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O reino do Cristo e a espiritualidade libertadora

O reinado do Cristo e a espiritualidade libertadora

Neste domingo, que é o último do tempo litúrgico, a Igreja Católica nos convida a reafirmar que o fim da história é a realização do projeto divino no mundo. É o que os evangelhos chamam de “reino de Deus”. O evangelho lido neste domingo é João 18, 33 – 37.

É a famosa cena, de certa forma, presente nos quatro evangelhos segundo a qual o governador Pilatos interroga Jesus. Os religiosos do templo de Jerusalém tinham prendido Jesus e o tinham levado ao poder romano acusando-o de usurpar o título de César, o único imperador do mundo. O governador Pilatos quer saber se Jesus assume como verdadeira a acusação que os chefes judeus lhe fazem. Quer confirmar se Jesus assume mesmo o título de rei dos judeus, ou seja, de adversário político do imperador César.

Todos os quatro evangelhos relatam que Pilatos perguntou a Jesus se ele era o rei dos judeus. No entanto, só o quarto evangelho, escrito no final do século I, conta a conversa narrada neste texto de hoje. Conforme essa versão, Jesus responde à pergunta de Pilatos como se fosse uma afirmação e não uma pergunta. Pilatos perguntou “Tu és o rei dos judeus?”. Jesus respondeu: “Você está dizendo isso de si mesmo ou foram outros que te disseram de mim?”. Jesus vai direto  ao fundo do problema de Pilatos. Revela que a preocupação maior de Pilatos é ficar bem com os religiosos do templo. E tenta sair pela tangente: Por acaso, eu sou judeu?

No evangelho de João, Jesus tinha sido chamado de “rei de Israel” por Natanael (Jo 1, 49) e pelo povo do campo na entrada de Jerusalém (Jo 12, 13). Mas, Pilatos não pergunta se ele é rei de Israel, isso é, de uma nação que seria livre e sim rei dos judeus, isso é dos israelitas convertidos em súditos de César que aceitam ver a sua terra transformada em mera província romana (a Judeia).

E Jesus dá uma resposta que suscitou muitos problemas na história. Ele disse: “Minha realeza ou forma de trazer o reino de Deus para o mundo nada tem a ver com o modo de vocês em suas relações políticas. O reino de Deus é de outra ordem ou vem de outra forma”.

Infelizmente muitas vezes na história, as pessoas leram esse texto como se Jesus tivesse dito que a realeza de Jesus não se dá neste mundo e sim no céu, depois da morte. É de natureza puramente espiritual e íntima e não tem nenhuma repercussão social e política. Ao interpretarem assim essa palavra do evangelho, muitos cristãos se justificam por serem indiferentes ao que se passa no mundo social sob o pretexto de que o reino de Deus não é desse mundo. O contraditório é que, ao mesmo tempo que dizem que o reino de Deus não é desse mundo, fazem festas externas e sociais de Cristo rei. No passado, essa festa foi associada ao “direito” do papa ser rei no Estado do Vaticano e garantir o poder do Cristianismo ligado aos poderes do mundo.

Deus queira que esteja próximo o dia em que compreendamos a preocupação de Dom Helder quando, há mais de 55 anos, escrevia: “Jesus me compreende quando digo que não gosto da festa de hoje, nem acho que ele queria ser chamado de rei”  (53ª circular – 22/ 10/ 1964). Dois exegetas belgas que comentaram os evangelhos, afirmaram: “Jesus nunca chamaria a si mesmo de rei[1] (Cf. T. Maertens e J. Frisque, Guia da Assembleia Cristã 3, Vozes, 1970, p.47).

Como a Igreja quer se situar no mundo atual e olhar o mundo a partir dos pobres e dos pequeninos, como nos convida o papa Francisco se faz questão de manter essa linguagem de rei, rainha e reino que hoje não quer dizer nada e é associado à sociedade imperial?

No evangelho de João, fica claro que quem fala de reino e realeza de Jesus são seus inimigos. São os sacerdotes que o denunciaram e prenderam. É Pilatos que escreveu um letreiro e o fixou no alto da cruz com as palavras “eu sou o rei dos judeus” (Jo 19, 19).

