido, com o apoio da Liga Árabe, e com base em uma resolução do Conselho de Segurança, precavendo-se assim de reviver a situação ocorrida no Iraque.

A Líbia integrará, portanto, a lista de antigos aliados ocidentais que se tornaram alvos militares por “violação dos direitos humanos”, junto com o Panamá de Manuel Noriega, o Iraque de Saddam Husseim e o Afeganistão do Talibã. De “cachorro louco”, Khadafi passou a amigo do Ocidente quando reconheceu, em 2003, sua responsabilidade no atentado contra o avião da PanAm que explodiu sobre a cidade de Lockerbie, em 1988, deixando 270 mortos, e desistiu de seu projeto de desenvolver armas nucleares. Em 2006, os EUA anunciaram a retirada da Líbia da lista de países terroristas e puseram fim ao seu isolamento internacional, viabilizando contratos milionários na área energética, inclusive com outros importantes países membros da OTAN.

Um dos maiores crimes contra os direitos humanos do século XX, entretanto, ocorreu sob os olhos indiferentes da comunidade internacional, sem que a ONU adotasse quaisquer medidas. Em 1994 a Ruanda, país sem qualquer importância estratégica cravado no coração da África, foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

O Bahrein, por sua vez, está sendo palco dos mais graves protestos da maioria xiita contra a elite sunita desde a década de noventa, que pede o fim da monarquia e a garantia das liberdades democráticas. Nesse caso, não se aventou a possibilidade de discutir a situação no âmbito das ONU, apesar da ocupação do país por tropas da vizinha Árabia Saudita e dos Emirados Árabes. O detalhe que faz a diferença, é que o microestado abriga a V Frota dos EUA responsável por vigiar o petróleo no Golfo Pérsico. A situação no Iêmen, da mesma forma, não mereceu atenção ocidental. A política externa de Barack Obama, portanto, coincide na essência com aquela de George Bush.

Coincidência ou não, a conduta da ONU também difere diante de situações similares, e a lei internacional é aplicada com mais ou menos rigor de acordo com a conveniência. Dois pesos, duas medidas.

LARISSA RAMINA é Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da UniBrasil e da UniCuritiba. Artigo publicado originalmente na Agência Carta Maior.

A proposta anarquista de Eric Cantona

Página;12

El ex futbolista Eric Cantona ya no juega para el Manchester United, pero tiene una nueva causa: lograr que veinte millones de personas retiren su dinero de los bancos para quebrar el sistema financiero europeo. Es una protesta anarquista basada en Internet y planeada para este martes.

Ya se anotaron 34.000 franceses en Facebook y otros 26.000 dicen que son “simpatizantes”. Alcanzó para que el ministro francés de Presupuesto, François Baroin, se enojara y dijera que la idea es “grotesca”.

Governo de Israel suspeito de executar autoridade palestina

Silvan Shalom e Moshe Ya’alon, Vice-Primeiros-ministros do Governo de Israel (ambos do partido Likud), são assasinados por insurgentes do Movimento de Resistência Islâmico, o Hamas, com apoio de lideranças palestinas e cidadãos sírios, iranianos e libaneses.

Caso o cenário acima tivesse ocorrido, o tema teria ganho rapidamente todas as pautas de tevês e rádios nacionais e internacionais. Reuniões seriam convocadas em diversos âmbitos diplomáticos e, possivelmente, o Governo de Israel convocaria forças militares para responder violentamente ao ocorrido.

O cenário acima ocorreu. Só que mais ou menos ao contrário. E a reação foi pífia, principalmente por parte da imprensa nacional.

Um dos principais dirigentes do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh, foi assassinado no último dia 20 de janeiro, num hotel de Dubai, pelo serviço secreto israelense, o Mossad, com a participação de três irlandeses, seis britânicos, um francês e um alemão. O caso abriu uma crise diplomática internacional. Mas os jornais e telejornais brasileiros deram três vezes mais destaque, por exemplo, à companhia circense Cirque du Soleil.

