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Qual é a melhor arma para a defesa pessoal da sua casa?

A tal da defesa pessoal vitimou mais 20 crianças.

O site gunsandammo.com (“Armas e munição”) tem a resposta:

“Uma maneira de [descobrir] é pedir a um grupo de atiradores o que eles acham que é a melhor arma para a defesa interna [‘home defense’]. Há anos que o argumento foi dividido em dois campos: a pistola de multidão [‘pistol crowd’] ou a espingarda de multidão [‘shotgun crowd’] (…).” (leia aqui)

A espingarda parece ser a mais indicada – talvez não somente para a defesa interna, mas também para acabar com a vida – segundo a agência de notícias AP – de 27 pessoas na pequena cidade de Newtown, no Estado estadunidense de Connecticut. Pelo menos 20 eram crianças. (Os primeiros detalhes aqui)

Pela Internet e em documentários sobre o tema, é fácil entender a dúvida – um norte-americano pode, muitas vezes, comprar mais facilmente uma arma do que um dispositivo móvel de última geração. Isso porque é inclusive mais barato, na maior parte dos casos, e a burocracia é uma das que mais beneficiam, em todo o mundo, o “direito à autodefesa”.

É uma pena que centenas e centenas de publicações em todo o mundo passarão a se dedicar sobre os mais minuciosos elementos psicológicos do atirador. O fato é que, se ele não tivesse tal “liberdade”, não teria duas armas à disposição.

A foto é do referido site, com a legenda “Advances in bullet technology make the .223 an excellent choice for home defense.” (‘Avanços na tecnologia de bala fazem da .223 uma excelente escolha para a defesa interna.’)

Em 2010, 13% do total das mortes por armas de fogo aconteceram no Brasil

35 mil pessoas morreram vítimas de arma de fogo no Brasil em 2010. Falta de fiscalização facilita o comércio ilegal de armas. E as empresas do setor não estão nem aí para o problema. “Eles vendem para qualquer um”, afirma um especialista.

Leia relato na íntegra de seminário sobre o tema ocorrido nesta segunda-feira (14/12) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ).

Em 2010, 13% do total das mortes por armas de fogo aconteceram no Brasil

35 mil pessoas morreram vítimas de arma de fogo no Brasil em 2010. Falta de fiscalização facilita o comércio ilegal de armas. E as empresas do setor não estão nem aí para o problema. “Eles vendem para qualquer um”, afirma um especialista.

Leia relato na íntegra de seminário sobre o tema ocorrido nesta segunda-feira (14/12) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ).

Brasil precisa apertar o cerco contra armas; Segundo deputado, 100% da munição usada por criminosos é produzida no Brasil

Da Rádio Bandeirantes, 08/11/2011

O Estado precisa apertar o cerco contra a produção no Brasil de munição para armas pesadas usadas por traficantes. A opinião é de Marcelo Freixo, deputado estadual do Rio de Janeiro pelo Psol e presidente da CPI das Armas e Munições da Assembleia Legislativa fluminense. Ele está refugiado fora do país por ter recebido uma série de ameaças de morte.

Em entrevista a José Luis Datena, na Rádio Bandeirantes, Freixo informou que 100% das munições usadas no Brasil pelos bandidos são produzidas no próprio país, fundamentalmente pela CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos). “Combater apenas o comércio é um erro de estratégia”, afirma.

Ouça a entrevista de Marcelo Freixo na Rádio Bandeirantes:
[audio:http://www.radiobandeirantes.com.br/audios_rb/11_11/111108_mnb_marcelo_freixo.mp3%5D

O parlamentar diz que também é preciso aumentar a integração entre as ações do Exército e das polícias Federal e Civil nas regiões de fronteira com outros países, para impedir a entrada de armas como as usadas pelos traficantes cariocas.

Armas leves são decisivas para aumenta da violência, confirma relatório da ONU; Rio não controla arsenais

ONU publica estudo confirmando que armas leves e descontrole de armas e munições por parte do Estado aumenta violência. Segundo o Ministério Público Federal, no Rio de Janeiro só havia sete inquéritos sobre o tráfico de armas na Polícia Federal em 2009 – classificados pelos procuradores do MPF como ''superficiais, frágeis e presos a situações do varejo do comércio ilícito de armas''.