A forma como esse reinado ou realeza que se revela na cruz é a partilha. É a primeira coisa que os soldados fazem: repartir entre eles a roupa de Jesus e tirar sorte para ver quem ficaria com a túnica (19, 23- 27). O reinado divino aponta para uma pessoa pobre e oprimida, levantada ao alto, na cruz, como sinal de vida e centro de atração (Jo 12, 32). Por isso, embora não saibamos se Jesus disse realmente a Pilatos: “Eu sou rei”, assumimos como sendo dele as palavras: “Vim ao mundo: para dar testemunho da verdade e toda pessoa que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18, 33). Ao assumir ser rei, Jesus está afirmando que o projeto divino é a realeza do pobre e do povo oprimido. Ele fala da verdade do reino de Deus. Diz que dará a sua vida para testemunhar que Deus não é caloteiro e que suas promessas se cumprem e se cumprem aqui e agora.

Essa é a nossa vocação. É a nossa missão e tarefa. Essa é a espiritualidade libertadora: transformar o mundo para testemunhar que Deus é verdadeiro e suas promessas de um mundo novo se realizam.

Em uma festa de Cristo-rei em 1971, Dom Helder Camara escreveu um poema com o título de “Cada vez menos”. E o poema diz assim:

“Te imagino Rei, a não ser com manto de estopa,

coroa de espinhos e cetro de zombaria…
Vejo-Te Operário, Astronauta, Escafandrista,
Enfermeiro… mas, acima de tudo
– temo que não me entendam,

como tenho certeza de teu entendimento total –

Vejo-Te Palhaço, espantando a tristeza, acendendo alegria,
ajudando a salvar a Criança que não deve morrer em nós…” Recife, 20/21.11.1971 (324ª Circular).

O perdão: a grandeza e a dignidade das vítimas de extrema violência

Por iniciativa do bispo Dom Vicente Ferreira, pastor da região da tragédia de Brumadino-MG e do professor e psicanalista René Dentz, foi organizado um livro que recolhe  excelentes estudos sobre o perdão:”Horizontes de Perdão” (Editora Ideias & Letras 2020,pp.180). Sua singularidade reside no fato de  terem sido escolhidos exemplos de perdão de  diferentes países com suas culturas e tradições próprias.

Queremos comentar esta obra por sua alta qualidade e por abordar um tema de grande atualidade, também largamente abordada pelo Papa Francisco na sua encíclica social Fratelli tutti (2020).

O livro “Horizontes de Perdão” tem como foco  pensar o perdão a partir do sofrimento concreto e terrível, suportado por vítimas humanas inocentes ou por todo um povo vitimado durante séculos. Aqui reside sua grande força e também o seu poder de convencimento.

Um exemplo, descrito e analisado pelo bispo Dom Vicente Ferreira e de René Dentz, também organizador desta obra, vem do Brasil, das tragédias criminosas do rompimento de duas barragens da mineradora Vale, em Mariana-MG no dia 05 de maio de 2015, matando 19 pessoas e destruindo a bacia do Rio Doce, com 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério e Brumadinho-MG, no dia 25 de janeiro de 2019, com a ruptura da barragem da mesma mineradora Vale, vitimando 272 pessoas, soterradas  sob 12,7 milhões de metros cúbicos de lama e detritos.

O livro abre com um minucioso estudo do bispo Dom Vicente Ferreira, pastor, poeta, músico e profeta: “Brumadinho: o perdão a partir das vítimas de crimes socioambientais”. Precede-o uma pertinente  análise de conjuntura global, sob a hegemonia do capital, uma máquina de fazer vítimas no mundo inteiro. A mineradora Vale representa a lógica do capital que prefere o lucro à vida, aceitando o risco de dizimar centenas pessoas e de danificar profundamente a natureza.Mesmo consciente dos danos perpetrados, reluta  em compensar com justiça e equidade as famílias e pessoas afetas.

Dom Vicente procura entender o processo vitimatório da globalização do capital com as categorias do sociólogo português, Boaventura de Souza Santos e a compreensão da violência com a psicanálise de Sigmund Freud que face à nossa capacidade de superar a violência  se mostra, de certa forma, cético e  resignado.