“É 99%, se não 100% seguro que o Mossad está por trás do assassinato”, declarou hoje (18) o general Dahi Jalfan Tamin, chefe da Polícia de Dubai, ao jornal emirati em inglês The National. Dubai registrou em câmeras de segurança a ação envolvendo o Mossad, com requintes de produção cinematográfica. Os assassinos teriam usado passaportes falsos para entrar no país. O chefe policial lembrou que os agentes de migração do aeroporto não detectaram irregularidades nos documentos dos suspeitos quando entraram no país, mas nos últimos dias pelo menos o Reino Unido e a Irlanda confirmaram que os passaportes eram falsos, informou a agência de notícias EFE.

Gordon Brown prometeu ontem uma “investigação a fundo” sobre o caso. Foto: http://www.ionline.pt

Em um boletim policial divulgado hoje, o chefe policial antecipou que “nos próximos dias serão apresentadas novas surpresas que não deixarão qualquer dúvida” sobre a identidade dos supostos assassinos do dirigente do Hamas. Os suspeitos estavam disfarçados de turistas, usando perucas e barbas falsas. Segundo as autoridades locais, o trabalho “foi executado por um time profissional, altamente habilitado para esse tipo de operação”, noticiou a BBC Brasil [1]. São comuns ações clandestinas do Mossad contra autoridades palestinas, bem como a impunidade que se segue (leia histórico mais abaixo).

Britânicos cobram explicações

O Ministério de Assuntos Exteriores do Reino Unido convocou hoje mesmo o embaixador israelense em Londres, Ron Prosor, para falar do uso de passaportes britânicos falsos no assassinato. O embaixador israelense se reuniu por 20 minutos com o chefe do serviço diplomático britânico, Peter Ricketts, informou hoje a imprensa em Londres. O primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, prometeu ontem uma “investigação a fundo” sobre o caso. As fotografias e as assinaturas não coincidiam com o documento de seus proprietários.

Segundo a agência EFE, após a morte do líder do Hamas, a Polícia de Dubai emitiu ordem de busca e prisão contra 11 pessoas, cujos passaportes falsos incluíam os três irlandeses e os seis britânicos citados, assim como um alemão e um francês. As autoridades francesas e alemãs também levantaram suspeitas sobre as identidades dos suspeitos com passaportes de seus países.

O governo de Israel negou que houvesse evidências da participação de seu serviço secreto no assassinato do comandante do Hamas. Entretanto, segundo a BBC Brasil, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, não chegou a negar formalmente que Israel tivesse participação no crime, seguindo a política de ambiguidade do governo israelense em relação a questões de segurança.

O braço que atua como partido político do Hamas foi eleito democraticamente em junho de 2007 nas eleições para o Parlamento Palestino, reconhecidas como legítimas pela comunidade internacional, obtendo larga maioria dos votos.

Em sua carta fundamental, em seus escritos e muitas de suas declarações públicas, o Hamas frequentemente usa o discurso de ódio contra Israel. No entanto, dirigentes do grupo afirmam que a Carta de Princípios da organização não prega de modo algum a destruição de Israel: em árabe, a intenção expressa seria a de colocar um fim na ocupação israelense da Palestina. [2]

O Governo de Israel frequentemente utiliza de um vocabulário de “ódio” contra o Hamas e outros grupos palestinos, mas na imprensa as declarações são quase sempre tratadas como “alertas”. Emir Sader complementa a notável ambiguidade: “(…) enquanto Hamas ‘odeia’ Israel, nenhum partido ou líder israelita jamais ‘odeia’ os palestinos, mesmo quando pregam sua expulsão.” [3]

Histórico de violência contra Hamas

O histórico de violência do Governo de Israel, que já foi julgado como governo terrorista por dezenas de vezes, contra grupos palestinos é notável. Em uma das últimas ações, em dezembro de 2008, o Hamas teve sua rede de assistência social e educacional na Faixa de Gaza destruída, durante a “Operação Chumbo Fundido”. Nesta ocasião, uma ofensiva militar das Forças de Defesa de Israel, realizada a partir do dia 27 de dezembro, ficou conhecida na maior parte do mundo árabe como o “Massacre de Gaza”.

