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Em um livro, o Papa e a alegria

Por Eugenio Bonanata e Giovanni Orsenigo

Em quase dez anos de pontificado, Francisco falou várias vezes sobre a alegria e agora será lançado o livro “La gioia” (A Alegria) que reúne vários pensamentos seus sobre o assunto. A introdução é de Mons. Dario Edoardo Viganò, que explica o significado desta atitude para os cristãos: “Não simples otimismo, mas sim a capacidade de olhar a história através do olhar de Deus”

“A alegria dos fiéis não é ingenuidade ou incapacidade de ver os problemas da história”. Mons. Dario Edoardo Viganò, vice-chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e das Ciências Sociais, ilustra assim o livro intitulado “A Alegria”, no qual escreveu a introdução. Um texto desejado pelo Papa, que reúne textos nos quais falou sobre este tema – extraído de encíclicas, homilias, discursos e mensagens – com o objetivo de dar ao leitor a oportunidade de embarcar no seu próprio caminho pessoal. “Não é um livro que se lê da primeira à última página, mas pode ser lido de forma desordenada”, explica Viganò. Na verdade, continua, “são textos que, especialmente neste momento de palavras gritadas, notícias terríveis e mortes, permitem alargar o coração, erguer o olhar e reapropriar-se da experiência de ser cristão”.

A alegria do vinho

“A Igreja é uma experiência de povo que vive a alegria”, esclarece o religioso, convidando-nos a refletir sobre a experiência das Bodas de Caná. A história do primeiro milagre de Jesus tem como ponto central o casamento, no qual, entretanto, falta um elemento importante, o vinho, que é um sinal de alegria. “Os jarros de purificação estão vazios”, sublinha o Viganò. E este é o símbolo de uma relação de amor agora consumada entre Deus e seu povo. Nem mesmo a lei e a purificação podem restaurar a paixão dessa relação. “É por isso que Jesus não está presente, mas é convidado”, continua. “De fato, é Cristo quem traz o vinho novo, sancionando assim uma aliança nova, eterna, última e definitiva”. Uma aliança que nasce neste primeiro grande milagre do vinho, ou seja, da alegria. É por isso que para Viganò “a Igreja é um povo de homens e mulheres que não vivem sob a Lei, mas que vivem na alegria de serem filhos e filhas de Deus”.

A alegria de viver do jeito de Deus

O dom do batismo nos permite receber a vida de Deus, tornando-nos assim filhos no seu filho Jesus. E isto nos torna capazes de viver as relações, em relação ao mundo ou a criação, no modo do Senhor. “Portanto a prioridade”, afirma, “não é o eu, mas sobretudo o outro, assim como é para Deus, cuja prioridade sempre foi o filho”. Ao contrário do que acontece com o ladrão crucificado no Calvário, que naquela ocasião diz a Jesus: ‘Se és realmente o Filho de Deus, salva-te a ti mesmo, e depois me salve também’. “Se não se vive a filiação em Deus”, continua Viganò, “os relacionamentos só serão instrumentais e funcionais, enquanto viver a alegria significa sentir a urgência de viver no modo de Deus”.

A estrutura narrativa

Para facilitar a leitura, o livro foi dividido em três áreas temáticas, ou melhor, em ‘três percursos de aproximação à alegria’, que são delineados a partir de três verbos: ‘ser’, ou seja, a identificação da alegria entendida como uma atitude pessoal e espiritual; ‘compartilhar’, que é a alegria no compromisso e na amizade social; ‘testemunhar’, que é a alegria de viver no modo de Deus. “Ler este livro”, assinala ainda, “é como caminhar nas páginas, da mesma forma que os discípulos de Emaús”. Nesta passagem do Evangelho, os discípulos só reconhecem Jesus ao partir o pão, mas se perguntam: ‘Será que ele não chega ao nosso coração enquanto conversa conosco?’ “O Espírito Santo”, conclui, “prepara o homem e a mulher para reconhecer o Senhor no ato de compartilhar o pão, mas ele trabalha antes disso, também quando estamos caminhando com uma pessoa que é desconhecida”.

Fonte: Vatican News

O Evangelho dissipa nossas trevas. Só nos basta cumprir os seus conselhos

O Evangelho dissipa nossas trevas. Só nos basta cumprir os seus conselhos

Antes de prosseguir estas linhas, trato de justificá-las, brevemente. O País se acha profundamente ameaçado, em sua gente e demais viventes. Qualquer atitude de silenciamento ou de omissão compromete nosso agir de cidadã(os) e de cristã(os), pela raiz. Diante de tantas e tão graves ameaças de aprofundamento da barbárie, não temos o direito de hesitar, de nos omitir. Diante dos ataques à Mâe-Natureza, aos povos originários, às mulheres, às crianças, às comunidades quilombolas, aos agricultores, aos trabalhadores em geral, entre outros alvos da barbárie, só nos cabe enfrentar esses riscos de aprofundamento.

Neste sentido, considerando a nociva eficácia do fundamentalismo religioso – tema sobre o qual já tivemos a oportunidade de refletir (cf. “A leitura popular da Bíblia: vacina contra o fundamentalismo religioso – http://textosdealdercalado.blogspot.com/2022/10/a-leitura-popular-da-biblia-vacina.html) -, tomamos a liberdade de rememorar alguns princípios evangélicos tão violentamente afrontados, em nossos dias.