Dom Vicente supera esta resignação com a contribuição da mensagem cristã bem no espírito da Fratelli tutti do Papa Francisco. Esta testemunha o sacrifício da vítima inocente, do Crucificado que rompeu o círculo da vingança e do ressentimento com o perdão a seus algozes. Esta visão foi bem desenvolvida pelo pensador René Girard referido no estudo. Este pensador francês emerge como um dos que melhor estudou a dinâmica da  violência que se origina pelo desejo mimético excludente (alguém quer só para si um objeto excluindo a terceiros), mas que a proposta cristã mostrou que este desejo mimético pode ser transformado em includente (desejamos juntos  e compartilhamos o mesmo objeto) pelo perdão incondicional.

Mas esse perdão coloca a exigência de justiça a ser praticada por aqueles que provocaram o desastre criminoso, no caso os responsáveis da mineradora Vale. Essa luta, o bispo a leva com determinação e ternura, com canto, poesia e oração junto com a comunidade dos sofredores que ele incansavelmente, com uma  generosa equipe, acompanha. Cabe citar novamente o que diz a Fratelli tutti:.”Não se trata de propor um perdão renunciando aos próprios direitos perante um poderoso corrupto… Quem sofre injustiça tem de defender vigorosamente os seus direitos e os da sua família, precisamente porque deve guardar a dignidade que lhes foi dada, uma dignidade que Deus ama”(n.241)

Para entender melhor a dinâmica da violência e do perdão, alguns autores foram seminais: o filósofo francês Paul Ricoeur com seu livro “La mémoire, l’histoire, l’oubli” (Paris, Seuil 2000) e Franz Fanon, “Os condenados da Terra” (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1968).

A reconciliação e o perdão não terminam em si mesmos. Novamente  a Fratelli tutti  é inspiradora:

Como ensinaram os bispos da África do Sul, a verdadeira reconciliação alcança-se de maneira proativa, «formando uma nova sociedade baseada no serviço aos outros, e não no desejo de dominar; uma sociedade baseada na partilha do que se possui com os outros, e não na luta egoísta de cada um pela maior riqueza possível; uma sociedade na qual o valor de estar juntos como seres humanos é, em última análise, mais importante do que qualquer grupo menor, seja ele a família, a nação, a etnia ou a cultura» (n.213). E os bispos da Coreia do Sul destacaram que uma verdadeira paz «só se pode alcançar quando lutamos pela justiça através do diálogo, buscando a reconciliação e o desenvolvimento mútuo”(n.229)

Releva enfatizar: cada povo e cada grupo encontraram caminhos próprios para chegar ao perdão. Assim, por exemplo, para os afrodescendentes brasileiros é imprescindível para um perdão real que os brancos que os vitimizaram pela escravidão, reconheçam a desumanidade que cometerem, reforcem a identidade africana e os restaurem na sua dignidade ofendida. Bem se disse: “o perdão é mais que uma justa justiça, antes é da ordem da doação- doação aos outros”.

No Congo Brazzaville, país marcado por sangrentas guerras civis, o conceito chave foi “palaver”, recorrente nos países do sul do Saara. “Palaver” implica buscar a verdade pelo diálogo, pela liberdade de todos falarem, independemente de seu lugar social e de gênero, até se elaborar um consenso em função da paz social; todos se perdoam mutuamente, sem penalizar ninguém mas todos se propõem corrigir os erros. O texto mostra como esse pacto pela ganância do poder de grupos e pela vasta corrupção que assola o  país, não conseguiu prevalecer e ter sua sustentabilidade garantida. Mas velu a tentativa.

Na Africa do Sul, o conceito-chave no processo de reconciliação e de perdão, conduzido pelo arcebispo anglicano Desmod Tutu, foi a categoria “Ubuntu”. Ela fundamentalmente expressa essa profunda verdade antropológica: “eu só sou eu através de você”. Todos se sentem interligados. A estratégia era: o vitimador confessa seu crime com toda sinceridade; a vítima escuta atentamente e narra a sua dor; restaura-se a justiça  reparadora e restaurativa, eventualmente aceita-se uma punição curativa, exceto para os crimes mais hediondos de  lesa-humanidade que são encaminhados ao tribunal competente.