Em 15 de setembro de 2009, uma comissão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) apresentou um relatório, concluindo que Israel “cometeu crimes de guerra e, possivelmente, contra a humanidade”, e que “embora o governo israelense tenha procurado caracterizar suas operações essencialmente como uma resposta aos ataques de foguetes, no exercício do seu direito de auto-defesa, a comissão considera que o plano visava, pelo menos em parte, um alvo diferente: a população de Gaza como um todo”. O mesmo relatório reconheceu que o lançamento de foguetes pelos insurgentes palestinos também configura crime de guerra. [4]

Segundo a ONG israelense de direitos humanos B’Tselem, a Operação Chumbo Fundido resultou na morte de 1.387 palestinos, mais da metade deles civis. 773 deles não participaram nos combates, incluindo 320 jovens ou crianças (252 com menos de 16 anos) e 111 mulheres. Do lado de Israel, houve 13 mortos, sendo três deles por “fogo amigo”. [5]

Ações criminosas do Mossad

A organização foi fundada em 1949, um ano após a criação do Estado de Israel, e seu primeiro diretor foi Reuven Shiloah (leia perfil da BBC Brasil). A agência de notícias France Presse publicou nesta quinta (18) um histórico das ações do Mossad, desde 1973, marcados pela violência e pela impunidade. Confira a seguir.

  • Noruega, julho de 1973: após a morte de 11 atletas israelenses nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972, Israel tenta assassinar todos os chefes do movimento palestino Setembro Negro, responsável pelo atentado. Em julho de 1973, agentes do Mossad matam por engano Ahmed Bushuki, um garçom de origem marroquina na cidade norueguesa de Lillehammer, ao confundi-lo com Hasan Salameh. O líder de Setembro Negro foi assassinado posteriormente em Beirute por agentes israelenses. Dez agentes de Israel conseguem fugir da Noruega. Outros três são condenados em 1974 por um tribunal de Oslo a cinco anos e meio de prisão. São libertados 22 meses depois.
  • Chipre, abril de 1991: um policial do Chipre prende quatro agentes do Mossad que queriam colocar escutas na embaixada do Irã em Nicósia. Chipre e Israel solucionam a questão em duas semanas e os agentes são condenados apenas a uma multa.
  • Jordânia, setembro de 1997: dois agentes israelenses são descobertos na Jordânia quando tentavam assassinar o chefe do braço político do Hamas, Khaled Mechaal, aplicando veneno. Khaled, que estava em coma, é salvo pela intervenção do rei Hussein da Jordânia, que exigiu que Israel entregasse um antídoto ameaçando romper as relações diplomáticas com o país. Para obter a libertação de seus agentes, Israel também precisou libertar o guia espiritual do Hamas, o xeque Ahmed Yasin.
  • Suíça, 19 de fevereiro de 1998: a polícia surpreende cinco espiões do Mossad que instalavam um sistema de escutas telefônicas no sótão da casa de um homem de origem libanesa perto de Berna. Quatro deles ficaram em liberdade após enganarem os policiais. O outro foi preso e colocado em liberdade em abril de 1998. Em julho de 2000, foi condendo a 12 meses de prisão em Lausanne, com suspensão de pena.
  • Chipre, 7 de novembro de 1998: dois israelenses, Udi Hargov, de 27 anos, e Igal Damari, de 49 anos, são presos no Chipre, na região costeira de Zigi, por espionarem as Forças Armadas greco cipriotas. A polícia do Chipre encontra em seu apartamento material que inclui mapas topográficos e um computador equipado para transmitir mensagens cifradas. São libertados em agosto de 1999.
  • Nova Zelândia, 23 de março de 2004: Uriel Zoshe Kelman e Eli Cara são presos pela polícia, que os seguiu até o lugar onde deveriam retirar um passaporte para o qual foram apresentados documentos falsos. Condenados a seis meses de prisão, são colocados em liberdade em setembro de 2004. A partir deste caso, a Nova Zelândia suspendeu seus contatos mais próximos com Israel.