 

‘’Esta gente Me louva com seus lábios

quão distante de Mim seu coração?’’ (Mt 15:8)

 

‘’ Não quem diz.. oh,Senhor! Oh,Senhor!

Mas quem cumpre a vontade de Meu Pai’’ (Mt 7:21)

 

’O maior testemunho de Amor

É de quem se dedica aos mais sofridos’

 

‘’Feroz lobo persegue Minha Gente

Por seus frutos vocês o reconhecem’’ (Mt 7:15)

 

Há quem fala em nome da verdade

Mas de dentro só saem mentiras graves

 

‘’Eu vim para que todos tenham vida

E a tenho, para todos,em abundância.”[Jo 10,10]

 

Grave risco ameaça nossa Gente

De quem mente e ataca os viventes

 

A mentira elevada ao seu extremo

Esvazia o caráter dos humanos

 

As mentiras que grassam sem controle

Do Maligno procedem, nâo de Deus

 

Quem à Mâe Natureza devastou,

Só demonstra desprezo aos viventes

 

Qual foi mesmo a atitude do Gestor

No período da trágica pandemia?

 

Que respeito devota o candidato

às Mulheres, aos Negros, aos Indígenas?

 

Quem acusa corrupto o adversário

O quê tem a dizer dos próprios crimes?

 

Quem tem mais condição de governar:

Quem respeita nossa Gente, ou quem é pária?

 

Quem descumpre tantas regras democráticas

Se eleito, desfará Democracia…

 

Votar mal uma vez, até se entende

Mas, querer o inferno u´a vez mais??!!…

 

João Pessoa, 25 de outubro de 20227

Papa Francisco: Santa Missa na solenidade de Pentecostes

Homilia do Papa Francisco

Na frase final do Evangelho que ouvimos, Jesus faz uma afirmação que nos dá esperança e, ao mesmo tempo, faz refletir. Diz Ele aos discípulos: «O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Esse é que vos ensinará tudo, e há de recordar-vos tudo o que Eu vos disse» (Jo 14, 26). Ficamos impressionados com este «tudo», perguntando-nos: Em que sentido dá o Espírito esta compreensão nova e plena a quem O recebe? Não é questão de quantidade, nem questão académica: Deus não quer fazer de nós enciclopédias, nem eruditos. Não. É questão de qualidade, de perspetiva, de intuito. O Espírito faz-nos ver tudo de modo novo, segundo o olhar de Jesus. Poderíamos expressá-lo assim: no grande caminho da vida, Ele ensina-nos donde começarque caminhos seguir e como caminhar. Temos o Espírito que nos diz donde começar, que caminhos seguir e como caminhar, o estilo «como caminhar».

Primeiro: donde começar. De facto, o Espírito indica-nos o ponto de partida da vida espiritual. E qual é? Disso nos falava Jesus pouco antes, quando diz: «Se me tendes amor, observareis os meus mandamentos» (14, 15). Se me amardes, observareis: esta é a lógica do Espírito. Muitas vezes pensamos ao contrário: se observarmos, amamos. Estamos habituados a pensar que o amor deriva, essencialmente, da nossa observância, da nossa perícia, da nossa religiosidade; ao passo que o Espírito nos lembra que, sem o amor na base, tudo o mais é vão e que este amor não nasce das nossas capacidades, este amor é dom d’Ele. Ele ensina-nos a amar, e devemos pedir este dom. É o Espírito de amor que põe em nós o amor, é Ele que nos faz sentir amados e nos ensina a amar. Ele é – por assim dizer – o «motor» da nossa vida espiritual. É Ele que move tudo a partir de dentro de nós. Mas, se não começamos do Espírito ou com o Espírito ou por meio do Espírito, não se consegue caminhar.

No-lo recorda Ele mesmo, porque é a memória de Deus, é Aquele que nos recorda todas as palavras de Jesus (cf. Jo 14, 26). E o Espírito Santo é uma memória ativa, que acende e reacende no coração a amizade a Deus. Experimentamos a sua presença no perdão dos pecados, quando ficamos repletos da sua paz, da sua liberdade, da sua consolação. É essencial alimentar esta memória espiritual. Sempre nos lembramos das coisas que correm mal: muitas vezes faz-se ouvir em nós a voz que nos recorda os fracassos e as inaptidões, dizendo-nos: «Vês? Outra queda, outra deceção! Nunca conseguirás, não és capaz!» Trata-se duma lengalenga antipática e ruim. O Espírito Santo, por outro lado, lembra outra bem diferente: «Caíste? Mas, és filho, és filha de Deus; és uma criatura única, eleita, preciosa, Caíste? Mas continuas a ser amado, amada. Ainda que tenhas perdido a confiança em ti próprio, Deus confia em ti!» Esta é a memória do Espírito, aquilo que o Espírito nos lembra continuamente: Deus lembra-Se de ti. Perderás a memória de Deus, mas Deus não a perde de ti: recorda-Se continuamente de ti.