Outra contribuição trabalha estudos avançados de mereologia (como as partes se relacionam com outras partes, como elas se situam no todo e como dentro dele se movem). Os dois autores articulam os dados numa certa harmonia, base para o perdão, assim definido por eles:

A superação do afeto negativo e do julgamento em relação ao ofensor, não negando a nós mesmos o direito a tal afeto e julgamento, mas se esforçar em ver o ofensor com compaixão, benevolência e amor.

O pressuposto antropológico é que por mais criminoso que alguém seja, nunca é só criminoso, jamais deixa de ser humano com muitas outras virtualidades também positivas. Da mesma forma, por mais que a população trazida violentamente de Africa para ser escrava no Brasil, nunca os senhores de escravos conseguiram matar-lhes a liberdade. Eles resistiram e procuraram sempre conservar sua identidade cultural e religiosa. O quilombolismo é disso uma prova ainda hoje visível nas centenas de quilombos existentes, onde se vive uma vida mais comunitária, igualitária, na linha do “Ubuntu”.

Entretanto, enquanto não se parar de dar um dowload do ressentimento e do espírito de vendetta, nunca se rasgará o caminho para um verdadeiro perdão. Não se trata de esquecimento, mas de não deixar de ser refém de um interminável ciclo de amargura e de mágoa.

Nesse ponto do perdão generoso, o cristianismo mostrou seu capital humanístico. Como o texto de Dom Vicente o mostra e especialmente o da Colôambia que assim o expressa: perdoar o  imperdoável não é só uma amostra como o expírito humano pode revelar a sua transcendência, a sua capacidade de estar para além de qualquer situação por mais desumana que se apresente, mas é acima de tudo o dom da graça divina. Perdoamos porque fomos perdoados por Deus e por Cristo cuja misericórdia não sofre nenhuma limitação.

A justiça é irrenunciável. Mas não é ela que escreve a última página da história humana. Excelentemente respondeu um filósofo Roger Icar a Wiesenthal, aquele que  buscava no mundo todo criminosos nazistas: “O perdão sem justiça revela fraqueza, mas uma justiça sem perdão representa uma força desumana”.

Estes textos revelam a excelência das reflexões sobre o perdão, dos melhores publicados nos últimos tempos. A parte desumana no ser humano, pode pelo perdão e pela reconciliação ser resgatada e transformada. Essa é a grande lição que esta notável obra “Horizontes de Perdão” nos quer transmitir, tão bem organizada pelo bispo-pastor Dom Vicente de Brumadinho e pelo erudito  psicanalista Renê Dentz.

Morrer e re-suscitar

A espiritualidade cristã, nos convida com a páscoa, a refletir sobre o sentido profundo da vida e da morte. Cristo, ao morrer na cruz, personificou tudo que precisa morrer em cada um de nós: a vitimização e morte do outro como solução para os conflitos pessoais e sociais.

A morte injusta de Jesus, visava calar, silenciar a esperança de todo um povo. Ao se deixar matar, Cristo tinha a esperança que morresse com ele, toda forma de injustiça, violência e descriminação.

Havia uma polarização de forças contrárias em ação. Por um lado, silenciar para sempre a voz da esperança, personificada em Cristo, e do outro lado os que viviam da esperança de novos tempos. Com a morte de Cristo, desejavam colocar um ponto final.

A segunda força, a dos invisíveis e esquecidos que viviam de profecias, transformaram o ponto em uma virgula e re+suscitaram toda a mensagem de amor e fraternidade.

Enquanto uns falavam do sepultamento de Cristo, o povo simples multiplicava os testemunhos de suas aparições. Uma das mais contundentes e de forte simbolismo: ser reconhecido partilhando o pão no caminho de Emaús.

O espírito cristão superou a morte terrena e tornou-se luz para toda a humanidade.