Reportagem em vídeo da BBC Brasil

Referências

[1] BBC Brasil. “Grã-Bretanha questiona Israel sobre assassinato em Dubai”, Fevereiro 18, 2010. Disponível em http://www.bbc.co.uk/

[2] Spiegel Online International. “Anti-semitic Hate Speech in the Name of Islam”, Maio 16, 2008. Disponível em http://www.spiegel.de/

[3] Emir Sader, Fazendo Media. “A palavra e as coisas”. Março 23, 2007. Disponível em http://www.fazendomedia.com/

[4] The New York Times. “While the Israeli government has sought to portray its operations as essentially a response to rocket attacks in the exercises of its right to self-defense, the mission considers the plan to have been directed, at least in part, at a different target: the people of Gaza as a whole.” Setembro 19, 2009. The Gaza Report’s Wasted Opportunity, por David Landau. Disponível em http://www.nytimes.com/. Ver também http://pt.wikipedia.org/

[5] Folha Online. “ONG israelense diz que civis foram maioria das vítimas de ofensiva em Gaza”. Setembro 09, 2009. Disponível em
http://www1.folha.uol.com.br/; Portal G1. “Cronologia da ofensiva israelense contra a Faixa de Gaza entre 2008 e 2009”. Setembro 15, 2009. Disponível em http://g1.globo.com/

Os Direitos Humanos e a Proibição da Burka

 

 

Em notas recentes, motivadas pela violenta reação das castas armadas contra o PNDH-3, falamos do militarismo como o maior inimigo dos DH. Não devemos esquecer, porém, que a voz da caserna não está sozinha, e que, como aconteceu quase sempre na história, tem a cumplicidade da teocracia. A Igreja Católica também vitupera o projeto, colocando ênfase maior em assuntos vinculados com homoerotismo, aborto e propaganda religiosa. Não entendemos a relevância para a Igreja da existência de crucifixos nas delegacias e nos juizados. Será que, quando um favelado é apressado pela polícia, é mais doce receber choque elétrico observando a imagem de Cristo martirizado? Será que a presença daquele enorme crucifixo no STF faz menos dura a condena das mulheres que não podem abortar, porque uma casta de leguleios medievais e sádicos o proíbe?

Por enquanto, nesta nota quero referir-me a um problema relacionado com a iconografia religiosa num tom menor: é o que surge quando os símbolos confessionais não são exibidos pelas instituições públicas, mas pelos cidadãos comuns.

Burka e Chador

Faz tempo que o conservador moderado Nicolas Sarkozy propõe que o parlamento francês impeça, pela força da lei, que mulheres islâmicas utilizem a burka em locais públicos. www.bbc.co.uk/blogs/thereporters/gavinhewitt/2010/01/french_burka_ban_looms.html

No 28/01/2010, uma comissão desse parlamento, que estudava o uso da burka e o niqab por umas 1900 mulheres islâmicas residentes na França, entregou seu relatório final. Este não defende a proibição absoluta, mas aconselha sua veda em instituições públicas, como hospitais, escolas, escritórios do estado, etc. Veja:

http://pt.euronews.net/2010/01/26/comissao-parlamentar-francesa-recomenda-proibicao-da-burqa

O parlamentar de esquerda, Andre Gerin, propunha que a proibição fosse absoluta em todos os locais públicos, mas o alcance da proposta só ficará bem conhecido depois que o parlamento vote uma lei oficializando essas idéias. O líder do governo no parlamento (de centro-direita) Jean-Francois Cope, afirma que esta iniciativa defende os direitos das mulheres. Ele disse a um editor da BBC inglesa:

“Pensamos que em nosso país, o rosto é o veículo pelo qual as pessoas se reconhecem, simpatizam, e se respeitam mutuamente. O problema é a ocultação do rosto.”

O ministro Xavier Bertand, do partido do governo, entende que burka ou niqab são uma prisão para a mulher, que não consegue comunicar-se , exibir seu sorriso, socializar-se com pessoas da mesma ou diferente tradição cultural, fazer amizades.