A violência pode assumir “proporções assustadoras” em comunidades em que a circulação de armas é grande. A afirmação parece óbvia – e é. Mas chama a atenção o fato de ocorrer por meio de um relatório de 2006, publicado pela ONU em Genebra, de autoria de um brasileiro.

A conclusão está no Relatório Mundial sobre Violência contra Crianças, elaborado pelo então Especialista Independente para o Estudo sobre Violência contra as Crianças, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro. Nesta segunda (25), o Secretário-Geral da ONU, em uma reunião no Conselho de Segurança em Nova Iorque, voltou a falar no tema, desta vez em relatório próprio.

Ele lembrou que o relatório de Pinheiro havia recomendado que os países “desenvolvessem uma ampla política de prevenção para reduzir a demanda e o acesso a armas”, um passo estratégico para a “redução de fatores ambientais que contribuam para a violência contra as crianças nas comunidades”.

Ainda segundo o relatório do Secretário-Geral,

“(…)o controle de arsenais de munições convencionais continua também a representar um grave problema. O controle inadequado dos estoques de munições é responsável por uma parte substancial do abastecimento dos mercados ilegais. O fácil acesso a munições é ‘um fator-chave’ para permitir todas as formas de violência armada, incluindo o crime. Além disso, nas últimas décadas, explosões acidentais provocadas pelo armazenamento ou gestão inadequada de estoques de munições aconteceram em mais de 50 países, resultando em um elevado número de vítimas, e na destruição de infraestruturas e do meio ambiente.”

No Rio de Janeiro, este problema continuará ainda por muitos anos, visto que

“As falhas de comunicação no que se refere a armas, munições e explosivos apreendidos no Estado do Rio de Janeiro não se limitam ao relacionamento entre Polícia Federal e Exército. As informações não circulam sequer entre as delegacias da Polícia Civil. A Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) não tem acesso a todos os laudos descritivos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli; não há sistema de cruzamento dos dados das diferentes delegacias e muito menos há um padrão estabelecido de rastreamento de armamento nas instituições da segurança pública estadual.

A diretora da Drae, a delegada Bárbara Lomba, confirmou que o rastreamento não é uma rotina. Ela apontou a importância da concentração desse trabalho na Drae, mas lamentou a dificuldade na obtenção de dados referentes a outras fontes da própria segurança pública estadual. “Para garantir o rastreamento, é preciso que as informações se falem e isso não ocorre entre as delegacias”, disse a delegada, referindo-se a essa necessidade de compartilhamento de dados. Bárbara também defendeu a unificação dos bancos de dados hoje administrados, separadamente, pela Polícia Civil, pela Polícia Federal e pelo Exército. “A Polícia Civil não tem acesso às informações sobre o mercado de armas do Rio de Janeiro, informação de domínio federal”, acusou.”

Outros dois procuradores do Ministério Público Federal, Fábio Seghese e Marcelo Freire, prestaram depoimento à CPI das Armas na semana passada. Eles relataram que enviaram oito ofícios, todos sem resposta, à Polícia Federal, sobre o rastreamento de uma determinada arma. Por estes e outros fatores, o Ministério Público Federal criticou a Polícia Federal do Rio de Janeiro por não investigar a fundo o tráfico de armas, munição e explosivos no estado.

“Autores de inquérito civil público instaurado para apuração de falhas da PF na ação contra o tráfico de armas no Rio de Janeiro, os procuradores Fábio Seghese e Marcelo Freire afirmaram que não falta à PF recursos de pessoal ou de tecnologia, mas, sim, vontade política para eleger essa questão como prioritária. Eles fundamentaram suas críticas à PF com base na investigação referente ao inquérito 137/2009, que resultou no indiciamento de um ex-superintendente da PF no Rio por improbidade.

Os procuradores apresentaram como sinal da fragilidade da PF do Rio em relação ao tráfico de armas o fato de só terem encontrado sete inquéritos sobre o assunto no ano de 2009. Assim mesmo, segundo eles, estes resultaram superficiais, frágeis e presos a situações do varejo do comércio ilícito de armas, sem qualquer avanço no sentido da elucidação do funcionamento sistemático do tráfico e de seus mecanismos de atuação, assim como da identificação dos grandes atores desse mercado criminoso. “Há poucas informações nesses inquéritos, de baixa qualidade, e assim mesmo se referem só ao varejo”, disse Seghese.”