A vítima sepultada, ressuscitou em forma de partilha, de solidariedade e amor ao próximo.

A pascoa simboliza esta passagem entre o efêmero que morre e o eterno que permanece. Quando o efêmero passa, chega a hora de ressuscitar o eterno que nele habitava.

Neste momento de muitas perdas pelo Covid-19, vale lembrar que precisamos re+suscitar o que a morte não destruiu naquele que partiu. Perdemos amigos e familiares queridos. Se ficarmos apenas olhando para o sepulcro, só restam lágrimas e um sentimentos de revolta e solidão.

Mas se olharmos para o legado que cada um deixou, vamos ter muito o que celebrar. As lembranças das coisas boas precisam ser re+suscitadas por que são eternas e fazem parte da herança deixada por alguém que se foi e que continua vivo em mim e em meus descendentes. Feliz re+surreição.

 

O valor da vida

A vida é uma construção minuciosa e contínua, cotidiana.

São incontáveis os esforços da pessoa e da sua família, da comunidade e da sociedade mais abrangente, para ter como resultado uma pessoa integrada e coesa, centrada nos seus valores, alinhada com propósitos construtivos, ciente das suas capacidades criativas.

Da perspectiva que os anos e a minha própria caminhada existencial me deram, posso ver não sem perplexidade e preocupação, uma persistente ação adversa a tudo que é humanamente valioso. Ações em contra da educação, as artes e a cultura.

Retrocessos em matéria de direitos humanos, sociais e laborais. Isto inclusive em espaços que se supõe deveriam ser de uma defesa irrestrita da diversidade, do direito às pessoas serem de acordo com a sua individualidade única e irrepetível.

Algo que me entristece e machuca profundamente é a discriminação contra as pessoas excluídas, quer pela sua opção ou identidade sexual, quer pela sua condição social ou cor de pele, religião, aparência, etc. A minha história de vida me pôs cara a cara com este rosto abominável do ser humano, o de quem se acha mais ou melhor do que as demais pessoas.

Daí o meu empenho incansável na costura fina da vida. O bom dia e boa tarde. O saber que essa pessoa que está aí na minha frente é alguém que de alguma maneira percorre caminhos em essência muito parecidos com os meus próprios.

Hoje pela manhã me ocorreu de estar a receber a compra do supermercado em casa, devido ao confinamento obrigatório. O entregador me chamava de “irmão”. Lembrei num flash, de mim mesmo muitos anos atrás. Minha luta para chegar aonde cheguei. O meu empenho em diversos trabalhos, o esforço por ocupar um lugar no mundo. Trabalhei duro e me apoiava muito na fé, como continuo a fazer, ainda hoje.

Não esquecer o valor da vida. É tudo que pretendo.

Quando a libertação tarda

O que fazer quando a libertação tarda

No evangelho deste 32º domingo comum do ano – Mateus 25, 1 – 13, a comunidade de Mateus coloca na boca de Jesus uma palavra sobre como animar as comunidades quando estas se dão conta de que o reino de Deus não está chegando imediatamente como irrupção de uma mudança no mundo. Parece que as pessoas lutam, lutam e nada parece mudar. As primeiras gerações cristãs pensavam que o reino de Deus viesse logo para mudar a história. Na oração do Pai Nosso, diariamente, as pessoas oram: Venha a nós o teu reino. Jesus tinha prometido: Esta geração não passará sem que venha o Filho do Homem (Mt 24, 34).

Quando os evangelhos foram escritos já tinham passado duas gerações e nada do reino chegar visivelmente. Jerusalém tinha sido destruída pelos romanos e os judeus obrigados a viver como migrantes estrangeiros nas nações pagãs. E nada da vinda do Filho do Homem Era preciso buscar nas palavras de Jesus uma resposta para isso.

Provavelmente, a parábola contada neste evangelho reproduz um fato ocorrido naquele tempo. A maioria das parábolas de Jesus eram tiradas da vida comum. O eixo principal da história é uma festa de casamento na qual o noivo atrasa. Nos casamentos atuais da sociedade, quem costuma atrasar é a moça. Naquele caso, foi o noivo.