Entretanto poder-te-ia vir a vontade de objetar: «Palavras belas! Mas eu tenho tantos problemas, feridas e preocupações, que não se resolvem com fáceis consolações». Ora é justamente neste ponto que o Espírito pede a possibilidade de entrar, porque Ele, o Consolador, é Espírito de cura, é Espírito de ressurreição, e pode transformar as feridas cuja ardida sentes dentro. Ensina-nos a não extirpar as recordações de pessoas e situações que nos fizeram mal, mas deixá-las habitar pela sua presença. Assim fez com os Apóstolos e os seus fracassos. Abandonaram Jesus antes da Paixão, Pedro negara-O, Paulo perseguira os cristãos: quantos erros, quantos sentimentos de culpa! E nós próprios? Quantos erros, quantos sentimentos de culpa! Sozinhos, não encontravam saída. Sozinhos, não; mas com o Consolador, sim! Porque o Espírito cura as recordações. É verdade! Cura as recordações. Como? Colocando no cimo da lista aquilo que conta: a recordação do amor de Deus, o seu olhar pousado sobre nós. Deste modo põe ordem na vida: ensina a acolher-nos, ensina-nos a perdoar, perdoar a nós próprios. Não é fácil perdoar-se a si mesmo: o Espírito ensina-nos esta estrada, ensina a reconciliar-nos com o passado. A recomeçar.

Além de nos recordar o ponto de partida, o Espírito ensina-nos que caminhos seguir. Primeiro lembrava-nos o ponto de partida, agora ensina-nos qual estrada seguir. Deduzimo-lo da segunda Leitura, onde São Paulo explica que «todos os que se deixam guiar pelo Espírito de Deus» «caminham, não segundo a carne, mas segundo o Espírito» (Rm 8, 14.4). Por outras palavras, nas encruzilhadas da vida, o Espírito sugere-nos o melhor caminho a seguir. Por isso, é importante saber discernir entre a voz d’Ele e a do espírito do mal. É que ambos nos falam. É preciso aprender a discernir e compreender onde está a voz do Espírito, para a identificar e seguir a estrada d’Ele, seguir as coisas que Ele está a dizer-nos.

Demos alguns exemplos: o Espírito Santo nunca te dirá que está tudo bem no teu caminho. Nunca to dirá, porque não é verdade. Ele corrige-te, leva-te também a chorar os próprios pecados; instiga-te a mudar, a lutar contra as tuas intrujices e duplicidades, embora tudo isso exija esforço, luta interior e sacrifício. O espírito mau, ao contrário, impele-te a fazer sempre o que te apetece e vem à cabeça; leva-te a crer que tens direito de usar da tua liberdade como te apetece. Depois, porém, quando ficas vazio por dentro… (faz-nos mal esta experiência de sentir o vazio dentro: muitos de nós a sentimos!) e tu quando ficas vazio por dentro, acusa-te: o espírito mau acusa-te, torna-se o acusador, e lança-te por terra, destrói-te. O Espírito Santo, que te corrige ao longo do caminho, nunca te deixa por terra, mas toma-te pela mão, consola-te e sempre te encoraja.

Depois, quando vires que giram dentro de ti amargura, pessimismo e pensamentos tristes (quantas vezes nos deixamos cair nisto!), quando acontecem estas coisas, é bom saber que isso nunca vem do Espírito Santo. Nunca! A amargura, o pessimismo, os pensamentos tristes não vêm do Espírito Santo. Vêm do maligno, que se sente à vontade na negatividade e recorre muitas vezes a esta estratégia: alimenta a impaciência, a vitimização, faz sentir a necessidade de lamentar-se – é feio este lamentar-se e, contudo, quantas vezes…! – e com a necessidade de lamentar-se vem a necessidade de reagir aos problemas criticando, dando a culpa toda aos outros. Torna-nos nervosos, desconfiados e lamurientos. A linguagem do espírito mau é precisamente a lamúria: ele leva-te à lamúria, que é estar sempre triste, com um espírito de funeral. As lamúrias… O Espírito Santo, pelo contrário, convida-nos a não perder jamais a confiança e recomeçar sempre: levanta-te! Levanta-te! Sempre te encoraja: levanta-te! E toma-te pela mão: levanta-te! E como recomeçar? Sendo nós os primeiros a descer em campo, sem esperar que comece outro qualquer. E, depois, levando àqueles que encontramos esperança e alegria, não lamúrias; convida-nos a nunca invejar os outros, nunca! A inveja é a porta por onde entra o espírito mau. Assim no-lo diz a Bíblia: pela inveja do diabo, entrou o mal no mundo. Nunca invejes, nunca! O Espírito Santo leva-te pelo bom caminho, fazendo com que te alegres com os sucessos dos outros. «Que bom! Isso correu-te bem!»

Além disso, o Espírito Santo não é idealista, mas concreto: quer que nos concentremos sobre o aqui e agora, porque o sítio onde estamos e o tempo que vivemos são os lugares da graça. O lugar da graça é o lugar concreto de hoje: aqui, agora. Como? Não são as fantasias que conseguimos pensar… O Espírito leva-te ao concreto, sempre. Ao contrário, o espírito do mal quer afastar-nos do aqui e do agora, levar-nos com a imaginação para outro lugar: muitas vezes ancora-nos ao passado, aos queixumes, às saudades, àquilo que a vida não nos deu; ou então projeta-nos para o futuro, alimentando temores, medos, ilusões, falsas esperanças. O Espírito Santo, não! Leva-nos a amar aqui e agora, em concreto: não um mundo ideal, uma Igreja ideal, não uma congregação religiosa ideal, mas aquilo que existe, à luz do sol, na transparência, na simplicidade. Quanta diferença do maligno, que fomenta as coisas ditas nas costas, as murmurações, as críticas! As críticas são um mau hábito, que destrói a identidade das pessoas.