Em outros países europeus tipicamente seculares, como a Holanda e a Dinamarca, foram lançadas iniciativas parlamentares inspiradas no caso francês. Antes que a questão fosse levantada na França, já o UK tinha proibido esta indumentária nas escolas.

Entretanto, é injusto qualificar de intolerante o racista o projeto francês, que foi exaustivamente explicado por parlamentares tanto da esquerda como da direita moderada. Se o objetivo fosse amedrontar os islâmicos, o projeto poderia proibir também o chador, que constitui uma peça de indumentário do mesmo caráter classista, machista e discriminatório, mas que permite ver o rosto e, portanto, diminui a humilhação da mulher. Pelo pouco que eu conheço da cultura oriental, acredito que não há motivo para poupar tampouco o chador, que já tinha sido banido pelo conservador xá Pahlavi, considerando-o uma forma arcaica de domínio masculino.

Relativismo Cultural e Atrocidades

Vários cidadãos islâmicos e também alguns não islâmicos rotulam a iniciativa de proibir a burka de discriminação e intromissão na vida privada dos estrangeiros. O argumento de que essa proibição mostra a desconfiança contra os muçulmanos, expressadas por alguns fascistas delirantes (no sentido de que a burca permitiria esconder armas no corpo de mulheres terroristas) não merece a menor atenção. Não é provável que o governo francês seja vítima de um pensamento tão descabido.

Outros resgatam o uso da burca, por ser um objeto tradicional em alguns países islâmicos, e representar, portanto, a cultura e os costumes dessas regiões; porém, a maioria não aprova a obrigatoriedade de seu uso imposta pelo Talibã. Este tipo de raciocínio é muito conhecido desde a década de 1950 e corresponde a um relativismo cultural surgido como reação polarizada à imposição de hábitos coloniais pelos países imperialistas. Talvez nem precise comentário o fato de que a diversidade e tolerância cultural que procuramos não serão obtidas aceitando as tradições humilhantes, desumanas e sangrentas, seja de Oriente, seja de Ocidente, mas criando um convívio diversificado de hábitos solidários e saudáveis, que possam construir uma sociedade mais livre e racional.

Seria simplista ver a tradição da burka apenas como uma moda ritual. Embora não seja mais que uma vestimenta, sua função protetora está relacionada com tradições cruéis e supersticiosas. Na Ásia Central, a burca serve para proteger o namus (algo assim como honra) da família nuclear de um homem, mas também (no caso dos pashtum) para defender a honra da família estendida.  O namus é violado quando uma mulher comete alguma falta ao recato e inclusive quando é estuprada involuntariamente. Nesse caso, a família não se solidariza com a vítima, pois todos eles se consideram ofendidos. A solução que nunca é leve pode variar dependendo do lugar. Em Afeganistão, predomina a tendência a obrigar à menina “desonrada” a se suicidar; no Irã, o apedrejamento; na Arábia Saudita, a decapitação, e no Paquistão, a deformação de seu rosto com ácido.

Não precisa ser salientado o nível ético de qualquer um que defenda estas atrocidades em nome da soberania, da integridade cultural de um povo ou da luta contra o imperialismo.

É evidente que ninguém pode gostar desta vida, como o provam, aliás, os livros que mulheres árabes publicam em Ocidente. As moças que mostram resignação ou até defendem os brutais hábitos de indumentária (não os de tortura) tiveram sua “cabeça feita” durante anos, e temem pela ira dos maridos e familiares.

Depois da derrota do Talibã, muitas mulheres se lançaram à compra de cosméticos para assemelhar-se às ocidentais, e existem muitos vídeos que mostram um novo perfil da moça afegã. É impossível saber o efeito sobre as mulheres da invasão aliada em Afeganistão, já que sua opinião não recebe qualquer atenção. Mas é provável que vejam como salvador a qualquer inimigo do Talibã e outros marqueteiros da burca. Por sinal, foi isso o que aconteceu na década de 20, quando os bolchevistas entraram na Ásia Soviética Islâmica liberando as mulheres do uso daquelas roupas.