Jesus conta essa história para dizer que o reino de Deus é como o tal noivo que atrasou. O povo antigo tinha um ditado que dizia: Deus tarda, mas não falha. A parábola quer nos ensinar como lidar com o atraso da vinda de Deus no mundo.

Nestes tempos de campanha eleitoral, escutamos alguns afirmam que não votam mais em ninguém por que estão desacreditados da Política. Várias vezes, na história, a própria fé cristã provocou desilusões. Parecia que o próprio Deus e  Jesus provocaram decepções.

Na Alemanha nazista, milhões de judeus foram mortos em campos de concentração. Muitos se perguntaram onde ficaram as promessas de Deus a respeito do povo eleito na Bíblia. Os evangelhos tinham de responder a essa pergunta.

Este trecho do evangelho faz referência a um costume para nós  estranho. Naquela época, o noivo ia buscar a noiva na casa dela. Ali, o esperava um cortejo de amigas da moça e este cortejo acompanhava o casal até a nova casa onde iam morar. Essas moças iluminavam a festa com tochas acesas, alimentadas com azeite de oliva.

O evangelho de hoje conta que, naquele caso, cinco moças tinham garantido uma reserva de azeite nas suas vasilhas e outras cinco não. Como o noivo atrasou, algumas ficaram sem azeite.

As dez moças representam a comunidade que espera o reino de Deus chegar como o noivo vem para a festa do casamento. Esta alegoria quer nos dizer que a comunidade cristã deve viver em função do reino e do Esposo que vem e não da própria Igreja, que no caso, é representada pela esposa. Jesus aproveita o contexto cultural da sociedade patriarcal para dizer que a comunidade tem de ficar atenta aos sinais da vinda do reino de Deus no mundo e não ficar concentrada  na própria Igreja.

Na história, as moças que tinham reserva de azeite não podiam repartir do seu azeite com as outras. Dizer que elas não podiam dar o azeite uma à outra é afirmar que ninguém pode amar no lugar de ninguém. A responsabilidade de se preparar para a vinda do reino é pessoal e intransferível.

Quando Jesus contou a história, ele não insistiu na vigilância (até porque todas dormem). O que ele pediu foi que estivessem prontas na hora em que o Esposo vem. O reino não vem logo como se esperava. Mas, é preciso vigiar e se manter preparados/as.

Atualmente, na realidade que vivemos, de vez em quando temos a impressão de que novamente a libertação prometida está demorando demais. O Esposo atrasou e tarda a chegar. Através desse evangelho, a comunidade de Mateus nos responde: mantenham a lâmpada acesa e sempre com óleo para o momento que for preciso. É como se dissesse: vivam antecipando a utopia que vocês esperam. E isso se concretiza na palavra que Jesus disse no discurso da montanha: “Não são as pessoas que dizem Senhor, Senhor, que entra no reino, mas quem realiza o projeto divino” (Mt 7, 21- 23).

Não adianta essa religião centrada em missas, novenas e devoções. Nesta parábola, o  esposo da parábola fechou a porta do aposento nupcial e disse às moças que ficaram de fora: Não vos conheço! É exatamente a mesma palavra de Jesus no discurso da montanha: “Naquele dia, muitos me dirão: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7,22-23).

No comentário deste evangelho, Sandro Galazzi escreveu:

Quem souber repartir, quem souber distribuir a comida aos que moram na casa, este poderá tomar conta da casa e tomará posse dos bens de seu senhor. Vigiar é isso: cuidar da casa e dos seus moradores. Quando o noivo vier, mais ou menos tarde, ele vai faze-lo entrar para participar das bodas. Bem-aventurado aquele servo que quando vier o seu senhor, encontrar fazendo assim” (Mt 24,46).