O Espírito quer-nos juntos; funda-nos como Igreja e hoje – terceiro e último aspeto – ensina à Igreja o modo como caminhar. Os discípulos estavam fechados no Cenáculo; então o Espírito desce e fá-los sair. Sem o Espírito, estavam uns no meio dos outros; com o Espírito, abrem-se a todos. Em cada época, o Espírito transtorna os nossos esquemas e abre-nos à sua novidade. Temos sempre a novidade de Deus, que é a novidade do Espírito Santo; Ele sempre ensina à Igreja a necessidade vital de sair, a necessidade fisiológica de anunciar, de não ficar fechada em si mesma. Ensina a não ser um rebanho que reforça o recinto, mas uma pastagem aberta, para que todos possam alimentar-se da beleza de Deus; ensina a ser uma casa acolhedora, sem divisórias. O espírito mundano, pelo contrário, faz pressão para que nos concentremos apenas sobre os nossos problemas, sobre os nossos interesses, na necessidade de aparecermos relevantes, na defesa a todo o custo das nossas identificações nacionais e de grupo. O Espírito Santo, não! Convida a esquecer-se de si mesmo, a abrir-se a todos. E assim rejuvenesce a Igreja. Atenção! É Ele que a rejuvenesce, não nós. Nós procuramos apenas maquilhá-la um pouco: mas isto não resulta. É Ele que a rejuvenesce. Porque a Igreja não se programa, e os projetos de modernização não bastam. Temos o Espírito que nos liberta da obsessão das urgências e convida-nos a percorrer caminhos antigos e sempre novos, ou seja, os caminhos do testemunho, os caminhos da pobreza, os caminhos da missão, para libertar-nos de nós mesmos e enviar-nos ao mundo.

Mas no fim – curioso! – o Espírito Santo é o autor da divisão, até da confusão, duma certa desordem. Pensemos na manhã de Pentecostes: Ele é o autor que cria divisão de línguas, de atitudes… aquilo era uma confusão! Mas, ao mesmo tempo, é o autor da harmonia. Divide com a variedade dos carismas, mas uma divisão fictícia, porque a verdadeira divisão acaba inserida na harmonia. Faz a divisão com os carismas e faz a harmonia com toda esta divisão, e esta é a riqueza da Igreja.

Irmãos e irmãs, vamos à escola do Espírito Santo, para que nos ensine tudo. Invoquemo-Lo todos os dias, para que nos lembre de começar sempre do olhar de Deus pousado sobre nós, mover-nos nas nossas escolhas escutando a sua voz, caminhar juntos, como Igreja, dóceis a Ele e abertos ao mundo. Assim seja.

Fonte: Vatican News

(05/06/2022)

 

 

Lo Femenino y el Espíritu Santo

Es convicción de fe de los cristianos que el Hijo de Dios-Padre se encarnó en el hombre Jesús de Nazaret. Así la encarnación, bien representada en la fiesta de Navidad, es una de las celebraciones principales de la cristiandad.

Casi nunca pensamos en la “encarnación” del Espíritu Santo. Al contrario, nos concentramos más en la fiesta de Pentecostés, que recuerda la venida del Espíritu Santo sobre los Apóstoles reunidos en el cenáculo. Sobre todos los que estaban con ellos, de varias procedencias y que hablaban las más distintas lenguas, una especie de lengua de fuego descendió sobre sus cabezas. Todos entendierom el mismo mensaje como si hubiese sido dicho en la lengua de cada uno.

Esta fiesta de Pentecostés nos ofrece la oportunidad de profundizar en el significado del Espíritu en la humanidad y en la creación.

Pensándolo bien, el Espíritu estaba siempre en el mundo. El primer capítulo del Génesis refiere que el Espíritu se cernía sobre el desierto, el vacío y las tinieblas primigenias (touwaboú en hebreo) y dio origen y ordenó todas las cosas creadas. El amor, la bondad, la solidaridad, la compasión y todas las demás virtudes tienen que ver con el Espíritu Santo. Estas realidades se encuentran en todos los pueblos de la Tierra. Por eso se dice que el   Espíritu Santo llega antes que el misionero. Este ya encuentra la presencia del Espíritu en aquellas  realidades tan humanas. El evangelio viene a confirmarlas y consolidarlas.

Y aquí surge la pregunta: un hombre, Jesús de Nazaret, fue divinizado por la encarnación del Hijo  eterno, pero ¿qué pasa con la mujer? Para el equilibrio de la propia autocomunicación de Dios (revelación), ¿no sería conveniente divinizar también a la mujer? Así lo masculino y lo femenino (animus y anima), la totalidad del fenómeno humano, comenzaría a pertenecer al propio Dios. Toda la humanidad sería entronizada en la Suprema Realidad.

Esta reflexión tiene cierta actualidad, pues vivimos bajo la eventual amenaza de desaparición de la especie humana debido a nuestra propia irresponsabilidad, por haber destruido las condiciones físico-químico-ecológicas que sustentan nuestra vida. Si por un acaso esto llegase a suceder, podemos decir que algo nuestro, lo masculino y lo femenino,em Jesús y María están ya eternizados y habríamos alcanzado el punto Omega de la antropogénesis.

Por tanto, algo nuestro jamás desaparecerá, lo que fundamenta la esperanza de que tampoco nosotros vamos a desaparecer.