Não estou sugerindo que exista em Oriente uma especial tendência a barbárie ritual que seja desconhecida em Ocidente, pois os DH assim como as suas violações são universais. Os defensores dos DH também combatem as barbáries ocidentais semelhantes, como a repressão da mulher que a Igreja injetou em muitas gerações, e ainda injeta hoje nos ambientes mais atrasados. A diferença é, apenas, que os países ocidentais (especialmente a França) conseguiram reagir contra a teocracia, enquanto os orientais não puderam.

Política e Direitos Humanos

As razões para proteger as mulheres islâmicas da humilhação e do domínio masculino podem ter, como qualquer ação tomada por políticos e governantes, motivações espúrias, mas o efeito visível é um aumento no respeito a seus DH.

O aspecto político foi comentado por vários parlamentares. Sendo que atualmente a comunidade islâmica da Ásia e do Oriente Médio adquiriram uma visibilidade antes desconhecida, os governos estão preocupados pela possível criação de culturas internas, incomunicáveis, que não mantenham interação. Além do óbvio interesse estratégico e político, a medida de evitar a divisão da sociedade em compartimentos estancos, como nos Estados Unidos, possui um valor humanitário.

Pode deduzir-se das declarações de intelectuais, políticos e celebridades francesas e do próprio Sarkozy, que a proibição da burka visa estes objetivos:

  1. Evitar a segmentação da sociedade em subnacionalidades independentes, o que aumentaria o “bairrismo” e criaria novas formas de chauvinismo.
  2. Manter a neutralidade religiosa, que não é afetada pelo porte discreto de símbolos religiosos (cruzes, crescentes, estrelas de David em jóias e enfeites), mas que é desafiada pela exaltação provocativa de pessoas soturnamente fantasiadas.
  3. Desterrar da contemplação pública um símbolo que caracteriza a escravidão patriarcal sobre as mulheres, e representa implicitamente graves atrocidades.
  4. Contribuir à integração das mulheres islâmicas no mundo Ocidental, as livrando, não apenas do sofrimento psicológico de aceitar uma aparência bizarra, mas da dor concreta de estar separadas do meio ambiente.

Ninguém será livre nem terá DH, se sua vida pessoal for monitorada desde o Vaticano, Jerusalém ou Meca, com base nos esotéricos “conhecimentos” codificados por uma casta de alucinados, que acreditam receber ordens metafísicas. Os dirigentes islâmicos, cujos países são brutalmente arrasados pelos Estados Unidos e a Nato, produzindo a morte de famílias e condenando povos completos à desaparição, aumentam ainda mais a desgraça da população e colaboram com o imperialismo ao infernizar a vida de suas próprias mulheres.

Por outro lado, é deplorável que pacifistas e defensores dos DH apliquem o que se chama a filosofia do tango, em referência a um assunto que aparece sempre nos tangos argentinos. Tudo vale o mesmo, tudo é igual, em todo lugar tem maldade. Esse nihilismo só tem sido paralisante na história do mundo. Os países ocidentais não têm povos melhores que os outros, porque todos os povos são iguais. Mas tiveram uma oportunidade histórica melhor: a de desvencilhar-se (muito parcialmente) da tirania teológica. É por isso que usufruímos (algo mais) de DH que os orientais.

Assassinato de Valmir Mota de Oliveira completa um ano

Há um ano, em 21 de outubro de 2007, uma milícia armada travestida de empresa de segurança assassinou o trabalhador rural sem terra Valmir Mota de Oliveira durante a ocupação da transnacional Syngenta Seeds, em Santa Tereza do Oeste, no Paraná. O assassinato de Keno, apelido pelo qual ele era conhecido, tornou-se símbolo da luta do homem do campo contra as empresas estrangeiras símbolos do agronegócio.

Protestos contra o assassinato e manifestações de apoio à família de Keno estenderam-se por todo o mundo. Movimentos sociais contra transgênicos foram à Europa para um ato público em frente à sede francesa da Syngenta Seeds, localizada em Toulouse. No Brasil, trabalhadores rurais realizaram inúmeras manifestações para não deixar que os assassinos ficassem impunes.