En tiempos de Covid: el cuidado necesario y la hermandad afectuosa

En los días actuales, especialmente durante el aislamiento social, debido a la presencia peligrosa del coronavirus, la humanidad despertó de su sueño profundo: empezó a oír los gritos de la Tierra y los gritos de los pobres y la necesidad de cuidarnos unos a otros y también a la naturaleza y a la Madre Tierra. De pronto nos dimos cuenta de que el virus no vino del aire y no puede ser pensado en forma aislada, sino dentro de su contexto: vino de la naturaleza. Es la respuesta de la Madre Tierra al antropoceno y el necroceno, es decir, a la destrucción sistemática de vidas, debida a la agresión del proceso industrialista, en una palabra, al capitalismo globalizado. Este avanzó sobre la naturaleza, deforestando miles de hectáreas en el Amazonas, en el Congo y en otros lugares donde se encuentran las selvas y bosques húmedos. Esto destruyó el hábitat de cientos y cientos de virus que se encontraban en los animales e incluso en los árboles. Saltaron a otros animales y de estos a nosotros.

Como consecuencia de nuestra voracidad incontrolada, cada año desaparecen cerca de cien mil especies de seres vivos, después de millones de años de vida en la Tierra y todavía, según datos recientes, un millón de especies vivas corren el riesgo de desaparecer.

La idea-fuerza de la cultura moderna era y sigue siendo el poder como dominación de la naturaleza, de otros pueblos, de todas las riquezas naturales, de la vida e incluso de los confines de la materia. Esta dominación ha causado las amenazas que pesan actualmente sobre nuestro destino. Esta idea-fuerza tiene que ser superada. Bien dijo Albert Einstein: “la idea que creó la crisis no puede ser la misma que nos saque de la crisis; tenemos que cambiar”.

La alternativa será esta: en lugar del poder como dominación tenemos que poner la fraternidad y el cuidado necesario. Estas son las nuevas ideas-fuerza. Como hermanos y hermanas, todos somos interdependientes y debemos amarnos y cuidarnos unos a otros. El cuidado implica una relación afectuosa con las personas y con la naturaleza; es amigo de la vida, protege y da paz a todos los que están alrededor.

Si el poder como dominación significaba el puño cerrado para someter, ahora ofrecemos la mano extendida para entrelazarla con otras manos, para cuidar y abrazar afectuosamente. Esta mano cuidadosa traduce un gesto no agresivo hacia todo lo que existe y vive.

Por lo tanto, es urgente crear la cultura de la fraternidad sin fronteras y el cuidado necesario que une todo. Cuidar todas las cosas, desde nuestro cuerpo, nuestra psique, nuestro espíritu, a los demás y más cotidianamente la basura de nuestras casas, el agua, los bosques, los suelos, los animales, a unos y otros, empezando por los más vulnerables.

Sabemos que todo lo que amamos, lo cuidamos, y todo lo que cuidamos también lo amamos. El cuidado cura las heridas del pasado e impide las futuras.

En este contexto urgente cobra sentido uno de los más bellos mitos de la cultura latina: el mito del cuidado.

Cierto día, caminando a la orilla de un rio, Cuidado vio un trozo de barro. Fue el primero en tener la idea de tomar algo de ese barro y darle la forma de un ser humano. Mientras contemplaba, contento consigo mismo, lo que había hecho, apareció Júpiter, el dios supremo de los griegos y romanos. Cuidado le pidió que soplara espíritu en la figura que acababa de modelar. A lo que Júpiter accedió de buen grado. Pero cuando Cuidado quiso dar un nombre a la criatura que había diseñado, Júpiter se lo prohibió. Dijo que esta prerrogativa de imponer un nombre era misión suya. Cuidado insistía en que tenía este derecho al haber pensado primero y moldeado la criatura en forma de un ser humano.

Mientras Júpiter y Cuidado discutían acaloradamente, apareció de repente la diosa Tierra. También ella quería darle un nombre a la criatura, ya que, según ella, estaba hecha de arcilla, material del cuerpo de la Tierra. Se produjo una discusión general sin llegar a un consenso. 

De común acuerdo, pidieron al antiguo Saturno, llamado también Cronos, fundador de la edad de oro y de la agricultura, que actuara como árbitro. Apareció en escena y tomó la siguiente decisión que a todos les pareció justa:

“Tú, Júpiter, le has dado el espíritu; por lo tanto, recibirás este espíritu de vuelta cuando esta criatura muera”.