Retomando el tema, podemos decir que una mujer, Miriam de Nazaret, fue también elevada a la altura de la divinidad. No soy yo quien lo dice, sino el mismo evangelista san Lucas, cuando es leído con ojos no patriarcales. De hecho, él dice: “El Espíritu Santo vendrá sobre ti y la fuerza del Altísimo armará su tienda sobre ti y por eso el Santo que de ti nacerá será llamado Hijo de Dios” (1,35).

Tenemos que leer el texto en su original griego para entender el mensaje ahí revelado. Entonces nos damos cuenta de que el evangelista Lucas usa la misma palabra con referencia a Miriam que el evangelista Juan usa refiriéndose a Jesús. Ambos usan la expresión “tienda” (skené en griego) para expresar la morada permanente, no fugaz, sea del Hijo sea del Espíritu Santo.

Lucas dirá que el Espíritu Santo “armará su tienda” (episkiásei: 1,35) sobre María. Juan dirá también “que el Logos (Hijo) armó su tienda entre nosotros” (eskénosen: Jn 1,14). Como puede verse, subyace a esos verbos la misma expresión, skené: morada permanente, personal y duradera de las divinas Personas, ya sea sobre el hombre Jesús o sobre la mujer Miriam. “Por eso” (diò kaì) lo que nacerá de ella es Hijo de Dios”.

Sólo es Hijo de Dios quien nace de alguien que ha sido elevado a la altura de Dios. Fue lo que ocurrió con Miriam de Nazaret. Sólo es posible la venida del Hijo de Dios-Padre encarnándose en Jesús porque antes ocurrió la venida del Espíritu, que asumió a la mujer, Miriam, que gestó al Hijo de Dios-Padre. De aquí que la primera Persona divina en venir a este mundo no fue el Hijo sino el Espíritu Santo.

Por todo esto nos es concedido afirmar que una mujer ha sido también divinizada. Así llegamos a un perfecto equilibrio humano-divino. Lo masculino a través de Jesús y lo femenino a través de Miriam forman parte del misterio de Dios. Ya no podremos hablar de Dios sin hablar del hombre y de la mujer. Ni tampoco podremos hablar del hombre y de la mujer sin hablar de Dios.

Se nos escapa lo que significa, en su última radicalidad, esta imbricación divino-humana, masculino-femenino y las dos divinas Personas. Son misterios que remiten a otros misterios; misterios no como límite de la razón sino como lo ilimitado de la razón, misterios que no dan miedo cual abismos aterradores sino que extasían como las cumbres de las montañas. En el fondo se trata de un único Misterio de comunión y de donación, de ternura y de amor en el cual Dios y los seres humanos estamos indisolublemente envueltos.

Sé que hay feministas que no aceptan este tipo de reflexión y alegan que no necesitan la divinización para ser plenamente mujeres. Yo solo hago esta consideración: “te estoy mostrando una estrella; si no puedes verla, no es por culpa de la estrella sino de tus ojos”. La oferta de sentido sigue siendo válida.

El Espíritu no restringe su presencia solo a lo femenino, comenzando por Miriam de Nazaret, sino que en cierta forma tiene una presencia cósmica. Dice un antiguo dicho: “El Espíritu duerme en la piedra, sueña en la flor, despierta en los animales y siente y sabe que está despierto en el ser humano”.

De esta forma, la historia del mundo y del universo es la historia de la acción creativa y siempre dinámica del Espíritu rumbo a una plenitud siempre ansiada que un día, así lo esperamos, se va a realizar.

Traducción de Mª José Gavito Milano

(04/06/2022)

Nos caracóis da vida, o sopro do Amor Divino

Hoje, a liturgia das Igrejas celebra a festa de Pentecostes, ou seja, o quinquagésimo dia da Páscoa. É como a conclusão da festa e ao mesmo tempo o seu fruto mais profundo: a manifestação do Espírito Santo, a ventania do Amor Divino sobre todo o universo. Nas celebrações deste dia, se sobressaem duas leituras.

A primeira tirada do capítulo 2 dos Atos dos Apóstolos que conta o que aconteceu na festa judaica de Pentecostes, em Jerusalém, 50 dias depois da Páscoa, marcada pela morte e ressurreição de Jesus. A outra leitura do evangelho de João (Jo 20, 19- 23) já foi meditada no 2º Domingo da Páscoa, agora retomada porque, de acordo com o quarto evangelho, Cruz, Páscoa e Pentecostes é uma coisa só. O evangelho diz que, Jesus na cruz, entregou o seu Espírito e conta que na tarde do domingo da Ressurreição, o Cristo Ressuscitado soprou sobre os discípulos e discípulas reunidos/as e lhes deu o Espírito Santo.

Na espiritualidade judaica, a festa de Pentecostes começou nos últimos períodos do primeiro testamento, como ação de graças pela aliança de Deus no Sinai. No meio do deserto, Deus casou com Israel para expressar seu projeto de casar com a humanidade toda.

Conforme o evangelho de João, o Espírito Santo se manifestou sobre a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus em uma casa onde estavam reunidos. Não foi no templo, nem em alguma sinagoga. Foi no cotidiano da vida e onde as pessoas moram. O evangelho diz que aquelas pessoas estavam ali reunidas, de portas fechadas, como clandestinamente.  A manifestação do Espírito sobre a comunidade dos discípulos e discípulas foi o começo de um movimento novo e subversivo em relação à religião vigente e ao sistema político dominante. Esse é o espírito de Pentecostes que devemos revitalizar hoje.