A investigação dos procuradores provocou a Operação Patente, de repressão ao tráfico de armas, em dezembro de 2009. “É um mercado especializado, que exige a participação de terceiros para trazer de fora os armamentos e que para isso envolve a corrupção”, disse Freire. Segundo ele, na análise de 16 mil armas apreendidas, verificou-se que 15% eram de origem estrangeira. “A corrupção policial é um questão estrutural, que precisa ser atacada pela CPI das Armas do Rio. Houve uma série de questões nas quais a CPI nacional não tocou e que devem ser tocados na CPI da Alerj”, defendeu Seghese.

Os procuradores defenderam como proposta a ser apresentada pela Comissão a criação de uma promotoria especializada no controle externo da polícia. Outra proposta dos procuradores diz respeito à integração das bases cadastrais de armas no país, hoje divididas nos sistemas Sinarm, sob o encargo da PF, e Sigma, do Exército.

O presidente da CPI das Armas, deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), questionou:

“Para onde vão as armas de firmas de segurança que fecham as suas portas? Qual o controle sobre as armas em poder dessas empresas (…) Os traficantes de armas agradecem muito essa falta de estrutura da Polícia Federal para o enfrentamento do tráfico de armas, munições e explosivos. Acho, inclusive, que concentrar esse enfrentamento só nas fronteiras é uma cortina de fumaça, pois é preciso apurar o que ocorre com as armas dentro do próprio estado, além da questão da munição, que permanece como uma questão invisível no debate sobre armamento. É só olharmos o caso de Realengo, no qual houve foco para as armas usadas pelo atirador, mas quase nada se falou sobre a farta quantidade de munição empregada no crime”.

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MULHERES INDÍGENAS. Embora a América Latina tenha feito progressos no reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e das mulheres, “ainda é grande” a diferença entre esse reconhecimento e o pleno exercício dos direitos. A afirmação é de Mirna Kay Cunningham Kaimla, presidente da Comissão dos Povos Indígenas das Nações Unidas.

Ela disse que, embora o respeito a esses direitos é uma responsabilidade partilhada e que deve progredir no campo cultural, também é “inegável que os Estados tenham uma responsabilidade maior nessa tarefa”, visto que “são eles que, desde a concepção e implementação de políticas públicas, podem reforçar as leis sobre o tema”.

Leia mais na matéria de José Antonio Román no ‘La Jornada’.

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AUTORITARISMO NA OSB. A direção da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) acaba de demitir de forma arbitrária 37 músicos.

Só na última terça 19, quatro músicos foram postos na rua, entre eles a presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro, Déborah Cheyne. Ela soube da notícia por meio de um telegrama.

O mesmo já havia ocorrido com o também líder sindical, Antônio Augusto, que ao receber o comunicado teve um infarto e ficou hospitalizado entre os dias 24/03 e 06/04. Saiba mais aqui.

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SELEÇÃO NA CASA DE RUI BARBOSA. A Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) lançou edital oferecendo bolsas de pesquisa, variando da iniciação científica a bolsas para doutor júnior e incluindo também bolsas de desenvolvimento tecnológico.

As áreas disciplinares incluem um largo espectro das ciências humanas e das sociais aplicadas, além de letras e artes, museologia, arquivologia, biblioteconomia, arquitetura e conservação e restauração. Inscrições até 25 de maio de 2011 aqui, o cartaz de divulgação aqui.

Eu, no mínimo, tomaria cuidado com um sujeito desses

Desde que Deus perdeu seu status de formulador único dos conceitos da maior parte das sociedades humanas, o sujeito (“Homem”, “ser humano”, “as pessoas”) é o centro de todas as atenções contemporâneas. No senso comum, a contraposição ao sujeito é o “objeto”. Na raiz latina (‘objectu’) ou alemã (‘Gegenstand’), é o que está posto adiante, tudo aquilo que é sensível, perceptível por qualquer dos sentidos humanos.