“Tú, Tierra, le has dado el cuerpo; por lo tanto, recibirás también el cuerpo de vuelta cuando esa criatura muera”.

“Como, tú, Cuidado, fuiste quien dio forma a esa criatura, ella permanecerá bajo tu cuidado mientras viva”.

“Y como no hay consenso entre ustedes sobre el nombre, decido yo: esta criatura se llamará Hombre (ser humano), es decir, hecho de humus, que significa tierra fértil”.

Veamos la singularidad de este mito. El cuidado es anterior a cualquier otra cosa. Es anterior al espíritu y anterior a la Tierra. En otras palabras, la concepción del ser humano como compuesto de espíritu y cuerpo no es originaria. El mito es claro al afirmar que “fue Cuidado el que primero moldeó la arcilla en forma de un ser humano”.

El cuidado aparece como el conjunto de factores sin los cuales el ser humano no existiría. El cuidado constituye esa fuerza original de la que brota y se alimenta el ser humano. Sin cuidado, el ser humano seguiría siendo sólo un muñeco de arcilla o un espíritu desencarnado y sin raíz en nuestra realidad terrestre.

Cuidado, al moldear al ser humano, empeñó amor, dedicación, devoción, sentimiento y corazón. Tales cualidades pasaron a la figura que él proyectó, es decir, a nosotros, los seres humanos. Estas dimensiones entraron en nuestra constitución como un ser amoroso, sensible, afectuoso, dedicado, cordial, fraternal y lleno de sentimiento. Esto hace que el ser humano emerja realmente como humano.

Cuidado recibió de Saturno la misión de cuidar al ser humano durante toda su vida. De lo contrario, sin cuidado, no subsistiría ni viviría. Efectivamente, todos somos hijos e hijas del infinito cuidado de nuestras madres. Si no nos hubieran acogido con cariño y cuidado, no hubiéramos sabido cómo salir de la cuna a buscar nuestra comida. En poco tiempo habríamos muerto, porque no tenemos ningún órgano especializado que garantice nuestra supervivencia.

El cuidado, por lo tanto, pertenece a la esencia del ser humano. Pero no sólo eso. Es la esencia de todos los seres, especialmente de los seres vivos. Si no los cuidamos, se marchitan, poco a poco van enfermando y finalmente mueren.

Lo mismo ocurre con la Madre Tierra y todo lo que existe en ella. Como bien dijo el Papa Francisco en su encíclica que tiene como subtítulo “Cuidando de la Casa Común”: “debemos alimentar la pasión por el cuidado del mundo”.

El cuidado es también una constante cosmológica. Bien dicen los cosmólogos y los astrofísicos: si las cuatro fuerzas que sostienen todo (la gravitatoria, la electromagnética, la nuclear débil y la nuclear fuerte) no se hubieran articulado con extremo cuidado, la expansión sería demasiado enrarecida y no habría densidad para originar el universo, nuestra Tierra y a nosotros mismos. O bien sería demasiado densa y todo explotaría en cadena y no existiría nada de lo que existe. Y ese cuidado preside el curso de las galaxias, las estrellas y todos los cuerpos celestes, la Luna, la Tierra y nosotros mismos.

Si vivimos la cultura y la ética del cuidado, asociado al espíritu de hermandad entre todos, también con los seres de la naturaleza, habremos colocado los fundamentos sobre los cuales se construirá un nuevo modo de relacionarnos y de vivir en la Casa Común, la Tierra. El cuidado es la gran medicina que nos puede salvar y la hermandad general nos permitirá la siempre deseada comensalidad y el amor y el afecto entre todos. Entonces continuaremos brillando y desarrollándonos en este bello planeta.

Esta consideración sobre el cuidado concierne a todos los que cuidan de la vida en su diversidad y del planeta, especialmente ahora, bajo la pandemia de la Covid-19: el cuerpo médico, los enfermeros y enfermeras y todo el personal que trabaja en los hospitales, pues el cuidado esencial cura las heridas pasadas, impide las futuras y garantiza nuestro futuro de nuestra civilización de hermanos y hermanas, juntos en la misma Casa Común.

 

Traducción de Mª José Gavito Milano