Nesse novo Pentecostes, no lugar das chamas de fogo, dos trovões e relâmpagos que desciam sobre a montanha do Sinai, o sinal do Espírito foi o que o texto dos Atos chama de “línguas de fogo” para revelar que o primeiro dom do Espírito é a comunicação. De fato, conforme a primeira leitura da celebração de hoje, (Atos 2), naquele mesmo instante, ali se juntou uma pequena multidão; pessoas de várias nacionalidades e culturas. Diz o texto: “todos escutavam os apóstolos e os compreendiam como se eles estivessem falando a língua de cada um”.

Em geral, sofremos mais pelos desentendimentos que temos no dia a dia, com pessoas que falam a mesma língua do que pela dificuldade da comunicação em outros idiomas. O Espírito Santo nos dá a graça de nos compreender. Faz conosco o contrário de Babel (Gen 11). Lá, o propósito dominador e imperial (Babel era Babilônia) levou à divisão e à destruição. Em Pentecostes, o Espírito suscita unidade e a construção de uma nova comunhão. O Espírito Santo nos inspira na linha da decolonização.  Não é o imperialismo que se impõe, mas ao contrário, a abertura a todas as culturas.

O Evangelho (João 20, 19- 23) nos diz que o dom do Espírito é consequência da ressurreição de Jesus. O Ressuscitado nos dá a paz, nos devolve a alegria, nos confirma o perdão de Deus e pede que sejamos testemunhas deste perdão. “Recebam o Espírito. A quem perdoarem…”

 Jesus Ressuscitado diz à comunidade: “A quem vocês ligarem o pecado será ligado e a quem desligarem será desligado”. Ao dizer isso, Ele não está abrindo a possibilidade da comunidade não perdoar alguém. Temos de perdoar a todos e todas. O que Ele diz é que o Espírito de Deus dá à comunidade a capacidade de “ligar e desligar” a pessoa do pecado: responsabilizar ou desresponsabilizar. O perdão é gratuito, mas é preciso refazer o que foi destruído. Ele nos diz: “A responsabilidade das divisões e das guerras é do modo como vocês organizam este mundo”. Ele nos perdoa totalmente, mas nos dá a tarefa de nos empenhar e nos consagrar como testemunhas e construtores da paz.

No mundo atual são os povos originários que têm dado ao mundo o exemplo de uma organização própria baseada no bem-viver. Após uma luta muito sofrida e dolorosa, os indígenas do Sul do México conseguiram o direito de se organizar de forma autônoma, não como um país diferente, mas como Caracoles, isso é, organizações comunitárias circulares (como um caracol) que, através do diálogo e de relações horizontais, se responsabilizam pelo bem-comum. Podemos reconhecer nesta forma de organização uma inspiração do Espírito. A sociedade em que vivemos exclui a maioria das pessoas e privilegia uma pequena elite. Como seria importante que acolhêssemos o dom do Espírito neste novo Pentecostes como inspiração para nos organizarmos de forma mais autônoma e responsável.

Conforme o costume da Igreja, neste dia, começamos a celebração de Pentecostes, com um salmo cujo refrão é inspirado no livro da Sabedoria: “O Espírito do Senhor, o universo todo encheu, tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia, aleluia“(Sb 1, 7).

Neste 05 de junho, a ONU celebra o dia mundial do ambiente. Conforme a exegese mais profunda, nos textos bíblicos mais antigos, o termo hebraico Ruah, Espírito, era a atmosfera que nos cerca. Corresponde ao que os povos andinos chamam de Pacha-Mama, a Mãe Terra (e Ruah em hebraico é feminino). E também pode ser compreendido no sentido do Axé das comunidades de matriz africana. Podemos afirmar sem medo de errar que a Ruah Divina corresponde ao que, na Laudato Si, encíclica publicada na festa de Pentecostes de 2015,  o papa Francisco chama de “Ecologia Integral”, presença divina no universo e que nos chama como energia amorosa ao cuidado e à unidade de toda a comunidade da vida.

Comunidades cristãs e corpos políticos, em diálogo, à luz do Movimento de Jesus

Por Hermínio Canova

( 11a Semana Teológica Pe. José Comblin, em 2021. Texto provisório e certamente incompleto).

  1. As Comunidades Cristãs.

Quanto às Comunidades Cristãs ou Grupos de Jesus entendemos e tomamos como primeira referência: o grupo dos apóstolos ( comunidade itinerante de Jesus), e o grupo das mulheres que também seguiam Jesus e ajudavam na manutenção e na sobrevivência do grupo itinerante e missionário.

Outras referências, ainda no tempo de Jesus, são: a comunidade que se reunia na casa de Pedro, em Cafarnaum e também a comunidade que se reunia na casa da líder e animadora Marta, em Betânia, nos arredores de Jerusalém.

Outra referência neste tema é a experiência das Comunidades ainda nos tempos apostólicos, comunidades anteriores ás igrejas, que nasceram e se espalharam na Síria e nas costas do mar Mediterrâneo, no período considerado aproximadamente do primeiro século, dos anos 30 até os anos 80 ou 90.