Eis que surge um debate sobre o desarmamento que usa esse artifício cultural: quem é responsável pelas mortes a partir do uso de armas de fogo: o sujeito ou o objeto?

A resposta recorrente é o sujeito. É o que diz o argumento conservador, por exemplo, de que “armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas”. Nada mais do que dizer: o sujeito é ativo e o objeto (técnico, pois apropria um saber secular, a técnica belicista) não faz nada sozinho – tal como seria absurdo (porém é constante) dizer que “a Internet mudou o mundo”. São as pessoas, sempre, claro, que mudam o mundo. E não Deus ou a tecnologia.

Paulo Freire dizia algo parecido: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

O debate é, no entanto, falso. Pura filosofia para manipular desavisados (e, conforme alertaram no século XVIII, a filosofia pura é inútil). Quem questiona que somente sujeito, e não objeto, poderia agir conscientemente? Ninguém especificamente, mas certamente a ideologia hegemônica, que coloca na conta da “tecnologia” todas as mudanças da contemporaneidade. Daí surgem os que afirmam que as armas são objeto, e não sujeito, para se “contrapor” a esta ideologia tecnicista, com o objetivo de defender a ação armada por parte de civis.

Onde está o truque, portanto?

Está em colocar no mesmo nível todo e qualquer objeto técnico. “Arma”, “tecnologia”, “educação”. É tudo a mesma coisa, afirmam. O que está sendo dito é que não haveria nada de errado em encher o mundo de armas, desde que todos saibam usá-la. Supondo que todos os propósitos são corretos. Supondo que todos concordam com o que é correto. Supondo que… bom, para isso surge o contrato social. O Estado. A ordem social. O fracasso do liberalismo está na sua negação, no limite do argumento, do coletivo. Um argumento perfeito para a indústria bélica – que, entre outras façanhas, depositou 5,6 milhões de reais no referendo sobre o desarmamento de 2005, no Brasil, para fazer valer este argumento.

O mesmo vale para a educação, às avessas: todos podem tê-la (“educação universal”), desde que ninguém a use para pôr em prática ideias que estejam fora do padrão do capital, consumista e financeirista da vida. É a educação bancária da qual falava Freire. É a Discovery Kids ensinando matemática financeira para crianças de 0 a 4 anos.

O principal equívoco, no entanto, está na própria contraposição de objeto e sujeito. A arma é um objeto técnico que está naturalizado em nossa sociedade. Se existe, então sempre vai existir. Ocorre que a nossa “natureza” é mutável, diversa, histórica. O natural e o cultural se mesclam, bem como o sujeito e o objeto. O teste é de simples verificação: algumas pessoas são um sujeito ao volante e outro sujeito distinto fora do volante. A relação não é dicotômica (sujeitoXobjeto) e sim relacional (sujeito e objeto em constante interação social e cultural).

As armas são instrumentos de perpetuação da violência. Em uma sociedade estatutariamente violenta, isto é ainda mais verdade, por conta deste mecanismo relacional. As pessoas são os sujeitos. São elas que matam – e aí vem o esquecimento proposital: também são as que morrem, e não as armas. As armas, ao contrário, ficam “vivas”, visto que uma única arma pode matar várias pessoas, mas não é um ser vivo (e, portanto, não pode morrer, pois nunca nasceu). Nas mãos de crianças, maus policiais, assassinos em potencial, contrabandistas. Tanto faz. Sem elas, morre-se menos, por toda a subjetividade que nela reside – os sujeitos a desenvolveram para que cause a morte, e não para que distribua flores em um belo dia de sol.

Dois tipos de sujeitos defendem o contrário. Um dos sujeitos é social: a indústria bélica, que lucra não só com as mortes mas igualmente com a sensação de medo generalizada. O outro sujeito é uma espécie de arquétipo sublime da modernidade tardia: o liberal pleno. Este é dono de si e tudo pode resolver. Ele se alimenta bem e cuida de sua higiene como ninguém (para garantir sua saúde), é um autodidata (não precisa de mestres nem da educação formal) e pode inclusive matar, desde que ache necessário.

Eu, no mínimo, tomaria cuidado com um sujeito desses.

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(*) Gustavo Barreto, jornalista. Contato pelo @gustavobarreto_.