Uma outra referência, para este estudo sobre as comunidades cristãs, é a experiência, muito mais recente, nestes últimos 50 anos, das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil e na América Latina.

 

  1. Os corpos políticos.

E quando falamos em ‘Corpos Políticos` entendemos os grupos que na sociedade estruturada e dinâmica do capitalismo sofrem marginalização, discriminação e vulnerabilidade, mas que lutam pela liberdade e pela afirmação de sua identidade ou por políticas públicas alternativas e de integração social. São os grupos agregados aos movimentos sociais, grupos de Gênero e de Mulheres, etnias, comunidades de quilombolas e de afrodescendentes, comunidades de favelados, grupos de LGBT, mulheres vítimas da prostituição e do tráfico, grupos do povo de rua.

 

  1. Como as Comunidades Cristãs vem se aproximando, hoje, a estes grupos que vivem numa situação de vulnerabilidade e são considerados, de modo injustificável, de pouca relevância sócio-política? Como estes grupos são incorporados ou não às comunidades cristãs? Como estes grupos, muitas vezes chamados de minorias, mas que na verdade às vezes são maiorias, importam para as comunidades das igrejas de hoje?

 

  1. Corpos Políticos é uma formulação relativamente nova, juntando duas palavras antigas, corpo e política. Corpo como um conjunto de órgãos e membros que vivem uma unidade vital, e política que remete necessariamente ao conceito de poder. Portanto pensar logo como empoderar estes grupos socialmente fragilizados, como dialogar com eles, como valorizar e promover a capacidade de protagonismo destes grupos que na sociedade são considerados como inferiores, incapazes, e no final, muitas vezes, são contemplados como destinatários de ações meramente assistenciais?

 

  1. A prática de Jesus.

Jesus quis formar “comunidade” exatamente com aqueles que eram excluídos da comunidade ou que eram desconsiderados do ponto de vista religioso. Na sua mensagem, e mais ainda na sua ação concreta, Jesus deixa claro que não reconhece delimitações e desclassificações de caráter religioso-social. O Reino de Deus não tolera classes e, em princípio, está aberto para todas as pessoas. Jesus se dirigia aos ricos e aos pobres, às pessoas cultas e às incultas, à população rural da Galiléia e à população urbana de Jerusalém, aos que tem saúde e aos doentes, aos justos e aos pecadores. Mas podemos afirmar que Jesus tomou partido em favor dos pobres, dos famintos, dos que choram, dos que estão sobrecarregados, dos doentes, dos pecadores, dos cobradores de impostos, das prostitutas, dos samaritanos, das mulheres, das crianças, e fez isso porque a sociedade do seu tempo negava a estes grupos a igualdade e até a convivência.

 

  1. Na obra de José Comblin.

Nos ajuda nesta memória da mensagem e da prática de Jesus, a reflexão deste teólogo, sobretudo nas paginas de 251 a 260 do livro póstumo (O Espírito Santo e a Tradição de Jesus). A missão de Jesus refere-se fundamentalmente aos doentes e aos pecadores, diz Comblin. O Espírito Santo inspira Jesus a curar os doentes e a perdoar os pecados. Mas de que pecado se trata? Quem são todos estes pecadores que encontramos nos evangelhos?

Os “pecadores” eram párias sociais. As pessoas, que por qualquer motivo se desviasse da lei e dos costumes tradicionais da classe média (os educados e os virtuosos, os escribas e os fariseus), eram tratadas como inferiores, como classe baixa, como pecadores. No tempo de Jesus, os pecadores eram uma classe social bem definida, a classe social dos pobres no sentido amplo. Estavam incluídos aqueles que tinham profissões pecaminosas ou impuras: prostitutas, coletores de impostos (publicanos), ladrões, pastores de rebanhos, usurários e jogadores. A categoria dos pecadores incluía também os que não pagavam o dízimo aos sacerdotes e os que eram negligentes na observância do repouso do sábado e da pureza ritual.

Não havia praticamente saída alguma para o pecador e a pecadora. Na teoria a prostituta podia se tornar pura novamente por meio de um complicado processo de arrependimento, purificação e reparação. Mas isso custava dinheiro, e seu dinheiro mal ganho não podia ser usado para esse fim. Seu dinheiro era corrompido e impuro.

Diante deste quadro, Jesus perdoava. Perdoou à prostituta que regou seus pés com as lágrimas, perdoou ao paralítico curado da enfermidade. Substituiu a tradição religiosa eclesiástica com a Tradição evangélica. Denunciando toda forma de opressão e discriminação, Jesus entra em conflito com as autoridades religiosas do seu povo.

 

  1. As Comunidades do Movimento, no primeiro século.

Neste período, sobretudo dos anos 30 aos anos 80, aparece a experiência originária e original das comunidades, fundadas na área do mar Mediterrâneo, nos territórios do império romano. Foram os apóstolos os grandes fundadores, mas também Paulo, Maria Madalena, Priscila, Timóteo, Febe, Tecla, Barnabé, e outros e outras. Nas comunidades encontrava-se gente pobre, trabalhadores , escravos, mulheres, pequenos comerciantes que se reuniam nas casas para a oração e a partilha do pão. Não faltavam pessoas de classe alta convertidas a Cristo, decididas de pertencer ao Movimento e que muitas vezes colocavam seus bens a serviço do grupo e dos pobres. Na cidade de Roma, capital do mundo de então, constituída por um luxuoso centro imperial rodeado de favelas e de habitações dos escravos, foi notável a experiência das Matronas romanas , mulheres da classe alta, convertidas a Cristo, que ajudavam os pobres e os acolhiam, em tempo de liberdade, em suas amplas casas para as reuniões de oração e para a celebração da partilha do Pão. Em tempos de perseguição, todos deviam frequentar (!) as catacumbas. Na comunidade de Corinto, na Grécia, prevaleciam representantes da classe trabalhadora que ganhavam o pão no trabalho pesado do porto. Em Filipos, um grupo de lavadeiras se reuniam para a oração na casa de Lídia, comerciante de tecidos.

O Movimento de Jesus não tolerava classes e era aberto a todos que na fé em Jesus optavam pela partilha no amor fraterno. Representantes da classe média, mestres e filósofos, tinham entrado nas comunidades do Movimento. Lembramos que já no grupo de Jesus estava Joana, esposa de um alto funcionário da corte do rei Herodes e que ajudava e acompanhava fielmente o grupo de Jesus. No período das comunidades dos primórdios, se destacava o romano intelectual Justino, que convertido se tornou um importante filosofo cristão. Nestas Comunidades dos primeiros tempos, não faltavam conflitos internos, discussões entre grupos de cultura e de classe diferentes. A famosa Comunidade de Corinto, que nas reuniões tolerava que gente abastada comesse bem e gente pobre comesse pouco ou nada, recebeu de Paulo uma dura e merecida repreensão!

 

  1. “CEBs ontem e hoje”.

É este o título do relevante trabalho, publicado em livro, de Elenilson Delmiro Santos, de João Pessoa (PB). Ele acrescentou ao título: “ascensão, declínio e reinvenção”, para contar a história da CEBs nestes últimos 50 anos e para refletir sobre ela com pesquisa e aprofundamento acadêmico. Das CEBs dos anos de 1970 e começo dos anos de 1980, até a pergunta sobre a possibilidade do papa Francisco propor novamente uma Igreja de comunidades e na opção pelos pobres: é esta a trajetória do livro de Elenilson. Nos anos de 1970, as Comunidades Eclesiais de Base, Comunidades do primeiro amor!, se espalhavam e cresciam no meio popular, no campo e na cidade, com um bom acompanhamento de assessores/teólogos , com muita formação dos animadores e animadoras, e com o apoio de bispos como dom José Maria Pires que convidava a Igreja a caminhar “do centro para as margens”, como ele dizia. Era o tempo da aplicação ou melhor da reinvenção do Concílio Vaticano II em América Latina. “O conceito de Povo de Deus (definição surpreendente decidida naquele Concílio) fornecia a porta de entrada para uma Igreja dos pobres (na América Latina)…..e depois do Vaticano II, foram criadas as condições para que houvesse um florescimento das comunidades eclesiais de base (CEBs) tanto na África quanto na América Latina, com o apoio de Medellin” .(afirmação de José Comblin).

A leitura do livro de Elenilson acalma nossa sede de conhecimento profundo da saga das CEBs no Brasil, do seu crescimento, da crise e da oposição sofrida dentro da Igreja, como também da sua reinterpretação e sobrevivência até os dias de hoje.

 

  1. Algumas conclusões.

É bom notar que nas Comunidades do tempo apostólico (primeiro século) não se tratava de buscar um diálogo com os grupos marginalizados e vulneráveis; não se tratava de diálogo, pois algo mais profundo e radical estava acontecendo. Os pobres se reuniam em comunidades que formavam o Movimento, ajudados por alguém que tinha mais possibilidade econômica e social, e que garantia alguma ajuda e proteção. As próprias Comunidades eram “ corpos políticos”, grupos às margens da sociedade, grupos vulneráveis e muitas vezes terrivelmente discriminados e perseguidos. Também não me parece que tenha sido, naquele tempo, uma experiência de um pauperismo radical ou de uma religião fundamentalista. Talvez a chave de leitura do Cristianismo originário vivido naquelas primeiras Comunidades seja a “marginalidade”, não a marginalização; marginalidade que levou aqueles grupos cristãos a imaginar novas práticas, novas relações, novas identidades e valores. Um estudo mais crítico do cristianismo das origens coloca sérios desafios ao nosso cristianismo de hoje.

 

Hoje, muitas igrejas e comunidades estão fechadas aos pobres, realizam cultos e cobram dízimos, e muitas aderem ao fundamentalismo político. A sociedade atual é profundamente desigual, e os corpos políticos, em quanto grupos vulneráveis, buscam direitos e respeito, sob o olhar irado das elites políticas.

 

  1. Perguntas para as Comunidades e os grupos Cristãos de hoje.

– as Comunidades Cristãs são capazes, hoje, de dialogar com estes Corpos Políticos?

– as Comunidades e os Grupos Cristãos, perderam a capacidade de serem “fermento na massa”?

– estes grupos políticos vulneráveis, muitas vezes, carregam notáveis valores de humanidade, de solidariedade e de partilha do necessário. “Estão” no Caminho, pois vivenciam os valores do Reino.

– desejo ou sonho de muitos cristãos é de evangelizar ou cristianizar estes Corpos; ou será que são eles que devem se deixarem evangelizar por estes Corpos Políticos? A pergunta penetra fundo em nós: estamos falhando de ser cristãos?

Fonte: Teologia Nordeste

(15-05-2021)